cem diante do palácio de Pilatos, o procônsul romano, pedindo, com altos brados, a morte de Jesus. Um juiz de consciência teria proclamado sem contradita a inocência do acusado e, em caso de necessidade, dispersaria pela força os sinedritas com os energúmenos por eles assalariados. Porém, dominado pelo temor de se comprometer, recuou Pilatos diante de sua obrigação. Pôs-se a parlamentar com os mentores do motim, coisa que, naturalmente, lhes aumentou a audácia.,
É interessante notar, no decurso desses acontecimentos, o processo de uma revolução. Primeiro são os chefes do Sinédrio que arregimentam sucessivas turbas cada vez mais numerosas. É como cresce uma sublevação, quando não encontra em oposição força suficiente para esmagá-la. Depois comparecem eles diante de Pilatos em evidente atitude intimidatória. Com efeito, Pilatos estava com medo de ser denunciado como um homem que zela pouco pelos interesses do Imperador Romano, e, por isso, temia perder o cargo de procônsul. Assim, devido a uma vil ambição, vai cometer a maior injustiça da História. E se Pilatos caiu até esse ponto, foi porque começou por parlamentar com aquela gente.
Pilatos era um procônsul mole. Embora sabendo que a multidão não reagiria diante dos soldados romanos, e certo de que, nessas condições, poderia ter uma vitória fácil, rápida e brilhante, ele absolutamente não quis empregar a força em favor do direito.
Note-se de passagem que assim também agiram Luís XVI e Nicolau II, respectivamente diante da Revolução Francesa e da Bolchevista. E com isso tornaram-se responsáveis não só pela própria morte, mas também pela de familiares seus e de incontáveis membros da nobreza e do povo de seus países.
Mas, voltando a Pilatos, é o caso de perguntar: por que terá ele agido assim? É que, do contrário, o Sinédrio faria uma denúncia contra ele ao Imperador Romano. Denúncia falsa, contra a qual o procônsul facilmente poderia se defender. Contudo, não foi o que aconteceu.
Veremos como esse espírito mole e ambicioso irá recuando e se degradando ao longo dos fatos.
À primeira concessão, segue-se o resvalo
Eis o exórdio de sua arenga: "Há algumas horas apresentastes-me este homem como um faccioso, revoltado contra a dominação romana. Ora, depois de o ter interrogado diante de vós, não achei fundamento nenhum nas acusações que Lhe imputáveis. Remeti-vos para Herodes, e vedes que o tetrarca também não O julgou digno de morte..." Ia prosseguir, quando os amotinados, pressagiando uma sentença de absolvição, o interromperam com gritos ferozes e sinais de furor diabólico. Pilatos ficou de tal modo atemorizado que, depois de ter estabelecido a perfeita inocência de Jesus, concluiu sua alocução de um modo singular e de todo inesperado: "Como este homem de nenhum modo mereceu a pena capital, mandarei açoitá-Lo e depois soltá-Lo".
É inocente, portanto vou mandar açoitá-lo! Por que não mandou açoitar aquela gente que ali estava? Pegasse ele cinco ou dez dos mais revoltados, mandasse os soldados romanos arrastá-los ao lugar onde se promoviam os açoites, e os açoitasse! E depois dissesse: "Agora, se continuardes, vou pegar outros!" Não foi o que fez.
Esta concessão covarde produziu violentos protestos. Se Jesus é inocente, por que açoitá-Lo? Se é culpado, por que poupá-Lo? E de todos os ângulos da praça elevaram-se clamores selvagens: "Morte! Morte! Queremos que ele morra!"
É mais um gesto dos amotinados. Não havia culpa da parte d'Ele. Isso foi reconhecido pelo procônsul, ou seja, pelo governador do lugar. Então, o que fazer d'Ele? A subversão grita: "Morte! Morte!" Razão? Não há razão. É porque queremos que Ele morra. Assim é a subversão!
Quando a autoridade, para servir a justiça, para servir o bem, usa de energia, a subversão grita: "Violência! Injustiça! Não pode ser!"
A isto só se responde com energia preventiva. Feita a primeira concessão, o resto é resvalo!
Na multidão enfurecida, sempre há desordeiros
Resolveu Pilatos permitir ao povo que escolhesse entre Jesus e Barrabás, um malfeitor insigne, chefe de horda de salteadores, cujo nome inspirava terror. Cinco dias antes, aquele povo levava Jesus em triunfo! Seria ele capaz, tão pouco tempo depois, movido por um sentimento de ódio execrável, de preferir Barrabás? Não podia Pilatos, devido a seu pouco zelo, crer tal.
Levantando, pois, a voz, de modo a que o ouvisse a multidão, recordou-lhes como naquele dia tinha por
costume libertar um criminoso. E, depois, sem lhes dar tempo de tomar conselho, perguntou aos assistentes: "Qual dos dois quereis vós que eu ponha em liberdade: o salteador Barrabás ou Jesus, vosso rei?"
Ali estava Jesus, cuja santidade divina qualquer um podia contemplar. Que por toda parte havia praticado milagres, feito sermões admiráveis, pregado as virtudes mais eminentes e delas tinha dado exemplo! É o pináculo da perfeição. De outro lado, em sentido oposto, Barrabás, o pináculo da infâmia, o pináculo da torpeza!
Pilatos - como sempre em todos os seus atos, um mole, um centrista - com certeza achou que os homens não seriam tão ruins, que preferissem Barrabás a Jesus. Ele não compreendia o seguinte: quando os homens não seguem a Jesus, preferem quase necessariamente a Barrabás!
É o que veremos a seguir.
Evidentemente, os chefes do Sinédrio dispunham de agentes que, como um mau fermento, agitavam a massa. Pilatos deveria mandar vir logo todas as legiões romanas aquarteladas em Jerusalém e pô-las ali na praça, munidas de armas e de todo o necessário para debelar a rebelião.
Porém, não foi o que ele fez!
E quando, alguns momentos depois, renovou a pergunta, ecoou-lhe aos ouvidos este grito feroz, que dominava toda a praça: "Não Este, mas Barrabás! Queremos Barrabás! Dai-nos Barrabás!"
E Pilatos respondeu-lhes: "Que quereis vós então que eu faça de Jesus, rei dos judeus?"
E o povo todo, a urna voz: "Crucifica-O! Crucifica-O!"
Condenação de Nosso Senhor, decorrência de sucessivas concessões
Pilatos foi mais uma vez vencido. Em lugar de prolatar uma sentença em nome da justiça, tinha receado contrariar as paixões de um povo fora de si. E agora aquele povo, encarniçando-se contra a sua presa, impera como senhor. Já não vê nem ouve. É um tigre sedento de sangue. Pilatos volta à sua primeira ideia. Já que o povo quer sangue, ele o fornecerá, mas com certa medida. Mandará açoitar Jesus para dar alguma satisfação aos judeus, e depois, colocá-Lo-á em liberdade.
É sempre o cálculo do fraco: conceder algo à sublevação para tranquilizá-la. Com isso, apenas a assanha. A multidão, por sua vez, açulada pelos sacerdotes, não cede, e avança por cima da autoridade que, por moleza, não cumpre o seu dever.
Após o episódio estúpido e cruel da flagelação, os soldados levaram Jesus a Pilatos. Este não duvidou que aquela figura ensanguentada inspiraria, enfim, ao povo, um sentimento de comiseração. "Torno-vos a trazer o acusado, disse ele, e declaro-vos mais uma vez que O julgo inocente. E, caso fosse culpado, ides ver em que estado Ele se encontra, e dar-vos-eis por satisfeitos".
E Jesus, levado pelos soldados, apareceu ao lado de Pilatos, com o rosto inundado de sangue, com a coroa de espinhos na cabeça e com o andrajo de púrpura sobre as espáduas. Estendendo o braço para Ele, mostrou-O Pilatos ao povo:
"Eis o homem!" - bradou ele com força. Vozes dos chefes e dos desordeiros, seus agentes, responderam-lhe: "Crucifica-O! Crucifica-O!"
Disse Pilatos: "Que eu O crucifique? Tomai-O vós mesmos e crucificai-O. Quanto a mim, repito-vos que não encontro motivo para uma condenação".
Pilatos recusa uma derradeira graça
"É culpado – vociferavam eles em tom ameaçador – e,
segundo a nossa legislação, deve ser punido com a morte, pois Se atreveu a proclamar-Se Filho de Deus".
Ao ouvir este nome de Filho de Deus, o olhar de Pilatos fixou-se em Jesus, sempre calmo e paciente em meio de dores e ignomínias. Recordou-se daquelas palavras que Jesus dissera: "O meu Reino não é deste mundo", e começou a pensar se não teria diante dos olhos um daqueles gênios benéficos que os deuses enviavam aos mortais para lhes revelar um segredo. Deixando de novo os judeus a tumultuar a praça, reentrou no Pretório e mandou que lhe levassem Jesus, a fim de esclarecer aquele mistério. "Donde és Tu?" perguntou-Lhe Pilatos.
Jesus, entretanto, nada respondeu, o que acabou de desorientar o procônsul, que se sentia subjugado pelo ascendente de um Ser em tudo superior aos outros homens.
À pergunta de Pilatos - "Não me respondes a mim? Não sabes que tenho poder sobre ti, e que de mim depende mandar-Te crucificar ou pôr-Te em liberda-
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