Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 463 | página 28
| HISTÓRIA |

"Da Rainha surgiu uma mártir, da boneca uma heroína..."

Ilustrações - No alto, Maria Antonieta, já casada com o futuro Luiz XVI, anos antes de ele ascender ao trono; no centro, a Rainha com seus três filhos, em 1787, dois anos antes da Revolução, pintura de Mme. Vigée. Lebrun; por fim, a Soberana na prisão da "Conciergerie", alguns meses antes de sua morte, aos trinta e oito anos, retrato de Sophie Prieur. A RAINHA Maria Antonieta foi, em vida, objeto de acérrimo ódio por parte dos revolucionários.
Depois de sua execução na guilhotina, passou a ser uma das vítimas da Revolução que mais controvérsia causou entre os historiadores.
Reproduzimos a seguir alguns excertos do primeiro discurso público pronunciado na juvenil "Academia de Letras" da Congregação Mariana de Santa Cecilia, na capital paulista, em 1928, pelo então estudante de Direito, Plinio Corrêa de Oliveira:


''Reverendíssimo Monsenhor Diretor da Academia

Senhores Acadêmicos

A simples enumeração dos títulos com que foi conhecida durante sua curta vida Maria Antonieta de Habsburgo traz consigo a recordação da série de acontecimentos extraordinários e imprevistos que constituíram a trama da existência feminina mais interessante do século XVIII.

Na sua primeira fase, a vida desta princesa decorreu feliz e brilhante como um sonho dourado, em que se reuniam, na mesma pessoa, toda a glória do poder, todo o brilho da fortuna, e todo o encanto de uma radiosa juventude. Subitamente, porém, este longo encadeamento de venturas foi cortado por um tufão medonho, que provocou o naufrágio da monarquia, a profanação dos altares e a derrota de uma nobreza que, através dos séculos, vinha escrevendo com a própria espada as páginas mais brilhantes da história da França.

Em pleno desabamento do edifício político e social da monarquia dos Bourbons, quando todos sentiam o solo ruir sob os pés, a alegre arquiduquesa d'Áustria, a jovial rainha de França, cujo porte elegante lembrava uma estatueta de Sèvres, e cujo riso tinha os encantos de uma felicidade sem nuvens, bebia, com dignidade, com sobranceria e com resignação cristã admiráveis, os goles amargos da imensa taça de fel com que resolvera glorificá-la a Divina Providência.

Há certas almas que só são grandes quando sobre elas sopram as rajadas do infortúnio. Maria Antonieta, que foi fútil como princesa e imperdoavelmente leviana na sua vida de rainha, perante o vagalhão de sangue e miséria que inundou a França, transformou-se de modo surpreendente. O historiador verifica, tomado de respeito, que da rainha surgiu uma mártir, da boneca uma heroína..."