Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 455 | página 12-13
| CAMPANHA DA FRATERNIDADE? |(continuação)

Projeção psico-ideológica para o passado

NA ÉPOCA da escravidão, quando alguns negros fugiam e passavam a viver em aldeamento, este era conhecido pelo nome de quilombo. O único quilombo de importância que houve foi o de Palmares, no Estado de Alagoas, liderado, em sua fase final, pelo negro Zumbi.

Hoje em dia a esquerda católica mitifica o quanto pode a existência de quilombos, e de Zumbi, por ela apresentados como símbolos da luta dos negros contra os brancos.

Assim é que, para o folheto da Diocese de Santo André, os quilombos são "lugar social da vida na partilha e na justiça" (1). Na mesma linha, diz outro folheto: "Os quilombos eram um sistema comunitário de vida na floresta (...) Aí se fazia a experiência da fraternidade verdadeira. Era o lugar onde os negros se sentiam iguais de verdade"; o quilombo dos Palmares estava voltado "para garantir a posse coletiva da propriedade" (2).

D. Pires chega ao ponto de fazer a seguinte comparação extravagante: "No Egito, foi Moisés o profeta do Senhor. Entre nós foi Zumbi dos Palmares" (3).

O que de fato se dá com a mitificação dos quilombos é um curioso fenômeno de projeção psico-ideológica de ilusões. Expliquemo-nos. Como é público e notório, a esquerda católica tem, a respeito da sociedade comunista, as maiores ilusões. Tão fortes são elas, que nem mesmo as confissões de fracasso, especialmente da produção econômica na Rússia, que vêm sendo feitas por Gorbachev e pela imprensa soviética, conseguem abalá-las. Assim sendo, ao "mitificar" um grupo humano, a esquerda católica imediatamente lhe confere características comunistas. Note o leitor, nas citadas descrições dos quilombos, como são eles apresentados: sistema comunitário, partilha de bens, igualdade social, fraternidade ideal, posse coletiva da terra; tudo funcionando num sistema livre, um tanto tribal, na floresta, sem ter propriamente governantes, mas sim líderes carismáticos, espécie de profetas. É de causar inveja a Marx em seus mais frenéticos delírios...

Ou seja, os quilombos (versão esquerda católica) seriam a aplicação concreta das mais cálidas ilusões das esquerdas. O que tem isso de realidade histórica? Exceto o aspecto tribal, nada. É uma simples projeção, ou transferência fácil de ilusões, para o século XVII, dado que elas fracassam inelutavelmente quando impostas no século XX...

Os quilombos (referimo-nos sobretudo ao de Palmares, o único que teve maior consistência) não foram outra coisa senão a reedição, em terras brasileiras, de costumes bárbaros trazidos da África.

A História tem o que dizer

O historiador Edison Carneiro, em seu livro "O Quilombo dos Palmares" (4) esclarece muita coisa a respeito do assunto. Abaixo transcrevemos alguns dados elucidativos:

*Sobre a igualdade: "Nos Palmares havia um governo central despótico, semelhante aos da África na ocasião" (p. 4). "O chefe de cada mocambo encarnava a suprema autoridade local (...) As decisões mais importantes cabiam ao rei Ganga-Zumba, diante de quem todos os quilombolas se ajoelhavam, batendo palmas, de cabeça curvada, num gesto de vassalagem" (p. 27).

* Sobre a liberdade: "Os escravos raptados ou trazidos à força das vilas vizinhas continuaram escravos" (pp. 26-27). Raptavam também "negras e moleques" (p. 1) e ainda "algumas mulheres brancas" (p. 29). Os negros escravizados no quilombo podiam adquirir a liberdade? A alforria se dava, quando levavam "para os mocambos dos Palmares algum negro cativo".

* Sobre a fraternidade: Alguns negros não aguentam a tirania e fugiam: "Se algum escravo fugia dos Palmares, eram enviados negros no seu encalço e, se capturado, era executado pela severa justiça do quilombo (...) entre eles reinava o temor" (p. 27).

* Sobre a moral: A esquerda católica condena - e aqui com razão - o fato de os negros trazidos para o Brasil serem separados de suas famílias. Mas ela se esquece de que a existência de família entre eles era muito relativa. Esse estado de coisas renasceu no quilombo. Assim, "no casamento, os palmarinos seguiam a simples lei da natureza. 'O seu apetite é a regra de sua eleição - dizia um documento da época - cada um tem as mulheres que quer'. O rei Ganga-Zumba dava o exemplo, atendendo a três mulheres, duas negras e uma mulata" (p. 27).

* Oligarquia e não partilha de bens: "Sobre a atividade produtiva material dos negros constituiu-se uma oligarquia - um grupo de chefes mais ou menos despóticos (...) - encabeçada pelo rei Ganga-Zumba e, mais tarde, pelo general de armas Zumbi, chefe de mocambo, sobrinho do rei" (p. 2).

* Por que o quilombo foi destruído: "O governador (da capitania de Pernambuco) Soto Maior transmitia (ao Rei de Portugal) as continuas queixas que recebia dos moradores, pois os negros desciam de seus mocambos para matar os brancos, saquear-lhes as casas, levar-lhes os escravos" (p. 38). Um morador da região deixou escrito: "Não estão seguras as vidas, as honras e fazendas dos moradores da quela conquista, porque dando assaltos repetidas vezes, em várias partes (os quilombolas) as destroem, roubando tudo, levando as mulheres e filhas donzelas e matando-lhes os pais e maridos" (p. 38). "A fronteira' dos Palmares iluminava-se com o incêndio dos canaviais, currais de gado e plantações dos brancos ou ensanguentava-se com as escaramuças entre palmarinos e senhores de terras. Daí as 'entradas', as sucessivas expedições pela destruição do Quilombo" (p. 2).

* Como Zumbi subiu ao poder: Já vimos que Zumbi não era propriamente um profeta, como o imagina D. Pires, mas pelo contrário um chefe de bando militar, sobrinho do rei, e ademais - ó horror! - líder de oligarquia econômica. Como tomou ele o lugar do rei, seu tio, na direção do quilombo? Um assassinato precedeu a posse: "Em 1678, os negros mataram o rei Ganga-Zumba, envenenando-o, e Zumbi assumiu o governo e o comando-em-chefe do Quilombo" (p. 35).

1) "Diocese..." etc., p. 35. 2) "Comissão..." etc., p. 15. 3) "A identidade..." etc., p. 8. 4) Editora Civilização Brasileira, 3! edição, 1966.


Princesa Isabel e Nossa Senhora Aparecida

AFERRADOS QUE estão à teoria da luta de classes, os componentes da esquerda católica só compreendem a aquisição de um benefício, por uma classe inferior, se ela o arrancar da superior. A ideia de que um superior possa conceder algo a um inferior por bondade, por mera liberalidade ou mesmo por um ato de justiça consentido é insuportável para alguém imbuído do ódio de classes marxista.

Assim, tudo quanto no Brasil foi feito pela Igreja, pelos senhores de escravos ou pelas Autoridades para suavizar o regime de escravidão e depois para a libertação dos negros, é visto com despeito e pouco caso pela esquerda católica. A tal ponto que a situação atual do negro é apresentada, por essa corrente, quase como se ele ainda fosse escravo. Dizem: "Ao negro está se negando o direito de viver, de participar e de morar" (1).

D. José Maria Pires atribui a interesses econômicos dos poderosos as sucessivas leis que foram libertando os escravos. Até chegar a exclamar com escárnio: "E viva a Princesa Isabel, a Redentora" (2).

O folheto da Diocese de Santo André, por sua vez, diz que a Lei Áurea foi "um meio usado pelos donos do poder para se libertarem de compromissos que tinham para com os negros". Pois, na época, como consequência das anteriores leis antiescravagistas, "apenas 5,6% dos negros continuavam sendo escravos" e dava mais lucro assalariar imigrantes (3). A mesma posição é veiculada por um outro folheto, o qual classifica a Princesa Isabel entre "os falsos heróis", junto com o Duque de Caxias e Rui Barbosa (4).

Pergunta-se: seria preferível então que esses negros continuassem escravos? É claro que não é esse o pensamento desses críticos apaixonados da Lei Áurea. O que eles desejariam, é que a alforria tivesse sido imposta pela luta de classes. Daí sua decepção com a Lei Áurea, e seu despeito em relação à Princesa Isabel.

Deturpação de fatos

Nota-se nessa Campanha da Fraternidade um tal desejo de mostrar o negro como oprimido - para, evidentemente, tentar aliciá-lo para a luta de classes - que com a maior sem-cerimônia se inventam situações históricas.

Tal é, como vimos, o modo como são apresentados os quilombos, tal é também a narração da aparição da imagem da Padroeira do Brasil, feita na cartilha da Região Episcopal de Santo Amaro: Nossa Senhora Aparecida é "nossa Mãe que apareceu aos Negros no rio Paraíba e os ajudou a sair de apuros, quando pescavam para o Conde de Assumar. Ela multiplicou os peixes, certamente para livrar os pescadores de algum castigo, e apareceu negra, para identificar-se com os oprimidos" (5).

De onde terão tirado os autores da mencionada cartilha, que foi a escravos negros (os negros eram escravos na época) que Nossa Senhora apareceu? Também não é verdade que os pescadores estivessem ameaçados de qualquer castigo. Além do que não se pode afirmar, sem mais, que a imagem apareceu negra.

Em seu livro sério e documentado, de 300 páginas, "A Senhora da Conceição Aparecida" (6), especialmente dedicado à "história da imagem, da capela, das romarias", o Pe. Julio J. Brustolini cssR nos dá informações preciosas e precisas.

Por ocasião da passagem do Conde de Assumar, governador da Capitania de São Paulo, pela vila de Guaratinguetá, o Senado da Câmara convocou os pescadores do lugar para que pescassem para o Conde e sua comitiva. Dentre os que assumiram o encargo estavam os três que encontraram a imagem -"homens simples e dedicados ao trabalho", diz o Pe. Brustolini. Os três pescadores não eram escravos negros, mas sim chefes de família e pequenos proprietários. João Alves, o que "pescou" a imagem, aparece nos livros da paróquia como testemunha de um casamento, função que não era a de um escravo. O pároco local "conhecia as famílias dos pescadores". O mais velho dentre eles, Filipe Pedroso "conservou a imagem em sua casa por espaço de cerca de 15 anos. Mudou-se depois para Itaguaçu, entregando-a a seu filho Atanásio", o qual "constrói um pequeno oratório". Quando começaram os milagres "a imagem deixou de ser propriedade de uma família e passa a pertencer a todos".

Não há razão alguma para supor que estivessem ameaçados de algum castigo caso não pescassem o suficiente, sendo eles homens livres. E menos ainda há razão para interpretar a aparição num contexto de luta de classes, de oprimidos e opressores.

Sobre a cor com que a imagem apareceu, diz o Pe. Brustolini: "Esta imagem, como foi comprovado por peritos, trazia (anteriormente) pintado no seu barro claro, um manto azul escuro forrado de vermelho granada, cores oficiais das imagens de Nossa Senhora da Conceição". Um dos peritos, o Sr. Pedro de Oliveira R. Neto, atestou, em 1967, que a imagem "é de barro cinza claro, como se vê claramente em recente esfoladura no cabelo". E, explica o Pe. Brustolini, "o barro paulista, depois de cozido, se torna cinza claro, às vezes rosado (...). Pelo fato, porém, de ficar muitos anos submersa no lodo das águas e, posteriormente, exposta ao lume e à fumaça dos candeeiros e velas, quando ainda se encontrava em oratório particular dos pescadores e no oratório de Itaguaçu, a imagem de Nossa Senhora Aparecida adquiriu a cor que hoje conserva: castanho brilhante" (pp. 14-15). O mais antigo documento sobre a aparição data de 1750 - é citado no livro - e diz que a imagem é "moldada em argila de cor azulada" (p. 39).

De nossa parte, queremos deixar claro que se a imagem tivesse aparecido negra, seria inteiramente natural. Pois, Nossa Senhora, como Mãe de todos os homens que é, compraz-se em ser representada de acordo com as características das várias raças. Mas, concretamente, no caso de Nossa Senhora Aparecida, o fato histórico é o narrado pelo Pe. Brustolini. E, na hora em que a subversão eclesiástica procura negar a realidade dos fatos, convém afirmá-los como eles são.

Gregório Lopes

1) "Diocese..." etc., p. 26. 2) "A identidade..." etc., p. 6. 3) "Diocese..." etc., p. 22. 4) "Comissão..." etc., p. 17. 5) "Região..." etc., p. 33. 6) Editora Santuário, Aparecida (SP), 4! edição, 1984.

A "história oficial", segundo desenho publicado pela Região Episcopal de Santo Amaro (SP), esmagaria o negro.
A memória da Princesa Isabel vem sendo alvo de ataques por parte da esquerda católica. Na foto, a Princesa, com muita dignidade, tem ao colo seu neto, D. Pedro Henrique de Orleans e Bragança.
Até fatos referentes ao encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida foram deturpados durante a C.F. Na foto, a imagem sem o manto.

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