A força do cavaleiro medieval nascia de três virtudes profundas: a fé, a seriedade e a temperança. Sua altanaria excluía a frivolidade e a jactância. E por isso, se lhe acontecia a desgraça de cair em pecado, sua glória não consistia na obstinação, mas em uma penitência pública, feita com inteira humildade.
A CONTRIÇÃO E A PENITÊNCIA, TÍTULOS DE GLÓRIA NO AMBIENTE MEDIEVAL
Carlos Alberto de Sá Moreira
Uma das objeções que se fazem com mais frequência contra a Idade Média é a da maldade cruel de muitos senhores feudais, que sem respeitar nenhuma lei divina ou humana abusavam de sua força para oprimir duramente pobres vassalos, torturando-os, tomando-lhes seus parcos haveres, e até matando-os. Ora, como se pode chamar de apogeu da civilização cristã uma época que produziu tais bárbaros?
Não se nega que homens assim existiram na Idade Média. Não constituíam maioria nem regra geral, como se diz, mas alguns inegavelmente existiram. O que merece elogios naquela época não é portanto que não tenha havido maus — porque os houve, e seria impossível que não houvesse. A gloria da Idade Média está em que os bons souberam impor-se, dominar a vida social, e de um modo geral implantar o respeito à lei de Deus, reduzindo a limites estreitos a ação dos perversos. E, de passagem, pode-se perguntar se o mesmo acontece em nossos dias.
Há ainda outro título de superioridade da Idade Média sobre os séculos que se lhe sucederam: a distinção entre o bem e o mal era então muito mais nítida. Quem era bom o era realmente; os outros eram maus no pleno sentido da palavra. E esta coerência na opção entre o caminho do Céu e o do inferno trazia uma consequência importante: em geral as conversões — então frequentes — eram totais, decisivas, completas. Aqueles que, imersos no pecado, se deixavam tocar pela graça de Deus, regeneravam-se até o fundo da alma, e passavam a viver na mais generosa observância dos mandamentos, impondo-se muitas vezes duras penitências para expiar suas faltas.
Como estamos longe disto! Vivemos numa época em que o bem e o mal como que se confundem, se abraçam, se conciliam, apagando em tantas almas qualquer sentimento de remorso ou mesmo de culpa ante clamorosas violações da lei de Deus: basta pensar na desfaçatez com que tantos casais mal constituídos ostentam sua miserável situação, e na naturalidade com que são tratados por pessoas de vida aliás correta.
CENSURADOS COM ALTIVEZ PELOS VASSALOS
Um exemplo impressionante desta coerência medieval é o Duque Conrado da Turingia, cunhado de Santa Isabel da Hungria. Como sabem nossos leitores, esta filha do Rei dos húngaros desposou Luís, Duque da Turingia, um dos mais ricos feudos do Sacro Império. Movida de admirável caridade para com os pobres, Santa Isabel distribuía largas e generosas esmolas — o que causava profunda irritação a muitas pessoas da corte, entre as quais seus dois cunhados, que não se conformavam em ver dilapidado desta forma, como diziam, o patrimônio familiar.
Em 1227 o Duque Luís partiu para a cruzada, mas a caminho adoeceu gravemente, e faleceu antes de atingir a Terra Santa. Quanto a notícia chegou a Eisenach, capital da Turingia, a jovem Duquesa foi tomada de uma dor inconsolável. Não era essa, porém, a única cruz que a Providencia lhe reservava. Seus cunhados, os Duques Henrique e Conrado, vendo a viúva, privada da proteção do irmão que temiam, deixaram explodir o ódio que lhe tinham: no mesmo dia a expulsaram com seus filhos pequenos do castelo — em pleno inverno, sem lhe permitirem levar nenhum dinheiro, nenhum agasalho, nenhum alimento, e proibindo num requinte de crueldade que qualquer habitante da cidade a abrigasse. Isabel passou por todos os sofrimentos da miséria, suportando-os corajosamente por amor a Deus.
Mas algum tempo depois voltaram os cavaleiros que acompanhavam o Duque Luís, trazendo o seu corpo. E corajosamente se apresentaram a Conrado e Henrique, para exprobrar-lhes com dureza a crueldade sem nome que haviam praticado contra a viúva e os filhos de seu próprio irmão. Os culpados não resistiram à franqueza altiva de seus vassalos. E chorando pediram perdão a Isabel, restituindo-lhe tudo de que a haviam despojado.
A SUBMISSÃO ANTE A VOZ DA GRAÇA
Passaram-se os anos. Santa Isabel renunciou a todos os seus bens, passou a viver na pobreza e no recolhimento, dedicando-se toda à oração e a pratica da caridade. Em 1231, aos 24 anos de idade, ela faleceu, em meio à consternação do povo que a amava com veneração. A fama de sua santidade espalhou-se rapidamente, os milagres operados por sua intercessão se multiplicaram, e o processo de sua canonização foi instaurado, por iniciativa de seu confessor, mestre Conrado.
Dos seus dois cunhados, o mais velho, Henrique, governava como regente os domínios de seu sobrinho Hermann, filho da Santa; o mais moço, Conrado, dividia seu tempo entre os prazeres dissolutos e toda a sorte de violências. Entre outras, em 1232, para vingar-se do Arcebispo de Moguncia que havia imposto uma penitencia ao mosteiro de Reinhartsbrunn, do qual ele, Duque, era protetor, invadiu a sala do capitulo de Erfurt e tomando o Prelado pelos cabelos o atirou violentamente ao chão: louco de raiva, tê-lo-ia até apunhalado se seus próprios vassalos não o contivessem. Não contente ainda, para saciar seu rancor pôs-se a devastar as terras do Arcebispo, chegando a incendiar a cidade de Fritzlar, que destruiu inteiramente.
Um dia, quando entrava ao entardecer com sua comitiva no castelo de Tenneberg, aproximou-se dele uma pecadora pública, reduzida à miséria, para pedir-lhe uma esmola. O Duque censurou-lhe irritado a vergonhosa vida que levava — ao que ela respondeu que o fazia somente para ter o que comer. E descreveu seu estado em cores tão vivas que o Duque, compadecido, prometeu socorrê-la em tudo desde que ela se emendasse.
Nessa noite Conrado não conseguiu dormir. Impressionado com a degradação da mulher, ele refletia em como sua própria culpa era maior. Pois aquela infeliz fora arrastada ao vicio pela miséria, — enquanto ele, rico e poderoso, ao invés de servir a Deus, abusava dos dons que recebera, entregando-se a uma depravação por isso mesmo muito pior.
Pela manhã abriu-se com seus companheiros, e verificou com espanto que todos haviam passado a noite engolfados no mesmo remorso. Reconheceram então nesta voz interior que lhes falava a todos, ao mesmo tempo, a voz da graça. E resolveram unanimemente se converter, mudar de vida e fazer penitência.
O DUQUE PEDE QUE SUAS VÍTIMAS O AÇOITEM
A conversão foi radical. A pé, descalços e com hábito de peregrinos, Conrado e seus companheiros partiram para Roma, a fim de pedir ao Papa a absolvição de seus pecados. O Pontífice a concedeu, impondo porém ao Duque como penitência que se reconciliasse com todos os seus inimigos, a começar pelo Arcebispo de Mogúncia; que fizesse edificar novos mosteiros onde os havia destruído; que publicamente se humilhasse e pedisse perdão aos habitantes de Fritzlar; e que professasse numa Ordem Religiosa para nela viver o resto de seus dias.
Conrado cumpriu à risca todas essas severas penitencias. Em Fritzlar, onde os sobreviventes viviam entre as ruínas, ele prostrou-se diante das portas da igreja que devastara, implorou perdão pelo amor de Deus, e estendendo um açoite aos habitantes pediu que aqueles que quisessem o castigassem. Surpresos e comovidos, nenhum deles se moveu, até que uma velha, cuja família fora morta na invasão da cidade adiantou-se e o chicoteou duramente. Conrado suportou o castigo com humildade. Depois fez reconstruir a igreja, doou importantes quantias aos habitantes, e concedeu a Fritzlar privilégios consideráveis.
Para reparar sua crueldade para com Santa Isabel, fez edificar, juntamente com seu irmão Henrique, um convento de Franciscanos em Eisenach, onde a jovem Duquesa sofrera os horrores do abandono quando eles a expulsaram do castelo. E como a morte do confessor de Isabel havia interrompido o processo de canonização, Conrado passou a se dedicar inteiramente a promovê-la. Sua ação foi intensa e decisiva. A ele se deve a canonização, solenemente realizada em Perugia, no dia 1o de junho de 1235. A ele também se deve em grande parte a construção da famosa igreja de Santa Isabel em Marburg.
DE TIRANO CRUEL A CAVALEIRO DA FÉ
A alta piedade e a magnífica coragem de Conrado o levaram a ser eleito grão-mestre da Ordem Teutônica, na qual professara para cumprir a penitência imposta pelo Papa. Sob seu governo, a Ordem recebeu novo impulso, conquistou novos domínios, Ele a conduziu a grandes vitórias na luta contra os pagãos da Prússia — pois a Ordem dos Cavaleiros Teutônicos era militar, e a Igreja lhe confiara a defesa das fronteiras orientais da Cristandade.
Em 1143 Conrado adoeceu mortalmente. No leite de dor era tal a pureza de sua alma que a presença de qualquer pessoa em estado de pecado mortal lhe causava dores fortíssimas. Anteviu em êxtase o próprio juízo particular, no qual a Justiça divina o condenava a cinco anos de purgatório — mas Santa Isabel intercedia e lhe obtinha a remissão da pena. Morreu pouco depois, inebriado da gloria celestial prometida.
O Duque Conrado quis ser enterrado ao lado de sua santa cunhada, na Basílica de Marburg que ele fundara. Sobre seu túmulo uma estátua o representa adormecido no sono dos justos, e tendo nas mãos os símbolos que resumem sua vida — vida de pecados e de vícios a princípio, mas de uma penitência ainda mais impressionante; vida impregnada da robusta e inteira coerência dos homens medievais, que o levou do fundo da perversão à gloria do serviço da Igreja.
Estes símbolos são a sua espada de cavaleiro da Ordem Teutônica, e o açoite com que se apresentou ao povo de Fritzlar.
VERDADES ESQUECIDAS
A VIRGINDADE É MELHOR DO QUE O ESTADO MATRIMONIAL
São João Crisóstomo
Também eu penso ser a virgindade coisa boa, também contigo concordo ser ela melhor do que a vida nupcial. E se te agrada, ainda acrescento: leva ela vantagem às núpcias quanto vai do Céu à terra, quanto dos Anjos ao homem.
Se além disto é preciso notar alguma coisa mais, continuando digo ainda : os Anjos não são de carne e sangue, para eles não há vida conjugal; não vivem na terra, e por isso não estão sujeitos às desordens das paixões e dos prazeres, não precisam comer nem beber: não são de natureza tal que uma música sonora, um canto suave ou alguma formosura insigne os possa atrair, enfim, não podem ser vencidos por nenhum gênero de blandícias. Mas o homem, ainda que por natureza seja inferior às inteligências angélicas, procura com ardor e cuidado aproximar-se delas o quanto pode. Mas de que modo? — Assim como os Anjos não casam também não casa o homem virgem; os Anjos vivem na presença de Deus, sempre solertes em seu serviço : procura o homem virgem também viver assim. E se à natureza humana enquanto carrega o peso do corpo não é dado como aos Anjos subir ao Céu, também é certo ter o homem esta deficiência compensada com a maior das consolações possíveis, pois vivendo puro de alma e corpo recebe e possui o Rei do Céu.
Será possível que não percebas toda a excelência da virgindade? E como, aos que ainda vivem envoltos nas vestes da carne, ela os transforma de modo tal que os iguala aos Anjos?
Agora pergunto eu, em que diferem dos Anjos os grandes amantes da virgindade, Elias, Eliseu e o Apostolo São João? Em quase nada: apenas em serem, estes, anjos de natureza mortal. Quanto ao mais, para quem atentamente os considerar, nunca hão de parecer menos dignos de estimação do que esses bem-aventurados espíritos. E se, são de condição inferior aos Anjos, daí lhes advêm motivo de ser maior o seu louvor. Pois que, por isso mesmo que viviam na terra e tinham natureza mortal, só com muita violência e empenho puderam alcançar tão eminente grau de virtude: considera de quanta coragem precisavam estar armados, e qual o teor de vida que haviam de levar. (Do “Livro da Virgindade”, - apud breviário romano, lições do III noturno da festa de São Luis de Gonzaga).