Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 778 | página 12-13
| ENTREVISTA |

cordações vivas daquele tempo. Três meses antes de sua morte – talvez já a pressentisse –, doente e enfraquecido, tive a última conversa a sós com ele. No fim do encontro, começou a lembrar aqueles antigos tempos e a discorrer sobre eles, de seu convívio com sua irmã Rosée, com seus primos e amigos, do ambiente tão vivo, por um lado, e tão sério, por outro, que reinava na casa de vovó. Fiquei quieto e não o interrompi. Compreendi como ele, ainda muito mais do que eu, sentia saudades da boa ordem, da seriedade, do bem-estar desse pequeno microcosmo, tão agradavelmente patriarcal aos nossos olhos. No fim da conversa, ele agradeceu minha atenção em ouvi-lo discorrer tão longamente sobre velhas lembranças e se retirou. Três meses depois, há exatos 20 anos, em outubro de 1995, já não estava entre nós.

Foi naquele ambiente familiar de nossa avó materna que ele começou a ordenar seu modo de pensar, a formar seu caráter e foi o fator que lhe possibilitou depois dedicar sua vida à Igreja e se tornar o “Cruzado do século XX” – como tão bem o denominou o Prof. Roberto de Mattei ao escrever sua biografia e, antes dele, o Prof. Lizâneas de Souza Lima, na sua Dissertação de Mestrado junto ao Departamento de História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da USP. Foi também naquele ambiente familiar que eu, como criança dos 6 aos 12 anos de idade, comecei a tomar conhecimento, a me aproximar e dedicar-me de corpo e alma àquela figura de um lado tão próxima, mas, de outro lado, tão rica, diferenciada e superior, que foi meu primo.

Catolicismo – Qual foi o papel de sua tia, Da. Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira, mãe de Dr. Plinio, na formação dos senhores?

Dr. Adolpho Para uma melhor compreensão da personalidade de Dr. Plinio, nada melhor do que conhecer mais de perto a figura muito especial, muito próxima a mim, muito querida, que foi tia Lucilia. Se quiséssemos destacar a nota característica de sua personalidade, eu diria que tia Lucilia encarnava o ideal perfeito da mãe católica em toda a extensão do termo. Não só de mãe, mas também de esposa, filha e tia. Sendo ela a mais velha das irmãs, como era o costume daqueles tempos, cuidou de vovó durante o longo período de sua doença. “Lucilia se anulou, se afastou de tudo, para cuidar de sua mãe, dia e noite, como se fosse uma enfermeira” – esse era o comentário mais frequente feito sobre ela pela parentela. Com o correr do tempo pude constatar quão penosa deve ter sido essa missão, pois vovó foi uma pessoa com inúmeras qualidades, mas entre elas, certamente, não figurava a paciência e nem o espírito de sacrifício. A razão desse “anulamento” de tia Lucilia, no entanto, conforme pude observar ao longo dos anos, se deve ao fato de ela, sendo católica “à outrance”, monarquista e tradicionalista, não pactuar de modo algum com o relaxamento dos costumes, com as modas extravagantes, e nem com a glorificação não equilibrada do progresso, enfim com aquilo que passou a se denominar “modernismo”. Vemos, nesta postura, como ela foi a fonte da aversão de Plinio a tudo quanto era “modernizante”, sem-cerimônia e igualitário. Quem não conheceu tia Lucilia – ou, pelo menos, não conhece sua vida por meio de narrações daqueles que conviveram com ela – terá mais dificuldade de entender o filho. Foram muito próximos a vida inteira, temperamentos e gostos em perfeita sintonia. Ele fazia de tudo para agradá-la, e ela, por sua vez, tinha a atenção totalmente posta no filho.

Lembro-me muito bem de tia Lucilia vindo visitar-me quando eu ficava doente, acometido pelas clássicas doenças de infância. Ela me lia Os três mosqueteiros e tantos outros livros que exaltavam o heroísmo, a fidelidade e a mais absoluta solidariedade entre os amigos. Inútil dizer que a leitura era entremeada de conselhos e advertências sobre os perigos que iria encontrar ao longo de minha vida.

Catolicismo – Teria ela tido consciência que assim agindo estava preparando o sobrinho para se tornar um discípulo de seu filho?

Dr. Adolpho Não posso afirmá-lo com certeza, mas, de fato, me preparou. Tia Lucilia nunca tingiu e nem cortou curtos os cabelos, não se pintava, usava vestidos discretíssimos; em outras palavras, tinha-se a impressão de que era uma senhora de uma geração anterior, cerimoniosa, mas acolhedora. Seu maior atributo era o olhar. Tenho certeza que nunca vi – e creio que poucas pessoas viram – um olhar tão doce, expressivo, aveludado, acolhedor e profundo. Triste, poder-se-ia dizer? Às vezes sim; melancólico, não. Seu modo de olhar era um incentivo para se enfrentar as dificuldades com coragem. Para ela, a resignação, a conaturalidade com o sofrimento, a noção de que os valores fundamentais da vida são de ordem moral, faziam parte de seu modo de viver e de ver as coisas. Segundo ela, existe uma oposição radical, infensa a concessões ou a meios termos, entre o bem e o mal. Deus existe, Nosso Senhor fundou a Igreja, que é infalível e deve nos guiar. Suas devoções foram ao Sagrado Coração de Jesus e a Nossa Senhora. O resto lhe era totalmente secundário e só valia na medida em que fosse virtuoso, belo e consoante com a doutrina católica. O pecado, a feiura, o sujo, a anormalidade, se equivalem e devem ser rejeitados com toda a força da alma.

Catolicismo – Isso do ponto de vista religioso. Qual foi a influência de Da. Lucilia na mentalidade dos filhos do ponto de vista temporal?

Dr. Adolpho Já bem antes da eclosão da Primeira Grande Guerra, a rivalidade entre a França e a Alemanha era forte e crescente. Aqui no Brasil, a opinião pública ficou dividida entre francófilos e germanófilos. Tia Lucilia, que nunca ocultou suas simpatias pelos franceses, assumiu na família, por direito, a liderança daqueles que amavam a França e consideravam-na sua segunda pátria. Papai, que chefiava valentemente a ala germanófila, queixava-se da “falta de objetividade” de sua cunhada... As discussões na sociedade cresciam a cada dia e o mundo se preparava psicologicamente para a guerra.

Nessa ocasião, tia Lucilia, dando provas de equilíbrio e isenção de ânimo, resolveu contratar uma governanta para aprimorar a educação dos filhos. A quem ela escolheu? Uma Fräulein alemã, uma bávara autêntica! Confortado pelo reconhecimento de que as governantas alemãs são as melhores do mundo, papai aplaudiu a escolha com entusiasmo.

Fräulein Mathilde Heldmann era o nome dessa governanta bávara. Ela exerceu um papel importante na formação da personalidade de Plinio e ele sempre

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