Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 448 | página 08-09
| SEMANA SANTA NO CENTRO DA CRISTANDADE |(continuação)

Merulana, que hoje une a Basílica Lateranense à outra Basílica: Santa Maria Maggiore. A uns cem metros adiante desta, detivemo-nos ante a pequena porta de uma antiquíssima igreja que só se percebe quando se está muito próximo. É Santa Praxedes.

Entramos para venerar outra preciosa relíquia da Paixão. Relíquia tal, que quase não nos atraíram os magníficos mosaicos paleocristãos que adornam esta igreja. É a Coluna da Flagelação. O Cardeal Colonna, protetor deste templo, em honra ao significado de seu nome, não encontrou melhor relíquia com que o adornar. Trouxe a Santa Coluna no regresso da sexta cruzada, em 1223. Recordamos como Jesus foi atado a ela e flagelado pelos sicários de Pilatos. Seu mármore com veias verdes deve ter sido coberto pelo Sangue do Redentor.

Dois objetos arquitetônicos do palácio de Pilatos, duas relíquias, duas igrejas. A Scala Santa e Santa Praxedes abriga estes dois objetos, uma escada e uma coluna, que a piedade dos fiéis durante séculos tem venerado em Roma.

A verdadeira Cruz

Deixamos Santa Praxedes e voltamos em direção à Scala Santa, de onde partíramos. A uns trezentos metros encontra-se a Basílica de Santa Cruz de Jerusalém. Foi residência de Santa Helena. Constantino, com a morte de sua mãe e em sua memória, transformou-a em igreja, a qual, com diversas modificações através dos séculos, chegou até nós. Conserva a relíquia mais preciosa que a mãe do imperador trouxera da Terra Santa: a Verdadeira Cruz. Ou melhor, os maiores fragmentos que se conservam da Cruz por ela encontrada milagrosamente em Jerusalém. A mesma Cruz sobre a qual Nosso Senhor ofereceu sua vida por nós e nos redimiu. Junto ao relicário contendo os pedaços do insigne madeiro, outras relíquias da Paixão: a falange de São Tomé Apóstolo, a mesma que tocou as Chagas de Nosso Senhor; alguns espinhos da Sagrada Coroa, um cravo da crucifixão.

Recordemos os versos da Liturgia deste dia: "Dulce lignum, dulces clavos..." (Doce lenho, doces cravos). "Este é o madeiro da Cruz, sobre ele esteve suspenso a salvação do mundo".

Ali está também a madeira com a inscrição em hebreu, grego e latim: Jesus Nazareno, Rei dos Judeus. A escrita já quase apagada pelos séculos causa emoção.

As três da tarde da Sexta-Feira Santa, rezamos unidos a todos os católicos do mundo, que em diferentes fusos horários recordam neste dia a morte de nosso Salvador.

Juan Miguel Montes


| SANDINISMO |

Nicarágua - Desinformação

"EU NÃO PODIA sequer imaginar que fosse tanta a miséria, tanto o tormento, tanta a fúria e tanto o desespero do povo nicaraguense. Aprendi muito sobre nossos meios de in-- formação, que constituem a caixa de ressonância da desinformação".

Esta contundente apreciação sobre os efeitos do sandinismo na Nicarágua e acerca da cumplicidade dos meios de comunicação ocidentais com tal situação, foi feita por Martin Kriele, estudioso alemão que durante três semanas percorreu aquele país. Seguem alguns excertos de seu importante livro (*).

"Em Manágua deixamos as malas no quarto do hotel e saímos para almoçar. Quando voltamos elas estavam abertas. Haviam desaparecido todos os livros (...). Água corrente não é sempre que há: falta também vidro; uma ala da porta de entrada do hotel está revestida de madeira".

"A gasolina está racionada. As prateleiras dos estabelecimentos comerciais estão vazias".

"A agricultura está fracassando (...). É a lei da Reforma Agrária (...). É este precisamente um dos motivos principais da resistência camponesa contra o regime sandinista (...). A situação do setor industrial não é melhor (...). Em Manágua surgiram novos bairros de miséria".

"Os tribunais populares estão destinados a promulgar sentenças contra pessoas sobre as quais paire a suspeita de serem contra-revolucionárias".

"A situação econômica obrigou a fechar muitas escolas (...). A grande maioria dos médicos abandonou o país, decepcionados pela orientação soviética. O governo está tentando implantar o modelo cubano de capacitação médica acelerada. O nível de conhecimento destes semimédicos é péssimo. Há deficiência aguda de medicamentos e equipamentos médicos".

"O poder dos Comitês de Defesa Sandinista (CDS) vai além do que era acumulado pelos delatores da época do nazismo alemão. Os CDS obrigam os homens a dizerem o que não pensam, a filiar-se a associações que detestam, a gritar slogans dos quais discordam. Obrigam-nos também a renunciar à educação de seus filhos no espírito da religião".

"Quanto às eleições, o ambiente que se percebe é muito parecido ao da Polônia. São escancaradamente fraudulentas".

"Não há proteção legal contra detenções, torturas (...). Nos últimos anos os sandinistas mataram uns 15 mil índios miskitos. Outros 30 mil estão em campos de concentração e uns 3 mil nas prisões. Na aldeia miskita de Mocorón, mulheres foram violentadas diante de seus maridos, cometeu-se o sacrilégio de transformar a igreja em cloaca. Nos muros exteriores pintaram: 'Vosso Deus já o matamos'. Foram cortadas as mãos e as orelhas e arrancados os olhos a 32 homens. Depois foram executados. Queimaram casas, castraram homens, cortaram-lhes línguas e bocas. Cortaram os seios das mulheres. E tudo isso feito em presença de familiares, filhos etc. Cortaram a língua de um homem e o enforcaram na igreja. Abriram o ventre de uma mulher grávida. Numa faixa de160 kms ao longo do rio Coco arrasaram tudo: plantações, gados, tudo".

E o Sr. Kriele, referiu-se à grande desinformação que a esquerda promove na Europa sobre a Nicarágua:

"No Brasil creio que a desinformação sobre a Nicarágua é quase tão grave quanto a que se observa na Europa Ocidental (...). O Bispo Casaldáliga voou para Manágua a fim de compartilhar o jejum de D'Escoto. O Cardeal Arns declarou-se 'plenamente solidário', os bispos Fragoso e Pires respaldaram as declarações feitas por Arns e Casaldáliga".

(.) "Nicarágua — Corazón herído de América", Hase & Koehler Verlag, Mainz (Alemanha), 1986, 186 páginas. Traduzido para o castelhano, do original alemão "Das Blutende Herz Amerikas", por Javier Velazquez. Edição promovida pelo Institut fur Internationale Solidaritat Konrad-Adenauer-Stiftung. Embora publicada há cerca de dois anos, a obra apresenta algumas denúncias impressionantes que merecem ser reproduzidas em "Catolicismo", por serem praticamente inéditas no Brasil.


| FRANÇA |

Nem esquerda, nem direita, mas um centro sem expressão
Também na França, eleição-sem-ideias

"UM PAÍS que fosse movido muito mais por intuições do que por um pensamento político levado a sua inteira dimensão pela observação diligente como pela análise serena e penetrante da realidade, e ainda pela cogitação doutrinária séria, não poderia chamar-se um país-de-ideias. A ser ele democrático, constituiria uma democracia-sem-ideias".

Tal é a incisiva afirmação que, em sua mais recente obra, Projeto de Constituição angustia o País ("Catolicismo", Edição Extra, outubro de 1987, r tiragem, p. 20), faz o eminente pensador católico, Plinio Corrêa de Oliveira. Nela, o autor analisa a crise por que passa a Assembleia Nacional Constituinte, carente de representatividade da Nação brasileira, por efeito de uma propaganda eleitoral sem ideias.

De fato, a relação entre o eleitor e o candidato por ele sufragado é, em essência, a de uma procuração. O eleitor confere ao candidato um mandato, com base no programa que este deve expor ao eleitorado. Programa que se supõe lido previamente pelo eleitor, que o ratifica ao dar seu voto ao candidato em questão. Uma vez eleito, o deputado (ou qualquer outro detentor de cargo político num regime representativo) é assim um procurador ou mandatário do eleitor. É o executor da vontade deste.

Ora, a quase total ausência de ideias nas eleições brasileiras de 1986 fez-se sentir pelo "grande" aumento em favor dos candidatos: na maioria dos cartazes, suas fotografias, impressas até em cores, apresentando as expressões fisionômicas e as indumentárias que julgassem mais próprias a lhes atrair votos.

Alguém poderia objetar que tal ocorreu, devido a circunstâncias especiais, próprias a um país novo, em desenvolvimento, como o Brasil. Isto não sucederia em países com um mais longo passado democrático, cujas instituições estão consolidadas, e onde as ideias deixaram sua marca indelével nos acontecimentos. Por exemplo, a França. Passados os terremotos causados pela Revolução Francesa e suas sequelas, que se fizeram sentir no decorrer de todo o século passado, provocando, convulsões maiores ou menores, até o advento da Terceira República, em 1870, com a qual parecia ter-se consolidado a democracia na França, a sucessão dos fatos tenderia a indicar um aperfeiçoamento desse sistema político. Acrescente-se que na França a leitura constitui um hábito generalizado em todas as camadas da população, e pareceria que artifícios típicos de países subdesenvolvidos para atrair o eleitorado não impressionariam o público.

Não é, porém, o que está ocorrendo na atual campanha eleitoral para a presidência da República francesa.

Os candidatos até o momento são: Jacques Chirac, dito de direita, atual Primeiro-ministro do governo (o Presidente é o socialista François Mitterrand); Raymond Barre, que também se apresenta como direitista; e Jean-Marie Le Pen, do Front Nacional, considerado de extrema-direita. Aguarda-se para qualquer momento o anúncio da candidatura de Mitterrand, o qual é apontado por muitas pesquisas de opinião como o provável vencedor.

A ideologia fora de moda

"A campanha para as eleições presidenciais francesas não tem conteúdo ideológico definido, pois a ideologia está fora de moda" ("O Globo", 7-2-88). Se a ideologia está fora de moda, a inteligência, por assim dizer, deixou de reger o homem. "Esta eleição será vencida levando em conta as pessoas em vez dos temas" ("Newsweek", 15-2-88). E propriamente o que o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira classifica, no livro acima citado, de eleição-sem-ideias. Para "substituir o debate autêntico de ideias, os candidatos resolveram investir na exploração da própria aparência, com a esperança de que o aspecto visual tenha mais impacto que os longos discursos. Maquiagem, penteados, roupas de estilistas célebres, cartazes sofisticados, passaram a ser obrigatórios" ("O Globo", 7-2-88).

"Antigamente havia a direita e a esquerda, que pareciam duas matilhas inimigas. Em tal esquema, o fato de Mitterrand impressionar mais do que Barre ou que Chirac não teria nenhum efeito. Esse não é mais o caso hoje" ("O Estado de S. Paulo", 14-2-88). É de se notar o "não é mais". É um passado que, segundo insinua o articulista, não voltará mais, que morreu. Qual é este passado? Aquele em que regia a inteligência. "A França, agora, quer ser governada mais ou menos pelo centro. Nesse sentido, a 'coabitação' [entre Mitterrand, presidente socialista e Chirac, direitista] substituiu os habituais governos monolíticos, sucessivamente de direita ou de esquerda" (id., ib.). Em outras palavras: como a inteligência e as ideias estão diminuídas, tanto a esquerda como a direita não se mostram muito seguras a respeito do que desejam. E preferem um programa que elas não definem bem, mas que são próximos entre si.

Assim, não causa estranheza o fato de que "os programas de esquerda e de direita são surpreendentemente parecidos" ("O Globo", 7-2-88). Nem "que entre a gestão socialista modelo Fabius e da direita, as diferenças são mínimas" ("O Estado de S. Paulo", 14-2-88). E espanta muito menos a afirmação de que "a aliança Ocidental sair-se-á bem com qualquer um deles" ("Newsweek", 15-2-88). Mas essa semelhança, ao contrário de conduzir a uma política clara, definida, segura, conduzirá a incertezas, tropeços e inseguranças. A prosseguirem assim as coisas, nada impedirá, em prazo maior ou menor, o advento do caos.

Obstáculo à expansão socialista

"Em 1981, [Mitterrand] quando assumiu o poder, lançou-se a uma ação generosa e delirante para corrigir as desigualdades sociais. Resultado: em menos de dois anos, a França socialista estava exangue.

"O ano de 1983 é um ano-chave. É o ano em que o socialismo passa de uma expressão `revolucionária' para sua expressão `social-democrata — (id., ib.). Ou seja, com o fracasso da política econômica socialista, e a consequente perda da popularidade, a esquerda procura aproximar-se da direita.

Faz-se necessário lembrar aqui o papel decisivo que teve para furar o balão socialista, então em expansão, a extraordinária análise feita pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em seu estudo "O socialismo auto gestionário face ao comunismo: barreira ou cabeça-de-ponte?", denunciando a manobra para implantação na França de Mitterrand, e dela para o mundo, da autogestão socialista. Em 155 publicações em 69 países, 33,5 milhões de exemplares publicados puseram em xeque esta manobra socialista mundial.

"A direita segue o mesmo percurso. A direita francesa, xenófoba, racista e nostálgica (etapas: o caso Dreyfuss, o maurrassismo, o

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