Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 441 | página 06-07
| BOFF E COMUNISMO |

Frei Boff, I.O. e convergência

AIGREJA cismática russa, comumente conhecida como "Igreja Ortodoxa" (referida neste artigo sob a sigla I.0.), convidou adeptos de várias religiões para uma conferência ecumênica em Moscou, seguida de uma viagem por cidades soviéticas e países satélites. O programa desenvolveu-se nos primeiros dias de julho deste ano.

A hierarquia cismática da I.O. sobrevive num regime militantemente ateu. A "liberdade" de culto que ela ostenta gozar, lhe é concedida às custas de colaboração servil prestada ao regime comunista.

Tal colaboração ampliou-se tanto nas últimas décadas, que a I.O. se tornou, notoriamente, uni dos meios eficazes de que o Kremlin dispõe para melhor se impor à população, e também para projetar de si, no Exterior, uma imagem menos brutal.

Um dos que viu nessa conferência ecumênica uma ocasião para estreitar laços de amizade com a hierarquia cismática colaboracionista foi o frade franciscano Leonardo Boff, incensado pelos meios de comunicação social como propugnador da Teologia da Libertação ("O que propomos não é teologia no marxismo, mas marxismo na teologia", "Jornal do Brasil", 6-4-80). Partiu ele para Moscou, levando consigo outros eclesiásticos "avançados", um pastor protestante e um sociólogo. A viagem durou quinze dias e constou de visitas a sete cidades.

Contradições, generalidades...

Ao retomar, Frei Boff foi entrevistado com exclusividade pela "Folha de S. Paulo", que publicou em 10 de julho último suas declarações. Elas não foram numerosas. Exprimem seu pensamento sobre o comunismo, as atuais mudanças anunciadas por Gorbachev e o ecumenismo de fundo ideológico. O irrequieto religioso, ora contraditório, ora inseguro, não conseguiu pintar com cores muito favoráveis o que viu por trás da Cortina de Ferro. Por essa razão, apesar de seus esforços, nada pôde contar de convincente a respeito das melhorias sociais do confinado mundo comunista.

Isso se nota desde sua primeira afirmação: "Nossa sociedade vem carregada de preconceitos, divulgados pelos meios de comunicação articulados com o sistema capitalista, com os interesses do grande capital aqui no mundo ocidental". Ora, como se coaduna tal asserção com o fato de que, desde sua partida, a imprensa paga pelos capitalistas fanfarreou sua missão amistosa em terras comunistas? Será que a imprensa capitalista o considera tão insignificante, a ponto de divulgar fartamente suas loas à Rússia? Ou essa imprensa não é tão infensa aos interesses da Rússia, como ele parece imaginar? Por qual hipótese optaria por Frei Boff?

"A gente faz uma descoberta da União Soviética. Vemos uma sociedade altamente limpa, saudável..." A contradição se estabelece agora entre essa idílica declaração em favor da atual sociedade soviética, de um lado, e a simpatia que o entrevistado manifesta pela "glasnost" de Gorbachev, e o próprio Gorbachev, de outro lado. Se a sociedade russa é de fato assim como o açodado franciscano a descreve, por que então Gorbachev centra sua política de renovação na denúncia de erros sociais e econômicos monstruosos ali existentes, proclamando desejar aboli-los para assim prestar um grande benefício ao país? Gorbachev, com sua propalada reestruturação da Rússia, destruirá uma sociedade "altamente limpa e saudável"?

"As igrejas estão abertas e cheias", acrescenta ele, esquivando-se, entretanto, de tratar do ponto fundamental: desde que aquele país caiu sob o jugo comunista, em 1917, quantas igrejas foram fechadas? Quantas foram depois reabertas? Foi edificada alguma? Nesse mesmo período, comparativamente, no Ocidente quantas foram construídas?

"As igrejas estão cheias". O religioso se dispensa de fornecer aos brasileiros dados inequívocos sobre o real significado dessa frequência ao culto. Se, de fato, a perseguição religiosa amainou, tal abrandamento seria uma novidade digna de ser bem descrita por quem, como é o caso de um teólogo, deve ocupar-se em esclarecer os fiéis. Quantas são as igrejas cheias? Onde estão? Somente os velhos as frequentam? São ainda pesadas as sanções policiais contra os que procuram o recolhimento dos templos para suas orações? De nada disso o entrevistado se ocupa, certo de que nenhum repórter da "imprensa capitalista" o perturbará com semelhantes questões... E assim tal imprensa, juntamente com o religioso, fazem passar uma imagem favorável de um regime de opressão.

Perguntado sobre o que teria notado no mundo comunista a respeito da liberdade de imprensa (sabidamente inexistente há setenta anos) e de opinião (onde partidos políticos e eleições livres são proibidos), Frei Boff, afetando pundonoroso recato, vela-se detrás de sua ignorância linguística, que o teria impedido de lançar um olhar, por furtivo que fosse, para a tirania soviética: "Bem, isso não posso dizer porque não leio russo". Edificante "imparcialidade", com a qual ele pretende tornar crível tudo o que conta...

"Por outro lado, vi televisão todas as noites. E, coisa surpreendente, fruto dessa abertura, dessa transparência — a "glasnost" vi o povo sendo entrevistado na rua, grandes concursos de música nacional, entrevistas com camponeses, opiniões sobre as várias culturas regionais com os seus folclores. Isso, com uma grande espontaneidade, com entrevista direta, o povo falando ao vivo, na rua, no campo, nas festas". As observações de Frei Boff com base em entrevistas e opiniões que acompanhou pela televisão, não parecem de fácil compreensão, pois ele acaba de admitir que não entende russo...

E sobre os dissidentes — poetas, escritores, cientistas — que reclamam liberdade de expressão? A resposta é simplista: "Não pudemos falar com os dissidentes, que certamente estão na Sibéria", respondeu. Mesmo fazendo esta constatação, Frei Boff afirma logo em seguida que ele e seus companheiros de viagem não tiveram "a sensação de que haja delitos de consciência", na Rússia. Teria sido muito proveitoso a seus leitores se o frade esclarecesse também como é que se tem a "sensação" de que há delitos de consciência. Será por telepatia?

Mais ainda, a respeito dos presos políticos Frei Boff deixa perplexo qualquer leitor que seja lúcido, ao afirmar não ter opinião formada. Não disse ele antes que devem estar na Sibéria? Não tem ele a "sensação" de existir na Rússia liberdade de consciência? O que mais espera para formar sua opinião? Novas deportações ou novas "sensações"?

O que há por trás da viagem

"...o convite para nossa visita, vindo pela Igreja Ortodoxa, significa uma amostra do que é esta reestruturação da sociedade, essa transparência, essas novas liberdades que estão sendo vividas na União Soviética. (...) Este próprio convite mostra que há lá uma abertura. Em segundo lugar, para grande surpresa minha, onde eu chegava, até em ambiente de grande cultura, como em Vilnes, por exemplo, onde houve um debate com cientistas sociais, jornalistas e pessoas ligadas ? t paz, eles conheciam a Teologia da Libertação, conheciam o meu nome, tinham lido livros meus. (...) Isto é, nós conhecíamos menos a eles do que eles a nós".

O entrevistado quer dar a entender, neste ponto de suas declarações, que se goza na Rússia de grande liberdade de informação. Mais ainda, ele insinua que- nos países livres do Ocidente, para conhecer o que se passa atrás da Cortina de Feno, há menos liberdade do que nas nações soviéticas, para conhecer o que se passa por aqui. Será que para o teólogo da libertação o mundo capitalista é tirânico, e que a verdadeira vitória da liberdade seria conseguida pela entrega do Ocidente ao comunismo através de uma convergência religiosa de tipo ecumênico?

É interessante notar, em abono dessa hipótese, que o teólogo progressista cautelosamente deixa transparecer que, para ele, o ecumenismo é uma nota característica da renovação de Gorbachev: a aproximação da Teologia da Libertação com a I.O. "significa uma amostra do que é (...) essa nova liberdade que está sendo vivida na União Soviética". Logo adiante afirma, no mesmo sentido: "Isso mostra o interesse que eles têm pela religião que se articula com a justiça social, com a religião que não é mais ópio do povo, mas um fator de libertação e de restituição da dignidade dos oprimidos. Isso interessa profundamente a eles, e com profundo respeito ao nosso cristianismo".

O religioso franciscano deixa patente que Gorbachev tem o objetivo — igualmente desejado pela hierarquia da I.O. — de aproximar-se da "religião que se articula com a justiça social". Tal "religião" já não mais seria o ópio do povo, segundo a clássica acusação feita por Marx. E Frei Boff parece aqui endossar inteiramente a mesma tese. Ele exprime seu pensamento em uníssono com Gorbachev e a I.O. Ou seja, a convergência deve ser realizada aproximando correntes ideológicas que possuam elementos marxistas incrustados. E, em particular, no que se refere à Igreja Católica, a corrente que estaria pronta para tal tipo de aproximação seria a Teologia da Libertação.

"Há novos convites para encontros, diálogos e discussões, para conhecermos novas regiões da União Soviética, aquelas onde existe muçulmanismo (sic), onde existe outro tipo de igreja ortodoxa que não a russa, que seja a georgiana. E nós pensamos em estimular este diálogo, sempre em contacto com as nossas igrejas daqui, em contacto com as igrejas de lá, e, a partir das igrejas, um diálogo aberto com toda a sociedade". Novamente realça Frei Boff a ideia de que, paralelamente à fusão do comunismo russo com o capitalismo, programada por Gorbachev no plano temporal, está em andamento um diálogo das religiões, visando uma fusão entre elas.

Ele espera portanto uma simultânea quebra de barreiras ideológicas: ao lado de uma convergência operada pelos organismos de Estado, de aquém e além da Cortina de Ferro, deve ser realizada outra convergência entre as igrejas, mas em tomo do marxismo. Dois movimentos que devem encontrar-se num só ponto. Um deles se desenvolve no campo temporal, capitaneado por Gorbachev, rumo a formas de sociedade e de economia socialistas com aparências capitalistas. Outro, no campo religioso, rumo à absorção das religiões pelo marxismo, via ecumenismo. A Teologia da Libertação tende a liderar esse último movimento.

Do ponto de vista pessoal, teria Frei Boff algum papel saliente a representar em toda essa orquestração convergencialista? Em vista do grande destaque que lhe vem sendo concedido nos meios de comunicação social de todo o mundo, a pergunta não é ociosa. Tornar-se-ia ele o líder, no Ocidente, desse processo religioso "libertador", que conduziria as religiões até aquele ponto de convergência, no qual Gorbachev e a 1.0., do outro lado da Cortina de Ferro, o aguardariam de braços abertos? E uma hipótese a ser registrada, em meio à confusão reinante, no quadro atual do relacionamento Leste-Oeste...

Estaria o irrequieto Frei Boff sendo prestigiado pela imprensa, com vistas a liderar uma convergência religiosa Leste-Oeste de matiz marxista?

O Patriarca Pimen, da I.O. soviética, promoveu em Moscou uma reunião ecumênica fiel à linha convergencialista de Gorbachev


| DISCERNINDO, DISTINGUINDO, CLASSIFICANDO |

Enigmas da História da Revolução

COM sua extraordinária capacidade de visão em profundidade e de síntese, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira viu e descreveu o fenômeno "Revolução" como sendo o fator central e dominante da História do Ocidente, em seu longo período de crise que vem do século XV a nossos dias (cfr. "Revolução e Contra-Revolução" Editora Diário das Leis, 2ª edição, São Paulo, 1982). Ora, afirma o insigne pensador católico, "produzir um processo tão coerente, tão contínuo, como o da Revolução, através das mil vicissitudes de séculos inteiros, cheios de imprevistos de toda ordem, nos parece impossível sem a ação sucessiva de gerações de conspiradores de uma inteligência e um poder extraordinários" (Parte I, Cap. VI, 6).

Essa constatação da existência de conspiradores, ou "agentes da Revolução", é preciosa. Entre outras coisas ela nos explica por que, às vezes, os próprios contemporâneas de um acontecimento revolucionário, mesmo quando dele participantes na qualidade de atores importantes e lúcidos, não conseguem penetrar certos enigmas surgidos da trama dos fatos.

Caso característico nessa linha é o do Marquês de La Fayette, uma das figuras proeminentes da Revolução Francesa, em sua etapa inicial.

Inteligente, empreendedor, muito contribuiu ele para o impulso primeiro que abalou o Antigo Regime e desencadeou a maré revolucionária de 1789. Foi La Fayette o principal fautor e general-chefe da Guarda Nacional, organização armada cuja missão, em boa medida, era a de manter as "conquistas" revolucionárias.

Porém, em face dos tenebrosos fins da Revolução, La Fayette não chegava até às últimas consequências. E como sistematicamente tem acontecido com esse tipo de revolucionário moderado, ao longo destes cinco séculos, ele, depois de ter sido convenientemente utilizado, foi posto à margem como bagaço.

O Conde de Ségur, em suas memórias, relata fielmente as confidências a ele feitas por La Fayette — seu grande amigo e participante das mesmas ideias — quando este, de repente, começou a notar, na Revolução que ele tanto contribuíra para fomentar e da qual se julgava um dos chefes, acontecimentos que não dominava e cuja origem desconhecia. Seguem as palavras de La Fayette.

* * *

"Eu não sei por que fatalidade, um partido que se esconde na sombra, veio misturar-se ao verdadeiro povo (..). Saiu, eu não sei de onde, um certo número de bandidos, pagos por mãos desconhecidas, e que, apesar de nossos esforços, cometeram crimes deploráveis (...). Em vão nós os repelíamos, nós os castigávamos, nós os dispersávamos; eles voltavam sempre. Após a tomada da Bastilha, seu excesso cometeu horríveis assassinatos; até Paris eles ameaçavam saquear (...).

"Pela mesma época, alguns deles se haviam mostrado, mas em pequeno número, nas províncias, e o boato, falsamente espalhado por toda parte, de sua vinda próxima, excitou um tão grande terror, que no mesmo instante, em todas as comunas, o povo pegou em armas [o Grande Medo]. Fizemos inúteis buscas para conhecer os chefes desses bandidos e o foco de onde partiam essas notícias alarmantes, que chegavam ao mesmo tempo a todas as cidades e todos os burgos do reino; o problema permaneceu insolúvel.

"No mês de outubro último, este bando de celerados, misturando-se aos movimentos desordenados produzidos em Paris (...) congregou tudo o que se pode encontrar de vil e de corrompido numa capital (...). Quando cheguei a Versailles, eles já haviam manchado com sua presença a sala de reuniões da Assembleia e ameaçado o castelo. A Guarda Nacional reprimiu sua fúria, dispersou-os, então tudo pareceu calmo. Mas (...) no fim da noite, os bandidos introduziram-se no castelo, pelo lado do jardim, através de uma porta que não estava ocupada pela Guarda Nacional. Pouco faltou então para que fosse cometido um espantoso crime (..). O povo não havia tomado parte nesta odiosa trama ("Souvenirs et Anedoctes sur le Règne de Louis XVI", par le Comte Louis-Philippe de Ségur, Arthème-Fayard Éditeur, Paris, p. 193 — destaques nossos).

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