Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 353 | página 08

PDQNCP

Plinio Corrêa de Oliveira

Segundo muitos, a presente "abertura" é uma operação que se reduz a seu sentido material. Isto é, ao ato de abrir as portas das prisões aos presos políticos, as fronteiras do País aos exilados. E eis tudo. Postos todos estes em livre circulação, e ademais mimados e aplaudidos pelos meios de comunicação social, a abertura está completa.

Segundo esta concepção rudimentar, a abertura não constitui um benefício para o País, mas tão-só para os que, em determinado momento, atentaram contra este — ou, pelo menos, procederam de maneira que se fizessem suspeitar por tais.

Alguém com vistas menos acanhadas pode objetar, com razão, que os promotores da abertura visaram muito mais do que isso. Encarada a democracia como a participação de todo o povo no governo do país, a integral reimplantação dela importa, para cada cidadão, na efetiva abertura da parcela de poder decisório que os princípios democráticos lhe atribuem. Democratizar é abrir.

Corolário disto é que cada cidadão tenha o direito de dizer, de escrever e de fazer o que bem entenda, ressalvadas apenas duas barreiras. Uma é a lei, omnipresente, bisbilhoteira e dura. A outra são os bons costumes: barreira mole e em franco estado de ruína. Com efeito, nada é mais precário, nada hoje se vai deteriorando tão depressa como os bons costumes.

Não analiso aqui se, e em que medida, tal abertura é um bem. O problema é totalmente extemporâneo.

Pergunto-me, isto sim, se — ainda dentro desta conceituação mais larga — a abertura cabe inteira. De momento, finco só a interrogação em um aspecto absolutamente fundamenta] do problema.

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Por mais que se celebre a liberdade de dizer e de fazer, forçoso é reconhecer que ela tem como pressuposto outra liberdade: a de pensar. Se não sou livre de pensar à minha guisa, não posso ser livre de dizer ou de fazer algo de meu. No total, estarei dizendo e fazendo — ou omitindo-me de dizer e de fazer — o que outros querem. A primeira das liberdades está, para cada homem, dentro das paredes (de certa maneira augustas como as de um santuário) de sua caixa craniana. Pergunto então se a abertura não comporta também a inteira libertação da mente de cada qual, dos obstáculos ou das ingerências que a coarctam.

Mas como pode alguém intervir no domínio indevassável do próprio ego de outrem? Essa pergunta é arcaica. Nesta época de guerra psicológica, das prestidigitações e dos truques publicitários, das ingerências parapsicológicas etc., afirmam muitos que na mente de uma pessoa é tão fácil agir quanto em um cofre. Basta conhecer-lhe o segredo e abrir a porta.

Ora, parece-me que, até o momento, a abertura brasileira tem negligenciado este aspecto e, portanto, seu próprio pressuposto.

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Essas reflexões me ocorreram a propósito da viagem para a qual o governo de Moscou está a convidar o Presidente Figueiredo. Fazendo uso da abertura, declaro que essa perspectiva não poderia me desagradar mais. Posto que nosso Governo toma a sério os princípios em que se baseia a civilização cristã, a coerência impede que seu Chefe vá visitar um país cujo regime político e socioeconômico está modelado segundo cânones diametralmente opostos. Tal visita equivale, pelo menos, a uma afirmação de displicência face à transgressão escandalosa e sistemática, que nesse país se opera, de todos os preceitos do Decálogo, nos quais se fundam os direitos das pessoas, das famílias e dos povos.

Admitida esta tese, é cabível a hipótese de que razões políticas ou econômicas gravíssimas, diretamente relacionadas com a "salus publica" brasileira, exijam essa visita. — Será isto verdade? Ponho-me a refletir. E concluo que nada posso concluir. Pura e simplesmente porque me faltam dados. Por exemplo, em matéria econômica, preciso saber se a Rússia paga efetivamente o que nos compra. Como ela costuma blefar nesta matéria, quero dados, quero estatísticas, quero documentos.

Onde estão eles? Simplesmente não existem.

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Outra matéria sobre a qual igualmente não consigo pensar nem concluir: à vista de toda a agitação promovida em São Paulo pelo Clero de esquerda, pergunto-me se, para além dos problemas salariais, não há outros cuja reta solução aliviaria os efeitos da inflação, arejaria a economia e as finanças nacionais, e tiraria às comunidades eclesiais de base algumas razões e cem pretextos para a sua atuação subversiva. Desconfio seriamente que a absorção de cerca de 50% de nosso parque industrial pelo Poder Público traz um ônus terrível para a Nação. A privatização liberá-la-ia desse ônus. Procuro aprofundar o assunto: não o consigo, porque me faltam os dados.

E assim por diante.

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Do sofá em que estou ditando este artigo, parece-me ouvir algum especialista que me grita indignado: pois saiba que o ministério "X" publicou a tal respeito, na coleção "Y", um estudo técnico profundíssimo do autor "Z". Ou que tal revista especializada, ou, ainda, a secção econômica de tal outro jornal divulgou precisamente há quatro meses e 25 dias, quadros estatísticos acerca de vários desses pontos.

Minha resposta é que, como simples cidadão brasileiro, alheio embora a assuntos econômicos, devo ter ao alcance, claros e acessíveis, todos esses elementos, para que possa formar um juízo sobre os ditos assuntos. Pois se para cada tema do gênero, um cidadão brasileiro como eu deve ler monumentais e especializadíssimos trabalhos publicados em coletâneas maçudas, as quais é preciso procurar nas repartições públicas, será obrigado a passar sua vida pesquisando e estudando. O que traz como corolário sua morte por inanição. Como o cidadão pode não querer morrer, tem que desistir de informar-se. E impedido de informar-se, está impedido de pensar.

Assim, minha proposta é que os poderes públicos, os partidos políticos, as universidades e os meios de comunicação social estudem meios para me manter — e aos milhões de meus congêneres — fácil e seguramente informados de tudo isso.

Sem isto, não conseguimos pensar. Do que nos adiantam então as liberdades de falar, escrever e agir?

Ocorre-me uma ideia. É de, para impor esta larga divulgação, fundar um partido político. O nome dele nasce do tema: "Partido Dos Que Não Conseguem Pensar". — PDQNCP. Quem quiser inscrever-se nele, que comece por organizá-lo. Poderá até ser presidente dele. Será o mais necessário e urgente de todos os partidos.

O regime democrático, que supõe eleições livres para poder funcionar satisfatoriamente, exige um grau suficiente de informação e discernimento dos eleitores


Reflexões sobre animais de estimação

Péricles Capanema

Mudam-se os tempos, mudam-se os hábitos. Muitos esperavam que a modernização traria racionalidade e morigeração nos costumes. Em um deles pelo menos, o disparate é a novidade. Aliás, não apenas em um. A transformação de hábitos trouxe tanta maluquice que quase se torna raro o costume razoável.

Desta vez, trato do simpático costume dos animais de estimação. Do proporcionado afeto manifestado a animais que recordassem algum alto predicado humano, seja natural, seja moral. Havia o cão, símbolo da fidelidade desinteressada e levado ao extremo da dedicação ao dono. O gato atraía pela elegância ágil dos movimentos, a esperteza descontraída, o ronronar ofegante. O canário, pela plumagem dourada e trinado harmonioso. Alguns gostavam do falcão, estável no poleiro, cônscio de sua gravidade guerreira. Beija-flores, coelhos, toda espécie de aves canoras ou ornamentais, acompanhavam o homem, tornavam-lhe a vida mais amena, repousavam-no pelo encanto ou admiração.

Deixo o leitor recordar um pouco os animais de estimação que conheceu e se entregar à saudade das épocas em que os teve ou os apreciou nas casas de amigos. Quantas vezes quisemos tê-los, principalmente na infância, e não nos foi possível consegui-los?

Continuo no assunto, mas agora — prepare-se o leitor para uma surpresa — trato da novidade em animais de estimação na Alemanha. Em Kassel um amante de serpentes foi picado pela sua "companheira", uma cascavel americana — assim diz o "Hamburger Abendblatt" de 13/2/80 — , quando tentara alimentá-la. Para salvá-lo aplicou-se soro especial trazido do jardim zoológico de Frankfurt. Por causa do acidente, a direção do zoológico advertiu insistentemente os proprietários de animais de estimação venenosos para terem muito cuidado no trato dos bichos. Um inquérito revelou que a venda de serpentes está em franca ascensão, e os preços são altíssimos.

Como não é possível proibir legalmente a posse de ofídios, o Dr. Richard Foust, diretor do zoológico citado, aconselha a todos os donos a terem em casa o soro apropriado. Em alguns casos, é preciso fazê-lo com o veneno do próprio "animalzinho de estimação", pois são raros os zoológicos que habitualmente o possuem. Por exemplo, quando se trata da mamba verde, das mais venenosas víboras do mundo, adquirida sob encomenda e por preço exorbitante.

Estamos em face de uma mudança de concepção da existência. Outrora se entendia a distensão como a observação tranquila de animais que refletiam estados de espírito nobres, afetos e encantos do coração reto. Hoje, almas atormentadas e dilaceradas perderam a capacidade de maravilhar-se no remanso do trato com os antigos animais de estimação e os substituem por bichos que lembram o horror, a sujeira, a perfídia, a morte. Não se comenta que os ratos são apreciados para esta função nos Estados Unidos?

Mudam-se os tempos, mudam-se os hábitos. Mas quem poderia assegurar que desta vez foi para melhor'? (Agência Boa Imprensa — ABIM).


TFP ELEGE NOVA DIRETORIA

Realizou-se no dia 25 de abril p.p. a 26.a Assembleia Geral Extraordinária da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, na qual foram eleitos os membros da Diretoria Administrativa e Financeira Nacional e da mesa do Conselho Nacional, que deverão exercer seu múnus no biênio 1980-1982.

A mesa do Conselho Nacional ficou assim constituída: Presidente o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, Vice-Presidente o Prof. Fernando Furquim de Almeida, Secretário o Prof. Paulo Corrêa de Brito Filho. O Conselho Nacional é formado por 14 membros natos, que são os sócios que assinaram a ata de fundação da entidade.

A DAFN ficou composta da seguinte maneira: Superintendente o Sr. Plinio Vidigal Xavier da Silveira, Vice Superintendentes os Srs. José Carlos Castilho de Andrade, Eduardo de Barros Brotero e Caio Vidigal Xavier da Silveira, e Vogais os Srs. Luiz Nazareno Teixeira de Assumpção Filho e Marcos Ribeiro Dantas.

A mesma Assembleia Geral aprovou uma reforma dos estatutos sociais, destinada a atualizá-los. Cabe destacar que um dos novos dispositivos estatutários faz o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira vitaliciamente Presidente do Conselho Nacional, em expressiva homenagem — como acentuou a Assembleia — ao "fundador da TFP, coração e alma de toda a vida cívica e cultural da Sociedade".