Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 445 | página 14-15
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marxista Nikolai Shmeiev, segundo o qual a sociedade soviética sofre de "uma apatia maciça, indiferença, roubo, falta de respeito para com o trabalho honesto, alcoolismo e preguiça" ("Los Angeles Times", 25-10-87).

De acordo com o mesmo jornal, um alto funcionário soviético declarou num encontro de sovietólogos: "Sem a perestroika não há futuro para a Rússia – apenas ontems".

Em seu livro, Gorbachev aponta outros males: "...havia dificuldade no fornecimento de alimentos, habitação, bens de consumo e serviço" (p. 20). "Havia uma cisão entre palavras e atos que gerou uma passividade no público e a descrença nos lemas proclamados (..). O alcoolismo, o consumo de drogas e os crimes aumentavam" (p. 21). "Em alguns níveis da administração surgiu o desrespeito pela lei e o encorajamento de trapaças e suborno" (p. 22). Mesmo ao confessar com "franqueza" os males que afligem o regime, Gorbachev mente: coloca os verbos no passado, como se esses males já não mais existissem, quando ele mesmo mais adiante, à página 69, explica que a perestroika ainda está no início da correção dos problemas do país.

Vejamos quais são as principais dessas múltiplas crises que assolam o comunismo soviético.

CRISE IDEOLÓGICA –Diz o líder russo: "Iniciou-se uma gradual erosão de valores ideológicos e morais de nosso povo" (p. 20). Os "valores morais" aqui aludidos referem-se à assim chamada "moral comunista", –uma distorção escandalosa do conceito, uma vez que os comunistas não reconhecem a moral verdadeira. Um samizdat publicado pelo jornal soviético "Russkaya Mysl" (24-4-87) denuncia: "Na Rússia há uma situação revolucionária, mas não há revolucionários". Os sovietólogos chegam a essa mesma conclusão. David Shipler – na obra de sua autoria que apresenta o sugestivo título "Rússia – ídolos quebrados, sonhos solenes" (N.Y., 1980) – diz: "Um grande número de russos perdeu seus heróis, a fé em sua ideologia e em seu futuro. Alguns reagem contra isso refugiando-se em sua vida íntima, pondo de lado o coletivismo (..) outros passam a idealizar o passado russo, com suas raízes na simplicidade rural e na pureza moral (..) isso está baseado na grande tensão e nostalgia que perpassa profundamente todas as camadas da sociedade russa" (p. 5).

O PC transformou-se numa repartição pública, num cabide de empregos e as pessoas inscrevem-se nele para fazer carreira. Os tempos do fervor revolucionário já vão longe. Como o regime não cai mesmo, graças à KGB, muitos fazem a seguinte reflexão: "Vamos viver como se ele não existisse; ignoremo-lo". E passam a trabalhar por conta própria, integrando-se à florescente e enorme economia paralela.

Publicam-se livros e revistas clandestinos, enquanto médicos montam clínicas em suas casas. Engenheiros e pedreiros constroem ou reformam casas por conta própria. Até filmes e videocassetes são produzidos no mercado negro, além de se desenvolver todo tipo de comércio imaginável. Os analistas consideram que sem essa economia paralela o país não funcionaria. Tudo isso mostra quanto a população soviética está distante dos princípios coletivistas de Lênin, após 70 anos de doutrinação intensa.

CRISE RACIAL – Vivem na Rússia cerca de 110 povos, cada um com sua língua, costumes e problemas. A maioria deles não está misturada à população russa, mas ocupa seus territórios tradicionais. Eis porque alguns chamam a Rússia de "prisão de nações". O antagonismo de muitos desses povos contra os russos está sendo exacerbado, sobretudo nas regiões muçulmanas e no Báltico. Uma agravante desse quadro consiste no fato de que tais povos têm uma taxa de aumento demográfico maior que a dos russos: constituem eles quase 50% da população, e, dentro em breve, tornar-se-ão maioria. A metade do contingente das forças armadas soviéticas é formada por elementos provenientes de tais povos, o que tem causado numerosos incidentes de cunho étnico, inclusive no Afeganistão.

CRISE TECNOLÓGICA –A Rússia encontra-se incrivelmente atrasada no que se refere à maioria das tecnologias de ponta. E na computação, que atinge todos os campos da economia moderna, o atraso é colossal. Caso se eliminasse do país seus 3,7 milhões de militares, seus foguetes e armas nucleares, a Rússia seria um país do Terceiro Mundo. Só o setor de armamento é avançado, graças aos rios de dinheiro a ele dedicados pelo governo e à eficácia da espionagem soviética no Ocidente.

É justamente essa sangria de recursos que Gorbachev tenta estancar com os acordos de desarmamento. Em seu livro, o secretário geral do PC soviético confessa que os equipamentos industriais russos não estão à altura dos padrões mundiais. Ao contrário dos industrializados brasileiros, os produtos russos não conseguem ser exportados, devido à sua baixa qualidade e tecnologia obsoleta.

CRISE NO SETOR DA SAÚDE – A Rússia é o único país industrializado do mundo, onde o índice de mortalidade está em ascensão: as mortes por 1000 habitantes subiram de 6,9 em 1964, para 10,3 em 1980. Mas as autoridades cessaram de divulgar os dados para evitar o vexame que representa esse aumento. Algo similar ocorre com a mortalidade infantil, cujos dados também passaram a constituir segredo de Estado. Ela passou de 22,9 mortes por mil habitantes em 1970, para 31,7, em 80. Hoje tais índices devem ser ainda mais elevados. E o pior é que o aumento maior da mortalidade está se verificando na população masculina entre 30 e 59 anos, justamente o segmento mais produtivo. Em parte, a explicação desses impressionantes dados reside no atraso da medicina russa. O principal fator, porém, do aumento da mortalidade masculina consiste no aumento do alcoolismo, que atingiu níveis catastróficos: aumento de 600% nos últimos 40 anos. Oficialmente consome-se 2 bilhões de litros de álcool por ano. Na prática o consumo é bem maior, pois é generalizada a destilação clandestina de vodka, conhecida como samogon, que é altamente tóxica (Cfr. "Inside Russian Medicine", Dr. Willian Knaus, Beacon Press, Boston, 1982).

CRISE ECONÔMICA – É a crise mais decepcionante para os comunistas, pois é na economia que eles esperavam alcançar grande progresso com vistas ao estabelecimento do "paraíso" vermelho. Em seu livro, Gorbachev afirma: "Nos últimos 15 anos a taxa de crescimento da renda nacional caíra para mais da metade e, no início dos anos 80, chegara a um nível próximo da estagnação econômica" (p. 17). O desperdício é generalizado, devido a uma razão muito simples: ninguém é dono de nada. Confessa Gorbachev: "Gastamos (..) muito mais em matérias primas, energia e outros recurssos por unidade produzida, do que outras nações desenvolvidas" (p. 18). Citemos um exemplo dos paradoxos da economia soviética: enquanto há racionamento de carne, manteiga, queijo e açúcar (um quilo de carne por mês e 200 grs. de manteiga por pessoa, em várias regiões), cerca de um quarto da produção apodrece, devido às más condições de transporte e armazenamento. A Rússia é hoje um dos maiores importadores de alimentos do mundo. Na época czarista, ela era um dos maiores exportadores!

Quanto à péssima qualidade dos produtos de consumo, "Catolicismo" já tem tratado abundantemente da matéria, baseando-se na própria imprensa soviética. É oportuno ainda lembrar que numerosos outros problemas afligem a economia russa, como absenteísmo, burocratismo, corrupção etc.

Esses são apenas alguns exemplos de como o tão decantado "paraíso comunista" sem Deus acabou se transformando num inferno. Conseguirá a Rússia sair de tal situação sem abandonar a utopia marxista?

As reformas de Gorbachev

Em seu livro, o líder comunista apresenta o programa de reformas como uma panaceia que curará todos os males sem abandonar o comunismo. Tal ponto é chave, pois a imprensa ocidental tem insinuado que o marxismo está sendo posto de lado. Nada mais falso, e o próprio Gorbachev acentua: "Estamos conduzindo todas as reformas de acordo com a opção socialista (...). Aqueles que esperam que nos afastemos desse caminho ficarão muito desapontados" (p. 38). E acrescenta que se trata de um avanço do socialismo rumo à autogestão, tese essa que vem confirmar o magistral estudo do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira sobre o socialismo auto gestionário francês (cfr. "Catolicismo", jan./fev. 1982, nº 373-374). O referido ensaio demonstra precisamente o seguinte ponto: a autogestão é uma forma mais radical de socialização, pois cada operário ficará ainda mais escravizado aos grupos auto gestionários, além de ser o sistema mais igualitário, sendo todos os dirigentes eleitos pela coletividade.

Eis as linhas gerais das reformas de Gorbachev:

EMPRESA ESTATAL – A empresa comunista não goza de nenhuma autonomia. É uma repartição pública dirigida burocraticamente por um ministério que determina o que, como e quanto deve ser produzido. Ela detém o lucro ou arcará com os prejuízos. O Ministério do Planejamento calcula tudo o que o país necessitará durante o ano e ordena a indústria a produzir o que foi calculado. Esse sistema ultra--centralizado foi responsável pelo colossal desastre ao qual já aludimos. Não havendo patrão, nem mercado livre, os fregueses são cativos, pois não há concorrência e nem incentivo para se produzir mais e melhor.

Segundo a perestroika, as empresas permanecem estatais, e os ministérios apenas as orientarão e fiscalizarão. A direção da empresa será eleita pelos funcionários. Os lucros ou os prejuízos serão deles. Os funcionários que trabalhem com intensidade e perfeição maior receberão um pouco a mais, sendo, porém, em concreto, mantido o igualitarismo, uma vez que as diferenças salariais serão pequenas.

Tais autonomia e incentivo concedidos aos melhores serão por demais limitados para que tenham um efeito significativo no acréscimo da produção. Talvez se verifique um diminuto aumento, mas o mecanismo do interesse individual não será despertado, conforme experiências desse tipo já postas em prática na Iugoslávia e na China. Os problemas da economia soviética são por demais profundos e complexos para que uma reforma "cosmética" como essa produza resultado ponderável. Sem propriedade privada e livre iniciativa, a empresa russa não sairá do atual marasmo.

EMPRESA PRIVADA –Foi autorizada a formação de microempresas privadas na forma de cooperativas ou de trabalhador- autônomo em áreas de bens de consumo, alimentos e serviços. Complicada burocracia foi criada para licenciar e fiscalizar tais microempresas. Na verdade, trata-se de tentativa de legalizar parte da economia paralela e do mercado negro a fim de controlá-los e taxá-los. Não tem havido entusiasmo por parte dos que já operam ilegalmente em se registrar, por razões evidentes. Apesar de ter sido concedida, há quase dois anos, a mencionada autorização, apenas cerca de 600 micro empresas foram registradas em Moscou. Em seu livro, Gorbachev faz uma confissão, dolorosa para um comunista: "É evidente como nosso povo sentiu falta do papel do proprietário" (p. 110). Daí o pequeno recuo verificado nessa área.

CAPITAL ESTRANGEIRO – Autoriza-se a entrada de capital estrangeiro, em certas circunstâncias especiais: precisa haver transferência de tecnologia de ponta, e desde que se trate de produto de interesse do Estado e na forma de sociedade, em que o Poder Público detenha pelo menos 51% do controle da empresa a ser criada. E boa parte da produção terá que ser exportada.

CAMPO – As fazendas coletivas gozarão de semiautonomia, similar à das empresas. Serão estimulados contratos familiares para tarefas específicas dentro dos kolkhozes. Serão distribuídos mais algumas centenas de milhares de lotes para camponeses montarem micro chácaras. Essa é uma medida que trará efeitos a curto prazo, pois é a que mais se aproxima do sistema privado. Essas terras continuarão estatais; elas apenas serão alugadas aos particulares por prazos longos.

IMPRENSA – É um terreno muito visado pela glasnost. No afã de tentar reconquistar a credibilidade perdida, a imprensa foi autorizada a criticar falhas concretas do regime. Nunca, porém, os órgãos de comunicação social deverão criticar o regime em si, as lideranças e o partido único.

CULTURA – É também um terreno preferencial da glasnost. Há maior campo para a criatividade, embora limitado e vigiado. Estão sendo introduzidas no país a arte e a arquitetura modernas, o rock e outros ritmos do Mundo Livre, como também a imoralidade de tipo ocidental no cinema e na TV. Nos costumes e modas,

Modas e hábitos da juventude decadente do Ocidente estão sendo introduzidos na Rússia, como atesta a foto recente destes jovens, no Parque Gorky, em Moscou.

Para combater o alcoolismo – verdadeira praga nacional e uma das causas do impressionante aumento do índice de mortalidade da população masculina – lança-se mão até do hipnotismo, como o faz este médico moscovita, em seu consultório.

Uma reforma "cosmética" introduzida pela "perestroika": autorização para se constituir grupos independentes, desde que não se oponham ao regime soviético... Na foto, manifestação do grupo antissemita "Pamyat" junto ao Kremlin, na praça Vermelha

Novo estilo ocidentalizado de salão de beleza, em Moscou: reforma "cosmética" em sentido estrito...

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