Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 628 | página 10-11
| A PALAVRA DO SACERDOTE |

Como explicar a aparição de Samuel mediante invocação da pitonisa de Endor?

Cônego José Luiz Villac

Pergunta — Sr. Cônego: Solicito-lhe que me oriente com relação ao Cap. 28 do 1° Livro de Samuel, que trata de como Saul conseguiu falar com Samuel, que já estava morto, através da Pitonisa de Endor. Faço as seguintes perguntas: 1) É realmente possível falar com os mortos? 2) Em caso de resposta positiva, por que Deus permite isso?

Resposta — Para entender por que Deus permitiu esse fato excepcional de o profeta Samuel aparecer (depois de morto) ao rei Saul, é preciso conhecer, ao menos em linhas muito gerais, a trajetória também excepcional desses dois ilustres personagens do Antigo Testamento.

Ao contrário dos povos circunvizinhos, o povo de Israel não era uma monarquia, mas era dirigido por um representante designado pelo próprio Deus, que recebia o nome de juiz, acumulando as funções de sacerdote, profeta e rei. Diz-se, pois, que o povo de Israel era uma teocracia (governo feito diretamente por Deus).

Estando já velho o juiz Heli, Deus preparou-lhe um sucessor na pessoa de Samuel. A mãe de Samuel, Ana, que era estéril, prometera consagrar inteiramente a Deus o primeiro filho que concebesse, se alcançasse a graça de tornar-se fecunda. E assim o fez, logo que o menino pôde dispensar os cuidados da mãe, entregando-o nas mãos de Heli.

Uma noite, Deus chama por Samuel, o qual acorda, pensando tratar-se de um chamado de Heli. Este porém diz que não o chamou, e manda que o menino volte a deitar-se. Por três vezes repete-se o chamado, até que Heli compreende que a voz é de Deus, e aconselha Samuel a responder dizendo: “Fala, Senhor, que teu servo escuta” (I Sam 3,9). Samuel recebe então a comunicação da terrível sentença pronunciada por Deus contra a casa de Heli, por não ter este corrigido eficazmente seus filhos, que cometiam desmandos no serviço do Senhor.

Saul é ungido pelo profeta Samuel

A profecia se cumpre. Os dois filhos de Heli morrem em batalha contra os filisteus, e a Arca da Aliança, que era o símbolo da presença de Deus entre os israelitas, é arrebatada pelos inimigos. Abalado com estas notícias, Heli morre. Samuel torna-se juiz por vontade de Deus.

Tendo Samuel por sua vez envelhecido, começa a aglutinar-se entre os israelitas uma corrente monárquica, que pede a Samuel que lhes dê um rei, “como o têm todas as nações” (I Sam 8,5). Desagradado, Samuel consulta o Senhor, que lhe diz: “Ouve a voz do povo em tudo o que te dizem, porque não é a ti que eles rejeitaram, mas a Mim, para Eu não reinar sobre eles” (I Sam 8,7). Em todo caso, o monarca escolhido continuará sendo o representante de Deus (cfr. I Sam 12,12).

Assim, Deus encaminha Saul — o futuro rei — a Samuel. Andando à busca de duas jumentas de seu pai, que se haviam extraviado, Saul encontra Samuel, que o cerca de honras e lhe comunica a escolha de Deus: “E Samuel tomou um pequeno vaso de óleo, e derramou-o sobre a cabeça de Saul, e o beijou, e disse: Eis que o Senhor te ungiu por príncipe sobre a sua herança, e tu livrarás o seu povo das mãos dos seus inimigos que o cercam” (I Sam 10,1).

Saul não corresponde ao chamado de Deus

Samuel então convoca o povo, e lançando as sortes sobre as tribos de Israel, estas recaem sobre a tribo de Benjamim. Deitando novamente as sortes, desta vez entre as famílias da tribo de Benjamim, chegou finalmente até Saul. “E Samuel disse a todo o povo: Bem vedes quem é aquele que Deus escolheu, e não há em todo o povo quem lhe seja semelhante. E todo o povo o aclamou dizendo: Viva o rei!” (I Sam 10,24).

Seguem-se as primeiras vitórias de Saul, mostrando que a mão de Deus estava com ele. Começam também, entretanto, as primeiras infidelidades e desobediências a Deus por parte de Saul. Certa ocasião, acossado pelos inimigos, precipita-se e oferece o holocausto, como se fosse sacerdote, em vez de aguardar a chegada de Samuel, como lhe fora ordenado da parte de Deus. Samuel o increpa pela desobediência: “Se não tivesses feito isso, desde já teria o Senhor confirmado para sempre o teu reino sobre Israel; porém o teu reino não subsistirá para o futuro” (I Sam 13,13-14). E em seguida Samuel lhe anuncia que o Senhor já estava buscando um outro homem segundo o seu coração.

A partir de então, a trajetória de Saul torna-se um desastre constante, que termina com a sua total rejeição por parte de Deus: “Porque rejeitaste a palavra do Senhor, o Senhor também te rejeita como rei” (I Sam 15,23).

O rei Saul consulta a pitonisa

Aqui entra em cena Davi, cuja história é mais conhecida. Davi põe-se a serviço de Saul, porque este, atormentado por um espírito maligno, é aconselhado a contratar um tocador de harpa que aliviasse suas angústias. Num primeiro momento, Saul fica comprazido com Davi, mas à medida que este vai adquirindo prestígio aos olhos do povo de Israel — o caso mais célebre foi a vitória contra o gigante Golias — a inveja de Saul cresce. Daí lhe nasce um ódio mortal que chega à perseguição com o intuito de matá-lo.

Entrementes morrera Samuel. Os filisteus se reúnem para atacar o povo de Israel. Contemplando o acampamento dos filisteus, e vendo a grande inferioridade numérica dos israelitas, Saul treme e se agita em seu coração. Consulta a Deus para saber o que fazer, mas Deus não lhe responde nem por sonhos, nem por sacerdotes, nem por profetas. A Saul ocorre a infâmia final: consultar uma pitonisa.

Samuel aparece a Saul e o increpa

Ele próprio, Saul, havia exterminado do país todos os magos e adivinhos, e assim pede a seus servos que lhe indiquem onde poderá encontrar uma pitonisa. Disfarçando-se, Saul vai com dois de seus homens a Endor, onde constava haver uma mulher “que tinha o espírito de Piton”. Esta se apavora, recordando aos forasteiros o decreto de Saul. Este, sem revelar quem era, garante-lhe que nada de mal lhe advirá. Saul pede: “Faze-me aparecer Samuel. E a mulher, tendo visto aparecer Samuel, deu um grande grito, e disse a Saul: Por que me enganaste? Tu és Saul. E o rei disse-lhe: Não temas; que viste tu?”. Diante da descrição da pitonisa, Saul prostra-se por terra, em profunda reverência a Samuel, que lhe diz: “Por que me inquietaste, fazendo-me vir cá?”. Saul explica o grande aperto em que se encontra e como Deus se retirara dele, ignorando as suas consultas. “Por essa razão te chamei, para que me indiques o que devo fazer”. A increpação de Samuel é terrível: “Para que me interrogas, quando o Senhor se afastou de ti, e passou para o lado do teu rival? Porque o Senhor te tratará como eu te disse da sua parte, e arrancará o teu reino da tua mão, e o dará a Davi, teu parente. Porque tu não obedeceste à lei do Senhor [...]; por isso te fez hoje o Senhor aquilo que tu padeces. E o Senhor entregará contigo também Israel nas mãos dos filisteus; e amanhã tu e os teus filhos estareis comigo” (I Sam 28,5-19). Saul se espantou com as palavras de Samuel e caiu por terra desmaiado.

Aconteceu tudo exatamente como Samuel profetizara. Na batalha dos montes de Gelboé, os filisteus puseram em fuga os combatentes de Israel e mataram muitos deles. Três dos filhos de Saul morreram, inclusive Jônatas, que sempre tomara a defesa de Davi perante seu pai. Gravemente ferido pelos arqueiros, e receando o opróbrio de ser exterminado por seus inimigos, Saul pede a seu escudeiro que o transpasse com a espada, o que este terminantemente recusa. Saul lança-se então contra a ponta da própria espada, suicidando-se. Vendo-o morto, seu escudeiro faz o mesmo.

* * *

Esses os fatos narrados na Bíblia, para os quais o consulente pede uma explicação.

É corrente entre os exegetas católicos a explicação de que Deus permitiu a aparição de Samuel para abrir afinal os olhos do rei, que não queria aceitar o fato inexorável de sua rejeição divina, em consequência de suas múltiplas infidelidades, culminando com o recurso à pitonisa, que ele sabia perfeitamente ser ilícito. A uma situação excepcional de uma alma outrora eleita, uma permissão excepcional de Deus. As invocações dos mortos que se fazem, por exemplo, na sessões espíritas, são severamente condenadas pela Igreja.

Mas esse é um assunto por demais extenso para ser tratado neste artigo.


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