“Magnalia Dei” (At. 2, 11, I Pedr. 2, 9), das grandes e maravilhosas empresas de Deus que atingiam o ápice e a perfeição de toda a grandeza possível nessa tenra Criança, nascida na cidade de David, envolvida em pobres paninhos e repousando numa humilde manjedoura (cfr. Lc. 2, 12). Seu assombro, entretanto, nada tinha de comum com a estupefação e a depressão que habitualmente provocam as grandezas terríveis, mas mudou-se em doce reconforto, em paz inefável, em tranquilizadora harmonia, tais como só Deus as pode difundir nos espíritos dos homens que O procuram, O acolhem e O adoram.
2. Os que não compreendem o Natal por mesquinhez de espírito
Todavia, diante do evento inaudito da vinda do Verbo Divino ao mundo, diante deste fato que ultrapassa todos os outros na história do gênero humano, e merece portanto a mais alta admiração, nem todos os homens se inclinam para adorar, prisioneiros que são, por assim dizer, de sua própria pequenez, e quase incapazes de imaginar os recursos da grandeza infinita.
3. Os que não compreendem o Natal porque o progresso técnico os deslumbra
Outros, contemplando o vasto desenvolvimento da ciência moderna, que estendeu o conhecimento e o poder do homem até os espaços siderais, como que fascinados e cegos pelos resultados que obtiveram, não sabem admirar senão as “grandezas do homem”, e fecham voluntariamente os olhos às “grandezas de Deus”. Ignorando ou esquecendo que Deus está ainda mais alto do que os próprios céus e que seu trono repousa sobre o cume das estrelas (cfr. Job 22, 12), eles não percebem mais a verdade e o sentido do hino cantado pelos Anjos sobre a gruta onde se manifestou a suprema grandeza divina: “Gloria in excelsis Deo”; são pelo contrário tentados a substituí-lo por um “Glória na terra ao homem”, ao homem que inventa e realiza tantas coisas, ao “homo faber” [o homem que confia na sua capacidade de fazer] como o chamam certos filósofos, porque revelou sua grandeza nas obras que aparentam sobrepujar toda medida humana.
4. Chegou o momento de se moderar o entusiasmo pela técnica
É chegado o momento de reconduzir a suas justas proporções a admiração do homem moderno por si mesmo. Temperando com sábia moderação esta espécie de embriaguez que suscitam as conquistas modernas da técnica, os admiradores do “homo faber” deveriam persuadir-se de que, ao se deterem com admiração e em atitude de adoração diante do presépio do Deus Menino, eles não retardariam sua marcha para o progresso, mas a coroariam com a perfeição do “homo sapiens”.
5. As esperanças do Natal e o pânico da técnica
Este homem, com efeito, ao mesmo tempo “artesão” e “espiritual”, reconhece facilmente que tudo o que Deus faz e manifesta no mistério de Natal ultrapassa incomparavelmente toda força, energia e eficácia humanas, da mesma maneira que o infinito ultrapassa o finito. Com uma sensibilidade mais viva e mais completa do que a que leva outros a admirar sem reservas um produto material qualquer, ele experimenta a doçura do êxtase em face do Divino Infante que leva sobre os ombros a soberania (cfr. Is. 9, 6). Vê n´Ele as maravilhas do Deus Eterno que se reveste do tempo, do Deus imenso e onipotente que se restringe aos limites do espaço e da fraqueza, do Deus de majestade feito “a bondade de nosso Salvador” (cfr. Tit. 3, 4), cheio de infinita misericórdia e amor.
Por isto, o Anjo que anunciou aos pastores as maravilhas do Natal começou por encorajá-los: “Não temais, pois vos dou a nova de uma grande alegria para todo o povo” (Lc. 2, 12). Bem diferentes, ao contrário, os sentimentos que provoca a notícia das novas maravilhas da técnica. Uma vez passado o primeiro movimento de exultação, os homens de hoje, ante o desenvolvimento inesperado de seus conhecimentos e as consequências deles decorrentes, ante esta invasão inaudita no microcosmo e no macrocosmo, atormentados por uma certa ansiedade, se perguntam se conservarão o domínio do mundo ou se cairão vítimas do seu próprio progresso.
As mudanças imprevisíveis a que conduzem os novos caminhos abertos pela ciência e técnica modernas são encaradas por alguns como algo de desarmonioso, destinado a lançar a perturbação e a desordem na unidade feita de ordem e harmonia que é o próprio da razão humana; por outros, ao invés, são essas mudanças consideradas como motivos de séria apreensão pela própria sobrevivência de seus autores. O homem começa a temer o mundo que ele crê ter por fim entre as mãos; teme-o mais do que nunca, e principalmente lá onde Deus não vive verdadeiramente nos espíritos e corações, esse mesmo Deus de Quem — em sua integridade e sob todos os aspectos — o mundo é obra, em que Ele imprimiu seu sinal indelével, como Deus onipotente, Espírito absoluto, Ser sapientíssimo e Fonte de toda ordem, harmonia, bondade e beleza.
6. Palavras aos homens que só se admiram a si mesmos
A este gênero humano, composto em grande parte de homens que se admiram unicamente a si mesmos, mas que começam a temer a si próprios e a seu mundo, indicamos uma vez mais as veredas de Belém. Aí encontrarão eles Aquele a Quem buscam, e de Quem diz o Apóstolo: “Tudo foi criado por Ele e à Sua imagem; e Ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por Ele” (Col. 1, 16-17).
Tal a verdade salutar que brilha na humilde gruta e que desejamos ver resplandecer em vossos espíritos.
7. Jesus Cristo e as cacofonias da civilização técnica
Em particular, Cristo recém-nascido Se manifesta e Se oferece ao mundo atual:
1. como reconforto dos que deploram as desarmonias e desesperam da harmonia do mundo;
2. como penhor da harmonia do mundo;
3. como luz e caminho de todo esforço do gênero humano para estabelecer a harmonia no mundo.
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