Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 448 | página 02-03
| SANTO SUDÁRIO |

O Santo Sudário de Turim, testemunho da Paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor

EM SUA EDIÇÃO de abril de 1983, "Catolicismo" publicou um penetrante artigo sobre a Sagrada Face de Nosso Senhor estampada no Santo Sudário de Turim. A atualidade do tema é permanente, mas, de modo particular, convém que voltemos a ele, por ocasião da Semana Santa.

Nos últimos dez anos, houve um considerável- número de livros e publicações no inteiro, consagrados ao Santo Sudário, especialmente por motivo do segundo Congresso Sudarístico Internacional, realizado na cidade de Turim, em outubro de 1978. Na mesma ocasião, uma equipe de cientistas norte-americanos realizou acurada pesquisa sobre o sagrado lençol, tendo sido suas conclusões publicadas após três anos de trabalhos exaustivos.

O Santo Sudário tal como se apresenta. A imagem tem as características de um negativo fotográfico, no qual o preto e branco e a esquerda/direita estão invertidos.

Em nosso século cético e pragmático, a maioria dos estudos do assunto tem como ideia fixa alguns problemas: saber se a ciência conseguirá ou não provar a autenticidade do Sudário; se tal ou tal nova técnica poderá determinar o trajeto exato percorrido pelo Sudário através da História; ou ainda se uma nova descoberta invalidará os estudos anteriores. Ora, nada disso é o mais importante. Se é bem evidente que um católico não deve desprezar as pesquisas científicas (várias e das mais importantes foram realizadas por católicos), o ponto principal para o fiel, ao refletir sobre o Sudário, é sem dúvida a contemplação dos padecimentos assombrosos pelos quais Nosso Senhor quis passar, tendo em vista nossa salvação. Tal contemplação pode ser enriquecida pelas novas luzes que o estudo do Santo Sudário oferece sobre a Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Apresentaremos a nossos leitores uma rápida visão histórica do acontecido com a insigne relíquia ao longo dos séculos, e em seguida um apanhado geral de algumas das pesquisas científicas já realizadas. Desde já queremos deixar claro que o tema, vastíssimo, não poderia ser tratado exaustivamente num artigo. Dezenas de obras já foram publicadas sobre o assunto, e tanto os historiadores quanto os cientistas estão longe de ter esgotado a matéria. Tentamos aqui num simples artigo expor as últimas e mais concludentes descobertas tanto no campo exegético quanto científico. Consultamos ampla bibliografia, citada ao longo do artigo e no final. Nosso objetivo principal é dar um modesto contributo àqueles que desejam meditar os sofrimentos divinos — para os quais o Santo Sudário tanto pode ajudar — , contemplação esta que, há cerca de dois mil anos, vem alimentando a devoção dos fiéis e continuará a fazê-lo até a consumação dos séculos.

Breve histórico

O Santo Sudário é um lençol de linho, com grandes dimensões (4,36 m. x 1,10 m.), cuja trama apresenta o desenho chamado "em espinha de peixe", e no qual se notam, em tênue cor amarelo-palha, as marcas deixadas pelo Corpo do Crucificado. Duas linhas mais escuras entrecortadas por triângulos mais claros percebem-se de cada lado da figura, ao longo de todo o comprimento. São as marcas deixadas pelo incêndio de 1532, durante o qual o relicário de prata que continha o Sudário chegou a derreter-se em parte. As religiosas clarissas de Chambery colocaram alguns remendos, que foram reforçados pelo Bem-aventurado Sebastião Valfrés em 1694. A água usada para apagar o incêndio deixou também sinais bem visíveis no Sudário.

Quando, em 1983, faleceu Umberto II, último rei da Itália (reinou até 1946), legou ele para a Igreja Católica o Santo Sudário do qual era proprietário. É natural que o leitor se pergunte o que aconteceu com o Sudário desde a morte de Nosso Senhor na Cruz e de Sua Ressurreição, até a relíquia chegar a Turim, onde está hoje em dia.

Nosso Senhor morrera por volta das três horas da tarde, e como era véspera de sábado, a partir do pôr do sol não se podia mais efetuar nenhum tipo de trabalho, nem mesmo enterrar um morto. Por isso não houve tempo para proceder a todos os ritos fúnebres de costume.

Este é o modo pelo qual Nosso Senhor foi envolto no Santo Sudário, segundo pintura de Giovanni Battista della Rovere (fim do século XVI e inicio do século XVII).

O Corpo foi envolto num grande pano, chamado Síndone pelos Evangelistas (Mt. 27, 59; Mc. 15, 46; Lc. 23, 53), colocado num sepulcro, propriedade de José de Arimateia, e fechado com uma grande pedra. Quando, no domingo pela manhã, as santas mulheres foram ao túmulo para ungir o Corpo do Senhor, encontraram o sepulcro aberto e vazio. Assim que São Pedro teve conhecimento do ocorrido, para lá dirigiu-se com São João. Este chegou primeiro e, ao inclinar-se, viu dentro do jazigo o Santo Sudário, exatamente no mesmo local em que estava quando recobria o Senhor, porém "desinflado", jazendo no chão. O Corpo não estava mais lá. No lugar da cabeça, por debaixo do pano e formando um pequeno relevo, estava o lenço que havia sido amarrado em torno da cabeça de Jesus, conservando ainda o formato ovalado desta.

A disposição dos panos evidenciou para as duas testemunhas, São Pedro e São João, o seguinte: o Corpo não estava mais presente, mas não foram removido por ninguém, pois os panos estavam intactos, não tendo sido tocados; o Corpo, portanto, como que se evadira de dentro dos tecidos. Daí concluir o Evangelista: "Ele viu e creu" (Jo. 20, 3-8), Nosso Senhor realmente tinha ressuscitado (cfr. estudo do Pe. Lavergne OP publicado em "Sindon" nº 5-6, ano III, 1961, Torino) (*).

(*) Tal interpretação sobre a disposição dos panos no sepulcro baseia-se numa nova tradução da Vulgata, apoiando-se nos textos gregos (especialmente o "Codex Sinaiticus"), que .vem sendo feita a partir da década de 60. A nova tradução é fundamentada em particular nos estudos exegéticos do Pe. Ceslas Lavergne OP e do Pe. Jat Robinson, exegeta inglês, além de muitos outros, e tem confirmado inteiramente todas as pesquisas arqueológicas e científicas efetuadas sobre o Santo Sudário. É mesmo, hoje em dia, considerada a tradução mais satisfatória dessa difícil passagem. Remetemos o leitor ao estudo detalhado do Pe. Lavergne (op. cit.).

É bem evidente que os primeiros cristãos recolheram e guardaram com toda a veneração as Sagradas Relíquias da Paixão do Senhor. Vamos depois encontrá-las em Constantinopla, onde, na igreja de Nossa Senhora de Blaquerna, o Santo Sudário, durante muitos séculos, foi venerado. Não se sabe exatamente em que época ele foi levado para lá, mas há, ao longo da História, vários dados indicativos da presença do Sudário. Os imperadores bizantinos cunharam moedas com a efígie de Nosso Senhor, e nessas efígies encontram-se as mesmas características que se notam na Santa Face estampada no Sudário de Turim. A mais antiga dessas moedas foi cunhada pelo Imperador Justiniano II (685-695).

Os especialistas, particularmente P. Vignon e A. Wenschel, enumeraram umas vinte marcas ou traços característicos existentes na Santa Face do Sudário, que podem ser encontrados também em inúmeros retratos de Nosso Senhor na arte bizantina, desde o século V.

Entre outras marcas descobertas por eles, contam-se: uma risca transversal na testa, uma forma de "v" muito visível no prolongamento do nariz entre as sobrancelhas, a sobrancelha direita erguida, as maçãs do rosto salientes, a repartição da barba, uma linha transversal na garganta e os olhos muito grandes. O Santo Sudário era, portanto, ao que tudo indica, bem conhecido e considerado como modelo seguro para os artistas, pois era a "mais bela imagem, a mais preciosa e sugestiva que se possa imaginar, (..) e que com certeza não foi feita por mão humana" (Pio XI, Osservatore Romano, 8-9-1936).

Após a quarta cruzada, em 1204, que terminou com a tomada de Constantinopla, o Santo Sudário desapareceu; como e por quem foi ele levado para a Europa, é uma pergunta que os historiadores não responderam por inteiro. Porém, uma comunicação feita pelo Pe. Rinaldi no Congresso Sudarístico de Bolonha, em 1982, parece ter dado um passo decisivo na pesquisa histórica.

O Pe. Rinaldi encontrou nos arquivos vaticanos uma carta do imperador bizantino Alexis V, dirigida ao Papa Inocêncio III, após a tomada de Constantinopla pelos cruzados. Nela, o imperador deposto narra o acontecido ao Papa e pede que ele intervenha junto a um dos chefes da cruzada, Othon de la Roche — que seria responsável pelo desaparecimento do Sudário — , para que o restituísse. Longe de o fazer, Othon teria enviado a preciosa relíquia para seu pai, residente em Besançon, na

França. O fato é que o Sudário aparece mais

tarde, em 1357, em Lirey, naquele mesmo

país, nas mãos de Joana de Vergy, viúva de Godofredo de Charny. Ela era bisneta de Othon de la Roche. Se bem que tais fatos ainda não estejam estabelecidos com todo o rigor científico, sua autenticidade é muito provável ("Historia", revista especializada, n? 433, Paris, 1982, pp. 106-108).

A partir daí, a história do Santo Sudário é bem conhecida: venerado desde 1357 em Lirey, numa igreja construída para esse fim, foi ele depois doado por Margarida de Charny, neta de Joana de Vergy, para a casa dos Duques de Sabóia. Estes receberam a preciosa relíquia em 1453. Primeiramente venerada em Chambery, então parte do ducado de Saboia e hoje território francês, o Sudário foi transportado para Turim em 1578, onde permanece até hoje.

O Sudário revela ser um negativo fotográfico

Na cerimônia de encerramento de Sua exposição solene, em 1931, o Santo Sudário é mostrado, na escadaria da Catedral de São João, em Turim, à multidão reunida na praça.

Por ocasião do casamento do Príncipe herdeiro do trono da Itália, o futuro rei Vítor Emanuel III, em 1898, o Santo Sudário foi pela primeira vez fotografado pelo advogado Secondo Pia. Este tirou duas chapas e foi revelá-las pessoalmente em seu laboratório. Qual não foi sua surpresa quando, ao revelar as fotos, apareceu nos negativos o majestoso semblante de Nosso Senhor! O que se via no Santo Sudário era, portanto, uma imagem negativa, que no negativo da fotografia se convertia em um retrato positivo. Retrato no qual se podem notar, reproduzidas com a maior perfeição e nos mínimos detalhes, as marcas dos sofrimentos

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