Aulas da neo-história: instrumento da luta de classe
A "Proposta Curricular para o Ensino de História" instrumentaliza as crianças para a revolução social, ao recomendar que analisem panfletos como este, distribuído pela CUT em 1986.
EM COLABORAÇÃO anterior ("Revolução no ensino de primeiro grau - Uma visão marxista da História", "Catolicismo", fevereiro de 1988), ficou demonstrado que a "Proposta Curricular para o Ensino de História - 1? grau", da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, apresenta uma visão marxista da História.
Com o presente artigo, poder-se-á constatar como ela instiga entre os alunos (crianças de sete a quatorze anos) a luta de classes.
Evidentemente, não pretendemos fazer um estudo metódico da "Proposta", nem apresentar uma refutação cabal de todos os seus erros. Exporemos apenas a argumentação que nos pareceu suficiente para provar que tais erros muitas vezes são inspirados na doutrina comunista e, às vezes, até copiados dela; opondo-se, em consequência à doutrina católica, ou pelo menos ao bom senso e à reta razão.
Trabalho: tema supervalorizado
Segundo a "Proposta", trabalho é o tema base, ao qual tudo deve ser relacionado: crenças, valores, tradições, modos de pensar, sentir e agir (1). E o trabalho é entendido exclusivamente como sendo manual, conforme a doutrina marxista, que relega a segundo plano o trabalho intelectual.
Convém lembrar aspectos básicos da doutrina comunista sobre o trabalho e os trabalhadores (manuais), extraídos de conhecido autor soviético:
- "Os verdadeiros criadores da história são as massas populares, os trabalhadores" (2).
- "No trabalho se formam as relações econômicas de produção dos homens, com base nas quais surgem outras ligações -políticas, jurídicas, éticas" (3).
"A produção dos meios de subsistência materiais e imediatos e, deste modo, cada grau determinado de desenvolvimento econômico de um povo ou de uma época constituem a base, a partir da qual se desenvolvem as instituições estatais, as opiniões jurídicas, a arte e mesmo as concepções religiosas dos homens, e por meio da qual elas devem ser explicadas" (4) (destaques nossos).
Essas teses da doutrina marxista, de cunho materialista -que supervalorizam o trabalho e o desenvolvimento econômico -opõem-se à realidade histórica.
Não é o trabalho, nem são os modos de produção que determinam o curso dos acontecimentos históricos. Neste sentido, é oportuno lembrar a afirmação do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira de que "verdadeiramente determinantes na História são as convicções - ainda que expressas, por vezes, em termos de negação de qualquer convicção - religiosas e filosóficas.
"As doutrinas filosóficas e religiosas impulsionam o acontecer humano, não na proporção do espaço que ocupam nos livros, mas na medida em que vivem na alma dos povos" (5) (destaques nossos).
Como dissemos, a "Proposta" faz tábula rasa da existência do trabalho intelectual, e orienta todo o estudo da História em função do tema trabalho. Ora, são exatamente essas as diretrizes seguidas pelo comunismo, na reforma do ensino introduzida na Rússia:
"A reestruturação do sistema escolar, promovida atualmente em nosso país - escreve Afanassiev, atual diretor do "Pravda" - contribui também para a liquidação das diferenças essenciais entre o trabalho físico e o trabalho intelectual. O objetivo dessa reestruturação é ligar o mais estreitamente o estudo com o trabalho produtivo, o que melhora consideravelmente a educação das jovens gerações" (6) (destaques nossos). Na linguagem marxista, "melhorar a educação dos jovens" significa transformá-los em agentes comunistas.
Intentona comunista: "Movimento de 1935"...
O trabalho (manual, bem entendido) é um tema que obceca os redatores da "Proposta". Eis algumas sugestões apresentadas por eles, para serem "vivenciadas" por alunos da sexta à oitava séries (crianças de doze a quatorze anos):
"Poderia ser escolhida uma manifestação em que se evidenciassem lutas por melhores condições de trabalho. (..) O movimento escolhido em sala de aula poderá ser objeto de pesquisa, envolvendo entrevistas com pessoas que o vivenciaram, análise de (..) panfletos etc." (7).
Quanto ao "momento compreendido entre 1928 e 1937: do esmagamento do movimento operário ao sindicalismo oficial", na História do Brasil, pode-se "trabalhar com os seguintes tópicos:
os conflitos no interior do movimento operário: anarquistas, anarco-sindicalistas, comunistas; a Aliança Nacional Libertadora: ideário, mobilização popular e o movimento de 1935" (8).
Recomendar que alunos de doze anos analisem nas salas de aula panfletos distribuídos em manifestações operárias, panfletos estes geralmente esquerdistas, e que "trabalhem" com o ideário de um movimento comunista, como foi a Aliança Nacional Libertadora, obedecendo aos pressupostos ou à ideologia da "Proposta", significa instrumentalizar as crianças para a revolução social.
É curioso observar que a intentona comunista de 1935, responsável por tantos assassinatos à traição, seja designada eufemisticamente por "movimento de 1935".
O Capitão do exército João Ribeiro Pinheiro, atingido mortalmente por uma bala na cabeça, quando se aproximava do quartel do 3° Regimento de Infantaria, no Rio de Janeiro, onde ocorreu uma sublevação de militares comunistas, durante a Intentona de 1935.
Significado de "dominação e resistência"
Karl Marx, fundador do comunismo dito científico, insuflou a luta de classes, que faz parte da própria essência de sua doutrina.
A luta de classes, que faz parte da própria essência da doutrina comunista, constitui por assim dizer o cerne da "Proposta" que estamos analisando.
Vejamos o que diz ela, em seu anexo I:
"Nas últimas décadas, tenta-se pensar a história (...) adotando-se uma concepção de história que leve em conta toda a experiência humana.
"Pensar a história como toda experiência humana, entendida sempre como experiência de classe, que é de luta (...) significa considerar (..) que a história real é construída por homens reais, vivendo relações de dominação e subordinação em todas as dimensões do social, daí resultando processos de dominação e resistência" (9) (destaques nossos).
"O historiador, quando está trabalhando determinado objeto, o que está trazendo à tona, conscientemente ou não, é a própria luta de classes do momento que está tratando e do seu próprio momento" (10) (destaques nossos).
Ao longo de toda a "Proposta", recomenda-se o "exercício de dominação e resistência", que não passa de uma nova maneira de se designar a luta de classes. Mas não se trata apenas da luta entre uma classe superior (dominante) e uma classe inferior (que resiste).
Na realidade, "o exercício da dominação e da resistência se dissemina por toda a estrutura social, é inerente às lutas cotidianamente travadas, adquirindo expressão em práticas e estratégias simultaneamente presentes na multiplicidade das experiências historicamente vivenciadas" (11) (destaques nossos). Assim, é a própria doutrina marxista do materialismo dialético que está em cena.
A Igreja condena a luta de classes
São inúmeros os textos pontifícios que pregam a harmonia entre as classes sociais, e condenam taxativamente a doutrina marxista da luta de classes. A título de mera exemplificação, reproduzimos em quadro à parte um dos textos mais conhecidos e significativos da Encíclica "Rerum Novarum" de Leão XIII, no qual o Pontífice ressalta a harmonia que deve reinar entre as classes sociais, entre o capital e o trabalho. Essa harmonia produz a beleza e a ordem na sociedade civil.
Os alunos das escolas estaduais de São Paulo correm, pois, gravíssimo risco de se transformarem em comunistas com a aprovação dessa "Proposta". Mas antes que ela seja aprovada oficialmente, muitos livros didáticos já estão utilizando seu linguajar e seguindo sua ideologia!
Assim, é necessário que pais, professores, associações particulares dedicadas ao ensino se unam e lutem com todos os meios que as leis lhes facultem, para impedir tal calamidade.
Nesta hora dramática, quem se omitir e se deixar levar pelo comodismo merecerá a censura feita pelo Papa Pio XI:
"Se bem julgamos supérfluo chamar a atenção dos filhos obedientes da Igreja para a impiedade e iniquidade do comunismo, contudo não é sem dor profunda que vemos a apatia dos que parecem desprezar perigos tão iminentes, e com desleixo pasmoso deixam propagar por toda parte doutrinas que porão a sociedade a ferro e fogo" (18)
Materialismo dialético, materialismo histórico
O filósofo alemão Hegel (1770-1831) propugnou o idealismo absoluto, também chamado panlogismo, que nega a distinção
essencial entre Deus e o mundo, a noção de um ser transcendente.
Hegel vai buscar em outro filósofo alemão, Fichte, elementos para formar a sua doutrina dialética, que supõe três etapas: a tese, a antítese e a síntese:
"Um conceito se transforma no seu oposto, mas as oposições se resolvem, por sua vez, num plano mais elevado, que é a sua síntese. O novo conceito se torna, por sua vez, tese, provoca a antítese, de novo superada, assim continuando o processo até o Espírito gerar de si todo o mundo dos objetos" (12).
Marx negava a existência do espírito e só admitia a matéria. Aplicando a dialética de Hegel ao plano material, elaborou a doutrina do materialismo dialético. E fazendo o mesmo em relação à História, Marx criou a doutrina do materialismo histórico. Para ele, a História não é "um amontoado caótico de fatos sem ligação entre si", mas sim "um processo (..) que se realiza de acordo com leis dialéticas" (13).
Reproduzimos, a seguir, algumas asserções de Afanassiev, que são muito ilustrativas a esse respeito: "Os aspectos contraditórios existem em todos os objetos e fenômenos (...) são inerentes ao processo de conhecimento (..). A natureza contraditória dos objetos e fenômenos do mundo possui um caráter geral, universal. Não há no mundo objeto ou fenômeno que não se desenvolva por meio de contradições. Os contrários não só excluem, mas pressupõem necessariamente um ao outro. Eles coexistem em um só objeto ou fenômeno, e não se pode conceber um sem o outro (..).
"O caráter contraditório dos contrários, que se excluem um ao outro, provoca necessariamente a luta entre eles (..). A contradição, a luta dos contrários, constitui a fonte fundamental do desenvolvimento da matéria e da consciência. 'O desenvolvimento - escreveu Lênin - é a "luta" dos contrários'. Assim ele acentuou, com particular vigor, que a luta é absoluta, como é absoluto o desenvolvimento, o movimento" (14).
Por esses trechos pode-se verificar que o ódio e a violência estão no próprio âmago da doutrina comunista. De outro lado, todo comunista é relativista e abomina os dogmas. Entretanto, seu chefe de fila, Lênin, admite "com particular vigor" uma "verdade" dogmática: "a luta é absoluta"!
A dialética de Hegel e, consequentemente, o materialismo dialético de Marx opem-se a dois princípios lógicos fundamentais: o de identidade e o de contradição, os quais podem ser expressos das seguintes formas:
– princípio de identidade: "o que é, é", ou ainda: "o ser é idêntico a si mesmo";
– princípio de contradição: "uma coisa não pode, ao mesmo tempo e do mesmo ponto de vista, ser e não ser".
Esses princípios, juntamente com o princípio de razão suficiente, denominam-se primeiros princípios porque "são como os pontos de partida, os reguladores, os estimulantes da atividade" racional. São "indemonstráveis porque (..) evidentes em si mesmos (..). Todos os que têm uso da razão (...) os aplicam, os admitem, e são obrigados a fazer-se violência para duvidar deles" (15). "É impossível pensar sem utilizá-los, conscientemente ou não (..). Negá-los é negar o pensamento, e violá-los é não pensar" (16).
Marx - opõe-se a princípios lógicos fundamentais, negando assim o próprio pensamento.
Vemos assim que, negando aqueles princípios, Hegel e Marx negam o próprio pensamento. Ora, o pensamento "é no homem a atividade vital por excelência (...). É ele principalmente quem lhe permite realizar seu fim de animal racional" (17).
Negar o pensamento significa querer extinguir o elemento racional do homem, e transformá-lo em mero animal. É exatamente essa a meta do secular processo revolucionário de caráter igualitário, do qual o comunismo é uma das importantes forças nos dias que correm.
Paulo Francisco Martos
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