Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 474 | página 12-13
Página 12-13 | VIDA DE SANTOS | Venerável Giuseppina Bakhita

Da escravidão até a glória no Céu

Uma das glórias da Igreja consiste em abarcar indiscriminadamente em seu seio materno pessoas de todas as raças e de todos os povos. E a Cristandade se rejubila especialmente quando ascende à honra dos altares um filho ou filha nascido de povo em cujas fileiras ainda não tenha havido beatificação, nem canonização.
Esse será provavelmente o caso de Bakhita (1869-1947), a pequena escrava sudanesa de raça negra, várias vezes vendida e revendida nos mercados de escravos de El Obeid e Kartoum e falecida na qualidade de religiosa no Instituto de Magdalena de Canossa, na Itália.
A edificante biografia da Venerável Bakhita - cujo processo de canonização está em curso - está sendo difundida em interessante folheto editado pela Cúria geral das filhas de Caridade Canossianas.
"Catolicismo" aqui as transcreve com insignificantes adaptações.

Quem é Bakhita?

NA CATEDRAL de El Obeid, uma das principais cidades do Sudão ocidental, encontra-se a pintura de uma religiosa Canossiana africana ajoelhada ao lado esquerdo de Nossa Senhora, Rainha da África, e está também ajoelhado o fundador dos Missionários Combonianos do Coração de Jesus. Os habitantes do lugar sabem que aquela Irmã africana é uma conterrânea deles, nascida numa vila onde viveu até o dia em que foi seqüestrada, quando ainda era menina, e em seguida vendida como escrava.

Na cidade de Schio (Itália), onde morreu em 1947, todos a chamam ainda de Mãe Moreninha. O processo para a canonização iniciou-se doze anos depois de sua morte. No dia primeiro de dezembro de 1978, a Igreja enviou

o Decreto sobre a heroicidade das suas virtudes e agora os sudaneses a invocam como sua protetora no Céu.

A Providência Divina que "cuida das flores dos campos e dos passarinhos", guiou esta escrava sudanesa, através de inumeráveis sofrimentos, da escravidão à liberdade humana e à fé, até a consagração de toda a sua vida a Deus no Instituto das Filhas da Caridade Canossianas.

Sequestrada e escrava

Bakhita não é o nome que recebeu dos pais quando nasceu. Por causa do grande susto que levou ao ser raptada, perdeu completamente a memória, esquecendo-se do próprio nome.

Bakhita, que significa afortunada, é o nome dado pelos seus raptores. Foi vendida e revendida muitas vezes nos mercados de El Obeid e de Kartoum, onde experimentou as humilhações e os sofrimentos físicos e morais da escravidão. Foi submetida a tatuagens com cortes que quase lhe causaram a morte. Porém, uma vez que conseguiu sobreviver aos ferimentos causados pelas mesmas tatuagens, seu valor se tornou muito superior ao dos outros escravos destinados ao comércio.

Resgatada

Bakhita foi comprada na capital do Sudão por um Cônsul italiano. Pela primeira vez, pôde dormir em uma cama depois do dia em que foi sequestrada, e constatou com agradável surpresa que ninguém a chicoteava quando lhe davam ordens, mas pelo contrário a tratavam com maneiras gentis e cordiais. Na casa do Consul, Bakhita conheceu a liberdade, o afeto e a felicidade, mesmo se estes foram sempre velados pela tristeza de ter perdido para sempre sua família.

As circunstâncias políticas forçaram o Cônsul a partir para a Itália. Bakhita, então, pediu e obteve consentimento para partir com o seu protetor, o Sr. Augusto Michieli.

Na Itália

Chegando ao porto de Gênova, Bakhita foi entregue à esposa do Sr. Augusto Michieli que a presenteou à sua filha, a qual desejava receber do pai um lindo presente.

Bakhita não opôs resistências e seguiu a família Michieli que a tratou como filha. Viveu ela três anos na casa do sr. Michieli, cuja filha Mimmina afeiçoou-se a Bakhita como se fosse sua propriedade particular.

Quando em 1888 a família adotiva decidiu abrir uma hospedaria na cidade de Suakin, no Sudão, a filha Mimmina e Bakhita foram alojadas por dez meses perto da Escola dos Catecúmenos, orientada pelas Irmãs Canossianas na Giudecca, em Veneza. Foi nessa escola que a jovem moreninha quis conhecer o Deus que as freiras conheciam, amavam e serviam.

Filha de Deus

Depois de alguns meses de catecumenato, recebeu ela o batismo com o nome de Giuseppina; seus olhos grandes e expressivos revelaram uma grande emoção. Muitas vezes a viram beijar a fonte batismal dizendo: "Aqui me tornei filha de Deus!" Tomou sempre mais consciência de que Aquele Deus que agora conhecia e amava a tinha conduzido através de caminhos misteriosos, até se tornar sua filha.

Quando a senhora Michieli voltou da África para pegar a filha e Bakhita, esta, com decisão e coragem, pediu para permanecer com as freiras Canossianas a fim de servir ao Deus que a livrara de tantos perigos e lhe dera tantas provas do seu amor.

"Se voltasse à África, dizia, não poderia mais amar o Senhor!"

Bakhita, agora maior de idade, podia, segundo a lei civil italiana, decidir o seu próprio destino. Ao juiz que a interrogava respondeu no dialeto vêneto: "Quero muito bem à senhora e sua filha, porém não quero perder a Deus. Fico na Itália!"

Filha de Madalena

Em seguida, decidiu ela doar-se totalmente ao Senhor no Instituto de Madalena de Canossa. No dia 8 de dezembro de 1896, Giuseppina Bakhita consagrou-se para sempre a seu Deus que ela chamava: "É o meu Patrão!"

Por mais de cinquenta anos esta humilde Filha da Caridade viveu prestando serviços nas várias ocupações da casa de Schio: foi cozinheira, guarda-roupeira e bordadeira. Quando começou a trabalhar na portaria, suas mãos negras pousavam suavemente e acariciavam as cabeças das crianças que todos os dias frequentavam a escola do Instituto. Sua voz amável, com a cadência dos cantos da sua terra, chegava com prazer aos pequeninos, confortava os pobres, os que sofriam e batiam à porta do Instituto.

Como quer o Patrão

Sua humildade, simplicidade e seu constante sorriso conquistavam os corações de todos os cidadãos de Schio.

As suas Irmãs a estimavam pela sua bondade e caridade. Depois de sua morte, todas em coro, a uma só voz, declararam que foi uma criatura excepcional. Uma feira o testemunhou dizendo: "Conservou e aumentou quotidianamente com generosidade a sua correspondência à graça de Deus e não se notou nenhuma pausa nesta ascese".

Sofreu muito na sua velhice com uma doença dolorosa que durou muito tempo, mas seu sofrimento era iluminado e confortado pela luz da esperança cristã. Aqueles que a visitavam e lhe perguntavam como estava, respondia: "Como quer o Patrão!"

...e Maria vem

Na angústia e revivendo os terríveis dias da sua escravidão, suplicava à enfermeira que a assistia: "Alarga-me as correntes. Pesam-me!" E Maria Santíssima veio libertá-la. Suas últimas palavras foram como se A visse: "Nossa Senhora! Nossa Senhora!"

Expirou ela no dia 8 de fevereiro de 1947, em Schio, e uma multidão afluiu à casa do Instituto a fim de ver pela última vez a Irmã Moreninha. No dia 11 de fevereiro, debaixo de uma chuva torrencial, um grande cortejo a acompanhou até o cemitério.

Do Céu

Foram muitas as graças recebidas por sua intercessão nos dez anos que se passaram depois de sua morte. Sua fama de santidade é difusa em todos os continentes e à cúria Geral chegam centenas de testemunhos de pessoas que experimentaram a eficácia de sua intercessão junto a Deus.

Suas Irmãs, mas sobretudo a Igreja africana, esperam que o Processo de Canonização, já iniciado, chegue logo a uma conclusão feliz, para que todos possam invocá-la como Santa.

Página seguinte