Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 459 | página 04-05
| SANTO SUDÁRIO |

Cientista põe em dúvida teste do Carbono 14 aplicado ao Sudário

A Sagrada Face estampada no Santo Sudário.
Em outubro de 1978, diversos cientistas realizaram rigoroso exame do Santo Sudário, durante vários dias, no Palácio da Renascença, em Turim.

Em entrevista exclusiva concedida a "Catolicismo", o cientista Walter Gonzalez externou sua surpresa ante os resultados do teste realizado em fragmentos do Santo Sudário de Turim, com base no Carbono 14. Nascido no Peru, mas radicado há mais de 20 anos no Brasil, o Dr. Walter Demétrio Gonzalez Alarcón exerce suas atividades no Instituto de Pesquisas Espaciais — INPE, em São José dos Campos (SP). É o único cientista do Brasil membro da Associação Internacional de Cientistas e Estudiosos para o Sudário de Turim — ASSIST. Especialista em radiação solar, o Dr. Walter Gonzalez levanta sérias dúvidas sobre as conclusões a que chegou a prova do C-14, segundo as quais o sagrado lençol seria originário da Idade Média e não da época de Nosso Senhor. Para o pesquisador — que desenvolveu estudos 110 Laboratório de Propulsão a Jato da NASA e doutorou-se em Berkeley (EUA) — várias são as hipóteses que conduzem à negação da validade do teste com o C-14.

FOI EM SUA residência no Jardim Esplanada, um bairro sossegado da cidade de São José dos Campos, no Vale do Paraíba, em São Paulo, que o Dr. Walter Gonzalez nos recebeu, numa sala decorada com motivos incas. Com seu consentimento, a entrevista foi toda ela gravada.

Um problema para a ciência

"Foi uma grande surpresa para todo mundo", disse-nos o Dr. Gonzalez, referindo-se ao fato de a datação do Sudário pelo C-14 não ter recaído no século I e sim no século XIV, o que levaria à conclusão de que o linho analisado não é o mesmo que envolveu o corpo de Cristo na sepultura.

Salientou ele que tal resultado, mesmo se verdadeiro, não apresentaria problemas para a Fé, como de modo sensacional procurou fazer crer certa imprensa. "Pois — argumentou — , a inautenticidade de uma fotografia de meu pai, não modifica meu relacionamento com ele".

Mas é para ciência que essa datação levanta problemas: "O ponto chave é que, antes do teste do C-14, houve a respeito do Sudário tantas experiências, tantos estudos, em tão diversas áreas da ciência — medicina, computação, física, química etc. — e todos tão coerentes entre si, de forma uníssona, já se conhece tanto do Sudário, que os resultados do C-14 deveriam também ser coerentes com o que já se conhece. E não são. Então, temos de suspeitar da validade desse teste".

Informou que a ASSIST e outras associações de cientistas americanos estudiosos do Sudário estão propondo ao Cardeal Ballestrero, Arcebispo de Turim e Guardião da relíquia, e pensam propor ao próprio Vaticano, "que se façam novos testes, inclusive com base no C-14, para refutar o que foi feito". E acrescentou: "Foi tão grande a surpresa, que começamos a pensar em possíveis explicações naturais que poderiam ter alterado o próprio C-14 do pano para ter dado essa data (séc. XIV). Eu mesmo comecei a pensar em três hipóteses".

E o Dr. Gonzalez passou a dissertar sobre as três hipóteses, com base em sua especialidade.

1ª hipótese: desvirtuamento do teste pela maior quantidade de C-14 na atmosfera no séc. XIV, e menor no séc. I

Especialista no estudo da variação da atividade solar ao longo dos séculos, o Dr. Gonzalez explica: "Sabe-se documentadamente que a atividade solar sofre variações a cada 300 ou 500 anos, passando por máximos e mínimos. Quanto mais ativo está o sol, há menos C-14 na atmosfera; é uma anti-correlação.

"O C-14 na atmosfera forma-se por causa dos raios cósmicos, vindos das galáxias, das estrelas etc., que atingem a atmosfera. Dá-se aí a colisão dos nêutrons com o nitrogênio do ar, e como resultado produz-se o C-14. O fluxo, a quantidade de raios cósmicos que atinge a atmosfera fica modulada pela atividade solar. O sol, quando está muito ativo, emite partículas e campus em maior abundância, que formam uma barreira, uma blindagem que dificulta a entrada dos raios cósmicos. Portanto, produz-se menos C-14.

"No século XIV, houve um mínimo de atividade solar, produzindo até pequenas glaciações pelo esfriamento da Terra. De onde, uma alta produção de C-14. Já no século I, quando Cristo viveu, estávamos passando por um máximo de atividade solar, então com pouca produção de C-14.

"Assim, nos séculos XIV e XV, quando provavelmente se deram as maiores contaminações do Sudário, pela sua exposição ao público etc., havia grande quantidade de C-14 na atmosfera.

"Poder-se-ia dizer que na época da confecção do linho havia pouco C-14 na atmosfera. E na época da maior contaminação do linho havia muito. Os agentes contaminantes tinham talvez mais abundância de C-14 do que o próprio linho em si.

"Quando se faz o teste, se não se limpa bem — e eu acho difícil limpar 100%, pois as fibras ficam muito impregnadas pelo C-14 dos pólens e de todos os agentes contaminantes — isto pode influir. Deve ter ficado um resíduo, após a tentativa de limpeza feita pelos laboratórios. Portanto, bastante C-14 adicional (sobretudo dos citados séculos) contaminou o C-14 inicial. Como resultado, há uma variação na datação".

2ª hipótese: o fenômeno que formou a Imagem pode ter alterado a quantidade de C-14 originária do linho

"Analisemos agora a formação da Imagem. Os 600 cientistas americanos e europeus que estudaram o Sudário, com todos os elementos avançados de que dispomos agora, não conseguem explicar como se formou a Imagem. Então, se realmente a Imagem se formou por um fenômeno sobrenatural, não há por que não pensar que esse próprio fenômeno possa ter alterado a composição do pano e a própria quantidade de C-14 original.

"Todos os dados parecem estar de acordo com o fato de que a Imagem teria sido formada por uma radiação intensa em um intervalo de tempo curto, pois a Imagem parece algo queimado. Estudos de reflectância, de infravermelho e outros, mostram que as fibras onde está a Imagem parecem ter sido queimadas para produzir a figura, e queimadas talvez por uma radiação intensa. Os cientistas da NASA acham que houve uma radiação intensa num intervalo de tempo muito curto, como se fosse uma radiação do tipo da fusão nuclear.

"Ora, radiações intensas como as de uma explosão nuclear ou de uma fusão termonuclear são muito ricas em nêutrons energéticos, os quais queimam um objeto com a maior facilidade e ao mesmo tempo produzem C-14 extra, em adição ao proveniente dos raios cósmicos.

"Então, o próprio fenômeno que produziu a Imagem, pode ter produzido C-14 adicional, que ficou impregnado no linho, além do próprio C-14 da atmosfera. Isso também influiria na verificação da datação.

"Mesmo o Prof. John P. Jackson, físico da Força Aérea norte-americana, um dos pioneiros da sindonologia, em artigo publicado na revista Shroud Spectrum, acha que a própria formação da Imagem — que, ao menos pelo que se conhece até agora, ocorreu por um fenômeno fora das leis da natureza, que não, se entende pela física atual — pode ter alterado a composição do linho e, portanto, como subproduto, alterado também a composição de C-14. De modo que, aplicar uma técnica de C-14 standard, clássica, que se aplica aos objetos naturais, a um objeto com características desse tipo, não tem muito sentido. O resultado pode sair completamente modificado.

3ª hipótese: a quantidade de C-14 poderia ter sido alterada na própria planta que deu origem ao linho, por fenômenos ocasionais

"O linho é feito de uma celulose vegetal, uma planta que deve ter vivido uns 30, 40 ou 50 anos antes da confecção do linho. A planta absorveu o C-14 da atmosfera, como todas as plantas fazem, e esse C-14 ficou impregnado na planta e na celulose da qual saiu o pano. Então pode-se questionar se a quantidade de C-14 que a planta absorveu era normal naquela época ou não. Podia acontecer que nesse intervalo de tempo em que viveu a planta, a própria quantidade de C-14 na atmosfera fosse anormal.

"Por quê? Porque há fenômenos naturais que podem alterar a produção de C-14 na atmosfera. Primeiramente, indo às origens do C-14, pode-se perguntar: será que os raios cósmicos — dos quais já falamos na primeira hipótese — são constantes num período de 40 ou 50 anos? Podem não ser. Mas nesse caso haveria uma modificação suave, não

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