O poderio muçulmano no passado: Em seu apogeu, no século VIII, o império árabe (traços horizontais) cobria 11.500.000 quilômetros quadrados, desde as fronteiras da Índia até o Oceano Atlântico.
Nos séculos XVI e XVII, o império turco (traços verticais) se estendia da Pérsia à Argélia, e da Hungria até a Arábia.
No século VIII os árabes chegaram às portas de Autun e de Poitiers. E no século XVI os turcos sitiaram a própria capital do Imperador Romano, Viena.
Do Marrocos à Indonésia prepara-se a guerra santa islamita
Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira
O governo da Tunísia acaba de determinar que a estátua do Cardeal Lavigérie, primeiro Arcebispo de Argel, seja retirada do lugar de destaque que ocupa numa das principais praças de Tunis, e transferida para uma propriedade da Mitra. O governo explica que ofende os muçulmanos ver a figura de um prelado cristão, com uma cruz sobre o peito. A Assembléia Nacional já decidiu que a Tunísia deve ser um Estado maometano, e o preâmbulo da nova constituição conterá uma declaração nesse sentido.
"IMPERIALISMO TEOCRATICO E RACISTA"
Nascido na França em 1825, o Cardeal Lavigérie é considerado uma das figuras mais eminentes de seu século. Homem de pensamento e de ação, depois de ocupar por vários anos uma cátedra na Sorbonne, partiu para a Síria, a fim de desenvolver ali uma obra de educação missionária. Eleito Bispo de Nancy em 1863, sua passagem pela Diocese foi marcada pela fundação de vários colégios, e pelo grande incremento que deu aos estudos, tanto eclesiásticos quanto profanos.
Em 1867, Mons. Lavigérie foi nomeado Arcebispo de Argel. Até então, o governo francês impedira que as missões católicas penetrassem em suas colônias do norte da África. As autoridades eclesiásticas, tolhidas pela pressão governamental, haviam renunciado de modo quase completo à pregação entre os muçulmanos. O Cardeal Lavigérie começou por fundar um orfanato, aproveitando-se da ocasião favorável que lhe oferecia uma crise de alimentos que se manifestara na região. Embora tendo que enfrentar vigorosa oposição do governo da metrópole, seu trabalho apostólico teve rápido e amplo desenvolvimento, abrangendo logo os mais diversos campos. De início, foi auxiliado por missionários da Companhia de Jesus. Em 1875, fundou a Congregação a que deu o nome de Notre Dame d'Afrique, cujos membros são conhecidos por Padres Brancos.
Como Superior dessa Congregação, dirigiu uma vastíssima obra missionária, que se estendeu pela Argélia, pela Tunísia, por toda a região do Saara, pelo Sudão, pelas terras próximas aos grandes lagos de Niassa e Tanganica, e chegou até Jerusalém.
Não é este o momento de analisar as atitudes políticas tão controvertidas do Cardeal Lavigérie. Mas não se pode negar que ele é a mais ilustre figura da história das missões africanas no século passado.
Por isso mesmo, a decisão do governo da Tunísia, de remover a estátua do apostólico Purpurado, tem o valor de um símbolo. Indica que a tendência do movimento pan-árabe que domina os povos dessa raça recém-emancipados é destruir todos os sinais de Religião Católica que os europeus tenham deixado em seus territórios. Do mesmo modo, a intenção de incluir na nova constituição tunisiana o princípio de que o Estado deve ser muçulmano, revela propósitos que justificam a mais viva preocupação.
Nem sempre os movimentes de independência dos países árabes têm posto a nó seu fundo muçulmano. Tem havido, entretanto, alguns fatos como estes da Tunísia, que para observador atento constituem indícios preciosos. Foi com base neles que recentemente um grupo de personalidades francesas de destaque, do qual fazia parte o Emmo. Cardeal Saliège, Arcebispo de Toulouse, assinou um "apelo para a salvação e o renovamento da Argélia francesa", que declarava ser o movimento pan-árabe "um imperialismo teocrático, fanático e racista".
OS ARABES QUEREM CHEGAR ATÉ POITIERS
Ao longo da história da Igreja, já por duas vezes o perigo muçulmano atingiu um ponto de paroxismo. No século VIII, os árabes conquistaram toda a península ibérica; e se não fosse a vitória de Carlos Martel sobre os invasores, em 732, na batalha de Poitiers, todo o orbe católico teria corrido um risco iminente de ser dominado pelos infiéis. Em 1529, os turcos, também eles maometanos, chegaram às portas de Viena, e quarenta anos depois o Papa São Pio V se via obrigado a promover a constituição de uma armada poderosa, que salvou a Cristandade derrotando os turcos em Lepanto, em 1571.
Se pensamos, pois, no que foi outrora o perigo muçulmano, e nos feitos heróicos de nossos predecessores na Fé para debelá-lo, enche-nos de ansiedade ver o ímpeto com que está renascendo o poderio dos filhos de Maomé. Com efeito, enquanto o seu "imperialismo teocrático" se reveste do mesmo fanatismo religioso que caracterizou os primeiros sequazes do Alcorão, onde estão os cruzados? Onde estão ao menos os que se dão conta dos fatos que revelam esse renascimento? Talvez não seja inútil recordar alguns desses fatos.
Segundo declarou recentemente um de seus líderes, os árabes não querem apenas libertar a Argélia, mas é seu propósito reconquistar a península ibérica e chegar até Poitiers, como o fizeram seus ancestrais. As agencias telegráficas reproduziram essa declaração.
A recente eleição do Coronel Nasser para a presidência da República do Egito, que coincidiu com a retirada das tropas inglesas do país, constituiu uma verdadeira festa triunfal do mundo ismaelita. Nasser teve 99,9% dos votos. À sua posse compareceram representações de todos os Estados árabes. Os visitantes o qualificavam de "líder do arabismo", "campeão da independência", "herói da Revolução". Por ocasião das cerimônias, a cidade do Cairo como que entrou em transe: embora o dia da posse não fosse feriado, todas as atividades suspenderam-se, espontaneamente, e as manifestações entusiásticas do povo, que atribuíam a Nasser algo de messiânico, atraíram a atenção do mundo inteiro.
Esses acontecimentos do Egito se tornam particularmente significativos quando lemos no noticiário internacional que os países árabes pretendem constituir um Estado único, sob a liderança egípcia.
Assim, em artigo recentemente publicado em "The Economist" de Londres, dedicado à situação da Síria, encontramos as seguintes afirmações surpreendentes: "Nenhum político árabe admitirá hoje que a Nação Árabe é divisível. Todos os partidos políticos sírios, qualquer que seja sua tendência, proclamam essa unidade no primeiro artigo dos respectivos manifestos".
E isto já não é um simples movimento de idéias, pois os diversos governos já iniciaram negociações tendentes à unificação. O primeiro-ministro da Síria, depois de ter conferenciado com Nasser sobre o assunto, fez uma declaração absolutamente insólita no campo da política internacional: "Ficaríamos satisfeitos em ter por líder Gamal Abd-el-Nasser e em vê-lo dirigir os negócios de todos os países árabes, como se eles constituíssem um só país". Poucas vezes na história uma nação terá renunciado com tanta generosidade à sua soberania. Como se explicaria isso, senão pelo fanatismo religioso que está por trás?
Informam os telegramas que, segundo o plano em estudo, a Síria e o Egito se uniriam sob a liderança de Nasser, "teriam em comum um Conselho Supremo de Representantes, e as representações diplomáticas de ambos os países seriam unificadas no exterior". Parece provável que a Arábia Saudita adira em breve a esse novo império em vias de se constituir.
Em novembro de 1955, o presidente da Turquia declarava que "ninguém deve estranhar se o exército turco intervier um dia ao lado dos países árabes para lutar contra um eventual agressor", que evidentemente seriam os judeus. O fato é pequeno, mas muito significativo. O que levaria os turcos o se imiscuírem numa luta entre árabes e judeus? Ninguém ousaria dizer que também eles pertencem à "nação árabe". Por outro lado, o seu magnífico exército de 450.0000 homens, otimamente aparelhado, não pode recear um ataque de Israel. Se considerarmos, porém, que a população da Turquia tem 98% de maometanos, compreenderemos o motivo de seu zelo pelos interesses árabes. E compreenderemos algo de mais importante ainda, isto é, quanto se deve temer que o movimento pan-árabe se transforme, como que por encanto, num movimento pan-maometano, abrangendo também os países muçulmanos não ismaelitas, como a Turquia, a Pérsia, o Paquistão e até a longínqua Indonésia
Claro está que o que nos preocupa não são as consequências que daí possam decorrer para o Estado de Israel, objeto imediato da ameaça formulada pelo presidente turco, - mas sim a dramática perspectiva que se abre para os interesses da Cristandade.
UM NOVO IMPERIO MUÇULMANO?
Quem ignora o que seria a grandeza e o poderio de um imporia constituído por todos os países muçulmanos? O que não poderiam fazer os 320 milhões de maometanos que existem na face da terra, se se unissem todos numa nova guerra santa, com o fanatismo lendário de que têm dado tantas manifestações?
Para compreendermos a importância do mundo muçulmano na eventualidade de uma guerra entre o Ocidente e a Rússia, basta-nos argumentar com os Estados árabes.
Gozam eles de uma excelente posição estratégica, pois ocupam toda uma margem do Mediterrâneo, que é indispensável para o domínio da África e do Oriente Médio. E a posse do Extremo Oriente é quase impossível para quem não contar com a Ásia Menor, especialmente com Suez.
Seus recursos econômicos já são enormes; sobretudo o petróleo de que dispõem confere-lhes uma importância estratégica ímpar.
Se se realizarem os recentes projetos russos e americanos de auxílio às nações árabes, poderão elas constituir uma potencia industrial de primeira grandeza. Por exemplo, a barragem de Assuã, que represará as águas do Nilo, será a maior do mundo e dotará o Egito de recursos novos e incalculáveis.
No caso de uma guerra entre o mundo ocidental e os comunistas, de que lado se colocaria esse potencial imenso? Os árabes se dizem neutros, mas é evidente que entre eles estão predominando as simpatias pela Rússia. Resistirão à ofensiva econômica que Moscou acaba de lançar a fim de atrair para a sua orbita as nações da Ásia e da África?
QUE DEUS PROTEJA A SANTA IGREJA!
Na primeira metade do século XIX, tendo passado alguns meses na Argélia, Louis Veuillot publicou um livro muito elucidativo sobre o problema árabe, intitulado "Les Français en Algérie". Depois de descrever a mentalidade do maometano, ele pergunta: "O que se faz para assimilar essas populações fanáticas, bastante prontas a esquecer sua religião em troca das vantagens do tráfico e do prazer, porém mais prontas ainda, logo que os lucros do comercio repararem suas perdas, a retomar as armas, à voz daquele que representa ao mesmo tempo, entre elas, a independência e a religião? O que se faz para uni-las à França, para mudar suas idéias e seus costumes, para apaziguar esse fanatismo temível? Não se faz nada, absolutamente nada; e, o que é pior, nada se quer fazer".
E hoje - poderíamos nós perguntar - o que se faz para conservar a África aberta para a pregação do Evangelho? A França, por exemplo, depois de ter perdido a Tunísia e o Marrocos, realiza agora na Argélia alguns esforços que, mais cedo ou mais tarde, também fracassarão. E têm que fracassar, pois já não existe o espírito de cruzada, sem o qual não se poderá vencer o fanatismo muçulmano. Julga-se ilegítimo lutar contra um maometano rebelde, mas não se julga ilegítimo permitir que, como acontece com a Tunísia, um país se declare oficialmente muçulmano, e inscreva isso em sua constituição.
No mesmo livro acima citado, Louis Veuillot diz, pouco adiante: "Não podemos deixar de fazer previsões que amarguram o coração... O cristão, vendo a Religião propositalmente desprezada por aqueles que são encarregados de estabelecer na Argélia o domínio francês, murmura com temor aquele oráculo divino, tantas vezes realizado entre os homens: Nisi Dominus aedificaverit domum, in vanum laborant qui aedificant eam. Que Deus proteja a França".
Que Deus proteja a Santa Igreja — acrescentamos nós — e que não permita que os ímpios sequazes de Maomé se ergam novamente em armas contra os filhos de Jesus Cristo.
N.R. — Este artigo já se achava composto quando da nacionalização da Companhia do Canal de Suez.
VERDADES ESQUECIDAS
É perigoso ter relações com hereges
S. Tomás de Aquino
Por duas razões não se deve manter relações com os hereges. Primeiramente por causa da excomunhão, pois, sendo excomungados, não se deve ter relações com eles, da mesma maneira que com os outros excomungados. A segunda razão é a heresia. - Em primeiro lugar, por causa do perigo, para que as relações com eles não venham a corromper os outros, segundo aquilo da primeira Epistola aos Coríntios (15, 33): "As más conversações corrompem os bons costumes". E em segundo lugar para que não se pareça prestar algum assentimento às suas doutrinas perversas. Daí dizer-se na segunda Epistola canônica de São João (vers. 10): "Se alguém vier a vós e não trouxer esta doutrina, não o recebais em vossa casa, nem o saudeis, pois que quem o saudar toma parte em suas obras más". E aqui a Glosa comenta: "Já que para isso foi instituída, a palavra demonstra comunhão com esse tal: de outro modo não seria senão simulação, que não deve existir entre cristãos". Em terceiro e último lugar, para que nossa familiaridade não dê aos outros ocasião de errar. Por isso, outra Glosa comenta a respeito dessa passagem da Escritura: "E se acaso vós mesmos não vos deixais enganar, outros todavia, vendo vossa familiaridade, podem enganar-se, acreditando que esses tais vos são agradáveis, e assim crer neles". E uma terceira Glosa acrescenta: “Os Apóstolos e seus discípulos usavam de tanta cautela em matéria religiosa, que não sofriam nem sequer a troca de palavras com os que se haviam afastado da verdade”. Entende-se porém: excetuado o caso de alguém que trata com outro a respeito da salvação, com intuito de salvá-lo. ("Quaestiones quodlibetales", quodlibeto 10, q. 7, a. 1 (15) in c.).