representa ao espírito a realidade verdadeira e leva a formar o julgamento definitivo.
Eis pois como a presença do espírito no agir humano é inegável e como não é possível silenciar seu testemunho no mundo, a não ser em virtude de preconceitos e da superstição: é ele testemunha de unidade, ordem, harmonia, que provêm de Deus, e sem as quais mesmo as fórmulas matemáticas aplicadas nas ciências não representariam a realidade.
Espírito e harmonia são pois testemunhas recíprocas: tal como a abundância do espírito corresponderá sempre à abundância da harmonia, assim também toda dissonância, onde quer que se verifique, nas ciências, nas artes, na vida, indica algum entrave à plena efusão daquele.
3. O absurdo e o mal na vida cultural
Tal reciprocidade de relações aponta à reprovação os que no domínio literário e artístico propagam o culto da desarmonia, e, como eles mesmos o afirmam, do absurdo. Que seria feito do mundo e do homem, se o gosto e a estima da harmonia se perdessem? É, no entanto, isto que visam os que tentam revestir de beleza e sedução o que é vergonhoso, pecaminoso, mau. E bem mais, para além da estética sua ofensiva fere a própria dignidade do homem, que, imagem do Espírito divino, é essencialmente feito para a harmonia e a ordem. Não se nega todavia que o próprio mal possa ser representado sob a luz da arte verdadeira, desde que, entretanto, sua representação apareça ao espírito e aos sentidos como uma contradição, oposta ao espírito, como o sinal de sua ausência. A dignidade da arte resplandece tanto mais quanto em maior grau reflete ela o espírito do homem, imagem de Deus, e, consequentemente, manifesta mais sua fecundidade criadora, sua plena maturidade, quando desenvolve o tema divino da unidade e da harmonia por suas ações e pelos diferentes aspectos de sua vida.
4. Jesus Cristo no cosmos e na cultura
Contudo, por mais evidente que seja o testemunho do espírito do homem em favor da harmonia do mundo, por mais fecunda que possa ser sua ação no desenvolvimento dos embriões da ordem, a história e a vida demonstram que ele padece de uma insuficiência e de uma fraqueza intrínseca, para cuja cura foi necessário, nos desígnios do amor infinito do Criador para com sua criatura, que o Espírito mesmo de Deus se tornasse visível e se inserisse no tempo. Eis Jesus Cristo, Verbo Divino feito carne que vem ao mundo como à sua morada, à sua propriedade, “in propria venit” (Jo 1, 11).
O título desta propriedade é o título dos títulos: a criação. O mundo reflete pois, em sua extensão e em sua universalidade, “extensive et diffusive”, como diz Santo Tomás (S. Th. 1 p., q. 93, a. 2, ad 3um), a eterna bondade e verdade do Criador; e deste modo a relação de Cristo com o mundo surge penetrada de luz claríssima.
Da mesma maneira, o Criador pôs o homem, imagem de seu Espírito, no mundo a fim de que ele fosse seu senhor, pelo conhecimento, vontade, ação, tornando sua, em intensidade e em profundidade, “intensive et collective” (S. Th., 1. c.), a semelhança que tem com a verdade e a bondade eternas difundidas através do mundo. Aí também, consequentemente, a relação do homem com o mundo goza da clara luz do Espírito eterno comunicada pelo Criador à Criação. A Encarnação conserva assim e aumenta a dignidade do homem e a nobreza do mundo, sobre o fundamento da mesma origem no Espírito Divino, fonte de unidade, ordem e harmonia.
Se, ao invés, se retira este fundamento do espírito, e como decorrência a imagem (no homem) e o vestígio (nas criaturas desprovidas de razão) do Ser divino eterno nas coisas criadas, perde-se por isto a harmonia nas relações do homem com o mundo. O homem se reduziria a um simples ponto de localização de uma vitalidade anônima e irracional. Ele não mais estaria no mundo como em sua própria casa. O mundo se tornaria para ele algo de estranho, obscuro, perigoso, sempre exposto a perder o caráter de instrumento e transformar-se em seu inimigo.
E quais seriam as relações reguladoras da vida em sociedade sem a luz do Espírito divino e sem levar em conta a relação de Jesus Cristo com o mundo? A esta questão responde infelizmente a amarga realidade dos que, preferindo a obscuridade do mundo, se declaram adoradores das obras exteriores do homem. Sua sociedade não consegue, graças à disciplina de ferro do coletivismo, senão manter a existência anônima de uns ao lado da dos outros. Bem diferente é a vida social fundada sobre o exemplo das relações de Jesus Cristo com o mundo e com o homem: vida de cooperação fraterna e de respeito mútuo do direito de outrem, vida digna do princípio primeiro e do fim último de toda criatura humana.
5. O pecado original e seus efeitos na ordem universal
Mas a obscura e profunda desarmonia, raiz de todas as outras, que o Verbo Encarnado veio iluminar e recompor, consistia na ruptura produzida pelo pecado original, que arrastou em suas amargas consequências toda a família humana e o mundo, sua morada. O homem decaído, tendo o espírito obscurecido, não vê mais ao seu redor um mundo submisso, dócil instrumento de seu destino, mas como que a conjuração de uma natureza rebelde, executora inconsciente do decreto que deserdava seu primeiro senhor.
Todavia, no homem e no mundo nunca se extinguiu a espera de um retorno à condição primeva, à ordem divina; e, segundo a frase do Apóstolo, ela se exprime pelos gemidos de todas as criaturas (cfr. Rom. 8, 22), pois, mau grado a escravidão do pecado, o homem permanece sempre a imagem do Espírito divino, e o mundo a propriedade do Verbo. Jesus Cristo veio para reanimar aquilo que a queda havia mortificado, sanar o que ela havia ferido, iluminar o que ela obscurecera, tanto no homem quanto no mundo, restituindo ao primeiro seu domínio sobre a natureza, conforme o Espírito de Deus, e subtraindo o outro ao abuso culpável do homem. Todavia, se a ruptura foi curada em sua raiz, certas consequências, dúvidas, dificuldades e dores continuam sendo a herança da natureza humana. Mas até mesmo para estes frutos do pecado Jesus Cristo é penhor de redenção e restauração.
6. Os efeitos da Redenção na ordem universal
A luz sobrenatural que resplandece na noite de Natal em Belém se projeta como novo arco-íris de pacificação sobre o porvir inteiro do mundo, “submetido à vaidade, não por sua vontade, mas pela do que o sujeitou na esperança” (ibid. 20). A esperança é ainda Jesus Cristo que, depois de ter libertado o mundo da escravidão do pecado, libertá-lo-á também da escravidão e da corrupção, restituindo-o à liberdade dos filhos de Deus. A vida do homem e o curso do mundo estão intimamente penetrados desta espera. Se é verdade que até a alvorada do dia eterno os homens não verão a harmonia inteiramente reconstituída, se o suor e as lágrimas devem ainda banhar seu pão, se os gemidos das criaturas devem ainda repercutir sob o sol, sua tristeza não será uma tristeza de morte, mas uma angústia de mãe, segundo a fórmula tão expressiva do Divino Mestre: quando a hora é chegada, ela esquece de boa vontade toda dor porque um homem veio ao mundo (cfr. Jo 16, 21). O nascimento, ainda que doloroso e lento, de uma vida nova, de uma humanidade em constante progresso na ordem e harmonia, é o fim atribuído por Deus à história “post Christum natum”, e todos os filhos de Deus reconduzidos à liberdade deverão para isto contribuir pessoal e ativamente.
7. O imanentismo evolucionista e a concepção católica da História
É portanto vão esperar a perfeição e a ordem do mundo de um certo processo imanente, de que o homem ficaria como espectador estranho, conforme afirmam alguns. Este obscuro imanentismo é a volta à antiga superstição, que deificava a natureza; e não pode basear-se, como se pretende, na história, senão falsificando artificialmente a explicação dos fatos. A história da humanidade no mundo é coisa bem diferente de um processo de forças cegas; é um acontecimento admirável e vital da história mesma do Verbo Divino; teve seu início n´Ele e se cumprirá por Ele no dia da volta universal ao primeiro princípio, quando o Verbo Encarnado oferecerá ao Padre, como testemunho de sua glória, sua propriedade resgatada e iluminada pelo Espírito de Deus. Então, numerosos fatos, especialmente da história, que parecem presentemente desarmonias, se revelarão como elementos de autêntica harmonia: tal, por exemplo, o fato de que sobrevêm sem cessar novas coisas ao passo que as antigas desaparecem. Umas e outras, com efeito, participaram e participam de algum modo da verdade e da bondade divinas, e a natureza passageira de uma coisa ou de um fato não lhes tira, quando eles a têm, a dignidade de exprimir o Espírito divino. O mundo inteiro, de resto, é assim, como observa o Apóstolo: “A figura deste mundo passa, com efeito” (I Cor. 7, 31), mas sua destinação final à glória do Padre e ao triunfo do Verbo que se acha na origem de todo o seu desenvolvimento, confere ao mundo e lhe conserva a dignidade de testemunha e de instrumento da verdade, da bondade e da harmonia eternas.
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