Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 463 | página 08-09
| BICENTENÁRIO DA REVOLUÇÃO FRANCESA |(continuação)

Europa coligada contra eles. Com o general Bonaparte, o mundo curvou-se diante da bandeira tricolor da Revolução, cintilante como um ramo de louro sob o sol do triunfo...

Triste realidade

Essa visão idealizada da Revolução não resiste, entretanto, a análise objetiva dos fatos e à crítica da historiografia moderna, mesmo aquela favorável aos princípios de 1789.

Comentando a profusão de obras e de documentos que vieram à luz por ocasião do bicentenário da Revolução, Georges Suffert, crítico literário do Figaro-Magazine, foi incisivo: "Desse montão de obras, que ora puxa à direita, ora à esquerda, sai contudo uma certeza: a Revolução que os alunos das escolas, dos liceus e das faculdades aprenderam durante um século é mais uma narração mitológica do que uma história" (8).

Um balanço sumário da Revolução Francesa será suficiente para mostrar ao leitor a inconsistência da mitologia revolucionária.

A "fatura" humana

O século XVIII vinha se desenrolando em muita paz para a França. Apenas se registrara um ou outro conflito fora das fronteiras. A guerra era, então, uma obrigação exclusiva de nobres e profissionais.

Com a Revolução tudo mudou. O povo foi chamado às armas, para tomar parte nas honras e nos horrores do combate. Inaugurou-se a "promoção democrática do holocausto" (9).

Por causa da guerra civil e das guerras externas, morreram naqueles vinte e cinco anos de Revolução cerca de dois milhões de franceses, número equivalente ao dos mortos nas duas guerras mundiais!

A falta de voluntários, a Convenção Nacional - primeiro governo da República - decretou a conscrição obrigatória, formando assim um exército de 1.200.000 homens. Para fugir ao alistamento, muitos se mutilavam. As deserções eram tantas que, durante o período napoleônico, havia brigadas especiais para caçar os refratários.

Nos massacres de setembro de 1792 (ver a respeito artigo que publicamos na edição de junho), só em Paris foram mortas 1300 pessoas em apenas quatro dias.

Durante o Terror, os "suspeitos" - que eram sumariamente executados, especialmente após a supressão dos interrogatórios e da defesa dos réus - ficavam já aguardando um suplício quase certo.

Durante o Terror – junho de 1793 a julho de l794 – a eliminação dos "indesejáveis" passou a obedecer a ritos "legais": na Capital, a guilhotina funcionava oito horas por dia, decapitando 2639 pessoas naquele período. Em Nantes, o todo-poderoso comissário da Revolução, Jean-Baptiste Carrier, irritado com a lentidão da guilhotina, promoveu afogamentos em massa da população. O pérfido convencional chegou a declarar: "Faremos da França um cemitério, enquanto não a governarmos à nossa maneira" (10).

A Revolução decretou o extermínio da população da Vendeia - região oeste da França que se levantou em defesa do Altar e do Trono -, numa operação militar conhecida como o "genocídio franco-francês". O General François Westerman, um dos comandantes das "colunas infernais" - responsáveis por tal operação -' prestou contas à Convenção nos seguintes termos: "Já não existe a Vendéia! Foi aniquilada pelo nosso sabre livre, com suas mulheres e crianças. Não tenho nenhum prisioneiro a reprovar-me. Exterminei tudo!" (11).

No meio dessa carnificina, não espanta que uma edição da Constituição do ano III da República (outubro de 1794) tenha sido encadernada com pele humana! (12)

Achincalhe às liberdades individuais

Os famigerados "tribunais revolucionários" enviaram à guilhotina dezenas de milhares de franceses, aplicando apenas a segunda parte do lema de 1789: "liberdade ou morte"...

A famosa "Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão" é comumente apresentada como o código da liberdade, a base da moderna democracia.

Ao proclamar os "direitos", os constituintes de 1789 olvidaram, entretanto, os "deveres".

Por outro lado, um problema se punha: quem velaria pela aplicação dos princípios contidos naquela declaração? A lei. E o que é a lei? A "expressão da vontade geral", isto é, a "maioria" simples de uma Assembleia de "representantes".

Com base nessa doutrina, a Convenção Nacional, eleita por apenas 10% do corpo eleitoral, após a carnificina de setembro de 1792, fez-se "intérprete da Vontade Geral", invocando o nome do "povo" em todos os atos de arbitrariedade.

A Constituição do Diretório (julho de 1795) foi "plebiscitada" por 208 mil votos, sendo que os eleitores eram sete milhões. Como se isso não bastasse, o regime invalidou pura e simplesmente a eleição daqueles que não lhe agradavam.

Em 1797, o general Bonaparte teve de vir em socorro da república, pois a população havia eleito para o Diretório um monarquista, François de Barthélemy, que foi preso e deportado para a Guiana.

A liberdade da Revolução não é a liberdade palpável, diversificada e pródiga do Antigo Régime. E a liberdade com "L" maiúsculo, princípio abstrato e deusa fria, que não vacilará em estabelecer na França um regime de terror e violência: "A árvore da liberdade não saberia crescer se não fosse regada com o sangue dos reis" (13).

Controle policial e repressão encontram-se por toda a parte, e cada instante da vida revolucionária é uma caçada aos "suspeitos".

É necessário apresentar constantemente o passaporte interior e o certificado de civismo, fornecido pela seção revolucionária de cada bairro. Portar a Cocarde tricolor tornou-se obrigatório em 1793.

A terrível "lei de 22 do Prairial do ano II" (10 de junho de 1794), de autoria do convencional Georges Couthon, suprimiu o interrogatório dos acusados, proibiu a atuação do advogado de defesa e obrigou o juiz a se pronunciar ou pela pena de morte ou pela absolvição do réu.

Foi principalmente com base nessa lei que os famigerados "tribunais revolucionários", em nome da "liberdade", condenaram à morte milhares de franceses.

Perseguição religiosa

A Revolução teve um caráter agressivamente anticatólico. Seu espírito igualitário não podia tolerar uma estrutura profundamente hierárquica e sacral como a da Igreja Católica. Era preciso criar uma Igreja subordinada ao Estado, laicizar os padres e transformar os bispos em funcionários públicos.

Já em 1789, os próprios constituintes violaram o artigo 17 da "Declaração dos Direitos do Homem" ao decretar a venda, sem indenização, dos bens eclesiásticos.

No ano seguinte, a Revolução exigiria o juramento dos sacerdotes à Constituição Civil do Clero, condenada como cismática pelo Papa Pio VI.

No afã de descristianizar a França, a Revolução deportou e assassinou grande parte do Clero, proibiu o culto católico, demoliu e transformou em cavalariças igrejas seculares. A Sainte-Chapelle escapou à demolição porque os revolucionários a transformaram em depósito de víveres.

Em Notre-Dame de Paris, celebrou-se a 10 de novembro de 1793 o "culto da liberdade e da Razão". Os sans-culottes destronaram a imagem de Nossa Senhora e em seu lugar uma megera de teatro foi cultuada como a "deusa liberdade". Cenas lúbricas e canções blasfemas profanaram o interior da venerável catedral. Uma das estrofes cantada, dizia:

"Sobre os altares de Maria

Colocamos a liberdade,

O messias de França é a Santa igualdade" (14).

Herança lúgubre

Depois de oito séculos de estabilidade monárquica, a França, em apenas vinte e cinco anos, passou por oito formas sucessivas de governo. Reviravoltas políticas, convulsões sociais, guerras, nas quais até um soldado virou imperador... A Revolução transtornou profundamente a nação.

Hoje, 200 anos após aqueles trágicos episódios, 72% do público francês absolveu o rei e repudiou a morte da rainha. O canal de televisão que promoveu a pesquisa, prudente, não ousou pôr em julgamento Danton, Marat, Robespierre, ou qualquer outro chefe revolucionário...

Não só o veredicto favorável aos soberanos mártires revela a desilusão da França com 1789. O próprio líder do "consenso" e do "revisionismo crítico", François Furet, que com sua tese da "derrapagem" tenta desesperadamente separar a "boa" da "má" Revolução (ver nosso artigo de maio/89) declarou: "A Revolução acabou! Agora a França pode pensar cada vez menos nesse passado como modelo incomparável" (15).

E o que ficou de bom após a Revolução?

O que ela não conseguiu destruir, isto é, o que não se perverteu da tradição cristã!

Bráulio de Aragão

NOTAS: (1) cfr. Franz Funck-Brentano, Os Segredos da Bastilha, Lelo, Porto, 1956, p. 100. (2) cfr. Franz Funck-Brentano, op. cit. p. 102. (3) cfr. "Le Point", La Prise de Ia Bastille, julho de 1988, número especial hors série. (4) cfr. Pierre Gaxotte, La Révolution Française, Arthême Fayard, Paris, 1966, p. 96. (5) cfr. Franz Funck-Brentano, op. cit., p. 109. (6) Jules Michelet, Histoire de Ia Révolution Française, tome I, Cercle du Bibliophile, Paris, 1967, p. 193. (7) cfr. Franz Funck-Brentano, op. cit. p. 108. (8) Georges Suffert, Pour en finir avec Ia Révolution, Document Figaro-Magazine, Paris, 11.10.86, p. 29. (9) cfr. René Sédillot, Le coût de Ia Révolution Française, Perrin, Paris, 1987, p. 12. (10) cfr. Dictionnaire de Ia Révolution et de L'Empire, Larousse, Paris, 1965. pp.68. (11) cfr. Gen. François Westerman, relatório à Convenção, dezembro de 1793, in René Sédillot, op. cit. p. 24. (12) cfr. J. B. Weiss, História Universal, Barcelona, 1936, Vol XVIII, p.382. (13) Barère de Vieuzac, Discurso na Convenção, 20 de janeiro de 1793, in Dictionnaire de Ia Révolution et de l'Empire, op. cit., p. 39. (14) cfr. M. Capefigue, Les déesses de la liberté, Paris, Hachette, 1868, p.63. (15) François Furet, Dictionnaire critique dela Révolution française, Flammarion, Paris, 1989, p.15.


Página seguinte