reconheceu esse fato. Católica, monarquista, culta, europeia a mais não poder, Fräulein Mathilde, além de ensinar o senso da ordem e da disciplina, abriu os olhos de meus primos, Rosée e Plinio, para os esplendores da Europa cristã, levou-os a admirar as grandes figuras do passado, discorreu sobre os fins trágicos da maioria das famílias reinantes na Europa.
Essa abertura de horizontes ajudou Plinio discorrer, com frequência e gosto, sobre as qualidades e limitações de cada povo europeu. As comparações que ele fazia sobre as personalidades dos franceses, alemães, ingleses, italianos, espanhóis, russos etc. Tia Lucilia – por meio da Fräulein – ensinou-lhes também a distinguir tudo aquilo que é bom, nobre, verdadeiro, com classe, das coisas ordinárias, falsas, pretensiosas e demagógicas. Numa sociedade materialista voltada para o American Way of Life, fez com que eles compreendessem o primado da cultura, da finura e do espírito aristocrático.
Catolicismo – E que influência Da. Lucilia exerceu sobre seus filhos no tocante à “visão do mundo” que se deve ter?
Dr. Adolpho – Nos dias de hoje, a imaginação das crianças é povoada por monstros ou por figuras de reinos imaginários e pagãos. Na imaginação de meus primos Rosée e Plinio, porém, habitavam príncipes, cruzados, grandes santos, reis, rainhas, heróis e personagens de realce do Ancien Régime. Figuras como Carlos Magno, Roland, Santa Joana d’Arc, Felipe II, Luís XIV, personagens das memórias de Saint-Simon e tantas outras, ficaram tão próximas de Plinio, a ponto de ele se referir a elas com a mesma naturalidade com que seus primos se referiam aos artistas de cinema ou aos jogadores de futebol. Diga-se de passagem, que esses temas alternavam-se muito harmonicamente com “la Grande Mademoiselle”, Maria Antonieta, Chateaubriand etc.
Creio que essa Weltanschauung (visão de mundo), da qual participam e na qual interagem santos, Papas, reis, figuras da sociedade, escritores e pensadores, constitui uma das notas mais características da cultura e da personalidade de Plinio. Digo mesmo que certamente essa visão foi um fator importante que o influenciou na confecção de suas obras, como Revolução e Contra-Revolução, assim como de seu último livro Nobreza e Elites Tradicionais Análogas.
Catolicismo – O que o senhor conta é tão interessante, que lhe pedimos continuar a discorrer sobre a formação da personalidade de Dr. Plinio.
Dr. Adolpho – Também tiveram papel importante na formação da personalidade de Plinio os seus mestres escolares, os padres jesuítas do Colégio São Luís. Lembro-me de ele elogiar inúmeras vezes o rigor da lógica inaciana, a construção perfeita do raciocínio, sóbrio, preciso, esquemático, mas poderoso, decisivo em qualquer polêmica. E os elogios não se circunscreviam apenas à dialética, mas se estendiam à diplomacia, à discrição e ao empenho com que os filhos de Santo Inácio tratavam de seus interesses. Nos dias de glória da Companhia de Jesus, esses atributos permitiram que ela se transformasse na mais importante e eficiente ordem religiosa no combate às heresias, principalmente ao protestantismo. A par disso, a ascese e os Exercícios Espirituais de Santo Inácio exerceram grande influência na personalidade e vida espiritual de Plinio.
Catolicismo – O senhor falou do papel de Da. Lucilia na formação de Dr. Plinio, mas desejamos também conhecer um pouco a respeito do papel dele na formação do senhor, quando era ainda menino...
Dr. Adolpho – Plinio nasceu em 1908, 16 anos depois nascia eu, em 1924. Procurando reavivar as primeiras impressões que guardo dele, posso dizer que a força de sua presença era tão grande, que o ambiente reinante na casa de vovó antes de sua chegada era um, e depois, tornava-se outro. Naquela residência, para participar das prosas, a presença dele era aguardada por todos com avidez. Digo, sem medo de errar: só conheceu o Plinio, sua vitalidade, seu bom humor e sua irradiação pessoal, quem conviveu com ele nesses primeiros anos da maturidade. Era algo de portentoso! Com a idade, as preocupações, as decepções, as enfermidades e o desastre de automóvel que ele sofreu em 1975 acrescentaram a isso um véu de sofrimento. Mas eu o conheci no auge, com sua figura imponente, suas certezas no que dizia, cerimonioso e afável no trato. Era um líder em toda a extensão do termo.
À medida que fui crescendo, comecei a perceber que seu público não era monoliticamente entusiasta de suas ideias, mas, pelo contrário, estava dividido entre os que o apoiavam com entusiasmo, os que o toleravam e, finalmente, os que lhe faziam fronda. Nesse microcosmo percebia-se, já de início, aquilo que seria uma constante em sua vida: sua presença, suas ideias, suas certezas, principalmente, rachavam o público de alto a baixo.
Plinio era tão infenso a meios-termos e concessões no terreno da ortodoxia católica, que a muitos transmitia a impressão de que era um radical intransigente. Essa impressão era reforçada pela vitalidade, pela afirmatividade e pelo desassombro com que ele defendia verdades de há muito esquecidas. Num tempo em que só as senhoras eram católicas e iam à Missa; em que a imensa maioria dos homens de seu meio era constituída de positivistas, maçons e liberais; em que só se louvava a paciência, a humildade e a conformidade; ele, com sua voz forte, proclamava alto e bom som que a castidade deveria ser praticada por todos, sejam mulheres ou homens; e que todos se lembrassem de que o inferno está com suas portas abertas, à espera daqueles que cometessem pecado e não se arrependessem. Dizia, igualmente, que os católicos deveriam afirmar com desassombro sua fé, ser combativos e capazes de vencer os inimigos da Santa Madre Igreja. Mais ainda, que deveriam se arregimentar e formar um partido que tivesse condições de dirigir os destinos do Brasil e alterar o rumo dos acontecimentos.
O fato de Plinio ter sido eleito como o deputado federal mais votado do País (1933) levou meus tios a prognosticar uma carreira brilhante para o sobrinho, já imaginando que chegaria aos mais altos postos do governo. Para eles, uma catarata de invectivas contra “os monstros sagrados” do establishment seria a coisa mais contraindicada no momento. Mas seu desagrado não se circunscreveu apenas à envergadura com que Plinio invectivava o mundo moderno, mas ao fato de eles começarem a perceber, de um modo subconsciente, é verdade, que uma nova força estava despontando no horizonte. E que essa força se compunha de dezenas de milhares de jovens que, como Congregados Marianos, queriam reformar o status quo vigente, de alto a baixo! E, se providências não fossem tomadas, os próprios tios correriam o risco de se tornarem figuras do passado... Eles como que diziam: “Como é que Lucilia, tão cordata, foi ter um filho tão afirmativo como esse, é realmente inconcebível...”
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