Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 780 | página 38-39
| MATÉRIA DE CAPA | (continuação)

propõem a si mesmos. Em caso contrário, não trarão nenhuma contribuição positiva e menos ainda o dom precioso da verdade eterna à causa comum, e ocasionarão dano evidente à honra de Jesus Cristo e às suas próprias almas.

Isto dito, não é justo atribuir ao espírito de “intolerância” e de segregação, frequentemente chamado “ghetto”, o fato de os católicos se esforçarem por basear a escola, a educação e a formação da juventude sobre um fundamento cristão; de se esforçarem por instituir organizações profissionais católicas, favorecer a influência organizada dos princípios cristãos até mesmo no domínio político e sindical, quando a tradição e as circunstâncias o aconselham. Não foi apenas a “ideia” cristã puramente abstrata que criou no passado a elevada civilização de que justamente se ufanam as nações cristãs, mas também as realizações concretas dessa ideia, isto é, as leis, as ordenações, as instituições fundadas e promovidas por homens que trabalhavam para a Igreja e agiam sob sua direção ou pelo menos sob sua inspiração. A Hierarquia católica não teve exclusivamente o cuidado de que a luz da fé não se extinguisse, mas, por obras concretas de governo, de disposição, de escolha e designação de homens, constituiu este conjunto complexo de organismos vivos que, ao lado de outros que não lhe pertencem, estão na base da sociedade civil.

4. Humanismo pluralista?

A ação cristã é tão impossível hoje em dia quanto outrora, renunciar a seu título e caráter unicamente porque alguns veem na sociedade humana atual uma sociedade dita pluralista, dividida pela oposição de mentalidades inabaláveis em suas posições respectivas e incapazes de admitir uma colaboração que não se estabeleça sobre o plano simplesmente “humano”. Se este “humano” significa, como parece, agnosticismo para com a Religião e os verdadeiros valores da vida, todo convite à colaboração equivaleria a um pedido de abdicação, em que o cristão não pode consentir. De resto, de onde este “humano” tiraria a força de obrigar, de fundamentar a liberdade de consciência para todos, senão do vigor da ordem e da harmonia divina? Este “humano” acabaria por criar um “ghetto” de novo gênero, mas privado de caráter universal.

5. A ordem e a harmonia no mundo, ponto de apoio de todos os homens retos

A ordem e a harmonia divinas no mundo devem, portanto, ser o principal ponto de apoio da ação, não somente dos cristãos, mas de todos os homens de boa vontade, em vista do bem comum; sua conservação e desenvolvimento devem ser a lei suprema que preside aos grandes encontros entre os homens. Se a humanidade de hoje não entrasse em acordo acerca da supremacia desta lei, isto é, do respeito absoluto da ordem e da harmonia universais no mundo, seria difícil prever a sorte que esperaria as nações. A necessidade deste acordo foi sentida praticamente quando, há pouco, certos especialistas das ciências modernas manifestaram dúvidas e inquietações pessoais com relação ao desenvolvimento da energia atômica. Sejam quais forem atualmente suas deduções e resoluções, é certo que as dúvidas destes homens de grande valor se referiam ao problema da existência, aos fundamentos mesmos da ordem e da harmonia no mundo. Ora, quando se discute se convém ou não realizar o que o gênio humano tem a possibilidade de atingir, é necessário convencer-se de que toda resolução deve depender da conservação destes bens: a ordem e a harmonia.

6. Progressos técnicos perigosos

Hoje uma sedução quase cega do progresso arrasta as nações a negligenciar perigos evidentes e a não levar em conta perdas não indiferentes. Quem não vê, com efeito, como o desenvolvimento e a aplicação de certas invenções acarretam quase por toda parte prejuízos sem proporção com as vantagens, mesmo de natureza política, que delas derivam, e que se poderiam obter por outros meios com menos gastos e perigo, ou adiar decididamente para tempos melhores? Quem poderia traduzir em cifras o prejuízo econômico do progresso não inspirado pela sabedoria? Tamanha quantidade de materiais, tantos capitais devidos à poupança, frutos de restrições e fadigas, tanto trabalho humano subtraído a necessidades urgentes, consomem-se para preparar armas novas, de modo que mesmo os povos mais ricos devem prever que um dia deplorarão um perigoso enfraquecimento na harmonia da economia nacional; por vezes, até, já o deploram, embora procurem ocultá-lo a si mesmos.

7. A corrida armamentista

Se se reflete bem e se julga de maneira realista, a atual concorrência entre as nações para fazer alarde de seus progressos nos armamentos (ressalvado sempre o direito de defender-se) produz de fato “sinais do céu”, porém ainda mais sinais de orgulho, deste orgulho que cava abismos entre os espíritos, alimenta os ódios e prepara lutos. Saibam pois os espectadores da concorrência moderna reduzir os fatos a suas justas proporções e, sem recusar tentativas de acordos pacíficos, sempre desejáveis, não se deixem iludir por recordes frequentemente momentâneos, nem dominar por temores suscitados precisamente para captar a simpatia e o apoio de outrem, pois pertencem a uma geração de homens em que o “homo faber” prevalece muitas vezes sobre o “homo sapiens”. Predomine então o homem cristão, que usa da liberdade de espírito decorrente de sua visão mais ampla das coisas para reencontrar na consideração objetiva dos acontecimentos o repouso e a firmeza de espírito que têm raízes no Espírito divino, sempre presente e exercendo sua Providência no mundo.

8. O problema da paz

Mas o ponto em que, afinal, os defensores da harmonia divina no mundo são convidados a aplicar o melhor de seus esforços, é o problema da paz. A vós, a todos os que conhecem Nosso pensamento, bastará de momento, e como que para tranquilizar Nosso espírito incansavelmente votado à causa da paz, que relembremos as finalidades imediatas que as nações devem propor-se e realizar. Nós o fazemos com espírito paternal e como que para interpretar os ternos vagidos do Divino Infante de Belém, autor e penhor de toda a paz sobre a terra e nos céus.

A lei divina da harmonia no mundo impõe estritamente a todos os governantes dos povos a obrigação de impedir a guerra por meio de instituições internacionais capazes de colocar os armamentos sob uma vigilância eficaz; de desencorajar, pela segurança da solidariedade entre as nações que sinceramente querem a paz, quem desejasse perturbá-la. Estamos seguro de que este elo não deixaria de cerrar-se cada vez mais, ao primeiro sinal de perigo, como claramente o confirmaram certas manifestações ainda recentes; mas trata-se, não tanto de procurar os remédios, quanto de prevenir as perturbações da ordem e de proporcionar um alívio bem merecido ao mundo que já sofreu demais.

Nós, que Nos temos aplicado mais de uma vez, em momentos críticos, a consolidar esta solidariedade por meio de advertências e conselhos, e que consideramos como missão divina de Nosso Pontificado unir fraternalmente os povos na paz, renovamos Nossa exortação a que entre os verdadeiros amigos da paz cesse toda rivalidade, seja eliminada toda causa de desconfiança. A paz é um bem tão precioso, tão fecundo, tão desejável e tão desejado, que todo esforço para defendê-la é bem empregado, mesmo com sacrifício mútuo de aspirações particulares legítimas. Estamos certo de que os povos pensam sem hesitação como Nós e esperam o mesmo sentimento de seus governantes.

Que da manjedoura de Belém o Príncipe da paz suscite, conserve, confirme estas disposições, e que, na solidariedade de todos os homens de boa vontade, Ele Se digne completar aquilo que mais falta para a realização da ordem e da harmonia queridas no mundo por seu Criador.


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