Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 463 | página 12-13
| SOBRE CUBA, AO CARDEAL ARNS |(continuação)

Betto, pp. 28-29, 33-34), mas para conviver com nosso povo e compartilhar sua angústia e sua dor.

7 - População reduzida à sujeição total equivalente à minoridade.

"Enquanto um número bastante reduzido de altas autoridades do governo desfrutam de todas as comodidades da vida, o povo se vê reduzido ao nível da sobrevivência"

- "Estamos certos de que V.E. não deseja para seu querido Brasil uma situação na qual um número reduzidíssimo retenha irreversivelmente todo o poder político e econômico, dele abusando para seu próprio proveito e para perpetuar-se no poder, enquanto a população em geral é mantida numa situação de sujeição total, equivalente à minoridade. Pergunte, por favor, Sr. Cardeal, a seus amigos que visitam Cuba e frequentam as personalidades da ditadura, se viram alguma vez qualquer um deles esperando pacientemente com um cartão de racionamento na mão para poder comprar meio quilo de carne a cada nove dias ou duas camisas por ano, como o restante da população.

8 - Uma lição de Paulo VI

- "Diz em seguida V.E. que 'a fé cristã descobre nas conquistas da revolução os sinais do reino de Deus que se manifesta em nossos corações e nas estruturas que permitem fazer da convivência política uma obra de amor'. Não sabemos por que, ao ler estas frases, nos vêm à mente aquelas outras de Paulo VI nas quais afirma que 'a Igreja... rejeita a substituição do anúncio do reino pela proclamação das libertações humanas, e proclama também que sua contribuição para a libertação não seria completa se descuidasse de anunciar a salvação em Jesus Cristo. (Ela)... não identifica nunca a libertação humana com a salvação em Jesus Cristo, porque sabe... que não é suficiente instaurar a libertação, criar o bem-estar e o desenvolvimento para que chegue o reino de Deus' (Evangelii Nuntiandi, n°s 34 e 35).

9 - "Obra de amor" cristão, da qual um milhão de cubanos fugiu espavorida.

Nos últimos trinta anos mais de um milhão de cubanos abandonou a ilha, e só no espaço de "cinco meses, em 1980, 125 mil pessoas se lançaram as costas da Flórida (partindo da baía de Mariel, como se vê na foto, num êxodo incontrolável!"

- "De outro lado, afirmar que as estruturas vigentes em Cuba 'permitem fazer da convivência política uma obra de amor' é desconhecer totalmente a realidade cubana. Se fosse como diz V.E., por que se deve considerar delituoso tentar escapar dessa 'convivência política' que se qualifica aqui como 'obra de amor'? Por que um país como Cuba, que quase não tinha emigrantes, viu nos últimos 30 anos da ditadura castrista, um milhão de cidadãos abandonarem o país? Por que, no breve espaço de cinco meses, em 1980, 125 mil pessoas se lançaram às costas da Flórida, num êxodo incontrolável? Que deveríamos pensar, Sr. Cardeal, se, em cinco meses, 1 milhão e 100 mil brasileiros procurassem refúgio no Chile?

10 - Rejeitadas pelo Sr. Cardeal Arns informações oferecidas pelos três Srs. Bispos cubanos

- "Cremos, Sr. Cardeal, que V.E. é vítima de sua bondade e bom coração. V.E. não conhece Cuba senão através do testemunho de outras pessoas de sua confiança. Não nos cabe exprimir aqui uma opinião sobre a intenção dessas pessoas ou o conhecimento que elas possam ter da estranheza em face do silêncio de V.E. ante nosso oferecimento fraternal, como irmãos no Episcopado, de pôr à sua disposição outros aspectos da situação em Cuba, que pelo visto V.E. ignora.

11 - A falta de liberdade religiosa "diminui em números absolutos" as vocações sacerdotais e religiosas, e a ''assistência à Missa dominical"

"Um desses aspectos que poderia preocupar a V.E. é a falta de liberdade religiosa cm Cuba, a qual afeta especialmente os católicos. Esta falta de liberdade, cujos detalhes poderíamos oferecer a V.E. quando o desejasse, se reflete tragicamente nas estatísticas religiosas: Cuba é o único país entre seus irmãos do Caribe, e provavelmente da América Latina em geral, que nos últimos 30 anos viu diminuir em números absolutos a quantidade de católicos, sacerdotes, religiosos e seminaristas, bem como a assistência à Missa dominical.

12 — Uma informação que não corresponde aos fatos

- "A recente polêmica suscitada por sua carta natalina é uma prova evidente do que estamos dizendo. V.E. pôde responder e fazer todas as declarações públicas que acreditou oportuno fazer, tanto em sua pátria como no Exterior. Que saibamos, os Bispos de Cuba, por seu lado, mantiveram seu costumeiro silêncio. A imprensa atribuiu a V.E. a afirmação de que a mensagem, que pretendia ser confidencial e privada, se tornou pública somente depois que o Sr. Arcebispo de Havana deu seu assentimento. Consta-nos o testemunho de pessoas inteiramente fidedignas de que essa afirmação não corresponde aos fatos. Eminência, não duvidamos de sua veracidade, mas pensamos que uma vez mais V.E. foi vítima de sua confiança e credulidade, confiando em terceiros.

13 - Tomando por base a exortação apostólica "Evangelii Nuntiandi"

- "A propósito desta liberdade religiosa nos atrevemos mais uma vez a citar a exortação apostólica Evangelii Nuntiandi: 'Desta justa libertação, vinculada à evangelização, que tenta implantar estruturas que salvaguardem a liberdade humana, não se pode separar a necessidade de garantir todos os direitos fundamentais do homem, entre os quais a liberdade religiosa ocupa um posto de primeira importância' (Evangelii Nuntiandi, n° 39).

14 - Deus afaste do Brasil a trágica experiência cubana

- "Queremos concluir reiterando a V.E. o desejo que exprimimos em nossa correspondência privada: 'Deus queira que seu país nunca tenha que passar pela trágica experiência pela qual nós estamos atravessando'.

"Senhor Cardeal, Paz e Bem. - Mons. Eduardo Boza Masvidal, Bispo em Los Teques; Mons. Agustin Román, Bispo Auxiliar de Miami; Mons. Enrique San Pedro SJ, Bispo Auxiliar de Galveston-Houston".

D. Eduardo Boza Masvidal, Bispo em Los Teques.


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