— III —
JESUS CRISTO, LUZ E VIDA PARA OS HOMENS, A FIM DE ESTABELECER A HARMONIA NO MUNDO
1. A luta entre o bem e o mal
A onipotência d’Aquele que “faz tudo aquilo que quer” (Sl 115, 3), assistido por sua sabedoria infinita que “se estende com força de uma extremidade à outra e governa todas as coisas com doçura” (Sab. 8, 1), estabeleceu a grande lei da harmonia, que enche o mundo e lhe explica os acontecimentos. O Espírito de Deus, que nas origens presidiu do alto à criação, como que se difundiu nela; e quando na plenitude dos tempos, por obra do Amor misericordioso, o próprio Verbo eterno, ao encarnar-Se, inseriu-Se nela pessoalmente, tomou posse dela visível e definitivamente. “Jesus Cristo, ontem e hoje; e Ele também eternamente” (Hebr. 13, 8). O universo se apresenta desse modo como uma sinfonia admirável, ditada pelo Espírito de Deus e cujo acorde fundamental brota da fusão das perfeições divinas: a sabedoria, o amor, a onipotência. “Domine, Dominus noster, quam admirabile est nomen tuum in universa terra” (Sl 8, 2)!
Todavia, para os que, com o Salmista, têm ouvidos para ouvir na alegria a sinfonia divina que ressoa no mundo, e para os cristãos mais que todos os outros, a criação não é somente um fato estético oferecido ao homem para seu prazer, para suscitar unicamente o louvor de seu Autor supremo. Já no princípio, Deus, ao estabelecer o homem numa dignidade superior à de todas as obras de suas mãos, lhe havia submetido todas as coisas, mesmo os céus, a lua e as estrelas, modelados por seus dedos (cfr. Sl 8, 4), numa palavra, o mundo, a fim de que nele trabalhasse e conservasse sua harmonia (cfr. Gen. 2, 15). Mas Jesus Cristo mesmo, que é testemunha e penhor da harmonia do mundo, demonstrou pelo exemplo de sua vida e de sua morte que contribuição ativa, laboriosa, deve o homem trazer à conservação dessa harmonia, a seu desenvolvimento e — quando ela falta — a seu restabelecimento. A obra de restauração realizada por Jesus Cristo foi por Ele próprio definida como uma luta contra o “príncipe deste mundo”, e seu epílogo como uma vitória: “Ego vici mundum” (Jo 12, 31; 16, 33).
A sinfonia divina do cosmos, particularmente na Terra e entre os homens, é confiada por seu Autor supremo à própria humanidade, a fim de que esta, como uma imensa orquestra, distribuída no tempo e multiforme em seus meios, mas unida sob a direção de Jesus Cristo, a execute fielmente, interpretando com a maior perfeição possível seu tema único e genial. Deus, com efeito, entregou aos homens seus desígnios, a fim de que os ponham em ato, pessoal e livremente; empenhou a plena responsabilidade moral deles e exigiu, quando necessário, fadigas e sacrifícios, a exemplo de Jesus Cristo. Sob este aspecto, o cristão é, em primeiro lugar, um admirador da ordem divina no mundo, aquele que ama Sua presença e tudo faz para vê-la reconhecida e afirmada. Ele será, pois, necessariamente seu defensor ardoroso contra as forças e as tendências que lhe contrariam a realização, quer se escondam nele mesmo — as más inclinações — quer provenham do exterior — Satanás e suas superstições. É assim que São Paulo via o cristão no mundo quando lhe mostrava os adversários de Deus e o exortava a revestir sua armadura a fim de resistir aos embustes do demônio, cingindo os rins com a verdade e revestindo a couraça da justiça (cfr. Ef 6, 11 e 14).
A vocação para o Cristianismo não é, pois, um convite de Deus apenas ao comprazimento estético na contemplação de sua ordem admirável, mas o chamado obrigatório a uma ação incessante, austera e dirigida para todos os sentidos e visando todos os aspectos da vida. Sua ação se desenvolve, antes de tudo, na plena observância da lei moral, qualquer que seja o seu objeto, pequeno ou grande, secreto ou público, de abstenção ou de realização positiva. A vida moral não pertence a tal ponto à só esfera interior, que não toque também, por seus efeitos, a harmonia do mundo. Nenhum acontecimento há, mesmo inteiramente particular, em que o homem esteja de tal modo sozinho, de tal modo individual e confinado em si mesmo, que suas determinações e seus atos não tenham repercussões no mundo que o envolve. Executor da sinfonia divina, nenhum homem pode presumir que sua ação é um negócio que lhe diz respeito exclusivamente. A vida moral é sem dúvida, em primeiro lugar, um fato individual e interior, mas não no sentido de um certo “interiorismo” e “historicismo” pelo qual alguns se esforçam em enfraquecer e rejeitar o valor universal das normas morais.
2. A participação do homem nessa luta
A cooperação na ordem do mundo, pedida por Deus ao cristão em geral, deve igualmente evitar um espiritualismo que desejaria interdizer-lhe toda intervenção nas coisas exteriores e que, adotado outrora no campo católico, ocasionou graves prejuízos à causa de Jesus Cristo e do Divino Criador do universo. Como, pois, seria possível sustentar e desenvolver a ordem do mundo se se deixasse plena liberdade de ação aos que não a reconhecem ou não querem que ela se fortaleça? A intervenção no mundo para sustentar a ordem divina é um direito e um dever que fazem intrinsecamente parte da responsabilidade do cristão e lhe permitem empreender legitimamente toda e qualquer ação, privada, pública ou organizada, capaz de atingir seu fim.
Para fugir a esta responsabilidade, não basta alegar pretextos subtis inventados para escusar a inércia de alguns cristãos, ou sugeridos por injustificada inveja dos adversários, em particular se se afirma que a ação do cristão no mundo mascara uma avidez do poder estranha à fé cristã, ao espírito de Jesus Cristo, excita a aversão pela fé cristã naqueles que já estão mal dispostos, provém da desconfiança para com Deus e sua Providência onipotente e reflete a arrogância da criatura. Há mesmo alguns deles que insinuam ser sabedoria cristã o retorno à pretensa modéstia de aspirações das catacumbas. Prudente seria, pelo contrário, voltar à sabedoria inspirada do Apóstolo Paulo, que, escrevendo à comunidade de Corinto com ousadia digna de sua grande alma, mas fundada sobre a plena soberania divina, abria todos os caminhos à ação dos cristãos: “Tudo é vosso [...] tanto a vida quanto a morte, tanto as coisas presentes quanto as futuras: pois tudo vos pertence. Vós, porém, sois de Cristo e Cristo é de Deus” (I Cor. 3, 21). Ele deveria até considerar como um opróbrio o fato de se deixar ultrapassar pelos inimigos de Deus em ardor no trabalho, em espírito de empreendimento e mesmo de sacrifício. Não existem terrenos fechados nem direções interditas à ação do cristão: nenhum domínio da vida, nenhuma instituição, nenhum exercício de poder podem ser proibidos aos cooperadores de Deus para sustentar a ordem divina e a harmonia do mundo.
3. Gueto católico?
Esta intervenção não sugere de modo algum a ideia de uma ação que se mantenha separada e, por assim dizer, cheia de ciúme em relação à contribuição de outrem. Já por diversas vezes temos dito que os católicos podem e devem admitir a colaboração com os outros se a ação destes e o entendimento com eles são capazes de contribuir verdadeiramente para a ordem e a harmonia do mundo. Todavia, é necessário que os católicos se capacitem primeiro daquilo que podem e daquilo que querem; é preciso, portanto, que sejam preparados espiritual e tecnicamente para o que se
Página seguinte