Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 780 | página 22-23
| ENTREVISTA | (continuação)

Prof. de Mattei — Plinio Corrêa de Oliveira é um autor muitíssimo original e criativo, porque ele não foi um pensador livresco, que se baseava em outros autores, mas elaborou toda uma visão do universo a partir de suas próprias observações. E fez isso em absoluta continuidade com o ensino da Igreja, pelo que ele é a demonstração viva de como a Tradição não é a mera repetição de fórmulas estereotipadas, mas progresso e desenvolvimento.

A parte mais original do pensamento de Dr. Plinio é a sua Teologia da História, a qual tem seus fundamentos filosóficos no tomismo e sua impronta espiritual na meditação das duas bandeiras de Santo Inácio. Mas, assim como Santo Tomás fez uma grande síntese entre Platão e Aristóteles, o Prof. Plinio se apresenta no século XX como um ponto de confluência entre a herança do Doutor Angélico e aquela inexplorada de São Boaventura e dos Vitorinos.

Como filósofo e teólogo da História, ele é também herdeiro do pensamento contra-revolucionário do século XIX, cujas perspectivas ele amplia e desenvolve, especialmente no setor importantíssimo e pouco estudado dos “Ambientes, Costumes, Civilizações”, que era aliás o nome de uma coluna que ele inaugurou na revista Catolicismo.

Mas cumpre notar que, além de ser um intelectual, Corrêa de Oliveira foi um homem de ação. Os dois aspectos se harmonizam admiravelmente nele, formando a unidade de sua personalidade. A visão pliniana do universo não está separada da História, nem do esforço e da luta levados a cabo pelo homem na História.

Catolicismo — E sua impronta espiritual era então essencialmente inaciana?

Prof. de Mattei — Dr. Plinio foi aluno dos jesuítas e fez os Exercícios Espirituais de Santo Inácio. Ele admirava muitíssimo a lógica desses Exercícios, bem como a sua visão combativa da vida espiritual. Mas ele foi também profundamente influenciado pelo livro de Dom Chautard A alma de todo apostolado, o qual destaca o papel sobrenatural e preponderante da graça divina não somente para atingir a santidade, mas também para obter qualquer fruto nos empreendimentos apostólicos. Ele teve ainda uma grande devoção por Santa Teresinha, sentindo-se conatural com o desejo ardente que ela possuía, de “fazer tudo” por amor de Deus e da Igreja. O ápice de sua espiritualidade, porém, estava na profunda compreensão e prática da forma de devoção a Nossa Senhora pregada por São Luís Maria Grignion de Montfort — a escravidão de amor. Foi na leitura do Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem — que conheceu depois de fazer uma novena à santa de Lisieux — que ele encontrou a confirmação de sua convicção de que, para além das desordens do século XX, o mundo caminhava para o Reino de Maria.

Catolicismo — Esse é justamente o título que o senhor quis dar ao seu novo livro: Plinio Corrêa de Oliveira – Profeta do Reino de Maria. Alguns — não só nos arraiais da “Teologia da Libertação” — vão tomá-lo como uma provocação...

Prof. de Mattei — Não se trata de uma provocação, mas da pura realidade. Tudo depende do sentido que se dê ao vocábulo “profeta”. Na linguagem comum, é quem, por intuição ou por perspicácia, prediz com uma certa exatidão os acontecimentos futuros. Mas a teologia católica atribui a esse termo um outríssimo significado: profeta é aquele que fala ou age por missão divina para guiar o povo eleito de Deus. E o profetismo não se limita ao Antigo Testamento, porque a Igreja, Corpo Místico de Cristo, prolonga a missão profética de seu divino Fundador.

O racionalismo contemporâneo caricaturiza o profeta como um personagem visionário e irracional, impulsionado por um espírito excêntrico e fantasioso. Pelo contrário, o verdadeiro profeta é fiel à Igreja e ao seu Magistério, e suas previsões, mesmo quando reveladas por Deus, seguem sempre as leis da lógica. Por exemplo, quando um profeta anuncia um castigo, não o faz necessariamente por revelação divina, mas porque compreende que determinados comportamentos humanos conduzem inevitavelmente a um castigo divino.

Mas o profeta não é só um anunciador dos acontecimentos; ele também indica o caminho, e para isso deve tentar descobrir e interpretar os “sinais dos tempos”, de que fala o Evangelho. Ele é aquele que sabe interpretar o sentido religioso dos fatos, lendo na trama dos acontecimentos o plano de Deus.

Catolicismo — E o senhor acha que isso se observa nos escritos e na obra de Dr. Plinio?

Prof. de Mattei — O profetismo de Plinio Corrêa de Oliveira se manifestou na capacidade de interpretar os acontecimentos do seu tempo à luz dos princípios da Igreja, prevendo muitas vezes seus desenvolvimentos e suas consequências. Catolicismo tem publicado artigos de Juan Gonzalo Larrain Campbell mostrando o acerto de numerosas previsões de Dr. Plinio. São de fato inúmeras suas análises histórico-políticas confirmadas plenamente pelos acontecimentos, do Pacto Ribentropp-Molotov, que selou a aliança temporária entre os “irmãos inimigos” — nazismo e comunismo — até a ascensão do Islã depois da II Guerra Mundial ou a atual “invasão” da Europa ocidental por refugiados vindos do Leste e do Sul.

Mas sobretudo sua obra-mestra, Revolução e Contra-Revolução, é profética. Pois é a interpretação dos últimos 700 anos da história do Ocidente que com maior acuidade e profundidade explica a crise espiritual do mundo moderno e fornece os verdadeiros remédios para sair dela.

Catolicismo — Mas por que motivo ele é, sobretudo, profeta do Reino de Maria?

Prof. de Mattei — Para além de seus escritos, pela sua vida de militante católico, Dr. Plinio procurou orientar e dirigir a ação daqueles que desejavam combater em defesa da Igreja em uma época de Revolução. E — o que é muito importante nos dias atuais em que a tentação é a do desânimo ou até do desespero — ele sempre teve a certeza sobrenatural da vitória final da Contra-Revolução, por uma intervenção direta de Maria Santíssima, Medianeira de todas as graças. “Reino de Maria” foi e denominação que ele deu, nas pegadas de muitos santos e pensadores, para essa nova época histórica de triunfo da Igreja e de restauração da civilização cristã.

Não hesito em afirmar que o grande quadro teológico e histórico que ele delineou em seus escritos e palestras faz dele o maior expoente da escatologia católica do século XX.

Catolicismo — Mas a escatologia é o estudo dos últimos acontecimentos da história do mundo... Dr. Plinio por acaso achava que os tempos do Anticristo e da segunda vinda de Nosso Senhor estavam próximos?

Prof. de Mattei — Não. Jesus declara que o tempo da Parusia é desconhecido, mas ao mesmo tempo na Escritura são indicados alguns sinais que a precederão, como a pregação e a aceitação do Evangelho no mundo todo, a conversão dos judeus e a grande apostasia. A escatologia católica se pergunta se a Igreja conhecerá uma era de decadência ou de progresso antes da época do Anticristo.

Cornélio a Lápide, que pode ser considerado o mais erudito dos intérpretes das Sagradas Escrituras, e muitos outros autores são da opinião de que o fim dos tempos não chegará antes de o cristianismo ter-se propagado em todo o mundo, mas também de ter

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