Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 780 | página 24-25
| ENTREVISTA | (continuação)

sido publicamente organizado de modo a abraçar toda a Terra e realizar a profecia segundo a qual “haverá uma só Igreja e um só pastor”.

Outro desses autores é, por exemplo, o Pe. Henri Ramière — um jesuíta que foi o grande propagador da devoção ao Sagrado Coração de Jesus na segunda metade do século XIX — que defendia que antes do segundo retorno real de Cristo, com a Parusia, se realizaria na Terra o Reino social de Jesus Cristo. Ele achava que a difusão da devoção ao Sagrado Coração era o principal instrumento para deter o processo revolucionário e instaurar o Reino de Cristo.

Pio XII assumiu essa perspectiva na encíclica Summi Pontificatus, afirmando que “o reconhecimento dos direitos reais de Cristo, a volta de cada um e da sociedade à lei da sua verdade e de seu amor, são o único caminho de salvação”.

Desde os anos de sua juventude, Plinio abraçou este ideal, mas logo em seguida o incorporou à doutrina da realeza social de Maria, estreitamente ligada à devoção ao seu Coração Imaculado. A confirmação desse futuro Reino de Maria, que a razão e a fé lhe indicavam, ele a encontrou na mensagem de Fátima; mas antes desta, conheceu-a nas extraordinárias previsões de São Luís Maria Grignion de Montfort, que no Tratado da Verdadeira Devoção fala de um “feliz tempo em que Maria Santíssima será constituída Senhora e Soberana dos corações” e, através dos corações e das mentes dos homens, reinará na sociedade.

Por tudo isso, Dr. Plinio estava convicto de que, antes do fim do mundo e do reino do Anticristo, a História conhecerá uma época de renascimento, que ele definia como o Reino de Maria.

Catolicismo — Mas, visto o estado atual do mundo, essa esperança não parece otimista demais?

Prof. de Mattei — Vendo-se os acontecimentos com olhos puramente humanos, dir-se-ia que sim. E muitos católicos fiéis, ao constatarem diariamente a degradação moral do mundo e os estragos que a “fumaça de Satanás” provoca na Igreja, ficam desanimados e julgam que a única saída é o fim dos tempos.

Mas Plinio tinha uma visão sobrenatural e um imenso desejo de que fosse dada a Deus a glória que Ele merece. Por isso, desejava um triunfo da justiça e da misericórdia não somente no fim do mundo, mas para os nossos dias. Em inteira afinidade com a Mensagem de Fátima, ele achava que se o mundo não se emendasse viria um grande castigo, e para exprimir a imensa convulsão da ordem humana que tal castigo acarretaria, empregava a palavra francesa Bagarre.

Mas, dizia, “os grandes castigos trazem as grandes emendas, e as grandes emendas trazem as grandes reconciliações”. Ele até estava muito atento para os primeiros sinais dessa mudança radical e afirmava que no apogeu do atual inverno da Revolução há algo que já está começando a germinar e a quebrar essa crosta de gelo, o que indicaria a hora da misericórdia e do perdão estar se aproximando. E que o dia de amanhã está sendo preparado radioso dentro das tristezas do dia de hoje.

Mais ainda, Plinio estava convicto de que o Reino de Maria seria precedido por um movimento irresistível da graça, um “Grand Retour” — um grande retorno da humanidade ao espírito católico da Idade Média. E isso porque o triunfo pessoal de Nossa Senhora anunciado em Fátima haveria de ser o mais maravilhoso dos triunfos da História.

Catolicismo — Mas, em concreto, qual seria a característica fundamental da civilização nascida desse triunfo de Nossa Senhora?

Prof. de Mattei — No prólogo da edição argentina de Revolução e Contra-Revolução, Dr. Plinio explica que não se deve ver na realeza de Maria associada à de Jesus um título puramente decorativo, mas que a realeza de Nossa Senhora importa em um poder de governo pessoal muito autêntico.

Como Ela é submissa em tudo à vontade de Deus, o Reino de Maria não poderá ser senão o triunfo da Igreja, e também, à maneira de consequência, o apogeu da civilização cristã. Deverá, portanto, ser uma civilização fundamentalmente teocêntrica, a qual buscará acima de tudo a glória de Deus, procurando em todas as coisas o que é mais alto, mais elevado, mais sublime, e admirando em cada coisa aquilo que é admirável, sem inveja nem espírito igualitário, e, portanto, reconhecendo a superioridade do outro.

Nessa civilização deverá novamente refulgir a inocência que caracterizou a Idade Média, quando esse estado de ânimo impregnava todas as classes sociais. Nesse particular, convém lembrar que a esfera religiosa certamente é superior à temporal, mas como nada pode ser sonegado a Deus e tudo deve ser reconduzido a Ele, também a ordem temporal deve ser objeto de nossa admiração. E para Dr. Plinio, a expressão “contemplação sacral do universo” tinha esse sentido muito definido de olhar, com admiração religiosa, o mundo temporal.

Será, portanto, uma situação de plenitude, de perfeição na sociedade temporal. Isto quer dizer plenitude da influência do espírito católico na sociedade temporal: plenitude da cultura, da civilização, da organização do Estado, da família etc.

Como a plenitude da sociedade temporal com todos os elementos que a constituem é fruto da graça, cuja abundância depende da devoção e da união com a Medianeira de todas as graças, que é Maria Santíssima, pode-se então dizer, afirmava Plinio, que essa sociedade perfeita será um verdadeiro Reino de Maria.

Catolicismo — No Club Homs, por ocasião das homenagens pelo 20° aniversário do falecimento de Plinio Corrêa de Oliveira, o senhor acentuou a “romanidade” dele. Qual a importância desse traço de sua alma?

Prof. de Mattei — De fato, eu comentei a inscrição que figura no túmulo de Dr. Plinio no Cemitério da Consolação: Vir totus catholicus et apostolicus plene romanus, a qual resume não apenas o sentido de sua vida, mas oferece a chave para se compreender a missão profética que ele transmite à sua escola no século XXI.

A tradição cristã conhece uma longa série de falsos profetas, de Montano aos anabatistas, até certas seitas carismáticas contemporâneas. Qual é a sua característica? Eles não têm regras exteriores, opõem-se à Igreja, às suas leis e às suas tradições, e afirmam que a “inspiração do Espírito Santo” é a única regra de fé e conduta. Deste modo a Igreja hierárquica é substituída por uma Igreja “profética” e carismática.

Pelo contrário, a fidelidade à Igreja Católica Apostólica e Romana, à sua doutrina e às suas leis, é uma clara marca da missão pliniana, que nada acrescenta à Revelação divina, mas quer apenas ser um “eco fidelíssimo do supremo Magistério da Igreja”, para empregar o feliz elogio do Cardeal Pizzardo a uma das suas obras.

Neste momento crítico em que muitos têm a forte sensação de que “a Igreja parece uma nau sem piloto” (expressão empregada pelo cardeal americano Raymond Burke para referir-se à confusão criada após o Sínodo Extraordinário de 2014), é importante destacar a fidelidade modelar de Plinio Corrêa de Oliveira à Sé de Pedro. Até quando, por gravíssimas razões, ele teve que resistir a algumas de suas decisões erradas, como aconteceu com a política de abertura de Paulo VI em relação aos regimes comunistas. Aliás, esse foi um dos episódios nos quais Dr. Plinio demostrou ter a perspicácia sobrenatural de um profeta. Porque, 15 anos depois de sua respeitosa declaração de resistência, ruiu o colosso de pés de barro com o qual o Vaticano estava negociando, na ilusão de que seu império duraria ainda 200 anos.

Catolicismo — Qual seria a mensagem final de seu novo livro Plinio Corrêa de Oliveira – Profeta do Reino de Maria?

Prof. de Mattei — O ponto culminante da missão de Plinio Corrêa de Oliveira que meu livro quis ressaltar é a confiança sobrenatural que ele inspirou no triunfo de Nossa Senhora sobre a Revolução.

Ele alimentava a esperança de poder assistir à derrota da Revolução, mas a Providência decidiu de outra maneira, pedindo dele um sacrifício supremo, para que a sua vida e a sua morte fossem a semente do Reino de Maria. Cabe aos seus verdadeiros discípulos completar a sua missão.


Página seguinte