Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 397 | página 04-05

SANTA BERNADETTE, a quem Nossa Senhora apareceu

Gregório Lopes

Naquele dia 25 de março de 1858, consagrado à Anunciação, milhares de pessoas vindas à pequena localidade de Lourdes comprimiam-se em frente ao rochedo de Massabielle, aos pés do qual fluem rapidamente as águas do canal, que mais adiante se junta ao rio Gave.

O local é inóspito e normalmente não frequentado. Entretanto, mais pressurosos do que as águas do canal, não cessam de chegar homens, mulheres e crianças. O que ocorre?

Uma menina chega também. Aos 14 anos de idade, pobre mas dignamente vestida, distingue-a da multidão a especial candura de alma e a seriedade toda infantil mas já profunda de sua fisionomia. Todos os olhares se voltam para ela, admirativos uns, perscrutadores outros.

É Bernadette Soubirous, que naquele mesmo local já viu e ouviu por quinze vezes uma Dama maravilhosa, cujo nome ainda não conhece. Desde o início das aparições, em 11 de fevereiro, os fatos mais extraordinários têm ocorrido. Jorrou ali uma fonte de água e de milagres. As multidões acorrem atraídas por algo de misterioso. Sem saber por que, Bernadette suscitou contra si inimigos ferozes que a ameaçam e a maltratam. Tornou-se incompreendida pela própria família e pelo clero de Lourdes. Ela, uma das mais pobres, indefesas e cândidas meninas de França! E, apesar de seus reiterados pedidos à Dama, esta ainda não lhe disse o nome.

Bernadette chega, olhando diretamente para o alto da gruta, sem prestar atenção em mais ninguém. A belíssima Dama já ali se encontra à sua espera. A menina ajoelha-se (ver foto 1) e pede perdão pelo atraso. A Dama, com um sinal de cabeça cheio de bondade, dá-lhe a entender que não é preciso escusar-se.

"Então — relata a vidente — eu lhe exprimi todo o meu afeto, todo meu respeito e a alegria que eu tinha em revê-la. Peguei o terço... Enfim, por um movimento que eu não pude conter, as palavras saíram de minha boca e eu pedi à Dama de condescender em dizer-me quem Ela era.

"Como nas precedentes aparições, a Dama inclinou a cabeça, sorriu, mas nada respondeu. Senti-me encorajada, e voltei a pedir-lhe a graça de fazer-me conhecer seu nome. Ela renovou seu sorriso e sua graciosa saudação, mas continuou a guardar silêncio. Pela terceira vez, com as mãos juntas, eu recomecei o pedido.

"A Dama se mantinha de pé sobre rosas e se mostrava como Ela aparece na medalha milagrosa. A meu terceiro pedido, Ela tomou um ar grave e pareceu humilhar-se. Ela juntou as mãos e as levou à altura do peito. Ela olhou para o céu... e em seguida, separando lentamente as mãos .... e inclinando-se em minha direção, disse-me com voz trêmula: EU SOU A IMACULADA CONCEIÇÃO".

* * *

Nunca, em sua até então curta vida e no incompleto curso de catecismo do qual participava, Bernadette ouvira tal nome. Cessada a visão, com grande pressa, dirige-se à paróquia de Lourdes, onde várias vezes antes estivera a transmitir as mensagens e os pedidos da Dama, e onde sempre encontrara frieza e desconfiança. E invariavelmente a pergunta: quem é Ela? Como se chama?

Agora a pequena vidente conhecia o nome da Dama. E corre para transmiti-lo, pressente que ele é o selo decisivo para vitória da Senhora. Na paróquia, Bernadette encontra o mesmo abbé Peyramale, que até então só lhe causara medo, e conta-lhe a boa nova. A Dama dissera seu nome: Imaculada Conceição.

— "Você está bem certa?" — pergunta o pároco, surpreso e ainda cético.

— "Sim, e para não esquecer esse nome, eu o vim repetindo ao longo de todo o caminho" — responde ingenuamente a menina.

Ela não sabia que três anos antes o Papa Pio IX, verdadeiramente inspirado pela Providência, proclamara em Roma o dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, abrindo assim uma nova e esplêndida era na piedade marial. Ela não sabia também que a Dama, revelando-lhe seu nome, confirmava espetacularmente o dogma. Confirmação que a fé não exigia, mas com a qual a piedade católica exultava e se expandia extraordinariamente. Era a bênção de Nossa Senhora sobre o dogma, que se fazia palpavelmente sentir por essa maneira.

Bernadette na época das aparições: a perseguição

À época das aparições, Bernadette passava pelas agruras da pobreza extrema.

Numa ruela de Lourdes — a rua dos "Petits-Fossés" — havia uma velha casa que outrora servira de prisão de aldeia. Seu proprietário, um tal de Sajous, talhador de pedras, nela habitava ocupando o andar superior e o cômodo mais iluminado do térreo. Sobrava, ainda no térreo, uma cela miserável, cujas janelas com barras de ferro davam para um pequeno e obscuro pátio interior. Tal cela, de apenas três metros por quatro, Sajous emprestava, por caridade, a uma família que em algo lhe era aparentada. Nesse local inóspito residiam, pois, o casal Soubirous, a filha mais velha, Bernadette, com 14 anos de idade, e mais três filhos. Em Lourdes a cela era conhecida como "le cachot" (o calabouço), evidente reminiscência do tempo em que lá se encerravam os criminosos (ver foto 2).

Bernadette ainda não sabe ler e escrever, pois há apenas seis semanas frequenta a escola do convento de Lourdes, habitado pelas irmãs da caridade, cuja casa-mãe localiza-se em Nevers. Ao mesmo tempo recebe aulas de catecismo e se prepara para a primeira comunhão.

Após a primeira aparição, a mãe de Bernadette procurou dissuadi-la de voltar à gruta, pois poderia ser coisa do diabo. Chama-a de mentirosa, de beata, ameaça surrá-la.

A imprensa também se manifestou durante as aparições. Penetrada de uma anti-religiosidade rançosa, tomava como ponto de partida o princípio de que não há fenômenos sobrenaturais. Daí os ataques à pequena, e aos que criam nas aparições, sucederem-se nos jornais da época. Assim como hoje é moda ser permissivista em matéria moral e doutrinária, naquele tempo ficava bem ser livre-pensador, pertencer à categoria dos espíritos fortes que não creem em Deus. Um jornal de Paris comenta: "A pequena comediante do moleiro de Lourdes reunia ainda esta manhã, 1°. de março, em torno dela, junto ao rochedo de Massabielle, perto de 2.500 tontos. Impossível descrever o abestalhamento e o cretinismo moral destes últimos. A visionária serve-se deles como deum bando de macacos, e lhes faz executar macaquices de todo gênero. Nesta manhã, a pitonisa, não tendo gosto em fazer-se de inspirada, e para variar os exercícios, não encontrou nada melhor do que fazer-se sacerdotisa. Tomando seus grandes ares de autoridade, ela exigiu dos beatos a apresentação de seus rosários e procedeu à bênção geral de todos eles".

Como, porém, o número de pessoas que procurava a gruta continuava a crescer, a imprensa liberal, como se tivesse recebido uma palavra de ordem, abandonou o tom de sarcasmo e começou a falar de Bernadette como de uma doente, atingida por "catalepsia" e vítima de "alucinações". Os termos se espalharam rapidamente. Hoje diriam que são fenômenos parapsicológicos, paranormais, etc. Os rótulos mudaram, o fundo da mentalidade foi herdado.

Quanto às autoridades civis, mostram-se igualmente agressivas. Bernadette é conduzida à delegacia várias vezes — lembremo-nos de que ela é uma menina pura, de 14 anos — e numa delas interrogada durante duas horas, de pé. Intimam-na a não voltar à gruta, ameaçam prendê-la. Só o medo dos peregrinos, cujo número cresce cada dia, impede a execução desse arbítrio. Deixam-lhe uma "liberdade provisória".

Após a aparição de 25 de março, proíbem o acesso à gruta, bem como o recurso às águas milagrosas, sob penas severas. São levantadas barricadas, e homens da lei se postam no local. Produz-se então um fenômeno maravilhoso. O povo continua a ir por caminhos difíceis. Para contornar os obstáculos, alguns atravessam o Gave a nado, outros simplesmente se atiram contra as barricadas e as destroem. Os processos contra pessoas se multiplicam em Lourdes. Há os que aproveitam a escuridão da noite para levar seus doentes ou para rezar sem serem vistos. O movimento de piedade é tão intenso que chega a criar um problema de opinião pública não só para o prefeito e o chefe de polícia de Lourdes, mas para o próprio Napoleão III, o qual tem sobre si a liberação do local, a fim de evitar problemas sérios para o governo (cfr. Revista "Historia", número especial 394 bis de 1979).

E o clero local? Tanto o Bispo de Tarbes quanto o pároco de Lourdes negam-se a ir à gruta. Quando Bernadette vai levar a este último o pedido de Nossa Senhora para construir uma capela, ele trata a menina com brutalidade. Mais ainda, todo o clero da diocese de Tarbes — com exceção apenas de um jovem padre — mantém-se afastado do local, ignorando oficialmente os acontecimentos. Ordem nesse sentido chega a ser dada pelo pároco de Lourdes a seus coadjutores.

A superiora do convento onde Bernadette aprende suas lições, estigmatizava os "carnavais" feitos pela pequena. As freiras mostram-se desagradadas, e uma delas, não conseguindo que Bernadette desminta o fato das aparições, a chama de má menina.

Uma religiosa quadragenária lhe aplica um par de bofetadas "para que aprenda".

Dados sobre as aparições

Durante a terceira aparição, em 18 de fevereiro, Nossa Senhora diz a Bernadette: "Não te prometo que serás feliz neste mundo, mas no outro" (ver foto 3).

No dia seguinte, durante a quarta aparição, enquanto a vidente rezava, ouviu vozes que chamavam, cruzavam-se, interpelavam-se reciprocamente e se chocavam. Dir-se-ia mil pessoas tomadas de cólera. Era horrível! A voz mais forte gritava: "Foge, foge". Bernadette temeu. Nisso "a Dama levantou a cabeça e, olhando em direção ao rio, franziu as sobrancelhas. As vozes fugiram em todas as direções". Bastou um franzir de sobrancelhas de Nossa Senhora, e uma legião de demônios fugiu espavorida (ver foto 4).

Na aparição de 24 de fevereiro, durante o êxtase, Bernadette volta-se para a multidão e grita, repetindo palavras da Virgem: "Penitência, penitência, penitência". Este mesmo brado Nossa Senhora o repetiria em Fátima, em 1917.

Durante a aparição de 25 de fevereiro, Santa Bernadette levanta-se, caminha três passos em direção à gruta, cava a terra com suas mãos, sob os olhares espantados dos assistentes. A pequena cavidade enche-se de água. Dessa água a vidente bebe e com ela lava o rosto. Tudo sob a orientação direta de Nossa Senhora. Até hoje tal água não parou de brotar. Cresceu de volume, e é conhecida no mundo inteiro como água de Lourdes, havendo-se transformado na mais espantosa fonte de milagres do corpo e da alma, produzidos em série, como jamais a História registrou semelhante (ver foto 5).

No dia 2 de março, quando já Nossa Senhora aparecera mais de doze vezes e a fama dos milagres alcançados na fonte das águas começava a espalhar-se, a Virgem manda Bernadette levar nova mensagem ao pároco de Lourdes: "Eu quero que venham aqui em procissão".

A menina, temerosa ao lembrar-se das anteriores recepções, pede a sua tia que a acompanhe. Lá vão ambas, tremendo. O pároco as recebe: "Que vens tu fazer aqui? Falar-me ainda de teu carnaval de aparições?"

A vidente de 14 anos, arrancando de si toda a coragem de que era capaz, transmite sua mensagem. O pároco cruza os braços e com ar ameaçador diz: "Pois bem, não nos faltava senão isso. Ou tu mentes, minha filha, ou a Dama que te fala não é senão a máscara daquilo que ela quer parecer" (ver foto 6).

De fato, só anos depois o pedido de Nossa Senhora seria atendido (ver foto 7).

No dia 3 de junho Bernadette faz sua primeira Comunhão, de modo edificante. No dia 16 de julho, festa de Nossa Senhora do Carmo, ela veria a Virgem Santíssima pela última vez nesta vida. Era a décima-oitava aparição. O que se terá passado naquele colóquio íntimo ninguém sabe, pois Bernadette sempre foi muito reservada ao falar dessa despedida.

Os milagres na fonte de Massabielle sucediam-se tão numerosos, que o prefeito de Lourdes chegou à luminosa conclusão de que deveriam ser águas medicinais, e que ele bem poderia estabelecer ali uma estação termal. Mandou, pois, examiná-las. Oh decepção! A água era simplesmente potável, nada de natural explicava as curas que lá se realizavam. O livro de 550 páginas, "Les grandes guérisons de Lourdes" (As grandes curas de Lourdes), do Dr. Boissarie (P. Téqui ed., Paris, 1900), muito bem documentado inclusive fotograficamente, relata inúmeros casos de curas milagrosas comprovadas até aquela data (ver fotos 8 e 9).

Reconhecida como santa em vida

Após o período das aparições, Bernadette começa a conhecer outro tipo de dificuldades. Ela se vê assediada, dia e noite, por uma multidão de devotos que, impelidos por seu discernimento dos espíritos, a consideram santa: em casa, no convento, nas ruas, na gruta. E não é apenas o povo pobre. São Bispos, políticos, altos funcionários. Um velho Prelado dobra os joelhos diante da menina de 14 anos e pede: "Abençoa-me". O mesmo faz um sacerdote, noutra ocasião. E o povo em geral frequentemente lhe pede a bênção.

Torna-se difícil para ela defender suas próprias roupas: cortam, como relíquia, pedaços do manto e do véu, a barra da saia e tudo que conseguem levar.

Ao vê-la, exclamam: "Olha a santa". De todas as partes da França peregrinos afluem a Lourdes para ver Bernadette. Segundo Michel de Saint Pierre em seu livro "Bernadette et Lourdes" (La Table Ronde, Paris, 1958), "a menina tornou-se um objeto de veneração". Fazem-na tocar crianças, rosários, imagens e os mais diferentes objetos. Ela, que mal sabia escrever, vê-se compelida a assinar atrás de "santinhos" de toda espécie, ao que Bernadette se presta de boa vontade, fazendo preceder seu nome das letras "p.p.", ou seja "priez pour" (rogai por). Para satisfazer aos que lhe pedem, ela chega a distribuir fios de cabelo.

O assédio é tal que o pároco e o prefeito, conjuntamente, pedem às irmãs de caridade do convento de Lourdes que tomem Bernadette sob sua proteção. Assim, ela é internada no convento em julho de 1860, na qualidade de pensionista. Mas as religiosas não podem evitar-lhe as audiências, as visitas, os interrogatórios... Certos dias, é tal a multidão que deseja observar a santa, que as freiras são obrigadas a levá-la a uma janela para ser vista pelo povo.

A superiora do convento, Madre Alexandrina Roques, a toma como intercessora junto a Nossa Senhora para obter uma cura pessoal de que necessitava, e a obtém (ver foto 10). Um religioso sentencia: "A mais impressionante demonstração das aparições é a pessoa de Bernadette". Em outubro de 1865 um sacerdote, o Pe. Cros, afirma que ela "tem um charme sobrenatural que é impossível não sentir. Ela própria é uma aparição" (ver foto l1).

No início de 1862, o Bispo de Tarbes, após um silêncio de quatro anos, publica um mandamento a respeito dos fatos ocorridos em Lourdes, no qual reconhece a autenticidade das aparições.

Em abril do mesmo ano, Bernadette cai gravemente enferma. A asma de que sempre sofrera torna-se aguda. Recebe os últimos sacramentos. Aí abre os olhos e pede água da gruta e a bebe. Logo depois exclama: "Estou curada!"

A Superiora tira-lhe o véu de professa

O Bispo de Nevers, Mons. Forcade, vai visitar Bernadette. Fala-lhe em estabelecer-se no mundo, em casar-se. Ao que ela decididamente responde: "Ah, quanto a isso não". O Bispo acena então para a possibilidade de ela tornar-se freira. A vidente propõe-se a pensar no assunto.

Voltando a Nevers, Mons. Forcade procura a Superiora Geral das Irmãs de Caridade, Madre Louise Ferrand e sugere-lhe receber Bernadette como religiosa. A superiora, pouco entusiasmada com a ideia, responde: "Mas, ela não tem boa saúde, será uma frequentadora de enfermaria. E, depois, ela não sabe fazer grande coisa".

Apesar de tudo, em 7 de julho de 1866, nossa vidente, já com 22 anos de idade, chega ao convento de "Saint Gildard", em Nevers, casa-mãe das Irmãs de Caridade, para tornar-se religiosa. Abria-se uma nova fase no calvário da santa.

A então Superiora Geral, Madre Josefina Imbert, tem como principal meta, em relação à jovem Bernadette, preservá-la do orgulho. Para isso, não só impede que ela seja vista pelas multidões que continuam a acorrer, mas, sempre que se apresenta uma ocasião, inflige à vidente uma humilhação pública.

Meses depois de haver chegado a Nevers, Bernadette cai gravemente enferma. Tudo indica que irá morrer. A Madre Superiora faz vir o Bispo, e a recebe como professa da Congregação. À noite Bernadette sente-se melhor, e exclama: "Eu não morrerei nesta noite". A Madre, no afã de humilhar a pobre doente, diz: "Tu és uma pequena tonta. Eu te declaro que amanhã pela manhã, se não estiveres morta, eu te tirarei o véu de professa que acabo de dar-te, e te reenviarei ao noviciado".

"Como quiserdes, querida Mãe", responde Bernadette com calma ante tão insólita atitude. Aquela que fora agraciada pela Virgem, sofria agora nas mãos dos homens. De fato, ela voltou a ser noviça.

Por sua vez, a mestra de noviças, Madre Maria Thereza Vauzou, declarou em certa ocasião que "sóror Marie-Bernard [Bernadette] nada tinha de extraordinário em sua piedade". A mesma mestra de noviças não titubeou em dizer à pobre moça: "Agora podemos bater em você". Assustada, Bernadette apenas replicou: "Eu espero que Vós o fareis docemente". Mais tarde, já como Superiora Geral, Madre Vauzou fará esta declaração espantosa, que demonstra não ter ela crido nas aparições de Nossa Senhora: "Se a Santíssima Virgem quisesse aparecer em algum lugar sobre a terra, por que escolheria Ela uma camponesa grosseira e sem instrução, em lugar de uma religiosa instruída e virtuosa?"

Não é de espantar que em determinado momento Bernadette tenha deixado escapar esta lamentação: "Dizer-vos o que eu tenho sofrido, seria coisa impossível". De fato, fica-se com a impressão de que o mundo quis vingar-se dela, pelo fato de Nossa Senhora lhe ter aparecido!

As postulantes da Congregação religiosa, pelo contrário, têm Bernadette em grande veneração: inventam mil jeitos para fazê-la tocar objetos, para obter e guardar seus fios de cabelo quando cortados, ou, simplesmente, como diz Michel de Saint Pierre, "comê-la com os olhos" (op. cit.). Quando a vidente está enferma, as postulantes e noviças que vão visitá-la saem depois, de costas, para poder vê-la o maior tempo possível.

Últimos sofrimentos

Em 30 de outubro de 1867 sóror Marie-Bernard faz sua profissão solene (a segunda, uma vez que a Superiora havia cancelado a primeira), juntamente com outras noviças. A cada noviça era costume indicar, nessa ocasião, uma tarefa a que devia se dedicar por obediência. A Bernadette nada é indicado. O Bispo, surpreso, pergunta a razão. Diante de todos os presentes, a Madre Superiora responde: "Não é possível indicar-lhe uma obediência, é uma pequena tonta que não serve para nada". Que amargura para a pobre vidente, numa ocasião que deveria ser de tanta alegria... (ver foto 12).

Em 1869, Pio IX proclama "a luminosa evidência da recente aparição da clementíssima Mãe de Deus". Era a confirmação suprema.

Dez anos depois, atingida por uma tuberculose pulmonar, que se transforma em óssea, com cárie no joelho, Bernadette sofre terrivelmente. Em 28 de março de 1879 recebe a extrema-unção. Quando o sacerdote lhe pergunta se renovou o sacrifício de sua vida, a pobre vidente geme: "Que sacrifício? Não é sacrifício deixar uma terra onde se sofre tanto para servir a Deus".

A doença ainda se prolonga. Na noite de 14 para 15 de abril, a vidente passa por uma agonia moral. Vêm-lhe dúvidas sobre a salvação de sua alma. Várias vezes ela grita com terror: "Vai-te Satanás, vai-te Satanás". Até que na noite do dia 15 ela brada de alegria: "Agora estou tranquila".

Dia 16 de abril, às 3 horas da tarde, morre Sóror Marie-Bernard aos 35 anos de idade, exclamando: "Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por mim, pobre pecadora, pobre pecadora" (ver foto 13).

Seu corpo foi exumado em 1925, encontrando-se incorrupto. Em 1933 o Papa Pio XI solenemente canonizava a vidente de Lourdes. Santa Bernadette Soubirous, rogai por nós.

TODAS AS FOTOS de Santa Bernadette aqui publicadas foram reproduzidas da obra de René Laurentin, "Visage de Bernadette" (Editions P. Lethielleux/Oeuvre de la Grotte, Paris, 1978). Esse livro-álbum, em 2 volumes, contém as 75 fotografias conhecidas da vidente de Lourdes, acrescidas de análises científicas e de um estudo da psicologia da Santa com base nas fotos. O autor informa que foram necessários cerca de 20 anos de pesquisa para reuni-las.

1) Não há fotos de Santa Bernadette da época das aparições. Entre outubro de 1861 e fevereiro de 1862, foi tirada a primeira série de fotos, que se conhece, da vidente de Lourdes, quando ela tinha 17 ou talvez 18 anos. A foto acima pertence a esta série. Nela, a Santa, a pedido do fotógrafo, procura tomar a posição que guardava nas aparições, e veste-se do mesmo modo, que o fazia quando viu Nossa Senhora pela primeira vez. O toucado branco que lhe pende da cabeça ("capulet") é característico da região dos Pirineus.

2) O então desprezado e hoje venerado "cachot", onde residia Sta. Bernadette à época das aparições.

3) Nesta foto, a vidente manifesta-se triste e pensativa, mas profundamente calma e confiante na Providência.

6) A fisionomia de Bernadette apresenta, por vezes, um ar desconfiado e arredio, impregnado de sofrimento.

4) A imagem de Nossa Senhora venera- da na gruta de Massabielle. Acima aparece a catedral construída em 1876.

5) Gravura baseada numa foto tirada em 1864, representando Bernadette na gruta, enquanto atrás dela pessoas bebem da fonte milagrosa.

7) Anos depois das aparições, inúmeras procissões bordejaram o rio Gave em direção à gruta de Massabielle, atendendo ao pedido de Nossa Senhora.

8 e 9) Catharine Lapeyre, curada de câncer na língua mediante aplicações da água de Lourdes. As fotos mostram a língua cancerosa antes do milagre e depois a língua sã.

10) Bernadette tornou-se em vida objeto de veneração. A Superiora do convento de Lourdes, Madre Alexandrina Roques, que aparece na foto, a toma como sua intercessora junto a Nossa Senhora.

11) Um religioso sentencia: "A mais impressionante demonstração das aparições é a pessoa de Bernadette".

12) Bernadette, irmã professa no convento de Nevers, sob o nome de Sóror Marie-Bernard.

13) Santa Bernadette em seu leito de morte. Exumado 46 anos depois, seu corpo foi encontrado incorrupto.