Neutralismo alemão, vitória da guerra psicológica revolucionária
Péricles Capanema
No meio da atual confusão, em boa medida passa despercebido ao grande público o crescente movimento pacifista em curso na Alemanha, que pode trazer perigo próximo e talvez fatal para o mundo livre. A sensatez da maioria da população germânica havia impedido até há pouco importantes repercussões do danoso movimento. Entretanto, ele pode ser considerado — mormente com as proporções que alcançou em virtude das manifestações públicas realizadas no segundo semestre do ano passado — importante arma na guerra psicológica revolucionária movida pelo comunismo internacional.
Especialmente nos últimos dois anos os promotores do movimento pacifista encontraram clima propício para intensificá-lo, sobretudo através do conhecido processo de conscientização. São particularmente eloquentes em reforço dessa tese informações colhidas em recente artigo de Gerry O'Connell — membro, aliás, da notoriamente esquerdista Anistia Internacional, em Londres, e simpatizante dos movimentos pacifistas — publicado na revista progressista "America", dos jesuítas norte-americanos e canadenses (edição de 3 de outubro de 1981). Basear-me-ei nessas informações e em dados extraídos da imprensa diária para fundamentar os comentários que faço no presente artigo.
Em 1980 houve semanas de estudo de apoio ao pacifismo em 340 cidades alemãs. As jornadas, onde o programa era mais intenso, tornaram-se comuns. Marchas, como a de Hamburgo, que reuniu 80 mil pessoas no dia 21 de junho de 1981, constituem outro aspecto do ingente esforço. Em 10 de outubro, no clímax do frenesi pacifista, 250 mil pessoas tomaram as ruas de Bonn. Manifestações análogas, na mesma ocasião, num bem concertado empenho propagandístico, deram-se nas mais importantes cidades da Espanha, Inglaterra, Itália, Bélgica e Holanda. Tudo isto ocorreu sob a destra exploração do medo. As manifestações populares sucederam-se simultaneamente com a difusão maciça de boletins e folhetos versando sobre a probabilidade e os horrores do bombardeio atômico.
Alvo próximo: impedir a instalação dos foguetes norte-americanos
A NATO informou em 1978 que causava preocupação a seus especialistas a crescente superioridade soviética na Europa. Com base neste relatório, em dezembro de 1979, em Bruxelas, seus países membros resolveram adotar uma política de equilíbrio preventivo. A Rússia estava instalando foguetes de médio alcance com ogivas nucleares — os SS-20 — expondo todas as capitais europeias à destruição. E ela continua a fazê-lo. Hoje há por volta de 250 novos SS-20. Segundo o Departamento de Estado norte-americano, os russos instalam um novo SS-20 a cada cinco dias.
Nisto consistiu a resposta da NATO: a partir de 1983 instalar-se-iam na Alemanha, Inglaterra, Itália, Holanda e Bélgica 464 mísseis Cruise e 108 foguetes Pershing II, dotando assim a Aliança Atlântica de instrumento retaliatório.
Imediatamente, a Rússia iniciou violenta campanha propagandística contra o reforço defensivo, na esperança de obstar o plano já nas primeiras etapas de sua implantação. Pouco depois da decisão da NATO, o vacilante Jimmy Carter foi fragorosamente derrotado pelo atual Presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, cuja plataforma eleitoral incluía enérgico programa de rearmamento. Esvaneceu-se a esperança de que a reeleição de Carter traria as costumeiras hesitações, recuos e adiamentos, sinais distintivos do antigo mandatário norte-americano. Da nova administração, em Washington — era o sentir comum dos europeus — partiria orientação inequívoca: os russos não poderiam conservar a superioridade e esta meta seria levada adiante, custasse o que custasse.
Em vista de tal clima, as tensões cresceram, principalmente na Alemanha, primeiro campo de batalha numa eventual invasão soviética. O povo alemão julgou perceber pairar sobre o país as nuvens plúmbeas da guerra. Habituado a longa tradição militar, com seu território devastado duas vezes neste século, o mero anúncio do aumento dos orçamentos militares desencadeou no espírito de muitos estas últimas perspectivas. Além do mais, a instalação de grande parte dos Cruises e Pershing II em seu território, torná-lo-ia o mais potente adversário dos soviéticos. E, portanto, seu alvo mais visado. O movimento pacifista aproveitou-se então dessas circunstâncias.
"Antes vermelho do que morto"
Este lema covarde, tão em moda nos anos 50, voltou à ordem do dia. Poderosas organizações movimentam-se no intuito de convencer a opinião pública da outrora decidida e aguerrida Alemanha que é preciso ceder e propugnar a paz desarmada, silenciando velhacamente a corrida armamentista soviética.
O partido principal da coligação governante, o SPD, sofreu acentuada erosão interna em sua posição de que é necessária a aliança norte-americana e meios eficazes de defesa para a manutenção de uma paz honrosa.
Um olhar retrospectivo na história dessa agremiação política ajudará a compreender sua metamorfose e o deslizamento rumo ao neutralismo. O SPD, já no século passado, era marxista, partidário exaltado da luta de classes e propugnador do mais crasso igualitarismo social. Após a revolução bolchevista, dele se destacou nutrida corrente para fundar o Partido Comunista Alemão. Nele continuaram fortes correntes marxistas que consideravam com simpatia o comunismo russo, embora manifestassem reservas quanto à metodologia empregada para a consecução dos fins que reconheciam idênticos. Com o "milagre" econômico alemão do pós-guerra, ocorrendo simultaneamente aos regimes de tirania e miséria existentes atrás da cortina de ferro, tornou-se insustentável a posição do SPD de defender as mesmas metas dos soviéticos, admitir o mesmo fundamento doutrinário e discrepar apenas nos métodos. Caso desejasse vir a ser partido de densa expressão eleitoral e aspirasse ao governo a curto prazo, deveria mudar. E o fez. Em 1959, no Congresso de Godesberg, ocidentalizou-se, vestiu fatiota nova, abandonou a atitude proletária que denunciava ressaibos de comunismo. E, com sua nova imagem, disputou com êxito as eleições e galgou o poder. De início, em 1966 com a CDU-CSU e, em 1969, já como partido principal da coligação, em aliança com o FDP (Partido Liberal). Entretanto, no correr destes últimos anos, o refluxo marxista interno cessou, inverteu-se o curso e cresceu a importância da esquerda extremada dentro do SPD.
Frinchas no dispositivo de sustentação do governo
Na polêmica sobre a instalação das armas norte-americanas, aquela ala do partido fez ouvir sua voz — e de modo estridente. Houve protestos em sua nutrida bancada no Bundestag, onde 58 membros assinaram moção apoiando as manifestações de 10 de outubro em Bonn. Helmut Schmidt considerou tal documento "declaração de guerra" contra sua política. A Juventude Socialista (250.000 membros), em seu congresso realizado em julho do ano passado, votou contra a instalação dos Cruise e Pershing II em território teuto. O antigo ministro Erhard Eppler, membro da diretoria do partido, juntou-se aos pacifistas. Heinrich Albertz, ex-prefeito de Berlim, fez o mesmo. E, de muito maior significação, o atual presidente do SPD e da Internacional Socialista, ex-chanceler federal Willy Brandt, certamente sentindo ventos quiçá majoritários entre os delegados do partido, ofereceu-se como corifeu da corrente pacifista ao expressar seu desacordo com a atual política do chanceler Helmut Schmidt, favorável à colocação dos foguetes norte-americanos na Alemanha Ocidental. Willy Brandt ao tomar tal posição certamente pensou no congresso partidário de abril de 1982, quando a questão será submetida aos delegados da organização.
Se for derrotada a posição do governo Schmidt, tornar-se-á forçoso seu pedido de demissão. Neste caso, é bem provável a volta de Willy Brandt à chefia do governo, no bojo de uma política de forte coloração neutralista, com a subsequente derrota do plano da NATO. Pois, fracassado na Alemanha, é muito difícil que sobreviva na Bélgica, Holanda, Itália e — quem sabe? — até mesmo na Inglaterra. O criador da Ostpolitik daria nessa hipótese, sequência lógica à sua política e inauguraria tratativas com os russos em notória situação de inferioridade, agravada pela presumível má vontade norte-americana, provocada pela eventual rejeição de sua intenção de instalar os foguetes em território alemão.
Também o parceiro do SPD no governo, o Partido Liberal (FDP), sofre os efeitos do movimento pacifista. Embora mais conservador que o SPD e considerado o freio na coligação, em seu mais recente congresso, um terço dos delegados desaprovou a posição oficial de Bonn. E a juventude do partido igualmente manifestou sua desaprovação.
Apoio extraparlamentar ao movimento pacifista
A batalha pela opinião pública, levada a cabo sobretudo pela exploração intensa do medo, fora de sua frente parlamentar, é conduzida por líderes religiosos, dirigentes sindicais, figuras do movimento ecológico e políticos do Partido Comunista. "Der Spiegel" (15-6-81), o importante semanário germânico, assim descreve essa conjugação de esforços: "Trata-se de uma aliança colorida. Temos nela os ativistas comunistas que condenam os foguetes norte-americanos, mas justificam os da União Soviética. Figuram também os maoístas que condenam ambos. Participam dela os sacerdotes que se baseiam em Gandhi e Martin Luther King, e igualmente os atiradores de pedras na polícia".
O chanceler Schmidt, pressionado pela argumentação de ordem religiosa, retrucou apressadamente que recusava acreditar "ser o Sermão da Montanha um programa de ação para políticos". E concluiu: "Se não nos armarmos terminamos como o Afeganistão". Líderes pacifistas responderam afirmando ser preferível, neste caso, a posição da Polônia. Para não sofrer a agressão russa, aceita-se o comunismo e depois se faz a oposição de dentro.
As reservas do público
O que estorva o movimento pacifista? Fundadas reservas na mentalidade popular, de difícil remoção. Esta é a razão principal. Os russos participam da campanha como também o PC alemão. Um partido pacifista fundado em 1960, a União Alemã da Paz, fundiu-se em 1969 com o Partido Comunista. Possuíam, como se vê, análogo programa. Os suspeitos ecologistas igualmente se declararam contra os foguetes norte-americanos.
"Dize-me com quem andas e dir-te-ei quem és". O interesse por demais evidente dos soviéticos na vitória do movimento pacifista induz à cautela mesmo aqueles, por temperamento, tendentes ao otimismo.
Se, apesar das restrições generalizadas existentes em correntes de opinião bem orientadas, tal tendência triunfar no Congresso do SPD que se realizará em abril próximo, resta ainda tênue possibilidade: o Partido Liberal mudar de parceiro. Traria então a CDU-CSU ao poder. Sabe-se, em abono dessa hipótese, que há descontentamento nas fileiras liberais, temerosas com a esquerdização acentuada do SPD. Neste caso, a posição suicida dos partidários da "defesa sem armas" será derrotada.
O legítimo e explicável amor pela paz não pode transformar-se em pretexto para a demobilização e virtual rendição, raciocinam com acerto os alemães de boa orientação. "Si vis pacem, para bellum" (Se queres a paz, prepara-te para a guerra). O ditado latino é especialmente verdadeiro para quem vive ao lado de vizinho agressivo e bem armado.
Consequências no plano mundial
A recente ascensão do socialismo aos governos da França e Grécia e o possível distanciamento da Alemanha da aliança ocidental mudarão, em profundidade, o quadro mundial. Os Estados Unidos poderão tornar-se indesejáveis no continente europeu. Nunca foi tão forte a pressão antinorte-americana. Resta esperar para ver o eco que tal propaganda encontrará junto às camadas decisivas do Velho Continente.
Na Alemanha, o congresso de abril do SPD será teste sintomático. Caso os delegados do partido sintam suficiente apoio popular, são poucas as possibilidades de que não entrem com rapidez na via neutralista.
Lançados de bem protegidas bases instaladas além dos Urais, os mísseis soviéticos podem atingir toda a Europa. Os norte-americanos, com bases na Alemanha sacudida por agitações pacifistas, mal atingem a parte ocidental da Rússia.
Mísseis Cruise a serem eventualmente instalados na Alemanha - Alcance: 2.400 km
Mísseis SS-20 instalados à leste dos Urais - Alcance: 5000 km
Os arcos indicam os raios de alcance dos mísseis.
Manifestação pacifista em Bonn (10 de outubro de 1981): preparando a hegemonia comunista na Europa.
Teste do míssil Pershing II, destinado à defesa da Europa.
Maconha: inócua para a vida psíquica?
Murillo Galliez
Em artigo anterior, "Uso crescente de tóxicos: falsa solução para a fome de Deus" ("Catolicismo" n.° 372, dezembro de 1981), tivemos oportunidade de tecer algumas considerações sobre o aumento do consumo de tóxicos no Brasil, especialmente nos meios escolares. Em particular, abordamos os efeitos nocivos da maconha sobre o funcionamento normal de alguns órgãos e sistemas do corpo humano. Por falta de espaço deixamos para outra ocasião a explanação das consequências do uso daquela droga na esfera psíquica. É o que faremos no presente artigo baseando-nos, como no anterior, no opúsculo do Prof. José Elias Murad, "Maconha — Conceitos atuais sobre suas ações orgânicas, psíquicas e tóxicas", e também em artigos de sua autoria publicados na imprensa diária de Belo Horizonte.
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Realmente, é ao abalar o psiquismo normal do homem que a maconha manifesta sua ação mais nociva. Farmacologicamente, ela é classificada entre os alucinógenos, ou seja, drogas capazes de produzir alucinações e delírios.
Entretanto, a nocividade da maconha para a mente humana não se restringe a esses fenômenos mais agudos e menos frequentes.
É certo que a reação intensa de pânico e a ansiedade são geralmente os efeitos mais evidentes que se encontram nos usuários habituais da droga.
Contudo, formas atenuadas de distúrbios psíquicos podem ser constatadas mais comumente. Dificuldades de memória, alterações na percepção do tempo e do espaço, desempenho prejudicado em grande variedade de tarefas, diminuição da capacidade intelectual com perda do interesse pelo trabalho e por outras atividades convencionais, inclusive pelos estudos, são algumas das consequências do consumo habitual da maconha, confirmadas experimentalmente.
Perigo para os motoristas
Devido à ação deletéria da maconha sobre a coordenação psicomotora, torna-se particularmente perigoso alguém tentar dirigir veículos sob o efeito da droga. A capacidade de perceber as distâncias fica diminuída, os reflexos são mais lentos e a percepção dos estímulos periféricos se encontra comprometida. O motorista pode ter a impressão que um carro à sua frente está a 30 metros de distância quando, na realidade, ele estaria apenas a 3 metros. A lentidão dos reflexos pode afetar ações condicionadas, como frear um carro rapidamente diante de um perigo. A diminuição da coordenação psicomotora compromete o bom manejo da direção e leva a desastres graves.
Este perigo torna-se ainda mais subtil devido ao fato de que as dificuldades de percepção e coordenação persistem além do período de intoxicação subjetiva. Ou seja, o indivíduo que usou maconha julga já estar livre de seus efeitos quando, na realidade, ainda se encontra sob sua ação. E pode tentar dirigir sem compreender que suas funções psíquicas e seus reflexos ainda não estão normais, embora ele não se sinta mais sob os efeitos da droga.
Calculam os especialistas que, atualmente, a maconha ocupa o segundo lugar entre os tóxicos responsáveis por desastres em rodovias, sendo suplantada apenas pelas bebidas alcoólicas.
A "síndrome amotivacional"
Particularmente frisante entre as sequelas do consumo da maconha na esfera psíquica, é aquela que o Prof. Murad chama de "síndrome amotivacional", termo já utilizado em trabalhos científicos sobre a matéria.
Consiste ela, geralmente, na perda da ambição, na ausência de objetivos e na falta de desejo de realizar as coisas. Ou seja, um comprometimento sério da vontade, uma das potências da alma.
Os usuários tendem a viver aquele momento, aquele instante e parecem não ligar muito para as consequências de suas ações, rejeitando os valores usuais de nossa sociedade e de nossa cultura. Deixam de cuidar da aparência pessoal, da higiene, do modo de se vestir; não se interessam mais pelos estudos.
Vemos, portanto, que a maconha age como fator poderoso na "hippificação" da sociedade capitalista ocidental, de modo a lançá-la diretamente da 4.a Revolução anárquica, sem passar pela etapa do comunismo estatal (cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, "Revolução e Contra-Revolução vinte anos depois", in "Catolicismo" n.° 313, janeiro de 1977).
Certa vez, o Prof. Murad, ao atender um viciado em maconha de cerca de 16 anos, em seu Centro de Orientação sobre Drogas ouviu o pai perguntar ao rapaz:
- "Você não quer estudar, não quer trabalhar, não quer ajudar em casa! Afinal de contas, o que é que você quer?"
Ao que o filho respondeu:
- "O que eu quero é curtir".
Esta amotivação reflete-se também no campo da libido, havendo mesmo, nos usuários habituais, uma perda de interesse pelo sexo.
Em seu Centro de Orientação sobre Drogas, o Prof. Murad constatou que, entre 90 adolescentes atendidos, de 14 a 18 anos, a maconha ocupou o primeiro lugar entre as drogas utilizadas, acarretando como principais consequências: abandono dos estudos em 49, perda ou abandono do trabalho em 29, baixo rendimento escolar em 13. Conclui ele que é muito raro encontrar um usuário crônico de maconha que esteja indo bem no trabalho ou nos estudos.
Tolerância e dependência
Os defensores da liberação da maconha costumam alegar que ela não produz tolerância nem dependência.
A tolerância consiste em uma resposta cada vez menor do organismo aos estímulos de uma determinada droga, o que obriga o usuário a ir aumentando progressivamente a dose.
A dependência física da droga existe quando, além da tolerância, estão presentes mais dois fatores:
1) A compulsão pela droga, ou seja, a necessidade de obtê-la de qualquer maneira.
2) A síndrome de abstinência, que consiste no aparecimento de reações orgânicas e psíquicas violentas, causadas pela privação ou pela retirada brusca do tóxico.
Estudos recentes mostram não ter base farmacológica a alegação de que a maconha não produz tolerância. Na Inglaterra foi constatado que adolescentes viciados foram aumentando progressivamente a dose para obter os mesmos efeitos. Na Grécia, fumantes de haxixe, que equivale à nossa maconha, com mais de 20 anos de uso, empregam uma quantidade dez vezes maior do que aquela que seria suficiente para provocar colapso em usuário novato.
É, portanto, sumamente discutível a afirmação de que a maconha, por não apresentar tolerância, pode ser consumida na mesma quantidade durante muitos anos, sem necessidade de aumentá-la. Na realidade, o uso frequente e diário da maconha desenvolve tolerância, principalmente em relação aos efeitos psíquicos que ela provoca. Para obter as mesmas sensações agradáveis, o fumante habitual tende a aumentar progressivamente a dose, ou então a utilizar-se de outras drogas psicotrópicas ou alucinógenas mais potentes.
Também no que diz respeito à dependência, é principalmente no psiquismo que ela se manifesta. Embora a supressão brusca do uso da maconha não provoque efeitos físicos apreciáveis sobre o organismo, o desejo de voltar a consumir a droga permanece muito forte, o que caracteriza uma dependência psíquica. Isto sempre ocorre quando uma pessoa utiliza produtos que lhe trazem "sensações" agradáveis. A lembrança desses efeitos, quando seu organismo já está livre das ações da droga, provoca o desejo de consumir o tóxico novamente. Com a vontade já debilitada pelo uso prévio, dificilmente resistirá a novas tentações para voltar ao vício. E essa dependência psíquica é a mais difícil de tratar ou de eliminar.
É errôneo, portanto, classificar como perigosas somente as drogas que produzem dependência física ou orgânica. A cocaína, por exemplo, não produz síndrome de abstinência, sendo porém bem conhecidos os malefícios que seu uso provoca.
Menos perigosa que o álcool?
Outra alegação dos partidários da liberação da maconha é a de que ela seria menos perniciosa que o álcool ou o tabaco.
É fato que o álcool, à luz dos conhecimentos atuais, usado em quantidades abusivas, é mais nocivo que a maconha. Seus efeitos agudos sobre o sistema nervoso central podem levar até à morte por depressão do centro respiratório. Além disso, produz dependência física.
Entretanto, se seus efeitos são mais rápidos e espetaculares que os dá maconha, o álcool, por ser hidrossolúvel, é eliminado do organismo muito mais rapidamente. O THC (tetrahidrocanabinol), princípio ativo da maconha, solúvel somente nas gorduras; tende a acumular-se nos tecidos em que elas são abundantes, como o cérebro, prolongando assim seus efeitos nocivos. A médio e longo prazo, o uso constante de pequena quantidade de maconha acaba produzindo o mesmo efeito que o consumo abundante e intermitente de bebidas alcoólicas.
Também deve ser levado em consideração o fato de que a permissão para o consumo de bebidas alcoólicas em todos os países civilizados não é fruto de uma legislação liberal quanto aos tóxicos. Ela é, isto sim, a consequência de uma tradição milenar de cultura e requinte, de que são exemplos frisantes tantos vinhos e licores de fabricação esmerada, complemento adequado às refeições mais elaboradas e adorno indispensável ao brilho de toda a vida social.
O que de maneira nenhuma se poderia alegar em favor do vício vulgar, sujo e fétido que é o hábito de fumar maconha.
Mais nociva que o tabaco
Quanto à comparação com os efeitos provocados pelo uso do tabaco, pode-se considerar que:
a) A maconha provoca tolerância e o tabaco não. O fumante de cigarros geralmente fuma a mesma quantidade por longo tempo, sem necessidade de aumentar a dose.
b) Os graves malefícios provocados pelo tabaco, como o enfisema ou o câncer pulmonar, a bronquite crônica obstrutiva etc., aparecem nos tabagistas que fumam 20, 40 ou mais cigarros por dia, durante muitos anos. Se a maconha fosse liberada e seus usuários consumissem o mesmo número de cigarros, seus efeitos seriam tão ou mais graves que os provocados pelo tabaco. Pois é sabido que os fumantes de maconha consomem apenas 3 a 6 cigarros por dia.
De fato, estudos recentes demonstraram que a fumaça da maconha, em cultura de tecidos, é mais carcinogênica que a do tabaco. O que é agravado pelo hábito que têm os fumadores de maconha de manter a fumaça inalada nos pulmões durante certo tempo, o que a torna ainda mais nociva. Provavelmente os casos de câncer pulmonar ainda não são evidentes em fumantes de maconha porque o uso crônico de doses elevadas da droga em uma substancial camada da população só tem aparecido nos últimos cinco ou dez anos. Com o tabaco, isto já se verifica há dois ou três séculos. Tudo faz crer que, em futuro próximo, já poderão ser apresentados exemplos significativos e dados estatísticos mostrando o câncer pulmonar em usuários de maconha.
c) O tabaco tem pequena ação sobre o sistema nervoso central, enquanto a maconha é uma droga alucinógena.
d) O tabaco pouco ou nada afeta o comportamento do indivíduo e sua capacidade de direção e discernimento. Por outro lado, já vimos como a maconha prejudica a direção de veículos.
"Ponte" para outras drogas
Consequência especialmente nociva do uso da maconha é a de servir como "ponte" para o consumo de outras drogas.
Pesquisas feitas pelo Dr. Andrew Malcolm, do Addiction Research Foundation de Ontário, Canadá, mostram essa tendência.
O Prof. Robert Heath, psiquiatra e neurologista da Universidade de Tulane (EUA), considera a maconha uma "droga-ponte" para as outras. Embora não forneça ao cérebro as substâncias químicas fundamentais que produzem o prazer, ela estimula certos neurotransmissores capazes disso. Com o tempo esses agentes vão perdendo sua potência; para manter a mesma sensação, o sistema necessita ser estimulado mais intensamente, o que leva o indivíduo à procura de algo mais forte para obter os mesmos efeitos.
A difusão do vicio no Brasil
É difícil dizer com precisão qual a extensão do uso da maconha em nosso País. Pois faltam, nas publicações de caráter científico, dados estatísticos recentes abrangendo áreas diversas do território nacional.
Os dados disponíveis, quase sempre de fonte policial, ou são antigos ou se referem apenas a áreas limitadas, consideradas separadamente e não em seu conjunto. Embora existam informações sobre grandes cidades, como São Paulo, Rio de Janeiro ou Belo Horizonte, faltam dados mais precisos sobre o consumo da droga em todo território nacional.
Até dez ou vinte anos atrás a utilização da maconha era restrita a pessoas de baixo nível social, marginais, delinquentes etc.
Mais recentemente, talvez pela tendência à imitação do que ocorria em países mais "avançados", tornou-se moda em nosso País, em ambientes de classe mais elevada, durante ou após reuniões sociais, algumas pessoas formarem um grupo para "tirar uma fumaça". Daí o consumo da maconha estendeu-se rapidamente aos meios escolares de nível universitário e até secundário.
Ao longo da década de 70, o Prof. José Elias Murad realizou palestras e conferências em diversos locais de Minas Gerais, para estudantes de nível universitário e secundário. Como complemento dessas palestras fez então pesquisas sobre a extensão do uso de drogas nos meios escolares.
A primeira delas, publicada em 1973 (Murad, J. E. e cols., "O abuso de drogas em Minas Gerais — Levantamento estatístico", Belo Horizonte, 1973), revelou que, do total de indivíduos questionados, 16 por cento declararam já ter consumido drogas que provocam dependência. Delas, a mais utilizada foi a anfetamina, com 37 por cento de usuários, seguida pela maconha, com 29 por cento.