Sacerdócio e Eucaristia
Em sessão solene do Congresso Eucarístico Diocesano de Petrópolis, realizada em 29 de abril p. findo, o Exmo. Revmo. Sr. Bispo Diocesano D. Antonio de Castro Mayer pronunciou a magnífica conferencia de que publicamos os tópicos culminantes, acrescentando-lhe subtítulos desta redação:
"A Eucaristia — dignidade incomparável e excelência divina do sacerdócio católico" — é a tese cujo desenvolvimento o eminente e zeloso Prelado desta Diocese petropolitana nos confiou para apresentarmos no seu piedoso Congresso Eucarístico, dedicado à "Eucaristia e o Sacerdócio".
Permiti que enunciemos a mesma tese com outras palavras. Teremos assim a divisão natural do assunto, e indicado o itinerário de nosso pensamento. Seja, pois: "A Eucaristia, fonte da excelência divina do sacerdócio católico, e razão de sua dignidade suprema".
Comecemos.
Excelência divina da Eucaristia
A excelência divina da SSma. Eucaristia só a contesta quem não tem fé. A SSma. Eucaristia é o sacrifício da Nova Lei, a oblação pura, predita por Malaquias, que se oferece ao Altíssimo, "ab ortu solis usque ad occasum eius", em todos os quadrantes da terra. É também o Sacramento permanente. Como sacrifício, é a imolação do Filho de Deus, e todo seu valor se funda neste fato. Como Sacramento permanente, é a presença real do mesmo Verbo feito homem para alimento dos homens: novamente a essência deste Sacramento é o Filho de Deus. A SSma. Eucaristia é, pois, divina sob qualquer aspecto que se a considere. Não há razão para nos demorarmos neste ponto. O que mais propriamente nos compete é mostrar como esta excelência divina da SSma. Eucaristia causa a excelência divina do sacerdócio católico.
"Agit in persona Christi"
Não há dúvida de que no sacrifício da Missa o Sacerdote que dá valor e eficácia à oblação é Jesus Cristo. O Sacerdote eclesiástico, o Padre, não passa de ministro, de instrumento de Jesus Cristo. A imolação mística que ele opera sobre o altar seria uma ação ritual vazia de conteúdo, inútil, não fora a oblação de Jesus Cristo. Todo o vigor de seu ato sacrifical procede da união estreita em que ele está com Jesus Cristo, sempre que sobe ao altar.
Não obstante, por mais modesta que seja a atuação do Sacerdote eclesiástico na realidade do sacrifício da Missa, o fato de ser ela formalmente uma ação sacrifical, e de estar inserida na imolação de Jesus Cristo, dá-lhe uma excelência divina.
Primeiramente, a oblação sacrifical do Padre católico é um elemento indispensável para que haja sacrifício na Missa. O Padre, sem dúvida, não passa de instrumento do Sacerdote principal, Jesus Cristo. É, porém, um instrumento humano, consciente, que colabora com Nosso Senhor, mediante atos vitais próprios. E tão valiosa é esta colaboração que dispensa uma nova imolação de Jesus Cristo. Jesus imolou-se uma só vez na Cruz. Ele não repete na Missa sua imolação. Quem de fato realiza o sacrifício da Missa é o Padre. Assim como sem a Cruz sua imolação seria inútil, assim, sem sua imolação a Missa não seria sacrifício. De maneira que o sacrifício da Missa depende todo de Jesus Cristo, e todo do Sacerdote católico. Sem a imolação, repitamos, de Jesus Cristo na Ceia e no Gólgota, de nada valeria a imolação de nossos altares; mas, sem a oblação sacrifical do Padre católico, também não haveria sacrifício da Missa. O Padre, como afirmamos, dá ao Salvador a possibilidade de renovar seu sacrifício sem Se imolar novamente.
O Padre é, pois, em sentido verdadeiro, o Sacerdote do sacrifício da Missa.
Sendo assim, vale do Sacerdote católico o que se afirma de todo sacerdote com relação ao sacrifício a que se ordena. Em outras palavras, entre sacerdote e sacrifício há uma correlação estreita. São dois termos que se reclamam. Um não pode existir sem o outro, e um ao outro se explicam e se completam. Sem, sacerdote não há sacrifício, e o sacerdote com relação ao sacrifício a "Omnis pontifex, ensina S. Paulo (Heb. 8, 3), ad offerendum munera et Hostias constitutus est".
De onde, sacerdote e sacrifício, como todos os correlativos, estão na mesma ordem, excelência e dignidade. A um sacrifício divino, na sua excelência, corresponde um sacerdote igualmente divino. Por conseguinte, elevado por Deus a instrumento consciente e formal da imolação de uma vítima divina, deve o Padre, na medida do possível, participar da excelência divina de que se adorna o altar a que serve.
O que o raciocínio conclui, os mistérios de nossas igrejas o confirmam.
Com efeito, o Padre na Missa "agit in persona Christi" (S. T. 3, q. 83, a. 1), dota-se dos poderes próprios de Jesus Cristo, assume uma forma, um princípio operativo peculiar a Jesus Cristo. No momento augusto da consagração, não diz ele: Isto é o Corpo de Cristo, este é o cálice do Sangue de Cristo, — e sim: "Isto é o meu Corpo", "este é o cálice de meu Sangue". E a estas palavras, a transubstanciação se faz não no corpo e no sangue do Sacerdote, mas no Corpo e Sangue de Jesus Cristo. No Padre vê o Altíssimo a pessoa de Cristo, com os poderes teândricos do Homem-Deus. Não é isto participar da excelência divina do sacerdócio de Cristo? A quem, algum dia, a não ser ao seu Unigênito, concedeu Deus o poder tão excelso de mudar o pão e o vinho no Corpo e Sangue do Verbo Encarnado? De onde concluímos: quem ordinariamente exerce semelhante poder, é mister esteja revestido de forma correspondente: "actus sequitur formam".
O Padre "agit in persona Christi" não mediante uma ficção jurídica, e sim por uma participação real nos poderes divinos de Cristo. Há, portanto, no sacerdócio católico uma excelência divina, real que lhe faculta agir como a mesma pessoa do próprio Cristo e operar a transubstanciação do pão e do vinho.
Fonte da excelência divina do Padre
Os teólogos afirmam que esta excelência que configura o Sacerdote da Nova Lei ao sacerdócio de Jesus Cristo, é o caráter sacramental, este sinal indelével impresso na alma que a torna capaz dos atos divinos no culto divino.
Mas, esse caráter tão prodigioso, esse sinal tão sublime, de onde o recebe o ministro do Altíssimo?
Ainda uma vez, da Eucaristia. Da Eucaristia não mais como sacrifício da Nova Lei, mas como Hóstia resultante do sacrifício oferecido, ou seja, da Eucaristia como Sacramento permanente. De maneira que a Eucaristia Sacramento causa a excelência divina do Sacerdote católico que a Eucaristia sacrifício nele exige.
Expliquemo-nos.
Afirma Santo Tomaz que o benefício que realizou no mundo a Paixão de Cristo, opera-o no homem a SSma. Eucaristia. Tudo quanto é efeito da Paixão Sacrossanta do Senhor é igualmente fruto deste Sacramento. Em outras palavras, toda a ordem sobrenatural, com suas graças e dons, tem como fonte a Hóstia permanente deixada por Cristo à sua Igreja.
Ainda segundo Santo Tomaz, tal como no cristão, assim na sociedade sobrenatural, toda a vida depende da Eucaristia. É ela o termo de todo o culto divino, e a causa de toda a ordem da salvação. Quem não come de minha carne não viverá eternamente.
Os demais Sacramentos — sempre na síntese tomista — seriam sinais hipócritas se não fora a relação essencial que têm com o Sacramento permanente. Eles operam em virtude desta relação. Pode-se, portanto, afirmar que os efeitos dos outros Sacramentos estão contidos em causa na Eucaristia, têm-na como origem.
A razão última está em que a Eucaristia é a Hóstia divina da Redenção que permanece no seio da Igreja para comunicar à casta Esposa de Cristo, e a todos os seus membros, os inefáveis frutos da Redenção.
Ninguém maior do que ele
Como causa da excelência divina do sacerdócio católico é a Eucaristia a razão da suprema dignidade de que se reveste este sacerdócio.
Santo Tomaz de Aquino afirma que não há ato maior do que o de consagrar o Corpo de Cristo (S. 40, a. 4, 5), e Santo Alberto Magno declara que não pode haver ato mais excelso, e por isso nada supera a ordem sacerdotal. Em outros termos, a participação no sacerdócio de Jesus Cristo que ao Padre confere o Sacramento da Ordem, dá-lhe uma dignidade que, na terra, não encontra outra igual.
Uma dúvida poderia surgir ao pensarmos em Maria Santíssima. Estaria Ela em nível inferior ao Padre? — Não, por certo, em virtude (na qual, aliás, o mais obscuro dos fiéis pode superar até ocupantes dos graus mais elevados da Hierarquia sagrada); mas, e em dignidade? Será o privilégio da Mãe de Deus inferior ao privilégio sacerdotal? Se não o é, como dizer que a dignidade conferida ao Padre pelo poder de consagrar supera todas as demais?
A dificuldade é só aparente.
Realmente, o título de Mãe de Deus coloca Maria Santíssima acima de toda e qualquer criatura, não só real, mas até mesmo possível. Querer, no entanto, opor este título ao sacerdotal, como se constituíssem duas ordens adequadamente distintas, é laborar em erro. A Tradição, é certo, jamais concedeu à Virgem Mãe o poder de consagrar, de sacrificar. Não quer dizer isso, porém, que Nossa Senhora deva ser excluída da participação no sacerdócio de Jesus Cristo.
Pois, de fato, onde e quando Jesus Cristo se tornou Sacerdote? Atendo-nos às palavras de S. Paulo, foi no seio materno, e desde o momento da Encarnação. Nesse instante memorável pelo contacto da natureza divina com a natureza humana, o Altíssimo consagrou Sacerdote Eterno do rito de Melquisedec ao Homem-Deus que ali se formava. E não há distinguir dois momentos, um da encarnação, e outro da consagração sacerdotal, senão que Quem se encarnou foi o Redentor, e não um homem que depois seria eleito redentor. Maria Santíssima concebeu diretamente o Sacerdote da Nova Lei. Por conseguinte, a Maternidade divina de Maria é Maternidade sacerdotal. Quem Ela formou no seu seio imaculado foi o Redentor, desde o primeiro momento da encarnação consagrado Sacerdote e Vítima "in remissionem peccatorum".
A Maternidade divina coloca, pois, Maria Santíssima no plano sacerdotal de Jesus Cristo. Abaixo do Sumo Sacerdote, o Verbo feito homem, mas acima do Sacerdote ministerial. A participação de Maria Santíssima no sacerdócio de Jesus Cristo não é tanta que Lhe dê parte na ação sacrifical do Redentor; nem tão pequena que A faça simples instrumento da renovação desse sacrifício sobre o altar.
Não há oposição entre a dignidade sacerdotal e a sublimidade da Virgem Mãe. Há coordenação harmoniosa de graus de uma mesma participação. Ambos têm o mesmo objeto: a salvação das almas. Aliás, nesta missão admirável e gloriosa de ressuscitar pecadores para o Céu, são os Padres a um tempo ministros de Jesus Cristo e de Maria Santíssima, uma vez que, normalmente, a Maternidade de graça de Maria se exerce mediante a ação sacerdotal.
Ministros de Jesus Cristo, servos de Maria Santíssima, na mais sublime obra da Providência, não têm, não podem ter os Padres quem os iguale em poder e dignidade.
Poderes e dignidade invisíveis aos olhos mundanos.
O que faz do Padre a primeira pessoa na terra, é o Mistério da Eucaristia, o "Mysterium Fidei" por excelência. Vale dizer, sem a luz da fé ninguém pode apreciar devidamente a dignidade sacerdotal. Ela está acima das cogitações humanas. O título de sua grandeza não é daqueles que pesam na apreciação do mundo. Não é o dinheiro, não são as pompas, o poderio, a força, a inteligência. A sublimidade do Padre católico pertence à ordem sobrenatural, e como esta, supera a tudo o que é grande e excelso na ordem natural. A grandeza do Padre é intrínseca, inerente à alma, e, fora de dúvida, suprema. Ninguém mais na terra tem poder sobre o Corpo de Cristo, ninguém pode personificar a Jesus Cristo, orar em seu nome e ser atendido por Deus.
Ainda os Reis, que são ministros do Altíssimo nas coisas no tempo, por isso mesmo que estão circunscritos ao efêmero são e devem considerar-se inferiores ao Padre, como tão digna, sábia e santamente fazia esse grande monarca que foi S. Wenceslau da Boêmia, cuja fé fazia dele o servo da SSma. Eucaristia, dos altares e de seus ministros.
Repercussões na ordem temporal
Misterioso e inexplicável aos olhos do mundo, não deixa o sacerdócio católico de ter largas, profundas e sobremaneira benéficas repercussões na ordem temporal. Já Leão XIII dizia que a Igreja não foi instituída para cuidar das coisas do tempo; sua doutrina e sua pujança porém são tais que o progresso verdadeiro, a felicidade real dos povos estão subordinados à fidelidade à Igreja. A História ilustra o pensamento do grande Papa.
A ordem temporal depende da ordem sobrenatural. Não são duas ordens superpostas e autônomas que correm paralelas, com boas relações de amizade, mas independentes uma da outra. Não. Estas duas ordens estão intimamente entrelaçadas, de maneira que é impossível, na urdidura dos fatos, separar uma da outra. Em todos os eventos humanos há uma relação necessária com a Providência que dispôs a salvação do homem mediante sua elevação à ordem da graça. Depois que o Sangue de Jesus Cristo banhou a terra, não há coisa alguma que tenha o direito de ser profana. Tudo ficou sagrado pelo Sangue do Cordeiro. Até a natureza inanimada tomou parte no luto que cobriu a terra por ocasião do deicídio, e no dizer de S. Paulo essa natureza geme na expectativa da glorificação final de Jesus Cristo (Rom. 8, 21-22). A seu modo, ela também se entrosa na providência da redenção, e um dia será transformada no novo Céu e na nova terra (Apoc. 21, 1), para alegria perene dos eleitos. Numa terra assim santificada, como se poderia legitimar uma ordem de coisas meramente natural?
No complexo histórico em que se agita a humanidade, pode o vigor analítico da inteligência abstrair a parte que, noutra providência possível, seriam os elementos de uma ordem dentro dos limites do natural. É, porém, uma abstração, útil para a apologética, estéril para a vida. Dela se utilizam teólogos e doutores nos "preambula fidei", mas afastam-na quando cuidam da edificação do Corpo Místico, que, no ideal do Divino Mestre, abrange todos os homens.
Assim, Santo Tomaz (cfr. De Malo, q. 2, a. 5, ad 7) não admite no justo, no homem elevado pela graça santificaste, ato humano que não seja nem meritório de vida eterna, nem digno dos castigos divinos, ou seja, o ato de honestidade só natural. Em outras palavras, na síntese tomista só ao pecador são facultadas ações naturalmente honestas. De onde uma sociedade estruturada com abstração da ordem sobrenatural, só assumindo elementos, princípios e conclusões de alçada meramente natural, seria uma sociedade de pecadores e para pecadores. Ora, é injurioso ao Sangue de Jesus Cristo admitir como normal que os homens vivam em uma sociedade cuja própria estrutura em certo sentido impõe, ou ao menos aceita como ordinário e lícito, que os homens vivam em pecado.
Não residiria no esquecimento ou desprezo do fato histórico da elevação de toda a natureza pela Paixão e Morte de Jesus Cristo, a causa da crise tremenda que abala o mundo e o ameaça de irremediável catástrofe? — É o caso de perguntar, uma vez que a ordem temporal só se aperfeiçoa quando os que por ela respondem aceitam humildemente a missão, aliás gloriosa, de serem ministros de Deus nas coisas do tempo, para dispô-las no sentido de facilitar aos indivíduos a consecução dos bens eternos.
Numa ordem social assim constituída, avulta a sublimidade do sacerdócio católico. Inversamente, onde o temporal se paganizou, ou pior ainda, se laicizou com flagrante violação dos direitos do Divino Redentor, é quase impossível avaliarem-se devidamente as realidades sobrenaturais e, pois, a dignidade sacerdotal. A profanação do homem impede-lhe o conhecimento das coisas de Deus.
O Padre no Estado "vitalmente cristão"
Infelizmente vai se tornando geral o desconhecimento das disposições divinas a respeito da estrutura social e política dos povos. As nações todas, umas mais, outras menos, laicizaram costumes e legislação. Da parte dos governos são frequentes e até habituais declarações e mesmo providências favoráveis aos católicos e as suas atividades, sempre, no entanto, sem compromisso formal com a única verdadeira Igreja de Cristo, a arca da salvação de todos os homens. Em outros termos, situam-se os governos num campo meramente natural, e vista dessa perspectiva a Igreja não passa de um entre os inúmeros fenômenos sociais, ao qual se deve dar atenção como aos demais, religiosos ou profanos, esportivos, artísticos, carnavalescos, etc..
Dois fatores podemos apontar como causa da atitude que, hoje em dia, comumente tomam os povos com relação à Verdade Revelada.
Um, o persistente apego dos governos posteriores a 1789 ao falso ideal da Revolução Francesa, consubstanciado nos princípios abstratos de "liberdade, igualdade, fraternidade", que os revolucionários elevaram ao pedestal de verdades e bens supremos de toda a ordem humana. Na realidade e na intenção dos discípulos da Enciclopédia, essas três palavras significavam a revolta contra a justa desigualdade e a hierarquia, queridas por Deus, e que eram o substratum da estrutura social anterior. Não é de admirar, pois, tenham elas dado origem a uma concepção de Estado laica e pagã.
O pior mal dessa concepção está precisamente nisso. Ela é má não tanto por ser utópica quanto por representar uma revolta consciente contra o Criador. O que, de fato, queriam os revolucionários era alijar Deus das cogitações humanas.
No entanto para que se veja quão profundas raízes deitou a obra social da Revolução, atente-se para o fato seguinte:
Fora da ordenação estabelecida por Deus, assim o indivíduo como a sociedade degeneram. De onde, os princípios abstratos de "igualdade, liberdade e fraternidade", engendrados pelo homem como desafio à disposição de Deus, terminaram, por seu mesmo impulso natural, por levar à tirania, à escravidão e ao egoísmo. Leão XIII, em mais de uma encíclica, salientou o nexo necessário entre aqueles princípios e estas consequências.
Seria, portanto, de se esperar que as pessoas votadas ao estudo das questões sociais, e ciosas de uma solução para os problemas que angustiam o Estado e enchem de preocupação o convívio humano, se voltassem contra a origem do mal, matando-lhe a raiz. No entanto, se excetuarmos a Igreja, não é o que comumente vemos. Muito pelo contrárion. Na generalidade, as soluções preconizadas por estadistas e sociólogos constroem-se sobre aqueles mesmos erros, fixados como base irremovível. O resultado ê que as soluções apresentadas mais acentuam do que destroem o espírito revolucionário. E assim, amainados os furores, os conflitos sanguinolentos e perseguições violentas do começo da Revolução, vai a sociedade se tornando pacificamente cada vez mais laicizada.
A outra causa a que acenamos acima, não é estranha à que apontamos agora. E age mais profundamente. Não fora a confiança na graça de Deus, levar-nos-ia a desesperar da salvação social.
Desde a Renascença, quebrou-se nos povos cristãos a intransigência de princípios que antes os caracterizava. A partir do momento em que o mercantilismo do judeu medieval fundou uma associação contra a guerra em geral, fosse ela qual fosse, o espírito do mal começou a minar cada vez mais a fortaleza dos bons, que passaram a viver sempre mais de meias verdades, vale dizer, de falsos princípios. O vírus fez progresso, avolumou-se, tomou conta do organismo e generalizou a persuasão de que o homem nasceu para viver na terra; de que o supremo ideal — ao qual se sacrifica tudo, bens, família, reputação e até a própria vida — não é mais a salvação eterna, e sim a coexistência pacífica de todos, bons e maus, fiéis e pagãos, amigos de Jesus Cristo, enfim, e toda a gama interminável de seus inimigos. Na concepção, na linguagem e na conduta de uma grande maioria, a Igreja perdeu o caráter militante; o Divino Salvador não é mais a pedra de escândalo posta para discernir as pessoas, os bons e os maus, os fiéis e os pagãos; deixou de ser a espada que viera separar o pai do filho, a esposa do esposo; sua figura é envolvida numa nuvem luminosa bastante clara para enlevar as almas, assas espessa para diluir os traços marcantes de sua fisionomia; a atitude do católico já não é "sim, sim; não, não", mas o silêncio diante das várias opiniões, sua doutrina perdeu a firmeza do granito, seu espírito a solidez da rocha, e ele passou a ser um homem mole, indulgente com todos, oferecendo a todo o mundo o ramo de oliveira, num anseio incontido de uma grande confraternização universal, sem distinção de cor política ou religião.
O quadro que aí delineamos pode parecer carregado. Não obstante, tudo que nele se afirma se verifica na hoje corrente legitimação do Estado profano — ou, numa linguagem sibilina, vitalmente cristão — equidistante de todas as confissões religiosas, como feliz resultado de um ajustamento maior à índole e costumes de certos povos, e de uma autodeterminação de finalidade que superou as estreitezas do "Estado sacral" em que a Igreja vivia de mãos dadas com o poder civil.
Em semelhante concepção do Estado e da sociedade, onde ficam a grandeza e sublimidade do sacerdócio?
— Nas virtudes do Clero?
— Sim, pois que estas são indispensáveis para que o Padre exerça condignamente seu sublime encargo.
É preciso, porém, não confundir a dignidade objetiva da missão sacerdotal e as qualidades de que se devem dotar os que a desempenham.
O sacerdócio católico possui uma grandeza própria, em virtude da qual a todos os Padres, ainda quando censuráveis por seu procedimento, devem o Estado e a sociedade respeito e veneração, em virtude do cargo que ocupam e que faz deles ministros de Cristo, agentes "in persona Christi".
Ora, sem uma perspectiva sobrenatural não é possível avaliar a sublimidade do sacerdócio. A consequência é evidente; urge modificar a sociedade afim de que seja o sacerdócio ordinariamente, diríamos espontaneamente, apreciado como o que de mais excelso foi concedido ao homem. — Como fazê-lo?
Permitam-nos responder com duas observações, e duas diretrizes seladas pela sabedoria de um Santo.
As observações: 1) Como a estrutura jurídica do estado liberal moderno só se concretizou após uma preparação ideológica paulatina e constante, assim a harmonia ideal entre a sociedade e a Fé, o retorno à aliança entre o Estado e a Igreja pede um contínuo esforço apostólico com o fim de orientar os meios sociais para esse ideal. De outro modo, a união entre os poderes espiritual e temporal seria mera expressão jurídica, sem consonância com a mentalidade dominante. 2) Como em toda ação apostólica, também nesta cabe ao Padre parte capital, na qual deve ele mostrar-se verdadeiro guia que é, do povo católico.
As diretrizes apostólicas, tomamo-las à vida e obra de S. Pio X. Entre normas de apostolado aprovadas pelo Santo Pontífice, seu processo de canonização registra as seguintes:
O escândalo da Cruz, arma invencível
"Nós somos inteiramente contra toda tentativa de impedir a influência social do Papado, e de fazer dominar o laicismo. E somos por um esforço contínuo visando reconduzir o mais possível a vida social à influência legítima e benéfica do Papado e, em geral, da Igreja Católica".
"Somos contra o interconfessionalismo, a neutralidade e o minimalismo religioso na organização e ação social, no ensino, bem como em toda atividade do indivíduo e da coletividade, a qual depende da verdadeira moral, e portanto da verdadeira Religião, e portanto da verdadeira Igreja. — Somos pelo confessionalismo em todos os casos previstos pelo item anterior; e, se em casos excepcionais e transitórios a Santa Sé tolera uniões interconfessionais, — somos pela aplicação conscienciosa e controlada de tal tolerância e pela sua duração e extensão o mais possível restrita, segundo as intenções da Santa Sé".
"Somos contra o nacionalismo pagão, que corresponde ao sindicalismo a-religioso (considerando aquele as nações, e este as classes, como coletividades das quais cada um pode e deve cuidar amoralmente dos próprios interesses por cima dos alheios e contra eles, segundo a lei brutal do mais forte); e ao mesmo tempo, contra o anti-militarismo e o pacifismo utopista".
"Somos contra a doutrina e o fato profundamente anticristãos, da separação entre a Igreja e o Estado, bem como entre a Religião, a civilização, a ciência, a literatura, a arte.
— Somos pela união leal e cordial tanto da civilização, da ciência, da literatura, da arte, quanto do Estado. com a Religião e portanto com a Igreja.
... qual mesmo quando não é estritamente modernista, se torna ao menos igual a um ensino arqueológico ou anatômico, como se não se tratasse de uma doutrina imortal e vivificadora que todo o Clero sem exceção, deve aprender sobretudo para o ministério sacerdotal. — Somos pelo ensino eclesiástico inspirado e guiado pela gloriosa tradição da Escolástica e dos santos Doutores da Igreja e dos melhores teólogos do tempo da Contra-Reforma, com todos os subsídios sérios do método e da documentação científica".
"Somos contra a mania e a fraqueza de tantos católicos, de querer parecer conscientes e evoluídos, verdadeiramente de seu tempo, e ingênuos diante do inimigo brutal e hipócrita, mas sempre implacável, — prontos a estender sua tolerância, e a envergonhar-se quando não a falar mal dos atos de justo rigor praticados pela Igreja ou em favor dela, — prontos a um otimismo sistemático diante dos artifícios dos adversários e reservando sua desconfiança e dureza para os católicos romanos sem mácula. — Somos por uma atitude justa e conveniente, mas sempre franca, enérgica e infatigável diante do inimigo, de suas violências, de suas astúcias".
Até aqui as normas de apostolado aprovadas por S. Pio X.
Estas normas de ação estão em harmonia com os ensinamentos do Santo Papa a propósito do apostolado, dadas na encíclica "Iucunda Sane" de 1904, Por ocasião do 13o centenário da morte de S. Gregório Magno.
Nesse documento o Santo Padre recomenda a prudência discreta, reprova o modernismo no apostolado, indica as armas a usar, e a maneira de lhes conferir eficiência.
Aconselha prudência: "Sem dúvida, quando se tratar de esclarecer homens hostis a nossas instituições e inteiramente afastados de Deus, a prudência poderá autorizar o uso de certa contemporização". A palavra "certa" dá o tom a este conselho, como se vê pelo que se segue: "Mas seria transformar uma habilidade legítima em uma espécie de prudência carnal, erigir esse procedimento em regra de conduta constante e comum". "Uma tal prudência, S. Gregório desconheceu-a quer na pregação do Evangelho, quer nas outras obras admiráveis que realizou para aliviar as misérias humanas".
Que armas então usará o apóstolo num mundo geralmente hostil? "Ele (S. Gregório), prossegue S. Pio X, se apegou ao exemplo dos Apóstolos, que diziam, no dia em que empreenderam percorrer o universo a fim de anunciar a Cristo: Pregamos Jesus Crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios"-.
Estas armas são de todos os tempos. De fato, "se houve época — continua o Papa — em que o socorro da prudência humana pôde parecer oportuno, foi certamente aquela; porque os espíritos de modo algum estavam preparados para acolher a nova doutrina, que repugnava tão vivamente às paixões dominantes por toda parte, e chocava de frente a brilhante civilização dos gregos e romanos. Entretanto, os Apóstolos julgaram essa espécie de prudência incompatível com sua missão, porque conheciam o decreto divino: é pela loucura da pregação que aprouve a Deus salvar os que creram nele".
Acrescenta o Papa, para que não haja a menor dúvida sobre a atualidade destes conselhos: "Esta loucura foi sempre e ainda é para os que se salvam, isto é, para nós, a força de Deus: o escândalo da Cruz forneceu e fornecerá de futuro as armas mais invencíveis; ele foi outrora e ainda será para nós sinal de vitória".
Não se pode falar com maior clareza e autoridade. Queremos vencer o ambiente pagão, laico, do mundo moderno? Oponhamo-nos diretamente à concepção reinante, em nome da genuína doutrina da Igreja. Venceremos, se observarmos as condições que S. Pio X nos aponta para eficácia de tais armas: "Perderão elas toda sua força e utilidade se forem manejadas por homens que não viverem interiormente com Jesus Cristo, que não forem impregnados de uma verdadeira e robusta piedade, que não forem abrasados pelo zelo da glória de Deus, pelo ardente desejo de dilatar seu reinado". Em outras palavras, a condição essencial de êxito das armas da Fé é a vida interior com todo o seu séquito de austeridade, renúncia e mortificação.
Não se confundir com o povo
Vida interior. Vida, porém, não são só as idéias boas e sadias. Vida é todo um procedimento habitual e perseverante. É uma sucessão de atos, nos quais, em todos e cada um, opera o espírito de que está possuído quem os pratica.
Ao Padre não basta que possua idéias claras, que as exponha com desassombro contra o espírito mau
(continua)