Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 780 | página 42-43
| VIDAS DE SANTOS | (continuação)

do a reforma. Diante de sua negativa, foi sujeito durante nove meses a um regime brutal, que incluía uma flagelação por semana diante da comunidade. Numa minúscula cela sem luz, ele jejuou a pão e água, recebendo às vezes um pedaço de peixe salgado como esmola. Em meio aos sofrimentos, ele teve, entretanto, muitas consolações e visitas celestes.

Nessas condições tão adversas, São João da Cruz escreveu o mais famoso de seus poemas, o Cântico Espiritual, além de outros menores. Por fim, conseguiu escapar milagrosamente.

“Padecer e ser desprezado por Vós”

Depois da longa prisão, tão cheia de sofrimentos, ele costumava dizer: “Não vos espanteis se demonstro tanto amor pelos sofrimentos; Deus me deu uma alta ideia do mérito e do valor deles quando eu estava na prisão em Toledo”.4

Por isso, não espanta que, quando Cristo Padecente perguntou-lhe numa aparição o que ele desejava em paga de seu amor puro e exclusivo a Deus, o santo muito espanholamente respondeu: – “Padecer, Senhor, e ser desprezado por Vós”. Em sua boca, esse dito não era figura de retórica, mas exprimia o élan generoso de sua alma de fogo.

São João da Cruz exerceu diversos cargos na Reforma Teresiana, até ser relegado, depois da morte da santa, a simples frade de um convento secundário da Ordem.

Tentam excluí-lo da Ordem Carmelitana

Como estava muito doente, o provincial deu-lhe liberdade para escolher um convento onde pudesse se restabelecer. O santo escolheu o de Ubeda, cujo prior era o seu inimigo mais acerbo. Este religioso sem entranhas tratou-o então com a mais extrema severidade, proibiu os religiosos de o visitarem e deu-lhe apenas o estritamente necessário para não morrer. Chegou a privá-lo até mesmo dos medicamentos indispensáveis e trabalhou afincadamente para excluí-lo da Ordem reformada que ele próprio fundara. A par desses sofrimentos morais, em sua perna surgiram tumores que foram extirpados a sangue frio. Como a Divina Providência considerasse que o cálice de seus sofrimentos ainda não estava cheio, enviou-lhe ao mesmo tempo uma aridez espiritual completa somada a tentações do demônio.

Enfim, quando o Provincial fez uma visita a Ubeda, indignou-se com o tratamento dado a Frei João da Cruz, dizendo que seu modelo de virtudes deveria ser conhecido não somente pelos frades, mas por todo o mundo. O prior reconheceu então seus erros e mudou de conduta. Mas o mal estava feito: o santo veio a falecer no dia 14 de dezembro de 1591, com apenas 49 anos de idade, 28 dos quais passados na vida religiosa.

Depois de sua morte, seu corpo exalava um agradável perfume que atraía a todos. Para contentar a multidão, que já havia levado a maior parte das vestes do santo como relíquia, os frades foram obrigados a distribuir todos os tecidos que tinham sido usados por ele. São João da Cruz foi beatificado por Clemente X em 1675 e canonizado por Bento XIII em 1726. Pio XI declarou-o Doutor da Igreja em 1926.

Verdugo para consigo mesmo, mãe para com os demais

Segundo seus contemporâneos, São João da Cruz tinha um coração de verdugo para consigo mesmo, um coração de mãe para com os demais, e um coração de filho para com Deus. “A máxima fundamental de perfeição, da qual ele fazia a regra de sua conduta e que estabeleceu depois em seus escritos, era de que aquele que deseja ser perfeito deve começar por fazer todas as suas ações em união com as de Jesus Cristo, desejando imitá-Lo e revestir-se de Seu espírito; e deve, em segundo lugar, mortificar seus sentidos em todas as coisas, e recusar-lhes tudo que não possa referir-se à glória de Deus”.5

“João da Cruz é o doutor místico da Igreja por antonomásia, o representante principal da sua mística no mundo, a figura mais egrégia da cultura espanhola e uma das principais da cultura universal”.6 “João da Cruz se nos apresenta como a imagem viva do Verbo de Deus, penetrando melhor que uma espada de dois gumes até a divisão da alma e do espírito; esquadrinhando, como indagador inexorável, as intenções e os pensamentos dos corações”.7

Analisando as obras do santo para a sua canonização, os cardeais Torres e Deti afirmam: “Escreveu livros de teologia mística cheios de celestial sabedoria, que estão sendo divulgados em diferentes reinos com tão sublime e admirável estilo, que julgam todos não ser ciência adquirida com engenho humano, mas revelada e infundida do Céu”.8

Notas: 1. Mgr. Paul Guérin, Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, tomo XIII, p. 577. 2. Frei Crisógono de Jesús, Vida de San Juan de la Cruz, B.A.C., Madri, 1982, 11ª edição, p. 71, nota 19. 3. Edelvives, El Santo de Cada Dia, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoça, 1949, tomo VI, p. 244. 4. Mgr. Paul Guérin, op.cit. p. 580. 5. Id.ib., p. 578. 6. Pe. José Leite, S.J., Santos de Cada Dia, Editorial A.O., Braga, 1987, tomo III, p. 444. 7. Dom Prospero Guéranger, El Año Liturgico, Editorial Aldecoa, Burgos, 1956, tomo V, p. 907. 8. In Dr. Eduardo Maria Vilarrasa, La Leyenda de Oro, L. González y Compañia – Editores, Barcelona, 1897, tomo IV, p. 405.
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