Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 380 | página 02-03

Dramas de consciência na história de Papas

Pode um Papa cair em heresia? - O Papa Libério

Átila Sinke Guimarães

Apresentamos neste número o segundo de uma série de artigos sobre dificuldades doutrinárias ocorridas com alguns Papas, durante seus pontificados. Conforme observamos no artigo anterior, pareceu-nos oportuno o tema para que nossos leitores formem uma ideia, através de exemplos históricos, da distinção fundamental existente na Santa Igreja: o elemento divino, imutável, perene e infalível; e o elemento humano, mutável e transitório e — quando se trata do Sumo Pontífice — infalível dentro dos limites estabelecidos pelo Concílio Vaticano I.

Tal precisão de conceitos torna-se particularmente necessária na era de confusão doutrinária, cultural e moral em que vivemos.

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O Papa Libério começava, em 352, a ocupar o Sólio Pontifício. Numa época em que o tempo corria mais lento e os acontecimentos marcavam mais fundo, trinta e nove anos apenas haviam se passado desde o Edito de Milão, mediante o qual a Igreja saíra das catacumbas. Vinte e sete anos do Concílio de Nicéia, que condenara Ario e sua péssima doutrina. Quinze anos depois do reinado de Constantino que, lamentavelmente, vendo a morte chegar, pedira o Batismo das mãos de um bispo semi-ariano (FLISCHE-MARTIN, "Histoire de l' Église", Bloud et Gay, 1939, T. III, p. 114).

Reinava então sobre todo o Império Constâncio II, filho de Constantino. Como o pai, tinha por principal conselheiro Eusébio de Nicomédia. A influência desse Prelado semi-ariano faria de Constâncio — já de si má pessoa — o primeiro Imperador "católico" fortemente cesaropapista e um sectário resoluto das doutrinas arianas mitigadas. Aliás, Eusébio logo deixaria como herdeiros de sua ação junto a Constâncio dois Bispos - Valêncio de Mursa e Ursácio de Singidunum — ambos formados pessoalmente por Ario, durante o tempo de seu exílio (FLISCHE-MARTIN, op. cit., T. III, p. 108).

Santo Atanásio, Patriarca de Alexandria, tinha a seu favor, além da posição que ocupava na primeira ou segunda cidade em importância depois de Roma, o apoio do movimento monacal que, como um incêndio de zelo, espraiava-se pelas margens do Nilo, sob a proteção do santo.

Roma e Alexandria juntas defendiam a ortodoxia contra Constantinopla. Dali Constâncio II e seus conselheiros dirigiriam uma luta tenaz para sujeitar o Papado e a Sé de Alexandria a seus intuitos heréticos. A habilidade política não é um dom que falte aos orientais. Ora, por meio de uma diplomacia envolvente, ora pela pressão política, ora ainda pela violência, a ofensiva começou, dosada segundo as circunstâncias. Com a morte do Papa São Júlio e a eleição do inconstante Libério, desfazia-se virtualmente a união Roma-Alexandria. Constâncio podia pois atacar uma e outra separadamente. Foi o que ele fez.

Outro fruto da eleição de Libério: Santo Atanásio passava a ser o único símbolo vivo da ortodoxia no mundo de então. A tal ponto, que as pessoas eram julgadas ortodoxas ou semi-arianas não somente pela discussão doutrinária, mas também pelo fato de apoiarem ou condenarem o grande paladino da Igreja. Para Constantinopla o alvo estava escolhido.

Após três anos da eleição de Libério, em 355, começariam para a Igreja onze anos de indecisões no governo e de perplexidades no espírito dos fiéis. Tinha início um tipo de provação até então desconhecida. O Sumo Pontífice mostrava-se titubeante no rumo do bem.

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Tão logo foi escolhido o novo Papa, seus ouvidos começaram a ficar repletos das intrigas contra Santo Atanásio, orquestradas por Constâncio e provenientes de vários Bispos do Oriente e do Egito. Tal processo já havia sido anteriormente usado pelos arianos e melecianos contra Santo Atanásio junto a Constantino, que o exilara. Libério, entretanto, a princípio respondeu simplesmente que não via razão para sacrificar o Bispo de Alexandria.

Simultaneamente, Constâncio enviava a Santo Atanásio um mensageiro encarregado de dizer-lhe que o Imperador o esperava na corte. Dadas as conhecidas intenções deste, tratava-se implicitamente de uma ameaça. O Patriarca respondeu que estava pronto a acompanhar o mensageiro, mas que desejava uma ordem formal do imperador (SANTO ATANÁSIO, "Apol. ad. Constantium", XIX-XXI). O santo, hábil navegador nas águas da política oriental, respondia ameaça com ameaça. Ele, que já fora exilado por Constantino, munira-se, depois da morte deste, de cartas de aprovação de Constantino II e de Constante, irmãos de Constâncio II, os quais durante algum tempo partilharam com este o governo do Império. E de carta do próprio Constâncio II, que, para agradar seu irmão Constante, expedira proibição a todas autoridades imperiais de molestarem Atanásio (FLISCHE-MARTIN, op. cit., T. III, pp. 115-116 e 135-136). Além disso, o Patriarca de Alexandria possuía grande número de apoios por escrito de magistrados temporais (idem, ibidem). Se Constâncio enviasse a ordem formal, o santo poderia levantar contra ele não só uma forte reação religiosa, mas também sério descontentamento no âmbito civil. A ordem escrita não foi remetida. O Imperador mudou de tática. A perseguição contra o santo teria que ser movida no plano religioso.

Esgotados os recursos da difamação e da ameaça sem resultados, Constâncio lançou mão da pressão política no terreno eclesiástico. Estando em Arles, por razões de governo, para lá convocou um Concílio. Na época, os Papas dependiam dos Imperadores para tais convocações, devido às dificuldades de transporte dos Bispos. Aproveitando-se da contingência, começava dessa forma uma ingerência do hierarca temporal na Igreja. O Concílio reuniu-se e, logo no início, seus participantes foram colocados diante de um decreto que condenada Atanásio (SULPICIO SEVERO, "Chronic.", II, 39). Os legados papais apenas chegaram, as ameaças de exílio tornaram-se tão fortes, acompanhadas pela eloquência de Valêncio de Mursa, que todos os Bispos presentes ao conclave assinaram o decreto, com exceção de um, Paulino de Trèves, imediatamente deposto e exilado.

O Papa Libério protestou junto a Constâncio e pediu a convocação de um Concílio Ecumênico para, antes de tudo, confirmar as decisões anti-arianas de Nicéia e, em seguida regular a questão de Santo Atanásio. Vendo nessa proposta uma oportunidade de levar avante seu plano de pressões, Constâncio convocou o Concílio que se reuniu em Milão, no ano de 355, contando com a presença de mais de trezentos Bispos (SÓCRATES, "Hist. eccl.", II, 36). Sagazmente, os partidários de Constâncio inverteram a ordem dos assuntos, deixando a condenação do arianismo para depois. A partir desse engodo, a política foi a mesma daquela usada em Arles: ameaças e detração eloquente contra Santo Atanásio. Somente três Bispos aceitaram o exílio. Foram enviados emissários aos Prelados ausentes a fim de colher suas assinaturas. Apenas dois deles resistiram, tendo sido também degredados. Um deles era Santo Hilário de Poitiers.

Libério agiu com energia, felicitando enfaticamente os exilados por meio de uma carta, assegurando-lhes que sua glória era tanto maior quanto eles não combatiam a espada de um perseguidor, mas a perfídia dos falsos irmãos (SANTO HILÁRIO, "Fragm. histor.", VI, 1-2).

Constâncio deu-se conta de que não alcançaria êxito enquanto Libério lhe resistisse. Um mensageiro imperial foi enviado com as mãos repletas de presentes e a boca cheia de ameaças. O Papa, indignado, fez jogar fora o ouro e os presentes que lhe haviam sido levados.

Diante de tal atitude, Constâncio ousou o inimaginável. Encarregou o prefeito da cidade de Roma de raptar o Papa, e conduzi-lo para Milão a fim de ser submetido a uma última tentativa de intimidação. Dois dias depois de uma edificante resistência, narrada por TEODORETO em sua "História Eclesiástica" (II, 16), e por SOZOMENO ("História Eclesiástica", IV, 20), Libério foi enviado para a Trácia. O Bispo ariano Demófilo recebeu a incumbência de o vigiar.

* * *

Com o Oriente subordinado e o Ocidente subjugado, Constâncio fez eleger Félix em lugar do verdadeiro Papa, exilou o velho Ossius de Córdoba, com mais de 100 anos, um dos campeões do Concílio de Nicéia, e investiu diretamente contra Santo Atanásio. Mandou o magistrado Diógenes a Alexandria com a ordem de promover uma revolta. O santo, porém, era protegido contra as autoridades imperiais, pelas cartas do próprio Constâncio, e tinha de seu lado o Clero e povo, que lhe garantiam toda sustentação. Depois de quatro meses, Diógenes partia de volta, tendo fracassado em sua missão.

Não transcorrera um mês, quando entrou em Alexandria o Duque Siriano trazendo destacamentos de todas as legiões militares estacionadas no Egito e na Líbia com a ordem expressa de fazer partir Atanásio. Depois de algum tempo de negociações inúteis, e violando compromissos feitos com o santo, ele ordenou a suas tropas invadirem a igreja de Teonas, durante a noite de 8 de fevereiro de 356. Ali se celebrava uma grande vigília sob a presidência do Bispo. Os militares buscaram-no, mas ele desapareceu, no meio de um turbilhão popular. A partir desse momento, Santo Atanásio não foi mais visto (SANTO ATANÁSIO, "Apolog. de fuga", XXIV; DUCHESNE, "Histoire ancienne de l'Eglise", T. II, p. 263-264).

Nessa simbólica noite de 356, o arianismo, esmagado em Nicéia e renascido sob o disfarce semi-ariano, vencia no mundo católico. Ele só seria derrotado definitivamente, em todas as suas diluições doutrinárias, no Concílio de Constantinopla, em 381, sob a inspiração de São Dâmaso, Papa, de São Gregório Nazianzeno, Patriarca, e com o apoio de Teodósio e Graciano, Imperadores.

* * *

O exílio foi a tribulação dos que permaneceram fiéis. Representou também para eles seu prêmio. Santo Atanásio, por tempos escondido em grutas das montanhas ou dentro de templos abandonados, errando também pelos desertos do Egito, continuava heroicamente a dirigir a reação anti-ariana em toda sua imensa Diocese (MOURRET, "Histoire Générale de l'Eglise", Paris, 1922, T. II, pp. 138 e 139; WEISS, "Historia Universal" — Barcelona, T. IV, p. 213). A glória alcançada nesse período pelo santo o situa entre os maiores batalhadores da Igreja.

Também para Santo Hilário de Poitiers a perseguição por amor à justiça granjear-lhe-ia grande nomeada na luta anti-ariana.

Infelizmente, o mesmo não ocorreu com o Papa Libério. Já em 357, o Pontífice, cansado do exílio, e trabalhado em suas débeis convicções pela habilidade do Bispo Demófilo, dava mostras de submissão ao herético Imperador. Finalmente, o Papa se dobrou: quatro cartas suas, conservadas por SANTO HILÁRIO em seus "Fragmentos Históricos" (V, 1-6) constituem os testemunhos de tal submissão. Além disso, a defecção de Libério é fortemente atestada também por outros documentos: SANTO ATANÁSIO, "Historia Arianorum", XLI; "Apologia Contra Arianos", LXXXIX; SANTO HILÁRIO, "Ad Constantium", III. SÃO JERÔNIMO, in "Chronic. a. 349", escreve: "Libério vencido pelo tédio do exílio, com perversidade herética assinando [a profissão de fé semi-ariana], entrou em Roma como vencedor" ("Liberius, taedio victus exibi, in haeretica pravitate subscrivens, Roman quasi victor intraveret"). E ainda de SÃO JERÔNIMO, "De vir. illustr.", XCVII. Esses dados, bem como o conjunto dos elementos históricos do presente artigo, encontram-se na conceituada obra de FLISCHE-MARTIN (op. cit., T. III, pp. 142-159 e 231).

A primeira das cartas do Papa Libério, "Studens paci", endereçada aos orientais, lembra que em 352 Libério reuniu em Roma um Concílio, ao qual convocou Atanásio, não tendo este comparecido. Ela acrescenta que, após aquela época, ele foi melhor esclarecido sobre os acontecimentos, e que então condenou o Bispo de Alexandria. A segunda, "Pro deifico timore", é igualmente destinada aos orientais. Nela, Libério informa a seus destinatários que aderiu à condenação de Atanásio, tendo comunicado ao Imperador que entrava em comunhão com os que haviam subscrito a profissão de fé (semi-ariana), apresentada outrora em Sirmium por muitos Bispos. E, em seguida, pede-lhes que intervenham junto a Constâncio para obter seu retorno a Roma. A terceira carta, "Quia scio vos", foi enviada a Ursacio e Valêncio — os principais favores do arianismo. Libério dirige-lhes as mesmas declarações que endereçara ao conjunto do Episcopado oriental e exprime-lhes os mesmos pedidos. Enfim, a quarta carta, "Non doceo" é remetida a Vicente de Cápua. Em sua missiva Libério roga-lhe especialmente que promova uma iniciativa coletiva dos Prelados da Campânia a fim de mover Constâncio a atender seus pedidos.

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Libério foi autorizado a deixar a Trácia e dirigir-se a Sirmium. Nesta cidade foi-lhe proposta por Ursacio de Singidunum e Valêncio de Mursa uma nova fórmula de fé semi-ariana que ele assinou.

A fórmula endossada por Libério negava implicitamente o Credo de Nicéia. Para condenar os arianos aquele grande Concílio Ecumênico definira que Jesus Cristo é co-substancial ao Padre Eterno, verdade negada pelos heréticos. O semi-arianismo procurou uma fórmula que sabotasse Nicéia sem cair claramente no erro ariano. Dizia ela que o Verbo Encarnado era semelhante em substância, e não igual em substância, como significa o termo co-substancial.

SOZOMENO, em sua "História Eclesiástica", acrescenta que Constâncio pressionou vivamente o Papa a confessar que o Filho não é consubstanciai ao Padre. Em carta que remeteu a Basílio de Ancira, o Papa Libério declarava excomungados todos aqueles que não cressem que o Filho é semelhante em substância ao Padre Eterno. A excomunhão da corrente ariana extremada que Libério lançou nessa missiva não o isenta do erro dos semi-arianos, que mais tarde, em 381, será condenado pelo Concílio de Constantinopla (FLISCHE-MARTIN, op. cit., T. III, p. 287). E, de fato, a carta atendia aos pedidos de Constâncio.

Esse julgamento, numa grave questão aliás controvertida, baseia-se, além dos santos já citados, nas opiniões de Barônio, Tillemont, Natalis Alexander e Bossuet que sustentam ter Libério caído em heresia, assinando a segunda fórmula de Sirmium. E neste sentido interpretam as palavras de Santo Atanásio, que admite uma queda (BERNARDINO LLORCA, S.J., "Manual de História Eclesiástica", Editora Labor, Barcelona, 1942, p. 182).

Após a assinatura e a declaração mencionadas, Libério foi autorizado a entrar novamente em Roma.

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Não vamos tratar das convulsões que ocorreram na Cidade Eterna, no ano de 358, motivadas pelo enfrentamento entre o Papa, retornado do exílio, e o anti-Papa Félix, as quais ocasionaram o cisma feliciano, que perdurou até o ano anterior à morte de Libério, em 365.

Constatemos que Santo Atanásio e Santo Hilário de Poitiers — os representantes da ortodoxia no Oriente e no Ocidente, os quais mantiveram no exílio a resistência ao arianismo instalado em muitíssimas partes da Igreja — exprimem-se sobre o conjunto das atitudes de Libério em termos muito severos (SANTO ATANÁSIO, "Historia Arianorum", XLI; SANTO HILÁRIO, "Liber adv. Constantium", XI — cfr. SÃO JERÔNIMO, "Chron. ad. a. 2365").

Nosso intuito, ao redigir este artigo sobre o Papa Libério, não é tomar partido a respeito da questão se ele foi ou não herege. No estudo sereno que acima expusemos, nosso espírito apenas retém os fatos e as opiniões de grandes santos (especialmente São Jerônimo), e de consagrados historiadores (de modo particular Flische-Martin).

Nosso objetivo é registrar a possibilidade de um Papa cair em heresia, como também admirar a majestade soberana e a serenidade com que a Igreja, ao longo dos séculos, através dos escritos de santos, Doutores e historiadores, encarou uma hipótese tão dolorosa.

Papa Libério — afresco da série dos Papas da Basílica de São Paulo fora dos Muros (século IX), Roma.

Cabeça presuntiva de Constâncio 11 (bronze do século IV) — Museu dos Conservadores, Roma.


Subversão progressista na América Central

Um fato bomba na Guatemala

Gregório Lopes

Um jovem estudante guatemalteco resolve entrar para a Companhia de Jesus. O fato ocorreu em 1967. Admitido, segue regularmente os cursos necessários para sua ordenação, nos quais recebe às torrentes a influência progressista conforme veremos em seu depoimento do qual apresentamos adiante os tópicos principais. Torna-se — em El Salvador, na Nicarágua e na Guatemala — um impulsionador das teorias comuno-progressistas que aprendera.

Guiado pela lógica de suas posições ideológicas, adere a um movimento guerrilheiro, o "Exército dos Pobres", no qual permanece dezessete meses. A essa altura, já com 35 anos de idade, antes de dar o último passo e pegar concretamente em armas, o sacerdote cai em si. Resolve então pedir proteção à polícia. Combina com ela um sequestro simulado, no qual ele seria arrebatado por policiais à luz do dia, diante de testemunhas. O plano é executado.

Em 30 de setembro de 1981, o sacerdote jesuíta, Pe. Luis Eduardo Pellecer Faena — este é seu nome — reaparece. E surge diretamente no vídeo da televisão guatemalteca para confessar-se arrependido de toda sua atuação anterior no progressismo e na guerrilha. Denuncia, com fatos concretos, a ação subversiva da Companhia de Jesus na América Central. É uma bomba!

O fato repercute intensamente na Guatemala, em toda a Companhia de Jesus e nos meios progressistas em geral. Estranhamente, porém, a grande imprensa mundial, como que detida por uma varinha mágica, não fez eco às denúncias do sacerdote jesuíta...

Até que a revista parisiense "Figaro-Magazine" publicou extensa reportagem a respeito, em vários números sucessivos. O que lhe valeu a indignação dos meios progressistas, extravasada, por exemplo, no título com que a revista "Informations Catholiques Internationales" apresentou o tema: "O Figaro-Magazine associa-se à campanha contra os jesuítas" (n.° 574, de 15-5-82).

Não se mantém a acusação de Judas

Os meios progressistas em geral e especialmente os jesuítas, lançados numa polvorosa, defenderam-se como puderam, ora asseverando que o Pe. Pellecer era um Judas, ora dizendo que ele sofrera uma "lavagem cerebral" na polícia. Já a dualidade de argumentos é suspeita, pois se a hipótese de "lavagem cerebral" fosse verdadeira, não caberia a acusação de Judas. Ninguém pode ser acusado de traidor se uma "lavagem cerebral" o obrigou a dizer o contrário do que pensa.

A acusação de Judas foi levantada pela revista "América", da Companhia de Jesus nos Estados Unidos. Afirma ela: "O Cardeal Mario Casariego, Arcebispo da Cidade de Guatemala, e normalmente considerado como simpatizante do governo, segurou o Pe. Pellecer por detrás e gritou-lhe em face: 'Judas! Judas!' Ulteriormente o Cardeal repetiu o epíteto à imprensa guatemalteca" (apud "Figaro-Magazine", n.° 159, 30-4-82, p. 36).

A propósito dessa notícia, o Cardeal Casariego foi procurado por um repórter, que lhe perguntou se confirmava a declaração que lhe havia sido atribuída. O Purpurado sorriu e respondeu: — "Não. Podeis imaginar-me sacudindo alguém por detrás? Não, absolutamente. Mas eu declarei em seguida aos jornalistas que, para mim, era um Judas". — "Por que um Judas?" — "Porque aquele que trai o bem para ir ao mal, aquele que renega a Jesus Cristo para ir à guerrilha, nada mais é que um Judas!" (Figaro-Magazine", n.° 159, 30-4-82, p. 36).

Após esse desmentido categórico do Cardeal à versão propalada pela revista dos jesuítas, que inclusive invertera o sentido das palavras do Purpurado, a acusação de Judas contra o Pe. Pellecer cessou. Mesmo porque, para mantê-la seria necessária uma de duas coisas: ou provar que as revelações do Pe. Pellecer eram totalmente falsas (o que não parecia possível, dado que ele apresentou fatos, datas, nomes etc.); ou que ele revelara fatos ocultos (mas então, seria admitir que a Companhia de Jesus promovia a subversão às escondidas na América Central), o que não era nada cômodo para o progressismo.

Insiste-se na "lavagem cerebral"

Posta de lado a acusação de traição, restou a de "lavagem cerebral". Esta foi cantada em prosa e verso repetidamente. O Pe. César Jerez, Provincial dos Jesuítas na América Central, por exemplo, declarou: "Não admitimos como livres as declarações do Pe. Pellecer" ("Vida Nueva", Madrid, n.° 1298, 17-10-81, p. 40). E a revista dos jesuítas norte-americanos "América", em 9 de janeiro de 1982, publicou extenso artigo intitulado "Lavagem cerebral na Guatemala?". Só que as provas jamais apareceram.

À guisa da prova, propalou-se que psiquiatras viram o Pe. Pellecer na televisão, por ocasião de seu pronunciamento, e chegaram à conclusão de que ele sofrera "lavagem cerebral". Na entrevista concedida pelo Pe. Henri Madelin, Provincial dos jesuítas na França, foi defendida tal hipótese. Assegura ele que o Pe. Pellecer, ao apresentar-se na TV, estava "submetido a uma pressão psicológica e também química. Os psiquiatras que viram a entrevista na TV e conhecem os expedientes do caso julgaram que no Pe. Pellecer realizou-se um processo de conversão ideológica, devido a uma coação psicofisiológica" ("Noticias y Comentarios", boletim noticioso da Companhia de Jesus, editado em Roma, em língua castelhana, citando "La Croix").

Seja qual for a opinião que se tenha sobre o que é "lavagem cerebral", convenhamos que o parecer dos psiquiatras que viram o Pe. Pellecer na televisão representa muito pouco como prova. Além do mais, é sabido que os próprios especialistas na matéria não estão de acordo sobre aquilo em que consiste, exatamente, uma "lavagem cerebral". A expressão tem sido usada como uma espécie de coringa para qualificar fenômenos dos mais diversos. Portanto, o rótulo vago de "lavagem cerebral" ou equivalentes, em nada parece afetar a essência das revelações do Pe. Pellecer. Tanto mais que ele contestou tal acusação, dizendo: "Quando me lavaram o cérebro? Em quatro meses com a polícia? Ou em dezessete meses na subversão? Ou em quatro anos de doutrinação marxista na Universidade [onde fez seus estudos para sacer dote]? ("Figaro-Magazine", n.° 159, 30-4-82, p. 35).

Outras hipóteses menos importantes foram levantadas sobre o tratamento a que o Pe. Pellecer teria sido submetido na polícia, sempre desmentidas por ele. Só para citar um fato, quando um repórter falou-lhe do boato que corria — na Guatemala e nos Estados Unidos — de que a polícia lhe quebrara os dentes a coronhadas, o Pe. Pellecer limitou-se a abrir a boca. Diz o repórter: "Todos os dentes estavam lá, bem implantados" (idem, ibidem).

O mencionado boletim jesuíta "Noticias y Comentários" informa que depois do programa de TV, o Pe. Giusseppe Pittau, coadjutor do Delegado Pontifício, entrevistou-se privadamente com o Pe. Pellecer, a pedido do Núncio Apostólico. O Pe. Pittau declarou que o entrevistado "não deu nenhum sinal de que havia sido maltratado, e disse que estava bem de saúde" (boletim citado, maio de 1982, p. 30).

Apresentado o essencial dessa discussão, não nos deteremos mais nela. Mesmo porque não é nosso intuito tomar partido em tal debate.

Queremos apenas ressaltar um ponto. Diga-se do Pe. Pellecer — e do tratamento que recebeu durante seu desaparecimento — o que se disser, no seu conjunto ficam de pé as acusações que ele fez. Se os fatos que ele alega não fossem verdadeiros, seria fácil ao progressismo provar a falsidade dos mesmos. No farto material que a tal respeito chegou a nossas mãos, nada vimos de conclusivo em termos de refutação, nem de explicação cabal. As tentativas de explicação deste ou daquele fato particular são pouco convincentes e apresentam-se sem força no conjunto das revelações do sacerdote jesuíta.

Há até, aqui e ali, declarações visando desmentir o Pe. Pellecer mas que, na verdade, confirmam suas acusações, pois limitam-se a apresentar elogiosamente aquilo mesmo que o sacerdote jesuíta condena. Trata-se de uma diferença de apreciação, mas a realidade do fato, ou seja, a subversão promovida por eclesiásticos e leigos católicos, permanece de pé e sai até robustecida.

Procurando desmentir, confirmam...

Assim são, por exemplo, algumas declarações feitas pelo Provincial da Companhia de Jesus para a América Central, Pe. César Jerez, publicadas pela revista progressista madrilena "Vida Nueva", n.° 1298, 17-10-81:

"Somos um grupo apostólico embora haja, na Companhia, um pluralismo amplo. Os dois extremos são muito minoritários". Note-se o sibilino da frase. Não podendo deixar de reconhecer a existência da extrema esquerda na Companhia — pois é uma evidência de furar os olhos — ele procura amenizar falando de um "amplo pluralismo", no qual haveria dois extremos minoritários. E nenhuma crítica faz aos mencionados extremos. De onde, o progressismo sai ileso de suas declarações.

"Como grupo nunca se admitiu o emprego de armas". O que significa "como grupo"? Quer dizer que há jesuítas que individualmente — não como grupo — admitem o emprego de armas em favor da subversão? E não sofrem penalidades? E os demais que não admitem a subversão armada não impugnam os de tendência guerrilheira? São coniventes? O prudente silêncio do Provincial deixa pendentes tais interrogações.

Prossegue ele: "Não houve nesse sentido mais do que três casos". Então há três casos que o superior jesuíta conhece de padres da Companhia de Jesus que tomaram armas em favor da subversão. E o Pe. Jerez não tem contra eles uma só palavra de censura!

Por fim, o Provincial apresenta a razão pela qual não há muitos jesuítas diretamente guerrilheiros: "A longo prazo, tratar de somar luta armada e Companhia de Jesus supõe uma dupla fidelidade, que não as faz compatíveis". É só essa a razão? É de estarrecer! Como seriam incompatíveis, por exemplo, pertencer a uma ordem monástica e ser chefe de família!

Se tal é o pensamento do Provincial para a América Central, não é de se estranhar as revelações do Pe. Pellecer.

O Pe. Jerez reconhece ainda que "membros da Companhia trabalham em obras de caráter novo, como as tarefas dos camponeses [...] também o fazem em centros de investigação de ação social, círculos de alfabetização, estudos da realidade nacional, formação de delegados da palavra [...]. É necessário formar pessoas mais capacitadas que, por sua vez, vão formando grupos fortes, comunidades conscientes de sua fé e da realidade em que vivem, pelo que são incômodas ao governo". Quem não vê, através de tal palavreado, a formação de uma rede subversiva de oposição ao governo, mediante as comunidades de base? O que os marxistas declarados não conseguiram, os sacerdotes progressistas vão fazendo.

Outra confirmação da mencionada ação subversiva encontramo-la em artigo da revista jesuítica "América", que procura refutar o Pe. Pellecer. O artigo admite que "grupos como o Exército Guerrilheiro dos Pobres, na Guatemala, contêm muitos membros que se tornaram militantes por seu engajamento cristão [...]. É com repugnância que eles empunham armas, quando veem que estão fechados os outros caminhos para a mudança" (cfr. "Figaro-Magazine, n.° 159, 30-4-82). Ou seja, os ditos cristãos, quando não lhes é possível subverter as instituições por vias pacíficas, procuram fazê-lo pelas armas, em nome do cristianismo! Eis aí a nova religião progressista.

Como, depois disso, tentar rebater, de modo válido, as revelações do Pe. Pellecer?

Um último exemplo. O Pe. Henri Madelin, Provincial dos jesuítas na França, após repisar a tecla da "lavagem cerebral", informa: "A última Congregação insistiu sobre as relações entre a fé e a justiça. É praticamente impossível, sobretudo nos países do terceiro mundo, disseminar a palavra de Deus sem denunciar um sistema político. Nossa ação situa-se na fronteira do político ("Figaro-Magazine", n.° 159, 30-4-82). Sabendo-se que a Congregação de que fala o Pe. Madelin é a Congregação geral da Companhia de Jesus, a informação torna-se particularmente importante. A atuação dos jesuítas na América Central não consistiria, pois, na ação isolada de alguns arditi, mas tratar-se-ia de uma orientação geral seguida pela Companhia de Jesus!? Se Santo Inácio de Loyola vivesse hoje...

Nossa posição

A insistência na tese da "lavagem cerebral" mais parece uma cortina de fumaça, cujo efeito próprio é o de encobrir o fundo da questão: a subversão progressista. De fato, a situação descrita pelo Pe. Pellecer (ver matéria das páginas 4 e 5, nesta edição) é tão semelhante a tudo quanto conhecemos da ação do progressismo no Brasil e em todo o mundo que, lendo-a, encontramos uma realidade, lamentavelmente já nossa velha conhecida: a tentativa de demolição da Igreja e da sociedade civil empreendida pela ação da esquerda católica.

As revelações do Pe. Pellecer, provindo de um sacerdote que atuou diretamente em favor da subversão, trazem consigo um calor de realidade que confirma na fé os que ainda poderiam ter alguma dúvida a respeito da orientação nefasta do progressismo católico. E também sobre sua extensão, tão grande que, por vezes, parece confundir-se — para espíritos timoratos, menos lúcidos e de pouca fé — com a própria Igreja, como uma chaga pode crescer e tomar o corpo todo.

Aliás, já em 1943 o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, na obra "Em Defesa da Ação Católica", alertava os católicos para os erros que se infiltravam no seio da Igreja. Seu brado não encontrou a ressonância que a gravidade da situação exigia. De lá para cá, ele não tem cessado de denunciar os avanços do progressismo, e suas previsões têm se confirmado uma a uma.

Agora parecem-nos próximos, muito próximos, os momentos em que a Providência Divina deverá intervir para que a Igreja não se veja aniquilada pelos que se dizem seus filhos, conforme a infalível promessa de Nosso Senhor de que as portas do inferno não prevaleceriam contra. Ela. Enquanto tal intervenção, prometida também em Fátima por Nossa Senhora, não se der, é nosso dever lutar cheios de fé, contra os terríveis males causados pelo progressismo à Igreja e à sociedade temporal.

Esse combate pode ser conjugado a uma fervorosa prece à Virgem Santíssima, rogando-Lhe que por misericórdia abrevie estes tempos de calamidade e aflição para a Igreja e todos os verdadeiros fiéis.

E por isso que quisemos trazer ao conhecimento de nossos leitores tais fatos (publicamos em seguida as revelações do Pe. Pellecer). Não é mais lícito a ninguém ignorar a Paixão pela qual passa a Igreja, cujo aspecto mais triste, talvez, é o fato de alguns de seus algozes terem mãos consagradas.

É preciso sondar as chagas, medir-lhes o incrível grau de horror, a impressionante profundidade, para estarmos à altura do momento que atravessamos. A Igreja vilipendiada por tantos de seus filhos passa diante de nós. Em face do trágico espetáculo, permaneceremos indiferentes?

Diante das câmeras da televisão guatemalteca, o Pe. Pellecer denuncia o envolvimento eclesiástico na subversão dos países centro- americanos (30 de setembro de 1981).

Populares salvadorenhos fazem fila para votar, nas recentes eleições que deram a vitória a candidatos antiesquerdistas. Contudo, a guerrilha subversiva teima em se proclamar "popular".