Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 780 | página 32-33
| MATÉRIA DE CAPA | (continuação)

resplandecer num mundo que fosse fundado necessariamente sobre as contradições e desarmonias?

O pessimismo desses tais e sua resignação inerte não poderão jamais ser aceitos pelo Cristianismo, porque se opõem à ideia cristã do homem. Desde o princípio São Paulo se levantou contra o preconceito dos antigos, segundo o qual a sorte dos homens era dirigida fatalmente pelas forças e movimentos da natureza. Por isto observava ele: não somos submetidos às forças da natureza, mas a Cristo que nos tornou livres e herdeiros de Deus (cfr. Gal. 4, 3-4). Toda a redenção e toda a liberdade nos vem pois de Cristo, e não da natureza, que sempre — e hoje talvez mais, sob o império da técnica — está pronta para impor seus grilhões.

O homem moderno, de sua parte, está mais exposto a voltar a ser escravo da natureza, porque, em oposição ao homem antigo, que lhe estava submetido por ignorância e fraqueza, ele está sujeito à sua forte pressão em virtude do vasto conhecimento que dela tem e da aplicação de suas energias, e portanto prestes a lhe tributar, por assim dizer, um culto de adoração e de agradecimento pelas maravilhas que nela descobre e os benefícios imediatos que dela retira.

Os apelos do Apóstolo no sentido de romper os grilhões da escravidão imposta pela natureza, através da escolha de Cristo e da adesão a Ele, são pois mais reais do que nunca. Ele, e não outro, é vosso Deus. Autor e Senhor da natureza, vosso Libertador e Salvador. Por Ele sois destinados a “vos tornardes filhos de Deus” (Jo 1, 12), e não escravos dos elementos deste mundo; sois chamados, não a aperfeiçoar parcialmente esta ou aquela faculdade, mas a restaurar no homem inteiro a imagem perfeita de Deus, harmonia Ele próprio, e fonte de toda a ordem no cosmos.

5. Dependência necessária do temporal ao eterno

Porém, estas verdades fulgurantes, capazes de restaurar a dignidade do homem e de reanimar-lhe as esperanças, são repelidas pelos que não chegam a estabelecer uma relação de necessidade entre o eterno e o temporal, entre o Criador e as criaturas, e pelo contrário apartam Deus do mundo por se tratar de seres muito diferentes e muito distantes um do outro, e portanto sem laços recíprocos. Todavia, a vinda do Filho de Deus à Terra demonstra visivelmente as relações íntimas que ligam o contingente ao eterno. O mundo e o homem não teriam nem razão nem possibilidade de subsistir se não participassem do Ser eterno de Deus criador. O mundo criado e finito, navegando necessariamente no oceano da eternidade divina, segue-lhe, se assim podemos dizer, o curso e as leis. Com razão Santo Agostinho, bem como muitos outros sábios antigos e modernos, afirmam que o mundo, se bem que criado e contingente, é regido por uma lei suprema e eterna de onde ele mesmo tira consistência e dignidade. Com efeito, é esta lei eterna que eleva a criatura, de si finita, à dignidade de reflexo do infinito e do eterno. Ela o faz em virtude da ordem essencial inscrita em todas as coisas, e da coerência e harmonia íntimas de que está cheio o mundo.

6. Sem o reconhecimento desta dependência, toda ordem é impossível

Mas se for rejeitado o conceito mesmo da eternidade de Deus e da sua possibilidade de tornar as criaturas participantes de algo d’Ele próprio, será vão falar de ordem e harmonia do mundo. Com tais negações, contudo, não se extingue no homem a sede de harmonia, ordem e felicidade. O homem se vê então forçado a elevar à categoria de valor supremo o que resta, isto é, seu ser concreto finito. Colocado fora da ordem exterior do mundo e de toda a harmonia do mundo, deve escolher uma vida que não é senão uma preocupação contínua a respeito de sua existência e como que um caminho rumo à morte, embora ele retire um certo orgulho afetado de sua natureza finita. O homem moderno que não se sente ligado essencialmente ao eterno cai na adoração do finito, em meio ao qual se move e trabalha, inconsciente, se assim podemos nos exprimir, de si e de todo ser.

7. A ação do homem deve ser conforme à ordem universal

Mas isto é uma representação falsa da realidade, que pode causar ilusão, mas não saciar a sede de verdade e as aspirações íntimas. Se os homens querem a satisfação destas, dirijam-se a Belém, onde o Verbo Eterno feito carne habitou entre nós para nos ensinar que toda atividade humana deve tirar da eternidade toda a orientação, toda a sua produtividade e sua segurança. Se a essência mesma do homem é ser imagem de Deus, também sua ação Lhe deve ser conforme, como o ensina a sabedoria quando afirma que “o agir segue o ser”.

A ação do homem sobre a Terra não está pois condenada à desarmonia, mas, ao contrário, destinada a manifestar a harmonia eterna de Deus. Desse modo o Verbo de Deus Encarnado liberta o homem da escravidão, salva-o do estéril fechar-se sobre si mesmo, devolve-lhe a esperança nas vias do progresso.

— II —
JESUS CRISTO, PENHOR DA HARMONIA NO MUNDO

1. O desígnio harmonioso da criação

De acordo com o conceito cristão de um cosmos modelado pela sabedoria criadora de Deus, e consequentemente unificado, ordenado e harmonioso, se ergue, talvez distanciada de diversos séculos, a previsão de um acontecimento solene, quando “nos céus novos e na nova terra” (cfr. II Pedr. 3, 13), “tabernáculo de Deus entre os homens para habitar com estes... Ele enxugará toda lágrima de seus olhos; e não haverá mais morte nem lugar, nem gritos, não haverá mais dor, porque as primeiras coisas são passadas” (Apoc. 21, 1-4); noutros termos, as desarmonias presentes serão vencidas. Mas isto significa que a realização do desígnio harmonioso da Criação está completamente adiado? Deus, que no próprio ato de o criar, “deu ao homem o poder sobre todas as coisas que estão na terra” (Ecl. 17, 3), teria retirado sua palavra? Não, certamente. Bem ao contrário de tirar do homem o poder de dominar a terra, Deus lho confirmou no dia em que revestiu de carne humana seu Filho Unigênito, tendo “decidido reunir na plenitude dos tempos, em Cristo, todas as coisas, as que estão nos Céus e as que estão sobre a terra” (Ef 1, 10). De sorte que Jesus Cristo, Verbo Encarnado, Deus-Homem, vindo ao mundo, desde o primeiro instante de sua existência visível, atesta que o domínio do mundo pertence em graus diferentes a Deus e ao homem, e que não poderá em consequência ser obtido a não ser no Espírito de Deus.

Em Jesus Cristo, na verdade, habitou o próprio Espírito divino (cfr. Col. 2, 9) que no princípio do tempo disse: “Que a luz seja. E a luz foi” (Gen. 1, 3); o mesmo Espírito divino que, impresso como selo indelével sobre todas as coisas criadas, é para todas, inanimadas e vivas, o elo que estabelece sua unidade, o gérmen da ordem, o acordo fundamental.

2. A espiritualidade da alma e a filosofia na cultura

Mas antes mesmo de conceber uma ideia explícita da perfeita harmonia de que é fecunda a presença de Cristo no mundo e sua conaturalidade com o homem, poderia o homem perceber em seu próprio espírito, imagem do Espírito de Deus, o elo que une e solda interiormente as coisas umas às outras. Esta feliz síntese foi, com efeito, atingida já pelos antigos filósofos de Atenas e Roma, e, com maior clareza, pelas luzes da filosofia cristã, entre outros por Santo Agostinho e pelo Aquinate (Santo Tomás). De qualquer modo, a técnica sozinha é insuficiente para reconhecer e desenvolver o gérmen divino de unidade que as coisas ocultam.

Há hoje homens de ciência que creem poder fazer abstração, ao menos por método, desta verdade, isto é, fazer como se o espírito não existisse, nada tivesse a propor, e interdizer-lhe a entrada nos laboratórios e a presença nas pesquisas. Impregnados de materialismo e sensualismo, esperam a solução das questões, unicamente de seus instrumentos e de seus cálculos, da observação atenta dos fatos, da verificação e coordenação exterior dos fenômenos. Outros, é verdade, admitem uma certa conexão, mas lógica, como dizem, à maneira de relações matemáticas, imaginando que a ordem do mundo, ainda que subtraída à égide do espírito, pode apesar de tudo ser obra da ordenação física de cada uma das partes, como numa gigantesca máquina de calcular.

Se a filosofia não bastasse para demonstrar a inconsistência de tal opinião, a própria ciência lhe daria o desmentido. Se, de fato, se observa como procederam os melhores pesquisadores e como as invenções e descobertas de máxima importância nasceram, deve-se admitir a presença ativa do espírito; é dele que provém a percepção de um laço interno que une fatos frequentemente heterogêneos, dele a finura penetrante da observação e da análise, dele o vigor da síntese que

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