Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 778 | página 14-15
| ENTREVISTA |

reconheceu esse fato. Católica, monarquista, culta, europeia a mais não poder, Fräulein Mathilde, além de ensinar o senso da ordem e da disciplina, abriu os olhos de meus primos, Rosée e Plinio, para os esplendores da Europa cristã, levou-os a admirar as grandes figuras do passado, discorreu sobre os fins trágicos da maioria das famílias reinantes na Europa.

Essa abertura de horizontes ajudou Plinio discorrer, com frequência e gosto, sobre as qualidades e limitações de cada povo europeu. As comparações que ele fazia sobre as personalidades dos franceses, alemães, ingleses, italianos, espanhóis, russos etc. Tia Lucilia – por meio da Fräulein – ensinou-lhes também a distinguir tudo aquilo que é bom, nobre, verdadeiro, com classe, das coisas ordinárias, falsas, pretensiosas e demagógicas. Numa sociedade materialista voltada para o American Way of Life, fez com que eles compreendessem o primado da cultura, da finura e do espírito aristocrático.

Catolicismo – E que influência Da. Lucilia exerceu sobre seus filhos no tocante à “visão do mundo” que se deve ter?

Dr. Adolpho Nos dias de hoje, a imaginação das crianças é povoada por monstros ou por figuras de reinos imaginários e pagãos. Na imaginação de meus primos Rosée e Plinio, porém, habitavam príncipes, cruzados, grandes santos, reis, rainhas, heróis e personagens de realce do Ancien Régime. Figuras como Carlos Magno, Roland, Santa Joana d’Arc, Felipe II, Luís XIV, personagens das memórias de Saint-Simon e tantas outras, ficaram tão próximas de Plinio, a ponto de ele se referir a elas com a mesma naturalidade com que seus primos se referiam aos artistas de cinema ou aos jogadores de futebol. Diga-se de passagem, que esses temas alternavam-se muito harmonicamente com “la Grande Mademoiselle”, Maria Antonieta, Chateaubriand etc.

Creio que essa Weltanschauung (visão de mundo), da qual participam e na qual interagem santos, Papas, reis, figuras da sociedade, escritores e pensadores, constitui uma das notas mais características da cultura e da personalidade de Plinio. Digo mesmo que certamente essa visão foi um fator importante que o influenciou na confecção de suas obras, como Revolução e Contra-Revolução, assim como de seu último livro Nobreza e Elites Tradicionais Análogas.

Catolicismo – O que o senhor conta é tão interessante, que lhe pedimos continuar a discorrer sobre a formação da personalidade de Dr. Plinio.

Dr. Adolpho Também tiveram papel importante na formação da personalidade de Plinio os seus mestres escolares, os padres jesuítas do Colégio São Luís. Lembro-me de ele elogiar inúmeras vezes o rigor da lógica inaciana, a construção perfeita do raciocínio, sóbrio, preciso, esquemático, mas poderoso, decisivo em qualquer polêmica. E os elogios não se circunscreviam apenas à dialética, mas se estendiam à diplomacia, à discrição e ao empenho com que os filhos de Santo Inácio tratavam de seus interesses. Nos dias de glória da Companhia de Jesus, esses atributos permitiram que ela se transformasse na mais importante e eficiente ordem religiosa no combate às heresias, principalmente ao protestantismo. A par disso, a ascese e os Exercícios Espirituais de Santo Inácio exerceram grande influência na personalidade e vida espiritual de Plinio.

Catolicismo – O senhor falou do papel de Da. Lucilia na formação de Dr. Plinio, mas desejamos também conhecer um pouco a respeito do papel dele na formação do senhor, quando era ainda menino...

Dr. Adolpho Plinio nasceu em 1908, 16 anos depois nascia eu, em 1924. Procurando reavivar as primeiras impressões que guardo dele, posso dizer que a força de sua presença era tão grande, que o ambiente reinante na casa de vovó antes de sua chegada era um, e depois, tornava-se outro. Naquela residência, para participar das prosas, a presença dele era aguardada por todos com avidez. Digo, sem medo de errar: só conheceu o Plinio, sua vitalidade, seu bom humor e sua irradiação pessoal, quem conviveu com ele nesses primeiros anos da maturidade. Era algo de portentoso! Com a idade, as preocupações, as decepções, as enfermidades e o desastre de automóvel que ele sofreu em 1975 acrescentaram a isso um véu de sofrimento. Mas eu o conheci no auge, com sua figura imponente, suas certezas no que dizia, cerimonioso e afável no trato. Era um líder em toda a extensão do termo.

À medida que fui crescendo, comecei a perceber que seu público não era monoliticamente entusiasta de suas ideias, mas, pelo contrário, estava dividido entre os que o apoiavam com entusiasmo, os que o toleravam e, finalmente, os que lhe faziam fronda. Nesse microcosmo percebia-se, já de início, aquilo que seria uma constante em sua vida: sua presença, suas ideias, suas certezas, principalmente, rachavam o público de alto a baixo.

Plinio era tão infenso a meios-termos e concessões no terreno da ortodoxia católica, que a muitos transmitia a impressão de que era um radical intransigente. Essa impressão era reforçada pela vitalidade, pela afirmatividade e pelo desassombro com que ele defendia verdades de há muito esquecidas. Num tempo em que só as senhoras eram católicas e iam à Missa; em que a imensa maioria dos homens de seu meio era constituída de positivistas, maçons e liberais; em que só se louvava a paciência, a humildade e a conformidade; ele, com sua voz forte, proclamava alto e bom som que a castidade deveria ser praticada por todos, sejam mulheres ou homens; e que todos se lembrassem de que o inferno está com suas portas abertas, à espera daqueles que cometessem pecado e não se arrependessem. Dizia, igualmente, que os católicos deveriam afirmar com desassombro sua fé, ser combativos e capazes de vencer os inimigos da Santa Madre Igreja. Mais ainda, que deveriam se arregimentar e formar um partido que tivesse condições de dirigir os destinos do Brasil e alterar o rumo dos acontecimentos.

O fato de Plinio ter sido eleito como o deputado federal mais votado do País (1933) levou meus tios a prognosticar uma carreira brilhante para o sobrinho, já imaginando que chegaria aos mais altos postos do governo. Para eles, uma catarata de invectivas contra “os monstros sagrados” do establishment seria a coisa mais contraindicada no momento. Mas seu desagrado não se circunscreveu apenas à envergadura com que Plinio invectivava o mundo moderno, mas ao fato de eles começarem a perceber, de um modo subconsciente, é verdade, que uma nova força estava despontando no horizonte. E que essa força se compunha de dezenas de milhares de jovens que, como Congregados Marianos, queriam reformar o status quo vigente, de alto a baixo! E, se providências não fossem tomadas, os próprios tios correriam o risco de se tornarem figuras do passado... Eles como que diziam: “Como é que Lucilia, tão cordata, foi ter um filho tão afirmativo como esse, é realmente inconcebível...

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