O SANTO BAMBINO DE ARACOELI
EM ROMA, por ocasião do Santo Natal, é à Igreja de Santa Maria de Aracoeli que uma multidão de peregrinos acorre para venerar, num magnífico presépio, uma imagem de Nosso Senhor menino, conhecida com o nome de Santo Bambino.
Um fato muito característico da devoção dos romanos a esta invocação ao Menino Jesus deu-se em 1849. Foi durante a efêmera República romana. Reinava no trono de São Pedro o Papa Pio IX, que se havia refugiado em Gaeta, no Reino de Nápoles. Os revolucionários da época quiseram lançar ao fogo as carruagens do Papa e dos Cardeais. Para salvar das chamas a mais bela das viaturas do Soberano Pontífice, e tendo em vista contentar o povo romano, o senador Sturbinetti bradou: "Esta carruagem será destinada ao Santo Bambino!".
E mandou chamar às pressas o Provincial dos capuchinhos, encarregados da guarda da imagem, para que a trouxesse a fim de salvar a carruagem pontifícia. Em todas as ruas por onde passou o cortejo conduzindo a imagem milagrosa, ouviam-se exclamações entusiásticas de "Viva o Santo Bambino!". E todos - homens, mulheres e crianças - punham-se de joelhos por veneração.
Não só em Roma, mas na Itália e em todo o orbe católico, essa devoção ao Santo Bambino de Aracoeli é conhecida. Os favores dispensados pela Providência Divina àqueles que recorrem a essa invocação de tal modo são abundantes, que na capela de ex-votos do santuário pode-se observar a diversidade de países de onde procedem lembranças por graças alcançadas.
A origem dessa devoção, no entanto, remonta ao tempo em que o próprio Verbo de Deus encarnado nascia em Belém de Judá.
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Próximo ao Capitólio, dominando quase toda a cidade de Roma, erguia-se outrora um templo dedicado ao deus pagão Júpiter Capitolino. O imperador Otávio Augusto, no 56º ano de seu reinado, quis oferecer aos deuses um sacrifício solene, a fim de conhecer seu sucessor, uma vez que não deixava descendentes. Subindo os degraus do templo, de repente percebeu nos ares uma venerável Senhora, tendo em seus braços um gracioso menino. Disse-lhe ela: "Respeita esse lugar consagrado ao meu Divino Filho. É ele que em breve reinará".
Augusto interrogou então um deus pagão, por meio do qual o demônio lhe declarou que um menino da Judéia, descido do céu e concebido sem mancha, logo reinaria naquele templo e sobre aquela colina. Em memória desse prodigioso acontecimento, o imperador fez erigir um magnífico altar no mesmo lugar da aparição, com esta epígrafe: "Haec est ara filii Dei" (Aqui é o altar do Filho de Deus). Após a queda do paganismo, uma magnífica basílica se ergueu naquele local, conservando o nome de Aracoeli. Hoje é o Santo Bambino que reina em seu santuário, ao lado do altar construído por Augusto.
Mas se a origem da igreja de Santa Maria de Aracoeli está ligada ao imperador Otávio Augusto, a histórica imagem do Santo Bambino procede de uma antiga tradição dos filhos de São Francisco.
No século XV ou XVI, entre os religiosos franciscanos que habitavam o convento do Santo Sepulcro, em Jerusalém, encontrava-se um frade conhecido em toda a Ordem por sua virtude. Uma noite em que rezava no Jardim das Oliveiras, ouviu uma voz celeste convidando-o a escavar a terra bem no lugar onde se encontrava ajoelhado. "Nesse lugar - dizia a voz - encontra-se escondido um tesouro precioso".
O piedoso franciscano colocou-se à obra imediatamente. A pequena profundidade, encontrou um pedaço de madeira de oliveira. E novamente a voz disse-lhe: "É bem esse o tesouro que te anunciei. Essa madeira foi impregnada do sangue adorável de nosso Redentor".
O santo religioso prosternou-se e, beijando com respeito aquela preciosa relíquia, transportou-a para sua cela, onde a conservou com desvelo.
Algum tempo depois, tendo sido chamado pelo Geral dos Franciscanos a Roma, relatou-lhe a existência desse tesouro e a maneira maravilhosa como o havia encontrado. Declarou ao Geral que era seu desejo dotar o convento de Aracoeli, que estava aos cuidados de sua Ordem religiosa, daquela insigne relíquia. Antes, porém, tinha intenção de esculpir na madeira uma piedosa estátua. Seu coração inclinava-se a reproduzir uma imagem do Menino Jesus, mas a madeira, vinda do Jardim das Oliveiras, parecia-lhe ser mais própria a representar o Salvador em agonia. O superior franciscano decidiu que se esculpisse o Menino Jesus.
Terminada sua missão em Roma, embarcou o frade em Cività-Vecchia rumo a Jerusalém. Mas o navio em que viajava naufragou diante de Alexandria. O pobre franciscano mal conseguiu agarrar-se aos destroços do navio e, após grande aflição, foi lançado às costas do Egito. Mas ficara cego!
Chegando ao seu convento em Jerusalém, fez-se conduzir logo à sua cela, para assegurar-se de que a preciosa madeira ali se encontrava. Ao abrir a arca - ó maravilha! - recobrou a visão e pôde contemplar, talhada na madeira, uma graciosa imagem do Menino Jesus. Estava assim esculpido, milagrosamente, o Santo Bambino de Aracoeli!
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A notícia desse prodígio logo percorreu toda Jerusalém, e uma multidão de peregrinos acorreu para venerar a preciosa imagem.
Entretanto, o frade deveria cumprir sua promessa. Embarcou de volta a Roma, levando consigo seu tesouro. Nas costas da Toscaria uma tempestade fez com que o capitão do navio jogasse ao mar todas as bagagens que estavam a bordo. Apesar dos protestos do religioso franciscano, a urna com o Santo Bambino foi também lançada às águas.
A tempestade, longe de amainar, redobrou em violência, fazendo com que a embarcação fosse à deriva até perto de Livorno. A equipagem e os passageiros conseguiram salvar-se. Mas a surpresa e o espanto de todos foi quando perceberam, flutuando sobre as águas que banham Livorno, a pequena arca que continha o Santo Bambino. Advertidos pelo religioso, os habitantes acorreram para tentar resgatar a imagem do Menino Jesus. Mas somente o filho de São Francisco conseguiu retirá-la das águas do mar.
Os romanos, tendo conhecimento de toda a história da imagem miraculosa, estavam impacientes para recebê-la na Cidade Eterna. Assim, acolheram-na com entusiasmo indizível. As exclamações de alegria e os aplausos ressoaram por toda a parte quando o Menino Jesus foi exposto para veneração do povo. Todos rezavam com fervor, pedindo e obtendo graças assinaladas.
Desde 1647, o Santo Bambino era levado aos doentes todas as ocasiões em que fosse solicitado. Sobretudo aos moribundos e pacientes sem esperanças é que Ele cumulava de graças e favores. Às quintas-feiras, a imagem do Menino Jesus era levada numa carruagem para visitar os mais pobres e infelizes. Assim, a devoção à imagem miraculosa tornou-se das mais populares em Roma. Sobretudo no tempo do Natal, essa devoção se exterioriza em tocantes cerimônias em honra do Divino Infante.