Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 508 | página 12-13
| SEMANA SANTA | (continuação)

de uniformes e condecorações de todas as Ordens, alguns anciãos, todos distintos, todos portadores de nomes e títulos ilustres, muitos deles servidores, em diversas ocasiões, do Estado. Reza-se em latim o Evangelho do dia:

"Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. Se Eu, pois, (sendo vosso) Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Porque Eu vos dei o exemplo, para que, como Eu vos fiz, assim façais vós também. Em verdade, em verdade vos digo: o servo não é maior do que seu Senhor, nem o enviado é maior do que aquele que o enviou. Se compreendeis estas coisas, bem-aventurados sereis, se as praticardes".

O Rei e a Rainha lavam os pés dos mendigos

Então, é abençoada a assembleia. O Rei e a Rainha são espargidos com água benta e, dando as costas ao altar, voltam-se face ao público. O Rei, secundado pelo Duque de Miranda, seu grande camarista, entrega sua barretina militar a um cavaleiro e, tirando as luvas brancas e a espada, as dá a outro.

A Rainha confia sua bolsa e suas luvas a uma de suas damas e, neste mesmo momento, cingem-na, e ao Rei, com amplas toalhas brancas oferecidas em bandejas de ouro pelo clero, aos ajudantes, para tal efeito.

Enquanto isso, um Grande de Espanha se ajoelha ante cada ancião e lhe tira os sapatos e as meias. Uma Duquesa, Marquesa ou Grande de Espanha, todas damas de Sua Majestade, a Rainha, está genuflexa também ante cada anciã, executando a mesma função para com ela.

O Rei, com a toalha branca por cima do uniforme, e na mão um grande guardanapo branco, ajoelha-se ante o ancião mais próximo ao altar, que mantém o pé sobre a grande bacia de prata. O Bispo lhe despeja um pouco de água e o Rei o seca cuidadosamente e o oscula.

Deslocando-se de joelhos, repete a cerimônia com cada um dos outros onze. Algumas vezes seus lábios tocam uma ferida. Outras vezes, um artelho inchado, deformado por alguma enfermidade ou transformado em algo repugnante pelos anos e pelo trabalho. À medida que passa o Rei, o Grande (de Espanha), encarregado de cada pobre, volta a lhe colocar as meias e os sapatos.

A cerimônia é profundamente rica em significados, de emoção incrivelmente pungente: assim é a Espanha. Em nenhum outro país poderia assumir valor ou expressão tão vivaz. Na Espanha, a pobreza não é ignóbil.

Enquanto o Rei lava os pés dos anciãos, a Rainha lava de modo análogo os das anciãs. Demora mais porque, depois de cada lavapés, precisa levantar-se e voltar a ajoelhar-se, dado que seu longo vestido torna impossível o procedimento mais expedito do Rei. Este, ao terminar, a fica aguardando no centro do salão, ante o altar. Ao cabo de certo tempo, a Rainha se aproxima dele.

O banquete dos pobres é servido pelos Soberanos

São trazidos os pequenos vasos de ouro, e os Soberanos lavam as mãos, sendo servida a Rainha pela Duquesa de San Carlos, e o Rei pelo Duque de Miranda. Enquanto isso, cada dama e cada Grande acompanha cerimoniosamente seu ancião ou anciã, até deixá-lo em um assento da longa mesa preparada de antemão. O Rei se dirige à dos homens, e a Rainha à das mulheres. Os grandes camaristas passam os pratos aos Soberanos, que os colocam ante os hóspedes. Em seguida, o Rei volta à cabeceira da mesa e, a partir dali, vai recolhendo, um a um, os pratos, que entrega ao grande camarista, o qual os faz passar, de mão em mão, até fora do salão. Desta maneira, os oito ou nove pratos são rapidamente servidos. O primeiro é uma

tortilla espanhola de cebola e batata, apetitosa e nutritiva. Vêm a seguir dois ou três pratos de peixe (pois é abstinência). Depois um "queijo de bola" inteiro.

Servem-se depois aos anciãos um pequeno barril de azeitonas, grandes quantidades de ameixas, pêssegos em compota e, por fim, algo que pareceu na torta de arroz

No fim, são tirados os jarros, cada um dos quais contém dois litros de vinho, e as travessas de pão, bem como os copos e os saleiros, porque toda a comida, toda a baixela, os jarros, os saleiros etc., são dados de presente aos anciãos, que os levam consigo, conservando-os como valiosas lembranças, enquanto os alimentos manterão suas respectivas famílias durante uma semana ou mais.

Então o Rei, com um grande movimento de braço, tira a toalha da mesa e a passa ao grande camarista. Sua tarefa está concluída, e foi feita com eficácia e amabilidade, como quase tudo o que é empreendido por Dom Afonso. E o Rei das Espanhas atuando com perfeição, como representante de todos os católicos do mundo, pondo diante deles, uma vez por ano, nesta pictórica cerimônia secular, o alto ideal de humildade e serviço. O Rei lava as mãos novamente, volta para o altar, toma seu sabre, suas luvas, seu capacete, e espera a Rainha....

A magnífica procissão volta a formar-se e sai, tendo, ao fim, os Soberanos. Ao deixar o salão, o Rei se inclina, e a Rainha faz profundas reverências à tribuna do Governo, à régia e à diplomática. O grupo real deixa então seus assentos, inclinando-se à direita e à esquerda. Acompanham-no os diplomatas, os Ministros da Coroa e o público em geral... Terminou o Lavapés.

* S.A.R. Princesa Pilar de Baviera e Comandante Desmond Chapman-1-Iuston, Alfonso XIII, EditorialJuventud S.A., Barcelona, 1959, pp. 243 a 249.
| SEMANA SANTA – CADERNO ESPECIAL |

O iníquo julgamento de Nosso Senhor Jesus Cristo

NOSSO SENHOR – muito mais do que qualquer outro, o Homem das dores, pelos terríveis sofrimentos arrostados, seja na ordem física, seja na ordem moral – tinha perfeito conhecimento de que, mediante sua dolorosa Paixão, ia redimir o gênero humano. Sabia tudo quanto de glorioso e de magnífico dela resultaria. Nas profundezas de seus insondáveis padecimentos, Ele prelibou o surgimento, no futuro, do cortejo de seus incontáveis mártires e santos. Descortinou a difusão da sua Igreja na Bacia do Mediterrâneo, sua penetração na Europa e no Norte da África. Anteviu a glória que adviria para sua Esposa Mística da Evangelização da América. Previu, enfim, toda a sua expansão pelo resto do mundo.

Porém, percebeu também todas as ingratidões, todas as maldades de cada homem, porque Ele, o Homem-Deus, penetrava totalmente os mistérios dos séculos vindouros. De maneira que, durante a sua Paixão, era-Lhe dado antever-nos aqui e agora considerando os seus sofrimentos. Pressentia o estado do coração de cada um de nós: até que ponto tínhamos mérito na meditação de sua Paixão, o modo pelo qual a realizávamos, como correspondíamos às graças que dela emanavam.

Ele ponderou também as profundidades abissais da crise pela qual haveria de passar atualmente a Santa Igreja, seu Corpo Místico! Imaginemos que sofrimentos indizíveis Lhe causou a constatação de que, segundo as próprias palavras de Paulo VI, "por alguma fissura" entraria "a fumaça de Satanás no Templo de Deus", bem como certificar-se de que na sua Igreja "alguns praticam a autocrítica, dir-se-ia até a autodemolição".

E um dos grandes aviltamentos a que está submetida a Barca de Pedro, no atual momento histórico, é o fato de ponderável parcela dos católicos hodiernos fecharem os olhos para a ação daqueles que, no interior da própria Santa Igreja, procuram demoli-la, como afirmou Paulo VI.

Qual a lição a tirar de tudo isto? Esta é a vida do católico! Esta é a vida da Igreja, cheia de humilhações e de vitórias! Humilhações tão grandes, que diríamos: Ela nunca se reerguerá! Vitórias tão grandes, que exclamaríamos: Ela nunca mais cairá nos anteriores opróbrios! É como uma nau velejando por ondas vertiginosas, as quais levantam tão alto, que não se sabe até que alturas a levarão! Mas, de repente, as ondas se liquefazem e a nau está serena no fundo da voragem. E assim a Barca de São Pedro vai atravessando a História, com todas as honras e todos os ultrajes de Cristo.

Nosso Senhor sofreu, em sua sagrada Paixão, todos os ultrajes lançados a Deus e à sua Lei, no decorrer da atual crise que acomete a Santa Igreja, bem como no desenrolar de todas as provações que se abaterão sobre a Esposa de Cristo até a consumação dos séculos. Provações estas que encontram, na injusta condenação a que Ele foi submetido, uma significativa analogia. Por quê?

Precisamente na fase do simulacro de julgamento a que foi constrangido, patenteiam-se - a par da covardia e moleza de Pilatos - o espírito de ódio e de conjuração daqueles que deveriam ser os primeiros a reconhecer e reverenciar o Messias prometido pelas Escrituras: os membros do Sinédrio e as autoridades da Sinagoga, prefigura da Igreja Católica.

Em vista disso, convidamos o leitor a meditar mais profundamente sobre alguns aspectos, geralmente pouco realçados, do oceano de impiedade e de injustiça que representou o mais odioso veredicto da História.

Amotinados diante de Pilatos

Por volta das nove horas, os chefes do Sinédrio, seguidos de multidão cada vez mais tumultuosa, apare-

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