Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 34 | página 04-05

OS CATÓLICOS FRANCESES NO SÉCULO XIX

VEUILLOT ENCONTRA UM NOVO ADVERSÁRIO

Fernando Furquim de Almeida

Desde os tempos da luta contra a Universidade, os católicos liberais procuravam se articular. O artífice dessa articulação era Mons. Dupanloup. Já vimos a pertinácia com que ele se aplicava à consecução de seu objetivo, publicando livros e mandamentos, solapando o Partido Católico, movendo campanhas violentas contra o "Univers" — na realidade o principal empecilho à realização de seus desejos — e procurando a todo custo conquistar Montalembert para a sua causa.

Seus esforços, no entanto, não eram bem sucedidos. Veuillot conseguira para o seu jornal uma posição excelente. Transformara-o, de folha obscura, num grande órgão lido e respeitado por toda a França, apoiado entusiasticamente pela maioria dos católicos e odiado pelos inimigos da Igreja. Por outro lado, Montalembert, embora trabalhando sem esmorecimento pelo Bispo de Orléans, não se resignava a renunciar definitivamente a um passado glorioso para combater exatamente o ultramontanismo, que até então defendera. E uma das maiores dificuldades com que se defrontava Mons. Dupanloup era a falta de um chefe leigo para o movimento que desejava organizar.

O golpe de Estado de Napoleão III, estabelecendo o Segundo Império, veio facilitar a formação do Partido Católico liberal. Montalembert, que nos primeiros momentos fora favorável ao novo Imperador, passou logo depois a combatê-lo, aliado a todos os políticos liberais. O prestígio social de seus novos amigos, a tendência natural que tinha para as doutrinas liberais, e sobretudo a ação persuasiva de Mons. Dupanloup, acabaram vencendo as últimas resistências do antigo líder ultramontano. O livro que publicou sob o título "Des intérêts catholiques au dix-neuvième siècle" marca sua ruptura completa com seu próprio passado e o coloca definitivamente entre os católicos liberais.

Homem de ação, Montalembert viu logo a necessidade de ter um jornal que servisse de traço de união entre seus novos liderados, e que se opusesse ao "Univers". As várias tentativas nesse sentido, como a "Ère nouvelle" de Frederico Ozanam ou o "Moniteur catholique" do Arcebispo de Paris, tinham fracassado. Não era fácil fazer um jornal destinado a combater Veuillot. Convindo porém aos políticos liberais ajudar Montalembert nesse empreendimento, para hostilizar Napoleão III, conseguiu ele o apoio e a colaboração de grandes nomes, para editar uma revista.

Em lugar de montar uma nova, Montalembert decidiu reerguer "Le Correspondant", que desde muito tempo vegetava por falta de leitores. "Le Correspondant" tinha sido fundado em 1829 pelo Visconde de Carné, o Padre de Cazalès e Augustin de Meaux. Usava como dístico as palavras de Canning: "Liberdade civil e religiosa para todo o universo", o que mostra claramente sua orientação. Logo superada pelo "Avenir", e também atingida pela condenação de Lamennais, essa revista nunca fora bem sucedida, e era com grandes sacrifícios que seu diretor, Lenormand, conseguia evitar que desaparecesse. Não obstante, Lenormand, que renunciara a uma cátedra na Universidade durante a campanha pela liberdade de ensino, só com muita relutância aceitou os planos de Montalembert.

Para dirigir a revista, foi criado um comitê de redação presidido por Montalembert, e cujos membros eram: o Príncipe Alberto de Broglie, orleanista e galicano; o Conde de Falloux, chefe legitimista e católico bastante liberal; Theophile Foisset, magistrado ultramontano, que com grandes dificuldades e sem muita convicção seguia a Montalembert; Lenormand e Augustin Cochin.

No castelo de La Roche-en-Brény, propriedade de Montalembert, reuniu-se o comitê de redação, com a presença de Mons. Dupanloup, para discutir o artigo de apresentação da nova fase da revista, artigo esse que seria também o manifesto-programa dos católicos liberais. A tarefa de redigi-lo coube ao Príncipe de Broglie.

Depois de uma ampla introdução sobre os métodos de apostolado, onde indiretamente Veuillot era acusado de todos os erros táticos possíveis e imagináveis, vinha a exposição dos princípios pelos quais combateriam. Antes de mais nada, não admitiam antagonismo entre a razão e a fé. Logo, como a sociedade moderna nascera da razão humana, não eram seus adversários. Propugnavam entretanto que a Igreja fosse, não o inimigo que combate a sociedade, mas a autoridade que a regula, pois os princípios constitutivos desta, sobretudo a igualdade civil, são plenamente compatíveis com o espírito de religião. Por fim, depois de explicar longamente que a Igreja não se identifica com nenhuma forma política, o artigo terminava com a declaração de que, se fosse absolutamente necessário obrigá-la a abandonar essa nobre indiferença, seria certamente à liberdade que se deveria dar preferência.

Essa reunião em La Roche-en-Brény marca a fundação do Partido Católico liberal. É contra ele que Veuillot vai combater até o fim de sua vida. E a Encíclica "Inter multiplices", encerrando definitivamente a época das tentativas de fechamento do "Univers" pelas autoridades eclesiásticas, deu a Veuillot a independência necessária para poder obrigar os católicos liberais a não sair das fronteiras de "Le Correspondant", evitando assim que os seus erros contaminassem todo o catolicismo na França.


Correspondência

De D. A. M., Campinas (Est. S. Paulo): "Li e apreciei a Carta Pastoral sobre Problemas do Apostolado Moderno do Exmo. Sr. Bispo dessa Diocese. Apreciei especialmente o empenho de S. Excia. de citar a cada passo documentos pontifícios para abonar suas sentenças. Gostaria porem de ver indicado onde é que na "Mediator Dei" o Santo Padre condena o altar em forma de mesa.

"Pois na página 14 da Pastoral lê-se: "Por um apego excessivo ao rito e à forma antigos, só porque antigos, certos liturgicistas pretendem restaurar o altar em forma de mesa (o grifo é meu) e outras praticas da Igreja primitiva". O Sr. Bispo, na frase anterior, diz que esta exemplificação de arcaismo na liturgia foi dada pelo Santo Padre na Enciclica "Mediator Dei", mas não cita o lugar, aliás contra seu costume nesta Pastoral.

"Poderia CATOLICISMO satisfazer esta minha curiosidade?"

NA apresentação do altar em forma de mesa como exemplo de arcaísmo reprovável foi feita pelo Santo Padre Pio XII, na Encíclica "Mediator Dei", com estas palavras: "non sapiens tamen, non laudabile est omnia ad antiquitatem quovis modo reducere. Itaque, ut exemplis utamur, is ex recto aberret itinere, qui priscam altari velit mensae formam restituere" (A. A. S. an. et vol. XXXIX, p. 545, ad finem).

Como é sabido, há da Enciclica "Mediator Dei" varias traduções em português, nas quais é também fácil encontrar o passo em que o Papa condena o altar em forma de mesa.

Assim, na edição oficial do Arcebispado de S. Paulo (Edit. Ave Maria Ltda., S. Paulo, 1948), enviada a todas as Paróquias com Mandamento de Sua Eminência o Cardeal D. Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, DD. Arcebispo da Metrópole paulopolitana, lemos à pag. 28: "mas não é certamente coisa tão sábia e louvável reduzir tudo e de qualquer modo ao antigo. Assim, para dar um exemplo, está fora do caminho quem quer restituir ao altar a antiga forma de mesa".

A mesma tradução deste tópico, "ipsis verbis", é reproduzida pela edição comemorativa da Terceira Semana Nacional de Ação Católica e do Quinto Congresso Eucarístico Nacional de Porto Alegre, em 1948 (pag. 21), e na Revista do Assistente Eclesiástico (veja-se a Separata do no 6, ano I, março de 1948, p. 26).

A versão do Arcebispado de S. Paulo é feita sobre o texto italiano, como está dito em sua capa: "Apresentamos a presente Encíclica em tradução oficial feita diretamente do texto italiano publicado no "Osservatore Romano" de 1-2 de dezembro de 1947".

Mas não é diferente a proposição em versões feitas sobre o original latino. O Revmo. Sr. D. Gabriel Beltrão, O.S.B., bem conhecido em Campos, pois durante muito tempo pertenceu à Comunidade Beneditina do Mosteiro de Mussurepe, fez uma tradução diretamente do latim. Entre esta e a que foi feita através do italiano, praticamente não há diferença no trecho que nos interessa. Apenas, onde as edições de inicio citadas trazem somente "caminho", o Revmo. Snr. D. Gabriel fala em "caminho direito", atendendo também ao vocábulo "recto" que se encontra no latim. É, porém, uma nuance sem a menor consequência. Eis a versão de D. Gabriel: "Mas, não é prudente nem digno de louvor tudo reduzir, de qualquer jeito, à antiguidade. Assim, para exemplificar, afastar-se-ia do caminho direito quem quisesse restituir a primitiva forma de mesa para o altar" (Mediator Dei — Encíclica do Santo Padre Pio XII — versão portuguesa sobre o original latino por D. Gabrie1 Beltrão, O. S. B. — Tipografia Beneditina, Baía, 1948 — pag. 50).

Pode, pois, ficar tranquilo nosso amável consulente. De fato, quando o Santo Padre reprova a imoderada volta à antiguidade, exemplifica com a restituição do altar à forma de mesa.


MEDITAÇÕES SOBRE A EUROPA

MARCEL DE CORTE

Marcel de Corte, o grande pensador e escritor católico da Bélgica contemporânea, publicou na revista "Fédération", de Paris, uma serie de excelentes "Meditações sobre a Europa", da qual destacamos as presentes considerações sobre a unidade européia. Exprimem elas com profundeza e nitidez impressionante o verdadeiro pensamento católico em face da questão terrivelmente complexa da federação dos países europeus.

A EUROPA E A POLÍTICA

O mito da Europa está atualmente ligado ao mito político da "democracia" e de seus diversos sucedâneos.

Em primeiro lugar entendamo-nos. Estamos em uma época em que é preciso desconfiar constantemente das palavras e de seu uso. A correspondência entre a realidade e sua expressão foi rompida em todos os domínios, especialmente em política. Os termos que traduzem os fatos adquiriram uma autonomia quase absoluta com relação aos próprios fatos.

Quando um homem sem preconceito fala de democracia, entende um regime onde o povo real participa realmente dos assuntos do governo. É claro que este sistema político não existe em nenhum lugar, salvo talvez no estágio comunal e nos cantões suíços de fraca densidade. O que existe, e é coisa bem diversa, é a intervenção das opiniões dos cidadãos nos negócios do Estado.

Eu tenho tal idéia sobre a coisa pública, tal representação abstrata ou imaginária da sociedade, e esta idéia ou representação eu a projeto por delegação, isto é, por uma abstração à segunda potência, no exercício do poder que me é deferido. De resto, toda uma série de propagandas rivais me proporcionam facilmente, sem esforço intelectual ou moral, opiniões estandardizadas e "slogans". Para que minha participação no governo seja efetiva, é preciso, com toda a evidência, que eu me identifique a tal ou tal opinião, que eu dilua nela minhas tendências, minhas afeições, meu pensamento e meus atos, que eu não seja mais o ser concreto que sou, mas a opinião que tenho. Ora, a opinião é o que há de mais superficial em mim. É mesmo o inverso do conhecimento real. Conheço meus parentes, meu amigos, meus próximos, mas não tenho a menor opinião a respeito deles. Se coincido com a minha opinião para exercer os meus direitos, manifesto-me superficialmente e os exerço superficialmente. Se não me identifico com ela, não exerço a plenitude de meus direitos. Não se pode sair desse dilema. De onde, quanto mais um regime se torna "democrático" nesse sentido, mais a realidade humana míngua, a ponto de ficar delgada como uma lâmina. É o que a dispõe, aliás, maravilhosamente a todos os amolgamentos possíveis. Um volume resiste às pressões ambientes, uma superfície cede.

Esse regime patologicamente descarnado evolui fatalmente para uma ditadura ideológica do tipo socialista que impõe seu molde uniforme a todos os cidadãos. É um estranho e falacioso preconceito que nos faz crer na multiplicidade das opiniões políticas: quanto mais os homens são nivelados, tanto mais eles se assemelham. Além do que, o homem que perde sua consistência humana e social deve, sob pena de intolerável anarquia, se transformar em um "robô" sem reação, manobrado do exterior pelas alavancas da máquina política e alimentado pelo carburante da propaganda. Dois homens diferentes como Chateaubriand e Balzac o previram: o governo das opiniões torna-se o governo da opinião única e, daí, vai diretamente para a sociedade colméia.

Que significa isto, senão que o regime "democrático" atual é um mito? Não estamos em democracia, mas em "doxocracia" (de doxo, opinião) e mesmo em "paradoxocracia". O regime democrático é possível, desejável e necessário, existiu, existe ainda fracamente, mas em espaços sociais restritos que o homem é capaz de abarcar e de conhecer concretamente. Em seu belo período, a monarquia do Ancien Régime reunia uma multidão de democracias efetivas.

Esse longo parêntesis não é inútil. Ele nos mostra que o desenraigamento da política européia e sua regressão para o mito são paralelos ao mito da própria Europa. É um só e mesmo fenômeno de desagregação dos corpos sociais elementares e de sua substituição por aquilo que se chama "as grandes correntes da opinião" que os engendram a um e outro. A uma democracia desencarnada que não tem de democrático senão o nome, corresponde uma Europa desencarnada que vive na imaginação dos homens. Não é portanto de espantar que o progresso dessa "democracia" coincida com o progresso dessa Europa. Entre a Europa de Briand e a Europa de Hitler, a diferença é enorme, mas é uma pura questão de graus, como água transformada em vapor continua a mesma quando transformada em gelo duro. Briand e Hitler eram ambos doxocratas. Para construir um tal regime político, é suficiente reduzir o cidadão, de bom grado ou a força, a uma opinião. Para fazer uma tal Europa, é suficiente levar a redução um pouco mais longe, esvaziar mais ainda a substancia do homem e estendê-la além de todas as fronteiras.

De duas maneiras, aliás conexas, procura-se fazer isso: por intermédio de internacionais políticas de toda a espécie, mas sobretudo acentuando as exigências econômicas e as necessidades materiais dos europeus. A Inglaterra e a América, terras de eleição do comércio e da técnica, compreendem bastante essa linguagem. Ademais, esse sistema permite lastrear com um grande peso, capaz de impressionar imediatamente as imaginações mais levianas, o caráter volátil e aéreo da Europa mítica. A Europa era outrora uma vida demasiado ardente, inconsciente e muito próxima de suas fontes para se contemplar a si mesma como em um espelho. Ela era, segundo o dizer de Belloc, uma Fé. Ela é atualmente um organismo ou mais exatamente um mecanismo planificado de antemão, estudado como um motor, lançado como uma casa de comércio ou como uma indústria, tão distinta de seus habitantes quanto o é uma casa pré-fabricada. Enfim, a doxocracia evoluindo por toda a parte para um socialismo franco ou edulcorado, transformando o governo dos homens em governo das coisas e os próprios homens em coisas, é bastante natural, se se pode dizer, que o denominador comum dos europeus seja tomado no nível mais baixo: o da produção e do estômago. A Europa não é mais uma alma, é uma matéria plástica e maleável que a Política e a Economia modelam, cada uma por sua vez.

A importância dos problemas econômicos nas deliberações atuais dos homens de Estado europeus não é devida somente à sua urgência e à sua complexidade, mas deriva principalmente da posição política adotada. A política contemporânea não está atenta senão às questões materiais por uma razão extremamente simples: absorvida no mito, desencarnada, ela abandona a vida dos homens à lei da gravidade. Quando a opinião se torna superficial e tende para a desencarnação absoluta, quando o espírito humano se evade nas teorias e nos sistemas, é inelutável que a vida se desespiritualize, se automatize, se transforme em tropismos. É a eterna aventura descrita por Pascal: "qui fait l'ange, fait la bête". A ascensão no sonho político é acompanhada por um simultâneo atolar-se nas

(continua)


NOVA ET VETERA

SOCIALISMO E LIBERDADE

J. de Azeredo Santos

A FIM de alcançar o escopo traçado por Deus para o aperfeiçoamento da vida familiar, deve o homem gozar, na ordem econômica, da liberdade de adquirir e de conservar a propriedade, da liberdade de escolher sua ocupação, da liberdade de dispor de sua renda e de satisfazer suas necessidades materiais de acordo com as suas peculiaridades pessoais e com a posição que ocupa no corpo social.

Por uma curiosa contradição, justamente aqueles que dão maior peso ao fator econômico ou ao bem estar material da sociedade é que procuram negar ou minimalizar sua repercussão nos demais aspectos da vida do homem. Com efeito, não negam que o socialismo ou a planificação da vida econômica exija o sacrifício da iniciativa privada, mas acham que a extinção desta no campo econômico não afetaria as demais liberdades fundamentais. Socialismo e livre iniciativa poderiam coexistir. Esses espíritos conciliadores e acomodatícios procuram impor barreiras tanto ao socialismo quanto à liberdade, pois aquele ficaria circunscrito ao campo econômico e esta seria escorraçada "apenas" da ordem econômica.

UM NOVO PROTEU

Mesmo porque, segundo eles, o socialismo seria compatível com qualquer regime político e social: "Uma sociedade pode ser plena e verdadeiramente socialista e ainda assim ser conduzida por um governo absoluto ou ser organizada na mais democrática das maneiras possíveis; pode ser aristocrática ou proletária; pode ser uma teocracia hierárquica ou atéia ou indiferente quanto à religião; pode ser muito mais estritamente disciplinada do que os homens em um exército moderno, ou completamente sem disciplina; enérgica ou apática; ...belicosa e nacionalista ou pacífica e internacionalista; igualitária ou o oposto; pode ter a ética dos senhores ou a ética dos escravos..." (Schumpeter, "Capitalism, Socialism and Democracy", pag. 170).

Particularizando este estranho ponto de vista, temos a seguinte afirmação: "O socialismo, — dominante na Inglaterra, e representado pelas idéias de Harold Laski e por um grande movimento partidário em toda a Europa continental — é o partido das nacionalizações econômicas e da democracia trabalhista dirigida pelo Estado. Cada vez mais se acentua nele o predomínio das preocupações econômico-políticas, com a plena liberdade de filosofia e religião. É talvez o mais importante dos partidos políticos do após-guerra, na Europa. E o de mais futuro, pois está tendo cada vez mais a inteligência de não confundir as liberdades morais e cívicas essenciais, com a desastrosa liberdade econômica do capitalismo" (Alceu de Amoroso Lima em "O Problema do Trabalho", pag. 136).

Não sabemos como se pode afirmar a compatibilidade do socialismo com um regime que respeite o verdadeiro conceito de liberdade. Atenta essa heresia social contra todas as liberdade legítimas, o que é particularmente evidente no setor econômico. Eis porque, ao condenar esse sistema político-econômico, o Santo Padre Pio XI diz expressamente que ele não pode existir nem ser concebido sem grande violência. A questão que se põe não é a de saber se outras liberdades são deixadas intactas, mas sim se é justo atentar contra a liberdade no campo econômico. A questão do socialismo e da liberdade não é também a do modo como esse atentado é cometido: se pela ação direta, como na Rússia Soviética, se por processos parlamentares e administrativos, como na Inglaterra sob o predomínio político do Partido Trabalhista. Estamos diante de um falso conceito de democracia, aquele que, pelo sufrágio universal, confere atribuições ilimitadas e infalíveis aos corpos legislativos e ao poder executivo. Um atentado ao direito natural não se torna justo pelo simples fato de estar apoiado em lei positiva. Não é somente com golpes de mão que se cometem violências. O falso dogma da "soberania do povo" exercida através dos sufrágios é que fornece à revolução essa arma farisaica por meio da qual se procura instaurar no mundo "o reino legal da fraude e da violência" a que se referia o Bem-aventurado Pio X.

A LÓGICA INTERNA DO SISTEMA

Ademais, é falso que o chamado "socialismo democrático" se circunscreva apenas ao campo econômico. É absurdo tão grande quanto o de dizer-se que uma lei de âmbito econômico atinge apenas o indivíduo, mas não a pessoa. Ou imaginar como justo um regime existente em um campo de concentração em que haja liberdade de filosofia e religião. Ou afirmar que os romanos escravizavam os povos conquistados tendo em vista "apenas" o aspecto econômico decorrente do trabalho servil, deixando aos escravos plena liberdade de religião e filosofia.

O socialismo, em que pesem esses devaneios, é, por sua lógica interna, sinônimo de trabalho forçado. O próprio Sir Stafford Cripps declarou na Câmara dos Comuns, a 28 de fevereiro de 1946, que nenhum país no mundo conseguiu ainda levar a cabo uma economia planificada sem trabalho forçado. A 12 de setembro de 1947 o sr. Attlee confirmava esta verdade em tom de ameaça: "Não nos propomos introduzir a conscrição industrial, a menos que fique provado que não há outro remédio".

Em sua aplicação prática é o socialismo uma arma de opressão social. Alguns exemplos entre mil da mesma Inglaterra trabalhista, e sem sair do campo diretamente ligado à economia. Discutia-se na Câmara dos Comuns, a 23 de junho de 1947, se os funcionários de companhias de energia elétrica que se haviam oposto à nacionalização seriam elegíveis para cargos na industria nacionalizada. O sr. Shinwell, naquela ocasião, afirmou: "Digo muito francamente que... se eu tivesse que organizar comitês de eletricidade, seria muito impróprio indicar para tais comitês uma pessoa que haja definidamente se oposto à nacionalização da indústria". Mais ainda. O primeiro ministro do governo trabalhista revelou em fevereiro de 1947 que dezessete ministérios tinham poderes para autorizar inspeções que envolviam a entrada em casas e dependências particulares sem um alvará de busca. Mais tarde foi reconhecido que cerca de onze mil funcionários do governo se achavam autorizados a realizar tais inspeções e investigações sem um alvará de busca.

Toda essa rede intrincada de leis e regulamentos e portarias e tabelamentos, toda essa espionagem da vida do povo e essa hostilidade contra os que se opõem ao regime (que estranha forma de democracia!), tudo isso decorre desse atentado contra um direito natural que é o direito de propriedade, mediante a distinção especiosa entre a propriedade pessoal — habitação e objetos de uso pessoal — e a propriedade dos meios de produção. Como o sistema é anti-natural, forçosamente há de requerer todos esses olhos de Argos para funcionar.

O PARAISO DA BUROCRACIA

Vejamos alguns outros aspectos da vida diária de um cidadão britânico nesse incipiente regime de socialismo e liberdades morais e cívicas: "Um jardineiro necessita de um novo varal para seu carrinho de mão, um pedaço de madeira que custa cerca de nove pence. Deve endereçar um pedido de licença ao supervisor do distrito, em uma fórmula apropriada. A licença tem que ser registrada e arquivada pelo supervisor do distrito e depois apresentada em outra via ao negociante de madeira, que também a registra e arquiva". E as minúcias a que descem as restrições são incríveis. "O Board of Trade Journal adverte aos retalhistas que é ilegal embelezar mobílias de uso corrente. As mulheres de Pangbourne, que queriam abrir um bazar para levantar fundos para o centro cívico de uma aldeia, foram informadas pelo Comitê do comercio de que um par de calças de criança feito de uma saia ou de calças de adultos seria considerado como uma peça nova e, portanto, exigiria a cobrança de coupons. O Comitê do comercio achou vagar para fixar preços máximos para o corte de cabelo. O Chuchers College em Peterfield recebeu uma fórmula do Ministério de Combustíveis e Energia informando-lhe que sua quota prévia de coque havia sido cancelada e que sua quota básica para doze meses até 30 de abril de 1948 era de zero toneladas, que só fora possível conceder-lhe zero toneladas, divididas em zero toneladas por mês no verão e zero toneladas por mês no inverno, e que o nome do fornecedor também estava indicado. Caixas contendo fragmentos de um bolo de casamento enviadas a amigos residentes fora do país foram esvaziadas e despachadas vazias, porque a exportação de doces é proibida. O governo procura impor uma portaria proibindo os chefes de família de decorar suas próprias casas sem antes obter uma licença, se o custo da matéria prima acrescido do custo orçado de seu próprio trabalho exceder de dez libras esterlinas. Veementes protestos forçaram o governo a excluir o custo do trabalho mas o controle sobre a parte restante permaneceu. Os proprietários de pomares particulares são proibidos, a não ser mediante licença, de preparar frutas em conserva e de vende-las ao público. O dono de uma casa não pode substituir um lavatório quebrado sem obter licença da autoridade local e submeter a pia a exame para provar que se acha imprestável. A lista de proibições fúteis, embaraçosas e dispendiosas poderia ser aumentada quase indefinidamente. Ela representa o resultado inevitável de uma economia planificada em que os casos excepcionais não podem ser admitidos e em que os regulamentos são feitos para o homem médio que não existe" (John Jewkes em "Ordeal by Planning").

Nesta idade adulta da sociedade política, em que os Estados adquiriram maioridade e tomaram consciência de si mesmos, semelhante tutela do homem naquilo que lhe é mais elementar, que é a procura de recursos para a sua manutenção, será de molde a concorrer para desenvolver e fortificar seu espírito, ou servirá, antes, para transformá-lo em um incapaz, em mero robô a quem o supervisor do distrito fornece combustível cientificamente dosado para uma única volta pelo quarteirão?