cordações vivas daquele tempo. Três meses antes de sua morte – talvez já a pressentisse –, doente e enfraquecido, tive a última conversa a sós com ele. No fim do encontro, começou a lembrar aqueles antigos tempos e a discorrer sobre eles, de seu convívio com sua irmã Rosée, com seus primos e amigos, do ambiente tão vivo, por um lado, e tão sério, por outro, que reinava na casa de vovó. Fiquei quieto e não o interrompi. Compreendi como ele, ainda muito mais do que eu, sentia saudades da boa ordem, da seriedade, do bem-estar desse pequeno microcosmo, tão agradavelmente patriarcal aos nossos olhos. No fim da conversa, ele agradeceu minha atenção em ouvi-lo discorrer tão longamente sobre velhas lembranças e se retirou. Três meses depois, há exatos 20 anos, em outubro de 1995, já não estava entre nós.
Foi naquele ambiente familiar de nossa avó materna que ele começou a ordenar seu modo de pensar, a formar seu caráter e foi o fator que lhe possibilitou depois dedicar sua vida à Igreja e se tornar o “Cruzado do século XX” – como tão bem o denominou o Prof. Roberto de Mattei ao escrever sua biografia e, antes dele, o Prof. Lizâneas de Souza Lima, na sua Dissertação de Mestrado junto ao Departamento de História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da USP. Foi também naquele ambiente familiar que eu, como criança dos 6 aos 12 anos de idade, comecei a tomar conhecimento, a me aproximar e dedicar-me de corpo e alma àquela figura de um lado tão próxima, mas, de outro lado, tão rica, diferenciada e superior, que foi meu primo.
Catolicismo – Qual foi o papel de sua tia, Da. Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira, mãe de Dr. Plinio, na formação dos senhores?
Dr. Adolpho – Para uma melhor compreensão da personalidade de Dr. Plinio, nada melhor do que conhecer mais de perto a figura muito especial, muito próxima a mim, muito querida, que foi tia Lucilia. Se quiséssemos destacar a nota característica de sua personalidade, eu diria que tia Lucilia encarnava o ideal perfeito da mãe católica em toda a extensão do termo. Não só de mãe, mas também de esposa, filha e tia. Sendo ela a mais velha das irmãs, como era o costume daqueles tempos, cuidou de vovó durante o longo período de sua doença. “Lucilia se anulou, se afastou de tudo, para cuidar de sua mãe, dia e noite, como se fosse uma enfermeira” – esse era o comentário mais frequente feito sobre ela pela parentela. Com o correr do tempo pude constatar quão penosa deve ter sido essa missão, pois vovó foi uma pessoa com inúmeras qualidades, mas entre elas, certamente, não figurava a paciência e nem o espírito de sacrifício. A razão desse “anulamento” de tia Lucilia, no entanto, conforme pude observar ao longo dos anos, se deve ao fato de ela, sendo católica “à outrance”, monarquista e tradicionalista, não pactuar de modo algum com o relaxamento dos costumes, com as modas extravagantes, e nem com a glorificação não equilibrada do progresso, enfim com aquilo que passou a se denominar “modernismo”. Vemos, nesta postura, como ela foi a fonte da aversão de Plinio a tudo quanto era “modernizante”, sem-cerimônia e igualitário. Quem não conheceu tia Lucilia – ou, pelo menos, não conhece sua vida por meio de narrações daqueles que conviveram com ela – terá mais dificuldade de entender o filho. Foram muito próximos a vida inteira, temperamentos e gostos em perfeita sintonia. Ele fazia de tudo para agradá-la, e ela, por sua vez, tinha a atenção totalmente posta no filho.
Lembro-me muito bem de tia Lucilia vindo visitar-me quando eu ficava doente, acometido pelas clássicas doenças de infância. Ela me lia Os três mosqueteiros e tantos outros livros que exaltavam o heroísmo, a fidelidade e a mais absoluta solidariedade entre os amigos. Inútil dizer que a leitura era entremeada de conselhos e advertências sobre os perigos que iria encontrar ao longo de minha vida.
Catolicismo – Teria ela tido consciência que assim agindo estava preparando o sobrinho para se tornar um discípulo de seu filho?
Dr. Adolpho – Não posso afirmá-lo com certeza, mas, de fato, me preparou. Tia Lucilia nunca tingiu e nem cortou curtos os cabelos, não se pintava, usava vestidos discretíssimos; em outras palavras, tinha-se a impressão de que era uma senhora de uma geração anterior, cerimoniosa, mas acolhedora. Seu maior atributo era o olhar. Tenho certeza que nunca vi – e creio que poucas pessoas viram – um olhar tão doce, expressivo, aveludado, acolhedor e profundo. Triste, poder-se-ia dizer? Às vezes sim; melancólico, não. Seu modo de olhar era um incentivo para se enfrentar as dificuldades com coragem. Para ela, a resignação, a conaturalidade com o sofrimento, a noção de que os valores fundamentais da vida são de ordem moral, faziam parte de seu modo de viver e de ver as coisas. Segundo ela, existe uma oposição radical, infensa a concessões ou a meios termos, entre o bem e o mal. Deus existe, Nosso Senhor fundou a Igreja, que é infalível e deve nos guiar. Suas devoções foram ao Sagrado Coração de Jesus e a Nossa Senhora. O resto lhe era totalmente secundário e só valia na medida em que fosse virtuoso, belo e consoante com a doutrina católica. O pecado, a feiura, o sujo, a anormalidade, se equivalem e devem ser rejeitados com toda a força da alma.
Catolicismo – Isso do ponto de vista religioso. Qual foi a influência de Da. Lucilia na mentalidade dos filhos do ponto de vista temporal?
Dr. Adolpho – Já bem antes da eclosão da Primeira Grande Guerra, a rivalidade entre a França e a Alemanha era forte e crescente. Aqui no Brasil, a opinião pública ficou dividida entre francófilos e germanófilos. Tia Lucilia, que nunca ocultou suas simpatias pelos franceses, assumiu na família, por direito, a liderança daqueles que amavam a França e consideravam-na sua segunda pátria. Papai, que chefiava valentemente a ala germanófila, queixava-se da “falta de objetividade” de sua cunhada... As discussões na sociedade cresciam a cada dia e o mundo se preparava psicologicamente para a guerra.
Nessa ocasião, tia Lucilia, dando provas de equilíbrio e isenção de ânimo, resolveu contratar uma governanta para aprimorar a educação dos filhos. A quem ela escolheu? Uma Fräulein alemã, uma bávara autêntica! Confortado pelo reconhecimento de que as governantas alemãs são as melhores do mundo, papai aplaudiu a escolha com entusiasmo.
Fräulein Mathilde Heldmann era o nome dessa governanta bávara. Ela exerceu um papel importante na formação da personalidade de Plinio e ele sempre
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