Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 459 | página 12-13
| O CASAMENTO E A FAMÍLIA |(continuação)

foi modificada a maneira de ver o lugar da mulher na família e na sociedade, bem como a relação conjugal entre homem e mulher; também foi profundamente modificada a posição com respeito à fecundidade. Essas mudanças de mentalidade, não mensuráveis quantitativamente nem de fácil percepção, mais que qualquer outro fator incidiram sobre a crise da família. (..)

"Em particular, deve-se ter presente o fenômeno da laicização, que agiu sobre a crise da família em dupla direção. Primeiramente laicizando o matrimônio, visto agora não mais como uma realidade sacra] e religiosa, mas meramente profana e civil. (...) E também acarretando um distanciamento da maioria dos italianos em relação às normas éticas propostas pela Igreja acerca do matrimônio e da família, como ficou demonstrado no 'referendum' sobre o divórcio e naquele sobre o aborto.

"Entre os fatores culturais que determinaram a crise da família muito influiu a primazia concedida à felicidade dos cônjuges e ao amor na visão global do matrimônio e da família" (1).

É interessante salientar como o editorial se refere também à nova concepção sobre casamento e família, como um dos fatores da crise familiar. De fato, a família tradicional tinha por fundamento primeiro a procriação e educação dos filhos. Este fundamento foi sendo corroído — entre os católicos, sobretudo de uns vinte anos a esta parte — em favor de uma ideia romantizada de amor entre os cônjuges. A consequência foi que práticas imorais como a contracepção, e até diretamente criminosas como o aborto, passaram a ter livre curso.

Com isso a família implodiu, e o tal "amor" se revelou corno não sendo senão uma quimera.

O papel propulsor das elites na Revolução

Essas mudanças de mentalidade e de comportamento não atingiram a sociedade de modo uniforme e homogêneo; afetaram desigualmente as diversas idades e condições sociais. Para que elas tivessem um efeito mais profundo e duradouro, tornando-se estáveis e irreversíveis, apontando o caminho para a sociedade do futuro, era necessário que atingissem especialmente unia determinada camada de pessoas: jovens de ambos os sexos, entre 20 e 35 anos, residindo nas grandes cidades, de nível educacional e socioeconômico médio ou elevado, muitas vezes estudantes universitários ou professores de graus diversos. Eles formariam os casais representativos de uma "avant-garde" sociológica da população, constituindo o mais poderoso fator de "novos modelos" sociais a serem imitados pelos outros.

A esse respeito é bem significativo o que vem ocorrendo na França.

A socióloga Evelyne Sullerot, a pedido do Conselho Econômico e Social, elaborou um amplo e bem documentado relatório sobre a situação do estatuto matrimonial naquele país, e suas consequências jurídicas, fiscais e sociais. Ao comentar o problema das uniões livres, mães solteiras e filhos naturais, a autora salienta que esses fatos ocorrem agora, com prevalência, em setores da sociedade diferentes daqueles de 20 anos atrás, e que isso pode repercutir no comportamento futuro de todo o corpo social:

"Até há pouco (...) Os nascimentos fora do casamento envolviam jovens de menos de 20 anos (24% em 1968) e mulheres de mais de 35 anos (12% em 1968). Atualmente são mulheres jovens com a idade normal para casar-se que representam, de longe, o grupo mais numeroso das mães não casadas (37,5% em 1980, de 20 a 24 anos), enquanto a proporção das menores de 20 anos caiu a 16% e a daquelas com mais de 35 anos a 6%. (...) Trata-se de uma conduta nova e voluntária dos casais jovens, e não mais de um fenômeno marginal que afetava adolescentes e mulheres de mais idade, abandonadas grávidas pelo pai da criança, sobretudo em certas categorias sócio-profissionais e em meios pouco favorecidos. À 'mãe solteira' sucedeu a 'mãe celibatária', menos reprovada e menos marginalizada, a quem se reconhece coragem e dignidade, e para a qual as disposições sociais previram facilidades para a guarda das crianças, formação profissional e abonos, a fim de ajudá-la em sua difícil solidão. Agora, à 'mãe celibatária' sucede o casal não casado que voluntariamente tem um filho fora do casamento. (...) Trata-se já de uma conduta combinada de casais representativos de uma 'avant-garde' sociológica da população: jovens de 20 a 34 anos, residindo principalmente em Paris e nas grandes cidades, de nível educacional médio ou elevado. As categorias profissionais de mestras e professoras tiveram o maior aumento na proporção das mães de filhos naturais entre 1968 e 1980 (enquanto a categoria socioprofissional das 'mães solteiras' dos anos 50 e 60 era sobretudo a das 'empregadas domésticas, trabalhadoras manuais e assalariadas agrícolas'). Em consequência, pode-se pensar que esta camada da população, que constitui o mais poderoso gerador de 'novos modelos', será seguida pelas outras, que a imitarão" (2).

Interessante também para indicar que setores da sociedade têm mais ou menos apreço pelos valores familiares e que implicações isto traz para o futuro, é o resultado de uma pesquisa realizada na Suíça, mostrando que a diferença de nível socioeconômico pode condicionar diferentes concepções sobre o casamento e a família:

"Nos meios populares (...) se dá primazia a essa respeitabilidade que representa o engajamento numa família. O valor família como valor comunitário, (...) é tanto mais elogiado quanto menos bens se possui, ou seja, quanto mais se pertence a um meio popular. Pelo contrário, nos meios universitários de forte conteúdo cultural, sobretudo entre as mulheres, defende-se o direito ao desenvolvimento pessoal dentro do casamento, o qual se torna uma instituição que se respeita enquanto nela se encontre interesse; não é mais uma instituição cujo respeito se impõe de modo absoluto".

* * *

Comprovamos assim que a Revolução tendencial atua continuamente no sentido de formar mentalidades

costumes cada vez mais afastados da tradição católica. E o faz, não por meio das classes mais populares, que sempre se mostraram menos maleáveis à ação revolucionária, mas sim prevalentemente através de certas elites de ordem social, cultural ou econômica.

Essas seriam então incumbidas - muito mais pelo seu comportamento que por sua pregação - de mostrar hoje como deverá ser a mentalidade e

comportamento da sociedade de amanhã, em seu desprezo crescente pela instituição do casamento e da família. E arrastar atrás de si, pelo seu exemplo e poder de influência, os demais setores da sociedade.

Fica assim confirmado, mais uma vez, o papel de suma importância desempenhado pelas elites no desenvolvimento do processo revolucionário, muito especialmente da Revolução tendencial. Pois a propulsão da Revolução vem das elites, e não de uma exigência das massas populares, como costuma apregoar a velha e desgastada demagogia revolucionária.

Murillo Galliez

1) "La famiglia, una realtà da evangelizzare", Editorial, "La Civiltà Cattolica", No 3203, 3-Dez-1983, Roma, pp. 422-423. 2) Conseil Économique et Social, "Le statut matrimonial et ses conséquences juridiques, fiscales et sociales", Journal Officiel de la Ré-publique Française, Paris, 31-jan-1984, p. 25. 3) Gilbert Vincent, Cultures, croyances, éthiques et évolution des comportements familiaux, "Sauvegarde de l'Enfance", Association Française pour la Sauvegarde de l'Enfance et de l'Adolescence, Paris, n° 1, Abril 1985.

Casais jovens de nível socioeconômico médio mi elevado — modelos de uma "avant garde" da população.

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