"Se Deus existisse, seria preciso suprimi-lo", É proibido proibir". Naqueles dias de desvario, parecia que a humanidade caminharia necessariamente, daquele ponto em diante, sob o domínio da desrazão ostensiva.
Ela introduziu violentamente na cena um tipo humano cujo aparecimento, segundo a marcha gradual da Revolução nos anos do pós-Guerra, levaria ainda décadas para aparecer. Se politicamente a revolução de maio/68 fracassou, pois não conseguiu o poder, nem aboliu o Estado, um estandarte foi levantado e um grito foi dado que impressionaram o mundo e acarretaram efeitos desastrosos. Ela foi largamente aceita no campo psicológico, moral, social e cultural. Ademais, a nota francesa — sempre aprazível e potencialmente expansiva — que a caracterizou, tornou-a atraente aos olhos do mundo inteiro. Estava lançado novo tipo humano: sem princípios, desgrenhado e ecológico, já voltado para o tribalismo.
Tribalismo? Sim. Analisando em seu profundo estudo "Revolução e Contra-Revolução", a etapa mais recente da Revolução, .0 insigne pensador católico, Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, descreve a eventual marcha do processo revolucionário rumo a um estágio tribal, que, a nosso ver, seria um desdobramento da explosão sorboniana: "A crescente ojeriza a tudo quanto é raciocinado, estruturado e metodizado só pode conduzir, em seus últimos paroxismos, à perpétua é fantasiosa vagabundagem da vida das selvas, alternada, também ela, com o desempenho instintivo e quase mecânico de algumas atividades absolutamente indispensáveis à vida. (...)
"Assim, a derrocada das tradições indumentárias do Ocidente, corroídas cada vez mais pelo nudismo, tende obviamente para o aparecimento ou consolidação de hábitos nos quais se tolerará, quando muito, a cintura de penas de ave de certas tribos, alternada, onde o frio o exija, com coberturas mais ou menos à maneira das usadas pelos 'apões.
"O desaparecimento rápido das fórmulas de cortesia só pode ter como ponto final a simplicidade absoluta (para empregar só esse qualificativo) do trato tribal" ("Revolução e Contra-Revolução", Diário das Leis, São Paulo, 2! ed., 1982, p. 72).
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Cohn-Bendit, o principal líder da Revolução de maio de 68, vinte anos depois: "Continuo sempre contestatário. Vivo em comunidade — atualmente com seis adultos e três crianças".
Protagonistas da Revolução da Sorbonne afirmam, hoje, que o movimento se evanesceu, diluindo-se na sociedade burguesa. O próprio Cohn-Bendit — na época o líder revolucionário mais prestigiado pela mídia burguesa — exprime esta opinião em seu recente livro, Nós que temos tanto amado, a Revolução... Falta de visão em profundidade, ou tentativa de assim negar — para evitar novos sustos — a difusão silenciosa dos ideais de maio/68 até o mais fundo das mentalidades? Do mesmo modo parece pensar o escritor francês, Alain Touraine, professor na Universidade, em Nanterre, durante a Revolução da Sorbonne: "o movimento de Maio não terá um amanhã, mas um porvir" (A. Touraine, "Le Communisme Utopique", Seuil, Paris, 1972).
Em artigo para a "Folha de S. Paulo" de 24-10-81, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, comentando os efeitos da Revolução da Sorbonne, afirma: "o clássico cogumelo das explosões atômicas, ao mesmo tempo que se desfaz, dilata suas irradiações por toda atmosfera".
Deterioração final
De fato, a Revolução da Sorbonne marcou profundamente o comportamento social nos anos posteriores. E nesse sentido ela teve e continua a ter seu porvir. A contestação tornou-se moda, a autoridade em todos os setores da sociedade debilitou-se, os costumes abandonaram rapidamente estilos que de algum modo ainda os mantinham dentro da Lei de Deus e da conveniência do trato social, deu-se o desvario das concepções artísticas, o que, tudo conduziu a "um feitio de espírito que se caracteriza pela espontaneidade das reações primárias, sem o controle da inteligência nem a participação efetiva da vontade; pelo predomínio da fantasia e das 'vivências' sobre a análise metódica da realidade..." (Plinio Corrêa de Oliveira, "Revolução e Contra-Revolução", p. 31).
Em seu citado livro "Nous l'avons tant aimée, la révolution", Dany Cohn-Bendit, afirma: "ao longo desses anos a juventude tornou-se motora de uma revolução dos costumes, das mentalidades e das relações entre indivíduos".
Foi sob o impulso dessa força motora que nos anos posteriores eclodiram, em grande quantidade e por todo lado, comitês de ação estudantis e universitários, comitês de soldados, comitês de apoio às lutas operárias, camponesas, anti-imperialistas; movimentos de libertação das mulheres, dos homossexuais, movimentos ecologistas e exacerbadamente nacionalistas (cfr. Gilles Lipovetsky, "Changer la vie ou l'irruption de l'individualisme transpolitique", in Pouvoirs, n. 39, p. 95, 1986, Paris).
A sutil "radioatividade" que se expandiu a partir da explosão da Sorbonne em maio/68 foi a causa da acelerada deterioração religiosa, cultural e moral que hoje atinge graus paroxísticos. De tal modo a quase totalidade dos valores que definiram a Civilização Cristã foram lançados à beira da extinção, nestes últimos 20 anos, que as possibilidades humanas de um retorno ao antigo esplendor espiritual e a consequente cessação dos atuais horrores são ínfimas, quase a ponto de não se poder tomá-las em consideração.
E os olhos dos que verdadeiramente amam aqueles esplendores se voltam, súplices, Àquela que em Fátima os confortou, prometendo: "Por fim o meu Imaculado Coração triunfará"!
Paulo Henrique Chaves
"Novos filósofos" na França
Denúncia estéril e complacente do ocaso da razão
DESCONCERTO, CAOS, CONFUSÃO, decadência: estes termos são cada vez mais frequentes na imprensa francesa. As sondagens de opinião e as análises feitas por jornais e revistas de Paris falam em morte das ideologias, em paralisia e anestesia das inteligências e das vontades. Pois, tudo pareceria funcionar como se as bússolas da intelectualidade francesa, da sociedade, e, em certa medida, dos indivíduos, estivessem quebradas.
Dois livros vêm ocupando o centro do debate sobre esse fenômeno na França: "A derrota do pensamento" de Alain Finkielkraut, e "Elogio dos intelectuais" de Bernard-Henry Lévy . Tais ensaios, embora trazendo algumas observações lúcidas, vieram ainda agravar, diante dos holofotes da mídia, querendo ou não, a impressão de que a intelligentsia francesa — há tempos em crescente descrédito — encontra-se como um navio sem rumo, aumentando o desnorteamento contemporâneo.
O que dizem esses pensadores? É o tema do presente artigo.
PARIS — Hoje batizam-se de culturais atividades nas quais o pensamento e a reflexão não têm nenhum papel. Vê-se isto, por exemplo, na arte moderna. Uma lata de lixo, uma pilha de jornais velhos em desordem: eis uma obra de arte que pode figurar em qualquer exposição vanguardeira, como a Bienal de São Paulo.
Gestos elementares, atitudes primitivas, reflexos instintivos descontrolados, são considerados expressões culturais. Os antropólogos e sociólogos vão buscá-las nas profundidades das selvas, ou nos submundos do crime, da droga ou da música rock. Por isso, fala-se de cultura rock, cultura tribal, ou cultura punk.
Se tal é a cultura, muitos se perguntarão: para que cultivar os valores do espírito? Não é melhor deixar-se levar pelo impulso imediato, pela moda, sem nenhuma reflexão?
Essas interrogações, oriundas, aliás, de mentalidades vazias de bom senso, só encontram respostas tranquilas e certas na doutrina católica. Mas para quem dela se afastou, e está imerso no contexto de crise da civilização urbana industrial, elas vêm carregadas de veneno.
A tais interrogações entregaram-se dois jovens intelectuais franceses, Alain Finkielkraut e Bernard-Henry Lévy, em livros recentes. Finkielkraut descreveu em seu livro "A derrota do pensamento" ("La defaite de la pensée", Gallimard, Paris, 1986), o que ele considera o triunfo do não-pensamento. E Lévy, no seu "Elogio dos intelectuais" ("Éloge des intellectuels", Grasset, Paris, 1987), acabou negando a possibilidade de o homem conhecer qualquer verdade absoluta, como também defendendo a instalação habitual da contradição no próprio pensamento, isto é, o absurdo mental.
Ambos, ao invés de fazer uma análise séria da realidade à luz da Fé e do bom senso, tentaram, por outras vias, uma explicação para o atual descrédito dos intelectuais franceses, e do papel do pensamento na própria vida cotidiana de cada indivíduo. E naufragaram.
Finkielkraut: na origem, a revolta contra altar e trono
O livro de Finkielkraut recebeu boa acolhida na mídia. O jovem autor julgou encontrar a raiz do fenômeno do não-pensamento na revolta contra a autoridade que animou a Revolução Francesa, o liberalismo e o socialismo. A propósito da igualdade revolucionária proclamada em 1789, observa Finkielkraut: "A divisão em classes foi abolida: não havia mais nobres, nem sacerdotes, nem juízes, nem plebeus, nem camponeses" (op. cit., p. 20). "Libertados de seus liames e de seus ascendentes, os indivíduos eram também libertados da autoridade transcendente que até então reinava sobre eles. Nem Deus nem pai; eles não dependiam mais do Céu nem da hereditariedade" (op. cit., p. 21).
Com efeito, a filosofia anticristã da Revolução Francesa prometia ao homem a autonomia plena, baseada na hipertrofia da razão. Cada qual, assistido por suas forças somente, sem critérios transcendentes de bem e mal, verdade e erro, instruído por uma falsa liberdade de imprensa, seria suficiente para governar-se a si mesmo. Entretanto, Finkielkraut não apresenta uma crítica séria desta filosofia, limitando-se a constatar seu efeito dissolvente. E passa adiante.
O autor continua sua análise, observando que, de acordo com a mesma posição negadora de toda autoridade superior, o estruturalismo colocou, em nosso século, no banco dos réus, a própria razão como também a civilização. Deste modo, Lévi-Strauss acusou o homem ocidental de impor aos outros povos sua cultura e civilização, seu modo de pensar racional, e de coarctar lhes a liberdade de serem como bem entendessem. E, por esta via, segundo Finkielkraut o selvagem, o bárbaro e o primitivo passaram a ser vítimas dos homens mais nefastos: os detentores da nacionalidade. O jovem escritor não aprova essa última conclusão, mas também não a reprova cabalmente. Ele a registra, desanimado, como mais uma queda moral do Ocidente.
No fim, o desfazimento, a anarquia e o obscurecimento da razão
Finkielkraut conclui: o resultado desse processo histórico é que o civilizado e o bárbaro são vistos como meros representantes de culturas opcionais. E que, em consequência, todos os estilos, verdadeiros ou não, são mesclados nas formas mais díspares e contraditórias, sendo tais mesclas oferecidas ao público, através da mídia e de espetáculos, como alternativas prazenteiras de uma sociedade multicultural, polimórfica, relativista, pós-moderna. Seria uma posição semelhante à de um visitante da Disneylândia, que passasse de um castelo medieval a uma ilha de piratas, ou de uma cidade futurista a uma caverna pré-histórica, ao capricho de sua imaginação.
Finkielkraut registra sagazmente uma contradição dessa sociedade pluralista: se alguém reage contra tal espécie de ecumenismo cultural, procurando defender uma hierarquia de valores e denunciar o embrutecimento do espírito, é classificado de puritano, despótico, de frear a marcha da humanidade rumo à autonomia, de ser uma espécie de racista cultural, um discriminador que resiste à mestiçagem cultural. E