Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 420 | página 12-13

| Santiago Matamoros, protetor da Espanha e terror dos infiéis | (continuação)

formidável, para que tremam os que, blasfemando, investem contra Teu santo povo' (...), e magnificamente se alegraram com a proteção de Deus" (Da Epístola, Livro II dos Macabeus, 14, 7-11; 12-27).

O voto de Santiago

Depois da batalha, em agradecimento e como vínculo de vassalagem ao Apóstolo, o Rei Dom Ramiro ofereceu por si e por todos os seus vassalos o voto de pagar todos os anos, perpetuamente, à sua catedral em Compostela, uma certa medida de grãos ou de vinho correspondente a cada junta de bois de lavoura de todo o Reino. Este voto foi sempre cumprido, e os monarcas posteriores o estenderam às novas terras conquistadas. Eis alguns dos mais expressivos:

- Dom Ramiro II, no ano de 939, confirmou em Compostela o voto e nomeou o Apóstolo Padroeiro da Espanha. Pediu a assistência de Santiago Matamoros para a campanha que empreenderia, prometendo estender o voto. Nos dias 6 e 22 de agosto desse mesmo ano, o Santo lhe deu memoráveis vitórias: Simancas (onde São Tiago apareceu como em Clavijo) e Alhandega, na qual foi destroçado o exército de cem mil mouros com que o califa cordobês havia invadido os reinos cristãos.

- Fernando III, o Santo, distinguiu-se por sua devoção ao Apóstolo São Tiago durante os trinta anos de batalhas com as quais reconquistou extensos territórios. Reiterou o voto em 1232, estendendo-o depois a todas as novas terras. Pôde oferecer ao Patrono das Espanhas um desagravo extraordinário: em 987 o emir Almanzor, em numerosa e rápida incursão, entrara em Compostela, afrontando o Apóstolo e a Cristandade com a profanação e incêndio da Catedral. Ao fim de uma semana de rapinas e desmandos, fizera carregar até Córdoba, por católicos que escravizara, os sinos e as portas da Basílica, a fim de usá-los na mesquita. Século e meio depois, São Fernando III reconquistou Córdoba, entrando triunfalmente com o estandarte da Cruz de Santiago. Uma de suas primeiras disposições foi obrigar os mouros a carregarem de volta a Compostela os épicos sinos, ante a gratidão e a alegria de todos os cristãos, que se punham no caminho para ver passar o memorável cortejo, dando glória a Deus e vivas a Santiago. Ele recomendava a seus sucessores: "Quem quiser conservar o Reino de Espanha e dilatá-lo, este conselho há de seguir: que procure ter propício ao beatíssimo Santiago, certo e especial patrono das Espanhas".

Os Reis católicos, Fernando e Isabel, peregrinaram muitas vezes ao sepulcro do Apóstolo; quando completaram a Reconquista com a queda de Granada, em 1492, estenderam o voto às terras conquistadas, e dois anos depois enviaram ao altar do Apóstolo uma grande lâmpada de prata, com os rendimentos necessários para mantê-la perpetuamente acesa, bem como aos seis círios que lá haviam ordenado pôr antes.

No século XIX, as Cortes de Cádiz, liberais, interromperam o pagamento do voto, durante a prisão dos reis da Espanha por Napoleão.

Logo depois, porém, o pagamento foi restabelecido. Também a II República suprimiu o voto de Santiago, o qual logo se voltou a dar como oferenda anual no dia 25 de julho, festa principal do Apóstolo.

Um castelo na rocha

Em Castela, 20 quilômetros ao sul de Logrono, no vale do rio Iregna, que irriga hortas e pomares cheios de colorido dos povoados de Alhelda, Alberite e Viguera, se destaca um rochedo altivo e cortado abruptamente. Sobre ele eleva-se um castelo que parece um prolongamento gracioso da pedra. Há uma torre maior - da Homenagem - e três menores, unidas por uma muralha, na qual ressalta uma enorme cruz-espada de Santiago: é o Castelo de Clavijo, e a cruz lembra a aparição do Apóstolo a Dom Ramiro. A batalha ocorreu no vale de São Prudêncio, em que está situado o pequeno povoado de Clavijo, e onde se encontra uma ermida-basílica dedicada a São Tiago. O retábulo do altar é dedicado a "Santiago Matamoros", assim como a imagem processional.

A vitória em Clavijo foi decisiva. Ela salvou o Reino cristão de ser aniquilado, e forjou na alma daqueles varões católicos, e na própria nação que se estava formando, a certeza do auxílio sobrenatural concedido pelo Santo; a certeza inquebrantável de que, cumprindo com o dever que lhes impunha a Fé católica de resistir e combater o domínio maometano, podiam e deviam esperar milagres, se fossem necessários para se obter o triunfo.

Tal certeza do milagre, que "Santiago Matamoros" robusteceu com infinidade de prodígios em toda a Península, era indispensável para sustentar o espírito de combatividade. Porque na árdua e heroica cruzada da Reconquista, durante oito séculos, as hostes católicas eram sempre menores do que as dos infiéis que deviam enfrentar. E esta desvantagem de forças poderia causar desalento, mas os guerreiros católicos souberam confiar e combater, e não desfaleceram.

OBRAS CONSULTADAS:

1. C. López-Castro, La Bataila de Clavijo, in revista "Ejercito", Madrid, agosto 1969.

2. José M. Garate C., La Huella Militar en Camino de Santiago, Publicaciones Españolas, Madrid, 1971.

3. L. Eusegui, El Apóstol Santiago y el Arte Jacobeo, Madrid, 1944.

4. Abade D. A. Azcárate, OSB, Misal Diario para América, Ed. Guadalupe, Buenos Aires, 1958.

5. M. Vidal Rodriguez, La Tumba del Apóstol Santiago, Santiago, 1924.


BIENAL PROCURA INFLUENCIAR CRIANÇAS

QUEM TENHA lido o último número de "Catolicismo" já terá podido dar-se conta dos horrores - e também do ridículo - da 18ª Bienal Internacional de São Paulo, encerrada a 15 deste mês.

Entretanto, recentemente um novo horror veio somar-se aos ali descritos. A partir do fim de novembro, também obras infanto-juvenis foram acrescentadas à exposição de arte contemporânea. Desse modo, crianças e jovens na faixa dos sete aos dezoito anos foram feitos participantes daquelas aberrações.

A participação de crianças e adolescentes - segundo os responsáveis pelo projeto "A criança e o Jovem na Bienal" - se deu em três planos:

a) no primeiro, colaboraram 5.500 crianças, de 91 escolas; consistiu em visitarem a Bienal, dirigidas por monitores especialmente treinados, permanecendo em seguida no ateliê da exposição durante uma hora para criação de seus próprios trabalhos, num processo de "releitura" das obras vistas;

b) do segundo participaram apenas 45 crianças - a maioria na faixa dos 10 aos 13 anos - que não se limitaram à "releitura", mas desenvolveram um "trabalho pessoal";

c) no terceiro, envolveram-se classes de quinta e oitava série de quatro escolas; durante um mês as crianças pintaram e desenharam em seu próprio estabelecimento escolar, sob estímulo dos coordenadores.

Das obras assim produzidas foram selecionadas seiscentas, que estão sendo expostas nesta fase final da Bienal.

Evidentemente, todos percebem que é muito fácil envolver esses jovens escolares nos trabalhos da Bienal. Basta que o diretor ou professores da escola suspendam algumas aulas, aluguem um ônibus especial, e lá vão as crianças, como igualmente iriam para um circo ou um zoológico. A tarefa é ainda mais fácil quando os trabalhos são realizados no próprio estabelecimento de ensino sem os inconvenientes do deslocamento.

Mas a nossa atenção se volta para um aspecto mais grave da questão. Sendo a "arte" moderna ou contemporânea uma explosão de irracionalidade, de extravagância e mesmo de monstruosidade, ela é a negação da verdadeira inspiração artística. Tende, pois, a deformar a fundo a sensibilidade daqueles que a admiram, e, a partir da sensibilidade utilizada como um canal, introduzir tal deformação em todos os aspectos da mente humana.

Ora, que milhares de crianças e jovens desde os sete anos de idade sejam submetidos a esse contato psicologicamente poluente com a Bienal, que sejam levados mesmo a colaborar com ela, é alarmante. A formação de sua mentalidade pode ficar definitivamente comprometida por uma tal experiência.

Numa época como a nossa, em que o espírito infantil já vem sendo atrozmente bombardeado pela dita educação sexual, pela "nova pedagogia", vitimado pelos frequentes exemplos de lares desfeitos pelo divórcio, pela imoralidade galopante, e quanta coisa mais se queira, a introdução dos critérios da "arte" contemporânea na tenra alma da criança constitui um grave fator a mais de perversão cultural e mental.

E toda aquela gama de esquerdistas, ou que faz eco ao esquerdismo, sempre pronta a alarmar-se quando um jovem resolve aderir aos ideais da TFP, fica perfeitamente indiferente - ou até apoia francamente - quando esse mesmo jovem passa a ser influenciado pelos coordenadores da Bienal. Por quê? É porque a Bienal, em matéria de arte, está na linha da desagregação do que resta de civilização cristã, caminha para o hediondo; em uma palavra, contribui para a Revolução.

NOTA:

Ver reportagem Uma recriação da mostra. Feita pelas crianças, publicada no semanário "City News", de São

Paulo, em 17-11-95.


A FAMÍLIA, ALVO DO ÓDIO SOCIALISTA

Péricles Capanema

A família bem constituída e numerosa é o habitat para uma sadia e equilibrada educação da criança.

O SOCIALISMO habitualmente é considerado como promotor da igualdade na esfera econômica. Seus objetivos em relação à família ficariam num segundo plano. Por isso muita gente nem os conhece, ou dele tem as noções imprecisas, difundidas pela propaganda socialista, bem diferentes daquelas enunciadas pelos autores socialistas mais representativos. Porém, basta compulsar um pouco essa literatura para se perceber o ódio sanhudo que existe em suas páginas contra a família. E a razão é simples.

No interior de um lar bem constituído, as crianças têm o primeiro contato com duas realidades detestadas pelo espírito revolucionário: a hierarquia e a autoridade. Mas elas não existem aí como os clichês revolucionários gostam de apresentá-las - tirânicas, odientas e desdenhosas. No lar, o superior (os pais) representa para o inferior (os filhos) uma autoridade acolhedora, benévola e protetora, que naturalmente atraí a estima.

O espírito infantil, observador e assimilativo, associa então instintivamente as noções de autoridade e hierarquia com as de proteção e benevolência. E sua primeira matriz do relacionamento humano. Por um jogo explicável de analogias, ao longo da vida as pessoas tendem a aplicar aos superiores, guardadas as proporções, esta matriz primeira. Os professores, os patrões, os detentores do Poder Público, e até a superioridade infinita e transcendente,

Deus Nosso Senhor, são vistos como benévolos e protetores.

É óbvio que um espírito assim formado não tem, de si, propensões acentuadas para a luta de classes e para o ódio em relação aos que são mais. De outro lado, tem mais defesas contra a inveja, que é a tristeza pelo bem alheio, já que vê os superiores com bons olhos. Sendo assim, aceita serenamente a hierarquia e a autoridade, tendo-as por naturais e desejáveis.

Ora, o socialismo e o comunismo vivem do desassossego e do ódio. A paz social é sua asfixia, pois pela guerra de classes pretendem destruir a hierarquia social e as diversas situações de mando.

Além do mais, convém também lembrar que o socialismo, querendo a igualdade total, odeia o que é individual e personalizante, só por ser fonte de desigualdades. Só uma sociedade coletivista permite a igualdade. E a família tonifica as características individuais das pessoas, formando personalidades muito marcadas e diferentes.

Dessa forma, a atmosfera personalizante e de apreço à autoridade existente no lar, dificulta a implantação efetiva do socialismo. Daí o ódio contra ela.

Michel Raptis, socialista extremado, antigo secretário da IV Internacional, vê a sociedade futura sem a influência familiar: "A sociedade de classes encontrou na família a célula mais conservadora

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