Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 455 | página 14-15
| PÁGINA MARIANA |

Andacollo, santuário mariano nos Andes chilenos

SANTIAGO — Nas diversas nações latino-americanas, a seiva da Religião católica e as tradições luso-hispânicas têm dado ocasião a inúmeros acontecimentos históricos marcados pelo sobrenatural, a vidas exemplares de santos e mártires, ao aparecimento de imagens milagrosas e santuários em honra da Santíssima Virgem. Infelizmente, porém, há grande ignorância a esse respeito, inclusive nos países beneficiados.

E, neste sentido, o Chile não é uma exceção à regra. O viajante que chega a este país, tão rico em aspectos, poderá ter sua atenção voltada para a região sul, com seus lagos e picos nevados, que recordam paisagens europeias, e sua forte imigração alemã. Ou talvez para o vale central, chamado por alguns de "a Andaluzia da América", com seus camponeses (chamados huasos), suas fazendas (fondos) com edificações coloniais bem características, e seu tipo humano cheio de vivacidade.

Certamente, porém, ouvirá falar menos do norte chileno, um tanto negligenciado pelas cintilações nem sempre benfazejas do progresso, e que leva uma vida sofrida ao longo de quase dois mil quilômetros praticamente ininterruptos de desertos. Em suas montanhas, entretanto, encontramos não só ricas minas de ouro, prata e cobre, mas também o que é melhor, numerosos santuários em honra de Nossa Senhora.

A porta obrigatória dessa região é a antiga e senhorial cidade de São Bartolomeu de La Serena, com suas numerosas igrejas, conventos e edifícios públicos, restaurados de acordo com os estilos originários.

Nos contrafortes da cordilheira dos Andes, a mais de mil e trezentos metros de altitude, e a setenta quilômetros de La Serena, encontra-se o santuário da Virgem de Andacollo, centro da devoção mariana mais antiga do Chile, e uma das primeiras da América espanhola.

Andacollo: "um dos rios de ouro que há no mundo"

Depois de percorrer caminhos poeirentos, que sobem os escarpados montes da pré-cordilheira como um "longo caracol irregular ou uma serpente de cor plúmbea" — conforme descreve um antigo cronista do povoado — chega-se a Andacollo, de cuja entrada divisam-se as torres das duas grandes igrejas que ladeiam a praça.

As origens do povoado perdem-se na História. Ainda na fase da conquista espanhola, o cronista Pedro Mariño de Lobera, referindo-se às jazidas auríferas do lugar, afirmava: "Existe tanto ouro fino como nas mais famosas minas do mundo, tão alto em quilates que passa de lei". E o capitão geral do Reino do Chile, D. Garcia Ramón, em 12 de abril de 1607, escrevia ao soberano espanhol: "O monte de Andacollo é um dos rios de ouro que há no mundo".

Antigamente, Andacollo conheceu períodos de fertilidade do solo e regularidade nas chuvas. Mas com o correr do tempo, pagou tributo à seca que, lenta, porém inexoravelmente, tende a estender-se rumo ao sul. As árvores secaram; as vertentes que — contam as crônicas — corriam pelas falhas junto ao povoado, já não se veem mais. E somente ficou a água carregada de salitre de alguns poços.

O certo é que, não fosse a milagrosa imagem de Nossa Senhora, Andacollo talvez seria hoje uma aldeia abandonada, como as que se encontram com certa frequência ao se cruzar a aridez do deserto.

Histórico da milagrosa imagem

Em uma noite de 1549, os habitantes da incipiente cidade de São Bartolomeu de La Serena sofreram violento ataque de alguns grupos indígenas da região. A cidade ardeu por todos os lados, e os poucos cavalos existentes foram utilizados para escapar à fúria dos índios. Um grupo de espanhóis fugiu rumo às montanhas do oriente, levando consigo a pequena imagem da Virgem do Rosário, até então venerada na igreja de La Serena. Chegando próximo a Andacollo, preferiram ocultar a imagem em uns matagais próximos ao cemitério, na quebrada chamada "El Culebrón", e seguiram seu caminho, perdendo-se nas montanhas da cordilheira.

Trinta anos mais tarde, um índio ali descobriu a imagem de Nossa Senhora. O historiador Ramírez assim conta o fato: "Para arrancar as raízes de alguns arbustos, tiveram que remover a terra. Nesta operação se ocupava um dos índios quando, ao desfazer-se um grande torrão, apareceu meio oculta uma pequena estátua de madeira, toscamente lavrada, de tez morena, porém de rosto gracioso..."

Toda talhada em cedro, a imagem, de um metro de altura, possui túnica e manto. As feições são delicadas. O rosto, pequeno, é ovalado e de cor morena; os olhos grandes, expressivos e observadores, dão-lhe uma nota de seriedade, suavizada, nos lábios, por leve sorriso.

O índio que efetuou a feliz descoberta pertencia providencialmente a uma das principais famílias da região, o que contribuiu para a expansão, entre os demais habitantes, de sentimentos de respeito para com a imagem da Virgem.

A partir do inesperado achado, a devoção a Nossa Senhora do Rosário de Andacollo, alentada por numerosas graças e favores — muitíssimos deles de caráter milagroso — recebidos pelos fiéis, estendeu-se rapidamente. Os devotos vêm das regiões do norte da Bolívia, e também da Argentina, especialmente das províncias de San Juan e La Rioja.

São dois os templos que, na atualidade, se alternam para abrigar a Virgem de Andacollo. O primeiro deles, conhecido como "iglesia chica", data de 1772, e é o local habitual de permanência da imagem. O outro situa-se em frente à praça, fazendo ângulo com o velho templo. Ergueu-se ali, em fins do século passado, a nova igreja, de setenta metros de comprimento e trinta de largura, com torres de cinquenta metros de altura. É toda feita de madeira, sustentada por enormes vigas de pinho "oregón".

A festa principal celebra-se no dia 26 de dezembro. Calcula-se que, em torno dessa data, sobem cada ano a mencionada montanha mais de cento e cinquenta mil pessoas para pagar suas promessas, dando graças à Virgem de Andacollo.

Tradição secular das danças religiosas

Uma nota peculiar e característica dessa festa religiosa consiste em danças ou bailes folclóricos (meras evoluções de seus participantes) diante da imagem da Virgem. Conforme os historiadores, Andacollo é o primeiro lugar da América espanhola onde se manifestaram danças religiosas, estendendo-se daí a todas as comemorações marianas do norte do país: em La Tirana, Sotaqui, La Candelária, La Virgen de las Peias (não distante da fronteira do Peru e da Bolívia) etc. Merece menção particular o que ocorre nas chamadas "Diabladas": um grupo especial de participantes dessas danças religiosas avança, no meio da multidão, envergando trajes e máscaras representando demônios. De repente, a imagem da Virgem intercepta decididamente seus passos, conduzida por várias irmandades. Instala-se o pânico na "diablada", cujos participantes empreendem vergonhosa fuga.

A Andacollo acorre os "chinos" — termo de origem aborígene que significa "servidor" — agrupados em mais de cinquenta organizações de danças, que enchem as ruas com o som de suas flautas, tambores, apitos e o pitoresco de seus trajes de cores chamativas. As irmandades são compostas em geral por trinta integrantes, embora existam grupos que se aproximam da centena. Todos esses bailes de caráter religioso têm um chefe geral, o "cacique", cargo que é hereditário. Desde o século passado, a chefia geral pertence invariavelmente à mesma família. E tanto o chefe geral, como os chefes de cada uma das irmandades, presidem os atos solenes da festa junto com o Arcebispo de La Serena.

O grupo de danças mais antigo — "Los Chinos de Barrera" — data de 1584, e até hoje continua indo todos os anos ao Santuário. No início de cada baile, alguns membros da irmandade dirigem a Nossa Senhora pequenos discursos ou pregações filiais, muitos deles cheios de candura.

Como bondosa Mãe, a Igreja vem orientando há séculos essas manifestações populares de piedade mariana, procurando purificá-las de vestígios de influência pagã. Ela acolhe as irmandades em diversas paróquias, onde estas podem ensaiar durante meses suas músicas e bailes, bem como preparar as vestimentas típicas.

O viajante, deixando o santuário para prosseguir mais ao norte — atraído pelo bom odor de outros santuários marianos que enfrentam as aridezes do deserto — conserva viva a recordação desta imagem de finas feições, rosto sereno e penetrantes olhos maternais. E também deste lugar tão árido do ponto de vista material, onde, porém, Nossa Senhora concedeu inúmeras graças que, a partir da montanha, se estendem como manto protetor por todo o norte do Chile.

Gonzalo Guimarães

A milagrosa Virgem de Andacollo, de um metro de altura, talhada em cedro, cor morena, olhos observadores que lhe dão uma característica nota de seriedade.
Levada solenemente em procissão, a Virgem de Andacollo é acompanhada por numerosas irmandades, com suas bandeiras tradicionais.
Os dois templos que, alternadamente, abrigam a imagem. Edificada inteiramente em madeira, no século passado, ostentando torres de cinquenta metros de altura, ergue-se na praça de Andacollo (à direita), a nova igreja.

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