Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 45 | página 02-03

(continuação)

A Santa Intransigência (conclusão)

que fizeram. É óbvio que muito há que admirar neles sob este ponto de vista. Mas uma exata ponderação de todas as circunstâncias históricas nos obriga a reconhecer que, se os romanos fizeram grandes conquistas, os povos que sujeitaram eram na sua maior parte velhos e gastos, dominados por seus próprios vícios, e por isto fadados a cair sob o guante do primeiro adversário que se lhes opusesse. Afirmação esta tão válida para a Grécia, quanto para as nações da Ásia e da África, exceção feita talvez de Cartago. O que havia reduzido a este estado de debilidade tantos povos outrora dominadores e cheios de glória? A corrupção moral. A trajetória histórica de todos eles é a mesma. De início, encontram-se em estágio semi-primitivo, levando uma vida simples, dignificada por uma certa retidão natural. Desta lhes vem a força que lhes permite dominar os vizinhos, e constituir um império. Mas com a glória vem a riqueza, com a riqueza os prazeres, e com estes a devassidão. A devassidão traz por sua vez a morte de todas as virtudes, a decadência social e política, e a ruína do império. E assim um depois do outro foram aparecendo no cenário histórico, crescendo até seu fastígio e minguando os grandes povos do Oriente. Todas as nações civilizadas que Roma venceu, haviam percorrido as várias etapas deste ciclo. Ela mesma as percorreu por sua vez. As virtudes familiares da Roma da Realeza e da República aristocrática deram-lhe a grandeza. Ao fim da Republica, o luxo começou a depravar os caracteres e teve princípio o declínio. O Império, que é no seu início um magnífico pôr de sol, se transforma gradualmente em crepúsculo inglório e pardacento.

Foi no momento em que Roma entrava na fase ainda áurea dessa rota descendente, que Jesus nasceu. A História dos futuríveis é perigosa. Em todo o caso, é permitido indagar o que teria ocorrido no mundo mediterrâneo quando Roma terminasse sua involução, se o Verbo de Deus não se tivesse encarnado. Até então, cada nação civilizada passara o legado de sua cultura ao vencedor. Os persas, por exemplo, se nutriram da cultura assiro-babilônica e egípcia. Os gregos se nutriram da cultura egípcia e persa, os romanos da cultura grega. E assim, caminhando do Oriente para o Ocidente, veio sendo transmitida a civilização. Extinta Roma, em que mãos ficaria o legado? Nas dos bárbaros. Mas a História prova que sem a Igreja eles não se teriam civilizado por ocasião das invasões, e assim sem Jesus Cristo a queda de Roma teria sido o colapso do Ocidente. Com o ocaso de Roma, iniciado já antes de Cristo, era todo o Ocidente que ameaçava ruir. Era o fim de uma cultura, de uma civilização, de um ciclo histórico. Era um fim de mundo...

Ora, o povo eleito também estava no fim. Duas tendências sempre se haviam assinalado dentro dele. Uma queria permanecer fiel à Lei, à Promessa, à sua vocação histórica, confiando inteiramente em Deus. Outra, porém, de pouca fé, de pouca esperança, se amedrontava considerando a nenhuma valia militar e política dos judeus no mundo antigo. Diferentes de todos os povos por sua raça, sua língua, sua Religião, exíguos como população e território, estavam os israelitas a pique de ser submersos já antes de Cristo. A melhor estratégia para os partidários que a "politique de la main tendue" tinha na Antiga Lei não consistia em resistir, mas em ceder. Daí uma adaptação do povo eleito ao mundo gentílico, a penetração sub-reptícia de doutrinas exóticas na Sinagoga, a formação de um Sacerdócio sem fibra, sem espírito de sacrifício, disposto a tudo para vegetar pachorrentamente à sombra do Templo, e a propensão de uma imensa maioria de judeus a seguir esta política. Os líderes desta tendência ocupavam tudo, invadiam tudo, dominavam tudo. Com a epopéia dos Macabeus, tinha terminado a influência dos partidários da integridade israelita. Estes eram ao tempo de Cristo apenas uns raros homens de eleição, que aqui e acolá suspiravam e choravam na sombra, à espera do Dia do Senhor. Os outros abriram os braços para o inimigo dominador. O povo eleito caíra também ele sob o jugo romano. Era também um fim. A noite, a noite moral do obscurecimento de todas as verdades, de todas as virtudes, descera sobre o mundo inteiro, gentilidade e Sinagoga...

Foi neste cúmulo de males, neste ambiente oposto a todo o bem, que nasceu a mais santa das criaturas, a Cheia de Graças, que todas as nações haveriam de chamar bem-aventurada. Pois já era esta em linhas gerais a situação na época em que veio ao mundo a Virgem Santíssima.

REGINA SANCTORUM OMNIUM

As proporções de um artigo como este não permitem uma descrição pormenorizada do quadro moral do mundo romano. O que aliás não seria muito necessário, pois este quadro é geralmente conhecido. Por toda a extensão do Império, aristocracias nacionais no último estado de decomposição moral se mesclavam com aventureiros enriquecidos nos negócios, na política ou na guerra, com libertos levados ao fastígio da influência pelo favoritismo, com atores e atletas famosos, numa vida de prazeres ininterruptos, em que os decadentes traziam toda a moleza de seu spleen, os aventureiros todo o desbragamento de seus apetites ainda mal cevados, os favoritos, os atores, os atletas todo o ambiente de bajulação, de insolência, de intriga, de falsidade, de politicagem graças ao qual se mantinham. Augusto, em cujo reinado nasceu Jesus Cristo, tentou em vão deter o passo a todos estes abusos que em seu tempo vinham tendendo a se firmar de modo alarmante. Nada conseguiu de durável. Em contraposição com esta elite - se é que assim se a pode chamar - estava um mundo incontável de escravos de todas as nações, de trabalhadores manuais miseráveis, corrompidos ao peso de seus próprios vícios e dos exemplos vindos do alto. Famintos, maltratados, cúpidos, ociosos, queriam depor seus amos, menos pela indignação que lhes causavam seus desmandos, do que pelo pesar de não poder levar a mesma vida que eles. Todo um quadro, enfim, que não é preciso ter muita cultura para conhecer, nem muita finura para sentir em sua realidade vital, pois não difere sensivelmente dos dias tenebrosos em que vivemos...

Ora, enquanto era isto o mundo antigo, quem era a Santíssima Virgem, que Deus criara naquela época de omnímoda decadência? A mais completa, intransigente, categórica, insofismável e radical antítese do tempo.

O vocabulário humano não é suficiente para exprimir a santidade de Nossa Senhora. Na ordem natural, os Santos e os Doutores A comparam ao sol. Mas se houvesse algum astro inconcebivelmente mais brilhante e mais glorioso do que o sol, é a esse que A comparariam. E acabariam por dizer que este astro daria dela uma imagem pálida, defeituosa, insuficiente. Na ordem moral, afirmam que Ela transcendeu de muito todas as virtudes, não só de todos os varões e matronas insignes da Antiguidade, mas - o que é incomensuravelmente mais - de todos os Santos da Igreja Católica. Imagine-se uma criatura tendo todo o amor de São Francisco de Assis, todo o zelo de São Domingos de Gusmão, toda a piedade de São Bento, todo o recolhimento de Santa Teresa, toda a sabedoria de São Tomás, toda a intrepidez de Santo Inácio, toda a pureza de São Luiz de Gonzaga, a paciência de um São Lourenço, o espírito de mortificação de todos os anacoretas do deserto: ela não chegaria aos pés de Nossa Senhora. Mais ainda. A glória dos Anjos é algo de incompreensível ao intelecto humano. Certa vez, apareceu a um Santo o seu Anjo da Guarda. Tal era sua glória. que O Santo pensou que se tratasse do próprio Deus, e se dispunha a adorá-lo, quando o Anjo revelou quem era. Ora, os Anjos da Guarda não pertencem habitualmente às mais altas hierarquias celestes. E a glória de Nossa Senhora está incomensuravelmente acima da de todos os coros angélicos.

Poderia haver contraste maior entre esta obra prima da natureza e da graça, não só indescritível mas até inconcebível, e o charco de vícios e misérias, que era o mundo antes de Cristo?

A IMACULADA CONCEIÇÃO

A esta criatura dileta entre todas, superior a tudo quanto foi criado, e inferior somente à Humanidade Santíssima de Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus conferiu um privilégio incomparável, que é a Imaculada Conceição.

Em virtude do pecado original, a inteligência humana se tornou sujeita a errar, a vontade ficou exposta a desfalecimentos, a sensibilidade ficou presa das paixões desregradas, o corpo por assim dizer foi posto em revolta contra a alma.

Ora, pelo privilégio de sua Conceição Imaculada, Nossa Senhora foi preservada da mancha do pecado original desde o primeiro instante de seu ser. E, assim, nela tudo era harmonia profunda, perfeita, imperturbável. O intelecto jamais exposto a erro, dotado de um entendimento, uma clareza, uma agilidade inexprimível, iluminado pelas graças mais altas, tinha um conhecimento admirável das coisas do Céu e da terra. A vontade, dócil em tudo ao intelecto, estava inteiramente voltada para o bem, e governava plenamente a sensibilidade, que jamais sentia em si, nem pedia à vontade algo que não fosse plenamente justo e conforme à razão. - Imagine-se uma vontade naturalmente tão perfeita, uma sensibilidade naturalmente tão irrepreensível, esta e aquela enriquecidas e super-enriquecidas de graças inefáveis, perfeitissimamente correspondidas a todo o momento, e se pode ter uma idéia do que era a Santíssima Virgem. Ou antes se pode compreender por que motivo nem sequer se é capaz de formar uma idéia do que a Santíssima Virgem era.

"INIMICITIAS PONAM"

Dotada de tantas luzes naturais e sobrenaturais, Nossa Senhora conheceu por certo a infâmia do mundo em seus dias. E com isto amargamente sofreu.

Pois quanto maior é o amor à virtude tanto maior é o ódio ao mal.

Ora, Maria Santíssima tinha em si abismos de amor à virtude, e, portanto, sentia forçosamente em si abismos de ódio ao mal. Maria era pois inimiga do mundo, do qual viveu alheia, segregada sem qualquer mistura nem aliança, voltada unicamente para as coisas de Deus.

O mundo, por sua vez, parece não ter compreendido nem amado Maria. Pois não consta que lhe tivesse tributado admiração proporcionada a sua formosura castíssima, a sua graça nobilíssima, a seu trato dulcíssimo, a sua caridade sempre exorável, acessível, mais abundante do que as águas do mar e mais suave do que o mel.

E como não haveria de ser assim? Que compreensão poderia haver entre Aquela que era toda do Céu, e aqueles que viviam só para a terra? Aquela que era toda fé, pureza, humildade, nobreza, e aqueles que eram todos idolatria, ceticismo, heresia, concupiscência, orgulho, vulgaridade? Aquela que era toda sabedoria, razão, equilíbrio, senso perfeito de todas as coisas, temperança absoluta e sem mácula nem sombra, e aqueles que eram todos desmando, extravagância , desequilíbrio, senso errado, cacofônico, contraditório, berrante a respeito de tudo, e intemperança crônica, sistemática, vertiginosamente crescente em tudo? Aquela que era a fé levada por uma lógica adamantina e inflexível a todas as suas consequências, e aqueles que eram o erro levado por uma lógica infernalmente inexorável, também a suas últimas consequências? ou aqueles que, renunciando a qualquer lógica, viviam voluntariamente num pântano de contradições, em que todas as verdades se misturavam e se poluíam na monstruosa interpenetração de todos os erros que lhe são contrários?

"Imaculado" é uma palavra negativa. Ela significa etimologicamente a ausência de mácula, e pois de todo e qualquer erro por menor que seja, de todo e qualquer pecado por mais leve e insignificante que pareça. É a integridade absoluta na fé e na virtude. É portanto a intransigência absoluta, sistemática, irredutível, a aversão completa, profunda, diametral a toda a espécie de erro ou de mal. A santa intransigência na verdade e no bem é a ortodoxia, a pureza, enquanto em oposição à heterodoxia e ao mal. Por amar a Deus sem medida, Nossa Senhora correspondentemente amou de todo o Coração tudo quanto era de Deus. E porque odiou sem medida o mal, odiou sem medida Satanás, suas pompas e suas obras, o demônio, o mundo e a carne. Nossa Senhora da Conceição é Nossa Senhora da santa intransigência.

VERDADEIRO ÓDIO, VERDADEIRO AMOR

Por isto, Nossa Senhora rezava sem cessar. E segundo tão razoavelmente se crê, Ela pedia o advento do Messias, e a graça de ser uma serva daquela que fosse escolhida para Mãe de Deus. Pedia o Messias, para que viesse Aquele que poderia fazer brilhar novamente a justiça na face da terra, para que se levantasse o Sol divino de todas as virtudes, espancando por todo o mundo as trevas da impiedade e do vício. Nossa Senhora desejava, é certo, que os justos vivendo na terra encontrassem na vinda do Messias a realização de seus anseios e de suas esperanças, que os vacilantes se reanimassem, e que de todos os países, de todos os abismos, almas tocadas pela luz da graça levantassem vôo para os mais altos píncaros da santidade. Pois estas são por excelência as vitórias de Deus, que é a Verdade e o Bem, e as derrotas do demônio, que é o chefe de todo erro e de todo mal. A Virgem queria a glória de Deus por essa justiça que é a realização na terra da Ordem desejada pelo Criador. Mas, pedindo a vinda do Messias, Ela não ignorava que este seria a Pedra de escândalo, pela qual muitos se salvariam e muitos receberiam também o castigo de seu pecado. Este castigo do pecador irredutível, este esmagamento do ímpio obcecado e endurecido, Nossa Senhora também o desejou de todo o Coração, e foi uma das consequências da Redenção e da fundação da Igreja, que Ela desejou e pediu como ninguém, "Ut inimicos Sanctae Ecclesiae humiliare digneris, Te rogamus, audi nos", canta a Liturgia. E antes da Liturgia por certo o Coração Imaculado de Maria já elevou a Deus súplica análoga, pela derrota dos ímpios irredutíveis.

Admirável exemplo de verdadeiro amor, de verdadeiro ódio.

ONIPOTÊNCIA SUPLICANTE

Deus quer as obras. Ele fundou a Igreja para o apostolado. Mas acima de tudo quer a oração. Pois a oração é a condição da fecundidade de todas as obras. E quer como fruto da oração a virtude.

Rainha de todos os apóstolos, Nossa Senhora é entretanto principalmente o modelo das almas que rezam e se santificam, a estrela polar de toda meditação e vida interior. Pois, dotada de virtude imaculada, Ela fez sempre o que era mais razoável, e se nunca sentiu em si as agitações e as desordens das almas que só amam a ação e a agitação, nunca experimentou em si, tampouco, as apatias e as negligências das almas frouxas que fazem da vida interior um paravento a fim de disfarçar sua indiferença pela causa da Igreja. Seu afastamento do mundo não significou um desinteresse pelo mundo. Quem fez mais pelos ímpios e pelos pecadores do que Aquela que, para os salvar, voluntariamente consentiu na imolação crudelíssima de seu Filho infinitamente inocente e santo? Quem fez mais pelos homens, do que Aquela que conseguiu se realizasse em seus dias a promessa do Salvador?

Mas, confiante sobretudo na oração e na vida interior, não nos deu a Rainha dos Apóstolos uma grande lição de apostolado, fazendo de uma e outra o seu principal instrumento de ação?

APLICAÇÃO A NOSSOS DIAS

Tanto valem aos olhos de Deus as almas que, como Nossa Senhora, possuem o segredo do verdadeiro amor e do verdadeiro ódio, da intransigência perfeita, do zelo incessante, do espírito de renúncia completo, que propriamente são elas que podem atrair para o mundo as graças divinas.

Estamos numa época parecida com a da vinda de Jesus Cristo à terra. Em 1928 escreveu o Santo Padre Pio XI que "o espetáculo das desgraças contemporâneas é de tal maneira aflitivo, que se poderia ver nele a aurora deste início de dores que trará o Homem do pecado, elevando-se contra tudo quanto é chamado Deus e recebe a honra de um culto" ( Enc. Miserentissimus Redemptor, de 8 de maio de 1928 ).

Que diria ele hoje?

E a nós, que nos compete fazer? Lutar em todos os terrenos permitidos, com todas as armas lícitas. Mas antes de tudo, acima de tudo, confiar na vida interior e na oração. É o grande exemplo de Nossa Senhora.

O exemplo de Nossa Senhora, só com o auxílio de Nossa Senhora se pode imitar. E o auxílio de Nossa Senhora só com a devoção a Nossa Senhora se pode conseguir. Ora, a devoção a Maria SSma. no que de melhor pode consistir, do que em Lhe pedirmos não só o amor a Deus e o ódio ao demônio, mas aquela santa inteireza no amor ao bem e no ódio ao mal, em uma palavra aquela santa intransigência, que tanto refulge em sua Imaculada Conceição?


O PALIO DE SIENA

TESTEMUNHO AINDA VIVO DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ

Carlos Alberto de Sá Moreira.

QUEM, viajando pela Toscana, chega de noite a Siena, e após atravessar suas majestosas muralhas percorre suas ruas antigas e tortuosas, cheias de mistério e de encanto, até a Piazza del Campo, centro da história da cidade através dos séculos, e subindo pela Via di Cittá encontra a Catedral, a mais linda jóia da arte medieval italiana na riqueza de seus mármores e mosaicos, sente a impressão de ter penetrado num mundo de sonhos. No silêncio e solidão da noite, a cidade como que esconde o que tem de atual, de moderno; paira no ambiente apenas o perfume da civilização medieval, da qual ela foi um glorioso expoente e é hoje fiel testemunha.

Siena foi na Idade Média um dos centros mais florescentes da Itália, pelo valor militar e pelo gênio artístico de seus filhos. Mas foi grande sobretudo pelo espírito católico que os vivificava, e que deu à Igreja Santa Catarina e São Bernardino, a quem seu nome está imortalmente ligado.

Expoente outrora da civilização cristã, hoje a cidade não é senão um retrato morto do que foi. Duas vezes por ano, contudo, ela revive, os habitantes retomam os trajes antigos, as corporações de artesãos ressurgem, bandeiras medievais são hasteadas, ouvem-se trombetas e tambores de guerra e, como que saído por encanto de alguma iluminura, um esplêndido cortejo entra na Piazza del Campo ante os olhos maravilhados dos espectadores: é a festa do Palio, realizada tradicionalmente desde o século XIV, na qual Siena parece voltar ao passado, oferecendo uma visão encantadora da alma guerreira, artística e religiosa da Idade Média.

SECULOS DE GLORIA MILITAR

SIENA é uma das cidades mais velhas do mundo. Foi na antiguidade um centro etrusco; depois gaulês, e por fim romano. Nos primórdios da Idade Média era constituída por três povoações em redor de outros tantos castelos — Castel Vecchio, Castel di Val di Montone, agora convento dos Servos de Maria, e Castellare de Camollia, hoje desaparecido. Depois esses pequenos burgos cresceram até se encontrarem em torno da Piazza del Campo, que se tornou o centro de Siena. Ali se edificou, em 1297, o Palácio Público, com a torre Mangia, de 102 metros de altura; seu sino marcava a vida da cidade, soando alegre nas festas fúnebre nas calamidades, e vibrante ao chamar para a guerra.

Sucederam-se séculos de glória militar e de florescimento artístico. Foi construída a Catedral, toda de mármore, listada de preto e branco - a obra-prima do estilo gótico italiano como dissemos; Duccio di Buoninsegna criou a famosa escola sienense de pintura, que no século XIV alcançou seu apogeu. Em 1555, porém, após uma resistência heróica, a cidade foi dominada pelas forças de Carlos V e anexada ao ducado da Toscana, perdendo para sempre sua independência.

O espírito guerreiro dos cidadãos de Siena se manifestava, quando não estavam empenhados em combates, nas festas e torneios — a princípio rudes, como o jogo da "Elmora", proibido em 1291, após o qual surgiram os jogos "delle Pugna", as touradas, as corridas de cavalos "alfa lunga", ao longo da cidade, e por fim ao redor da Piazza del Campo. Estas últimas, com algumas regulamentações posteriores, são as mesmas realizadas hoje em dia, constituindo o motivo da festa do Palio.

A Piazza del Campo, coração da cidade, é semi-circular, e apresenta uma ligeira depressão em frente ao Palácio Público. É rodeada de mais dois palácios e de velhas mansões. Por ocasião da corrida demarca-se uma larga pista entre os edifícios e o centro da praça, — pista muito perigosa, devido a dois ângulos retos e à depressão a que nos referimos, exigindo grande pericia dos jóqueis, que montam sem arreio.

EM LOUVOR DA VIRGEM

O PALIO não é apenas uma festa esportiva e guerreira, é também uma comemoração religiosa. A primeira corrida se realiza no dia 2 de julho, em honra da Madona de Provenzano, e a segunda a 16 de agosto, em louvor de Nossa Senhora da Assunção.

Esta especial devoção dos sienenses para com a Mãe de Deus, a Quem elegeram como Padroeira da cidade, tem origens muito antigas. Nos tempos do apogeu militar, partindo para a guerra eles ofereciam a Nossa Senhora as chaves das nove portas de Siena, para alcançarem sua proteção no combate. Em agradecimento pelas vitórias conquistadas, erguiam-lhe capelas e oratórios. Na véspera da batalha de Monteaperti dedicaram a cidade a Nossa Senhora da Assunção; a Ela consagraram a Catedral.

Nessa época, em que todas as atividades humanas eram vivificadas pelo sopro do Catolicismo, era natural que as próprias comemorações guerreiras tivessem uma nota profundamente religiosa. Assim os jogos com que Ferrara celebrava a festa de São Jorge, Bolonha as de São Pedro e São Bartolomeu, e Florença a de São João Batista. Em Siena, "cidade da Virgem", como era chamada, a principal festa foi durante muito tempo em honra da "Madonna dell'Assunta".

Em fins do século XVI, quando uma terrível fome assolou a região, o povo mais uma vez voltou-se para sua Protetora; mas não pôde entrar na Catedral para oferecer seus votos... porque dentro havia uma disputa terrível entre os Cônegos, e as portas estavam fechadas. Acorreram então os sienenses a Nossa Senhora de Provenzano, cuja imagem ficava entre duas janelas de uma humilde morada na Via dei Provenzani di Sotto, e que já operara milagres. A Virgem atendeu aos rogos que lhe foram dirigidos, e afastou o flagelo. Desde então a solenidade de Nossa Senhora de Provenzano, a 2 de julho, tornou-se a principal festa religiosa de Siena, comemorada também com uma corrida na Piazza del Campo.

Até hoje (embora seja preciso reconhecer que o espírito religioso atual é bem menos intenso que o de antigamente...) o Palio é realizado em louvor de Nossa Senhora. O único prêmio ao vencedor da corrida é um estandarte, pintado a mão, com a imagem da Madonna de Provenzano ou da Assunção, conforme o caso. Deste estandarte, em italiano "palio", a corrida recebeu o nome com que é conhecida.

A festa é rica em cerimônias e símbolos religiosos: beijo de relíquias pelo joguei, benção do cavalo, visita ao Arcebispo, Te Deum comemorativo da vitória, procissão ao Santuário de Nossa Senhora, e muitas outras, peculiares a cada "Contrada" - nome dos grupos que tomam parte na corrida.

ESPETÁCULO ARTÍSTICO INCOMPARÁVEL

As "Contradas" que correm no Palio têm origem medieval. Siena no seu apogeu era dividida administrativamente em 23 bairros autônomos, dentro de uma mesma muralha, cada qual com seu governo, suas leis, seus Padroeiros, sua igreja, e seu pequeno exército, que policiava seu pequeno território. Todos eles se uniam debaixo da autoridade do Magistrado da Comuna, o qual, do Palácio Público cuja torre domina a cidade e a região, presidia aos destinos comuns. Estas eram as originais "Contradas".

Com o tempo, porém, a administração se unificou e as Contradas passaram a ser apenas entidades civis. Mantiveram contudo certos direitos, que detêm até hoje: cobrar impostos dos cidadãos de seu território, convocá-los para reuniões, realizar comemorações nas ruas e praças, escolher protetores mesmo entre nobres

(continua)