— I —
JESUS CRISTO, CONSOLADOR EM MEIO ÀS DESARMONIAS DESTE MUNDO
1. Harmonia no universo, desarmonia na vida do homem
Desde seu primeiro contato com o universo, o homem foi arrebatado por sua incomparável beleza e por sua harmonia. O céu resplandecente de luz ou constelado de estrelas, os oceanos de extensões imensas e matizes variegados, os cumes inacessíveis das montanhas coroadas de neve, as verdes florestas regorgitantes de vida, a sucessão regular das estações, a variedade multiforme dos seres, arrancaram-lhe do peito um grito de admiração! Participante ele próprio dessa beleza, entreviu-a mesmo nos elementos desencadeados, como expressão do poderio do Criador: “Potentior aestibus maris, potens in excelsis est Dominus” (Sl 92, 4); “Tonabit Deus in voce sua mirabiliter” (Job. 37, 5).
Com razão, um povo antigo de elevada civilização não encontrou palavra mais apta para designar o universo do que “kosmos”, isto é, ordem, harmonia, beleza. No entanto, cada vez que o homem se contemplou a si mesmo e comparou as próprias aspirações com suas obras, prorrompeu em gemidos de desalento em virtude das contradições, desarmonias e desordens numerosíssimas que dilaceravam sua vida.
2. A técnica acentuou o contraste
Como seu antepassado, o homem moderno se debate entre a admiração extática do mundo da natureza, explorado até seus recantos mais profundos e longínquos, e a amargura do desalento que lhe proporciona a existência caótica por que ele próprio é responsável. O contraste entre a harmonia da natureza e a desarmonia da vida, em lugar de se atenuar com o desenvolvimento da capacidade de conhecer e agir, parece, ao contrário, acompanhá-lo como sombra sinistra.
No isolamento de que está envolvido, o homem moderno não cessa de repetir as lamentações do sofredor de Hus: “Eis que eu brado sob a opressão e ninguém me escuta; reclamo ajuda mas não há justiça” (Job 19, 7). Pois bem! Detenhamo-nos para escutar sua queixa, para melhor compreender seus sentimentos íntimos e mostrar-lhe Aquele que verdadeiramente pode dissipar suas trevas e restituir a harmonia à sua existência contrariada.
3. O pessimismo total e suas causas
Em parte da humanidade atual, a vista das desarmonias do mundo conduz a um julgamento de condenação de toda a criação, como se a desarmonia devesse ser a marca necessária dela, sua inevitável fatalidade, ante a qual não resta ao homem senão cruzar os braços e resignar-se, procurando, quando muito, divertir-se com alguns prazeres efêmeros arrebatados à própria desordem reinante. Esse pessimismo total que se apodera com maior frequência das almas abertas ao otimismo mais amplo e mesmo absurdo, provém do fato de se estender a todo o cosmos e a suas leis fundamentais as incoerências inegáveis que o mundo apresenta e cuja responsabilidade faz-se recair sobre o próprio Criador.
a) O mundo moderno, oceano de horrores
Assim é que cedem aos assaltos do pessimismo total os que não sabem ver no mundo outra coisa que não seja o oceano de crueldade e dores que dilacera indivíduos e povos, e que acompanha direta ou indiretamente as realizações do progresso exterior.
b) A mania das novidades
Outros são levados a desesperar das possibilidades de restaurar a harmonia, pela atitude, grave em si, dos homens que se deixam seduzir tão fortemente pela atração das novidades que desprezam os outros valores autênticos, em particular os que sustentam a sociedade humana.
c) Barbárie progressiva
Muitos outros, enfim, capitulam, por assim dizer, diante do pessimismo total quando observam o fato lamentável de haver homens exteriormente em progresso e que se tornam interiormente não civilizados.
d) Devastações espirituais produzidas pela técnica
Se a pesquisa é levada até as raízes desses fatos, a esperança se torna ainda mais tênue porque suas causas acusam desarmonias mais profundas e prometem outras de maior gravidade. Como, pois, explicar tanta indiferença pelo direito de outrem à vida, tanto desprezo dos valores humanos, tanto rebaixamento no tom da verdadeira civilização, a não ser pelo fato de que o progresso material preponderante decompôs o todo harmonioso e feliz do homem, e como que lhe mutilou a sensibilidade a estas ideias e valores, aperfeiçoando-o unicamente numa determinada direção? A um homem nascido e educado num clima de tecnicidade rigorosa faltará necessariamente uma parte, e não a menos importante, de sua totalidade, como se ela se tivesse atrofiado sob a influência de condições hostis a seu desenvolvimento natural.
Da mesma maneira que uma planta cultivada em terreno a que se subtraíram substâncias vitais manifesta uma ou outra qualidade, mas não reproduz o tipo inteiro e harmonioso, assim também a civilização “progressista”, queremos dizer unicamente materialista, banindo certos valores e elementos necessários à vida das famílias e dos povos, acaba por privar o homem da faculdade autêntica de pensar, de julgar e de agir. Esta, com efeito, para captar o verdadeiro, o justo, o honesto, para ser, numa palavra, “humana”, exige a máxima extensão, e isto em todos os sentidos.
O progresso técnico, pelo contrário, quando aprisiona o homem em seus elos, separando-o do resto do universo, especialmente do espiritual e da vida interior, conforma-o a suas próprias características, das quais as mais notáveis são a superficialidade e a instabilidade. O processo desta deformação não parecerá misterioso se se considerar a tendência do homem a aceitar o equívoco e o erro, quando estes lhe prometem uma vida mais fácil. Examinai, por exemplo, a substituição equívoca de valores realizada pelo progresso admirável da velocidade mecânica. Fascinado por ela e transpondo as vantagens da rapidez do movimento a coisas que não esperam sua perfeição como consequência de mudanças rápidas, mas, pelo contrário, adquirem a fecundidade na estabilidade e fidelidade às tradições, o homem “das velocidades doidas” tende a se tornar na vida como que um caniço agitado pelo vento, estéril em obras duradouras e incapaz de se sustentar a si mesmo e aos outros.
Equívoco semelhante resulta do desenvolvimento, admirável em si, da eficácia dos sentidos, a que os prodigiosos instrumentos modernos de pesquisa dão o poder de ver, ouvir, medir o que existe, o que se move e se transforma, quase que nos últimos recantos do universo. Orgulhoso de um poder a tal ponto acrescido, e quase inteiramente absorvido pelo exercício dos sentidos, o homem “que tudo vê” é levado, sem se dar conta, a reduzir a aplicação da faculdade plenamente espiritual de ler no interior das coisas, isto é, da inteligência, a tornar-se cada vez menos capaz de amadurecer as ideias verdadeiras de que se nutre a vida. Igualmente as aplicações múltiplas da energia material, admiravelmente aumentada, tendem dia a dia mais a encerrar a vida humana num sistema mecânico que faz tudo por si mesmo e a sua própria custa, diminuindo assim os estímulos que antes o constrangiam a desenvolver sua energia pessoal.
4. Só em Jesus Cristo há esperança de salvação
Há pois profundas desarmonias no homem novo criado pelo progresso; mas, muito embora cheias de perigo, não justificam elas o desespero dos pessimistas exagerados, nem a resignação dos inertes. O mundo pode e deve ser reconduzido à harmonia primitiva que foi o tema do Criador nas origens, quando Ele fez sua obra participar de suas perfeições (cfr. Eccli. 16, 25-26). O apoio supremo desta esperança se encontra no mistério do Natal: Jesus Cristo, Homem-Deus, autor de toda harmonia, visita sua obra. Como poderia a criatura desesperar do mundo se o próprio Deus não desespera? Se o Verbo Divino, por Quem foram feitas todas as coisas, Se fez carne e habitou entre nós, a fim de que resplandecesse finalmente sua glória de Filho Unigênito do Padre (cfr. Jo 1, 3 e ss.)? E como a glória do Criador e Restaurador de todas as coisas poderia
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