Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 482 | página 20-21

Monte das Cruzes: pungente manifestação de Fé que o Regime não ousou coibir.

(continuação)

visita aos dois principais santuários marianos do país, bem como a cidades da região de Kelme. Este distrito elegeu o deputado Antanas Racas, membro da Comissão de Relações Exteriores e acompanhante oficial da delegação durante toda a estadia. A partida é às 6.30 hs, quando ainda é fria madrugada em Vílnius.

A primeira etapa é a capela da Patrona da Lituânia, Nossa Senhora Porta da Aurora. A pequena e histórica capela está situada sobre um dos portões das muralhas que cercavam a antiga Vílnius. Desde horas matutinas, mulheres e crianças se alternam rezando de joelhos junto ao quadro da Virgem, como puderam constatar os membros da comitiva, no dia 8 de dezembro. “Colocamos nossas capas, desfraldamos o estandarte e rezamos a primeira dezena do Rosário”, comenta um de seus integrantes. O deputado Racas explica que estamos fazendo uma peregrinação para pedir à Virgem a independência da Lituânia. Uma senhora entoa o cântico “Maria, Maria”, súplica dirigida à Santíssima Virgem, na qual se pedem forças para suportar a dor de ver a Pátria ocupada, e a Religião oprimida.

Os integrantes da comitiva atravessam, com capas e estandarte, a Porta da Aurora. Logo após, são conduzidos de ônibus pelo interior da “Terra de Maria". Umas duas horas mais tarde, na cidade de Raisenai, veem cair os primeiros flocos de neve na Lituânia.

Guillaume Babinet, da TFP francesa, narra alguns "flashes" de uma fecunda viagem.

"Em todas as cidades visitadas a recepção é calorosa e comovente. As igrejas, cheias de fiéis e especialmente decoradas para a ocasião. A igreja de Raisenai está ornada com ramos de pinheiros, grinaldas e fitas com as cores da Lituânia, que pendem do teto. Os fiéis entoam o 'Maria, Maria', cântico que já ouvíramos na capela da Patrona da Lituânia.

"Em Siluva, a comitiva dirige-se em cortejo pelas ruas, acompanhada por um sacerdote e seus fiéis, até o Santuário onde Nossa Senhora apareceu em 1608. O fervor então suscitado por essa aparição permitiu aos lituanos vencer a ameaça protestante: A Lituânia continuou sendo a ‘Terra de Maria’, segundo antigo título pontifício.

"Em meio a cânticos religiosos, todos osculam a pedra onde a Virgem apareceu. Os membros da comitiva entoam o Magnificat. Neva cada vez mais. O deputado Racas lembra que a agenda é apertada e o tempo escasso. O ônibus aguarda a delegação. Seus membros cantam o Hino Pontifício, despedem-se do sacerdote e dos fiéis e prosseguem seu caminho.

"Em Tytuvenai somos recebidos no limite do município por populares com trajes típicos, os quais, segundo costume tradicional, nos oferecem um saboroso pão negro e sal. Ao aproximarmo-nos da igreja, os sinos começam a tocar. O pároco nos recebe na porta, rodeado de pequena multidão.

"O órgão da igreja toca, e os fiéis entoam um cântico religioso composto no exílio da Sibéria, enquanto o sacerdote impõe a cada membro da delegação pequena cruz de metal feita clandestinamente durante a perseguição religiosa. Uma tradutora comenta: 'O povo viu que vossas almas são belas!'

"O ônibus passa pela cidade de Siauliai, onde se acha acantonada enorme guarnição russa, com um dos maiores aeroportos soviéticos. E dirige-se ao histórico e comovente Monte das Cruzes, junto ao Rio Kulpe. Ali, desde o século XV, foram eretas muitas cruzes. Na década de 70, funcionários comunistas locais destruíram as 5000 cruzes que o Monte contava então. Novas cruzes se reergueram não só por obra dos habitantes da região, como também de outros lituanos e ainda de estrangeiros, que ali vinham agradecer graças recebidas. Naquele famoso local o Ministro da Educação e Cultura espera a delegação das TFPs. O lugar é impressionante! Sente-se a imensa tragédia, o imenso sofrimento, a imensa Fé da “Terra de Maria”.

"O giro pelas cidades da região termina na cidade de Kelme, com uma recepção no teatro da Casa da Cultura, seguida de visita à igreja Matriz e jantar com personalidades locais na casa paroquial.

“Na igreja, transbordando com mais de 1.200 fiéis, a delegação entra precedida por bandeiras lituanas e pelo estandarte da TFP. Nove meninas de cada lado do corredor, vestidas com trajes típicos, conduzem até o presbitério a comitiva, que foi rodeada com fitas coloridas. Ali, as fitas baixam, e a comitiva avança por sobre elas. Trata-se de antiga tradição do lugar, que simboliza respeito para com pessoas a quem se quer honrar exprimindo suma deferência.

"Um sacerdote diz algumas palavras explicativas sobre as TFPs e celebra a Missa, acolitado por dois outros, pela independência da Lituânia. A seguir, as meninas entregam flores a todos. Sacerdotes, cooperadores das TFPs e fiéis se dirigem então, sob a neve, ao cemitério.

"Junto a uma antiga vala comum, utilizada pelos soviéticos para dissimular os corpos dos combatentes anticomunistas, os sacerdotes cantam o Réquiem. Todos vão depositando suas flores. O presidente da delegação das TFPs, em breves e sentidas palavras, afirma que aqueles que ali estão sepultados precederam o povo lituano e as TFPs, na luta contra o comunismo; e os precederam também no Céu, pois, sem dúvida, são mártires da Fé.

“Cantando La Virgen Maria, a comitiva se dirige, a pé, até a casa paroquial, onde é oferecido um jantar aos visitantes. Estão presentes os três sacerdotes, o Ministro da Cultura da Lituânia, o deputado Racas e personalidades do lugar. Discursos, brindes pela Lituânia e pelas TFPs, em um ambiente de verdadeira amizade e calorosa confraternização.

“Aquela cordial refeição encerra com chave de ouro o circuito da delegação das TFPs pelo interior do país, nesse dia.

“Nosso ônibus ruma para Vilnius, chegando à capital às 2.20hs da madrugada".

9-12-90 VISITA AO CARDEAL

O Cardeal Primaz da Lituânia abençoa os membros da Comissão inter-TFPs, no palácio cardinalício da Kaunas.

O programa dedica todo o dia à visita à segunda cidade do país, Kaunas (420.000 habitantes).

(continua)