Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 321 | página 02-03

Os direitos humanos de Carter não se aplicam a Cuba

ARNÓBIO GLAVAM

Em Washington, no antigo prédio da representação diplomática cubana, já está funcionando, adido à embaixada tchecoslovaca, o escritório da Cuba de Fidel Castro. Em Havana, no velho edifício onde funcionava até 1961 a embaixada norte-americana, estabeleceu-se um escritório similar, dos Estados Unidos, filiado à embaixada da Suíça.

O fato foi noticiado pela imprensa diária, e passou como um acontecimento entre muitos outros.

Lyle Lane, chefe da representação norte-americana em Cuba, declarou que o principal objetivo da iniciativa de seu país é "estabelecer meios diretos e regulares de contato em assuntos oficiais com Cuba". Considera ele a medida como um passo para o restabelecimento completo das relações diplomáticas. E quando se dará esse reatamento? Não teremos "necessariamente que esperar anos" afirmou o diplomata norte-americano.

"O que realizamos aqui vai além de uma ação puramente simbólica", reconheceu o subsecretário de Estado norte-americano Philip Haibib, referindo-se à decisão de seu país de estabelecer tais contatos em caráter permanente com Cuba.

Todos esses fatos parecem indicar que o regime de Washington está empenhado em favorecer o governo de Havana.

Os cubanos porém não se mostram tão apressados, e apresentam-se muito mais exigentes que a administração Carter. O chefe da missão de Havana em Washington, Romón Sanchez, fez questão de sublinhar que persiste um problema para o reatamento diplomático com os Estados Unidos: o bloqueio econômico que se mantém contra Cuba. E enfatizou que o levantamento do bloqueio deve preceder a troca de embaixadores.

Por sua vez, o governo norte-americano condiciona a suspensão do embargo econômico a Cuba à indenização pelos bens norte-americanos expropriados por Castro. Onde o tiranete das Antilhas encontrará o dinheiro para restituir esse capital aos Estados Unidos? Não sabemos. Mas isso não constituirá certamente grande obstáculo. Fidel Castro está habituado a dificuldades dessa natureza. Há pouco, segundo informa o Diario Las Américas, de Miami, o governo de Tóquio suspendeu o envio de mercadorias no valor de 91 milhões de dólares, até que Castro pague as dívidas anteriores.

Não obstante, segundo divulgou a agência oficial do regime cubano, Prensa Latina, o regime de Havana assinou com o governo sueco um acordo de "assistência ao desenvolvimento". A esse título, Fidel Castro receberá 19 milhões de dólares até 1980. E muitos empresários norte-americanos, apesar da péssima qualidade do cliente, estão sôfregos em iniciar transações comerciais com Cuba.

Por que Havana ambiciona com tão grande empenho a suspensão do embargo econômico; quando tantos países como Inglaterra, Espanha, Itália, França, Costa Rica, Argentina, Colômbia, México e Canadá já mantêm com Cuba relações comerciais regulares?

Não será porque vê na generosidade de seu poderoso adversário de ontem uma esplêndida fonte de recursos econômicos? A prodigalidade com que os Estados Unidos fornecem aos soviéticos créditos, tecnologia, cereais e outras mercadorias bem poderia estar despertando inveja no governo cubano...

Em vista dos fatos e considerações acima poderíamos perguntar: de que vale a exigência de indenização dos bens expropriados, se "comerciando" com os Estados Unidos, em pouco tempo Castro contrairá dívidas, talvez maiores do que o valor dessas indenizações?

* * *

Existem porém outras condições impostas pelos Estados Unidos.

Terence Todman, subsecretário de Estado para assuntos interamericanos, afirmou que seu governo deseja "ver esclarecidos" mais dois pontos:

1) A questão dos direitos humano em Cuba.

2) A interferência militar de Castro na África.

À brandura com que tão graves problemas são tratados pelo parceiro mais poderoso — apenas desejando "ver esclarecidos" — soma-se uma categórica manifestação de boa vontade. A imprensa internacional noticiou que autoridades de Washington admitiram a possibilidade da entrega da base aeronaval de Guantanamo aos cubanos. Esse enclave militar na ilha serve aos Estados Unidos como baluarte no mar das Antilhas há 79 anos, e representa uma certa segurança dos países livres das Américas contra um eventual ataque armado por parte dos castristas. Além disso, Guantanamo também oferece abrigo a muitos infelizes fugitivos do regime fidelista.

É positivamente incompreensível a açodada e insensata distensão do governo de Jimmy em relação à Cuba comunista.

* * *

Em 1962, considerando aberta ameaça ao continente a presença da longa manus russa na ilha, a Organização dos Estados Americanos — OEA — excluiu Cuba desse organismo. Em 1964, exortou todos os países membros do mesmo a romper relações diplomáticas e Comerciais com o regime de Havana, resolução que só não foi adotada pelo México.

Dessa época até hoje, Cuba não fez senão concretizar aquelas ameaças.

Seus soldados, assessores militares e civis estão presentes em vários países da África com escandalosa notoriedade. Os dirigentes cubanos, entretanto, não descuraram o continente sul-americano que os guerrilheiros castristas tanto esforço fizeram para subverter em diversas ocasiões.

Segundo a publicação norte-americana Defense and Foreign Affairs Daily, 3.500 soldados cubanos provenientes do Panamá introduziram-se recentemente no Peru.

O dirigente cubano continua violando, de forma constante, as praxes diplomáticas internacionais, intervindo de modo aberto em outras nações para fazer a subversão. Com isso fere os direitos humanos de povos inteiros.

Além disso, Castro viola continuamente os referidos direitos humanos em seu próprio território e — fato sintomático — nunca se dispôs a permitir qualquer investigação por parte de um organismo internacional no território da ilha.

Segundo a revista The Herald of Freedom, de New Jersey, foi revelado em Washington que o governo cubano ordenou a prisão de 500 jovens que se recusaram a servir nas tropas enviadas a Angola.

Cerca de 200 mil pequenas propriedades que ainda restavam na ilha-prisão estão sendo brutalmente confiscadas. Qualquer cubano que deseje visitar um museu, um instituto de arte ou mesmo uma fábrica, necessita de autorização do governo. O despotismo marxista não poupa sequer as crianças. Desde os cinco anos elas são submetidas a intensa doutrinação comunista. Isso foi constatado, in loco, por Carl J. Migdail, que publicou os fatos na conceituada revista U. S. News & World Report.

E o que exige de Cuba o atual governo de Washington, tão zeloso na defesa dos chamados direitos humanos, quando os julga violados nas pessoas de terroristas e subversivos? Apenas "ver esclarecido" o problema. E antes mesmo de assim o "ver", começa a entreabrir as portas da diplomacia e do comércio ao grande e despudorado violador dos direitos humanos... na defesa dos direitos humanos...


No Espírito Santo, expulsão milagrosa de calvinistas

Quando as brisas da manhã de 22 de setembro de 1643 dissiparam as brumas que envolviam o porto de Vila Velha, da Capitania do Espírito Santo, os luso-brasileiros que ali residiam notaram com assombro a presença da esquadra holandesa ancorada ao largo.

Era preciso agir depressa e preparar a resistência. Mas que resistência? Como poderia aquela pouca gente resistir com armas caseiras ao poderoso exército invasor? No alto do rochedo, não restava ao pequeno Convento da Penha outra alternativa que a de ser abandonado. Foi o que fizeram os moradores, retirando dali inclusive a Imagem de Nossa Senhora. Enquanto isso, já em terra firme os hereges batavos começavam a erigir fortificações e a preparar a conquista definitiva da Capitania. Bem sabiam que a população local não tinha força capaz de medir-se com eles.

Porém, com grande espanto e terror, os holandeses viram abrir-se as nuvens e descer do Céu guerreiros magníficos com armas reluzentes, uns montados em formidáveis corcéis, outros, a pé, em formação de batalha. O que forças humanas não podiam, exércitos celestes fariam para defender aquelas terras batizadas com a Cruz de Cristo.

No alto do monte, o pequenino convento de paredes brancas transforma-se em poderoso castelo, cujas muralhas defendem os guerreiros celestes. A situação estava invertida. Aterrados pela visão, os calvinistas fogem em busca de suas naus.

Entretanto, os habitantes de Vila Velha do Espírito Santo, encorajados à luta pela visão maravilhosa, saíram ao encalço do herege invasor, matando 40 deles. Quanto aos que conseguiram alcançar suas naus, partiram imediatamente cheios de medo e perturbados em sua falsa crença-

Quem seriam os celestes guerreiros comandados por um cavaleiro resplandecente?

22 de setembro era a festa do martírio de. São Maurício e da Legião Tebana, por ele comandada. O povo atribuiu-lhes, pois, o milagre, dedicou-lhes um altar e tributou-lhes grande devoção.

O nome da Legião Tebana provem de Tebas, pátria dos legionários, cidade a margem do rio Nilo, no Egito, outrora rica e fértil, cujos habitantes tinham a reputação de ser muito altos, corajosos no combate, sábios e inteligentes.

Conta a Legenda Áurea, de Jacques de Voragine, obra célebre da literatura medieval, que foi o Apóstolo São Tiago quem instruiu os tebanos na fé cristã.

No ano 277, Diocleciano e Maximiliano, dividiam o trono do Império Romano. Desejando extirpar do mundo inteiro o Cristianismo, enviaram a todas as províncias onde se encontrassem cristãos uma, carta declarando que se estes não se convertessem ao culto dos ídolos, suplícios terríveis lhes estariam reservados. Os cristãos tebanos, porém, tendo recebido a carta, despediram os mensageiros sem dar resposta. Então, os dois imperadores, furiosos, ordenaram às diversas províncias que enviassem a Roma todos os homens válidos para serem armados e fazerem parte das tropas imperiais. Os tebanos, conformando-se ao princípio cristão de dar a César o que é de César, organizaram uma legião de 6.666 soldados, que enviaram aos imperadores, a fim de os servir na guerra, sob condição de jamais tomar armas contra os cristãos. Essa legião tinha por chefe São Maurício.

Diocleciano confiou a Legião Tebana a seu associado, Maximiliano, que se encontrava na Gália com um grande exército. E, antes da partida, o Papa Marcelino exortou os legionários a antes deixarem-se matar do que pecarem contra sua Fé cristã.

Assim que o exército atravessou os Alpes, Maximiliano ordenou que todas as legiões sacrificassem aos ídolos e jurassem, a uma só voz, combater os rebeldes e muito especialmente os cristãos. Ao saber disso, a Legião Tebana separou-se do grosso do exército e foi estabelecer-se a uma distância de oito milhas, em um magnífico local denominado Agaune (hoje St.-Maurice-en-Valois), às margens do Ródano. E quando Maximiliano lhes ordenou que fossem sacrificar aos ídolos com o resto do exército, os legionários responderam que não iriam sendo cristãos. O imperador, furioso, berrou: "Que esses traidores saibam então que não é por mim somente, mas também por meus deuses que me vingarei deles!" E enviou contra a Legião Tebana outra de suas legiões, com ordem de decapitar um décimo dos legionários rebeldes. Estes, oferecendo com alegria a própria cabeça, disputavam entre si a honra de serem martirizados.

Então São Maurício, dirigindo-se a eles, disse: "Eu vos felicito por estardes prontos a morrer por Cristo! Suportei que vossos companheiros fossem entregues à morte porque quis seguir o preceito do Senhor, que mandou Pedro meter sua espada na bainha. Mas agora que estamos rodeados dos cadáveres de nossos companheiros, e que nossas capas estão rubras com o sangue deles, sigamo-los ao martírio". Depois, com o assentimento de toda a legião, mandou levar ao imperador a seguinte resposta: "Imperador, somos vossos soldados e pegamos em armas para defender a ordem pública. Não somos nem traidores nem covardes, mas nada nos fará abandonar a Fé de Cristo!"

O imperador, ao ouvir essa resposta ordenou que novamente a Legião fosse dizimada. E assim foi feito.

Um dos porta-estandartes da Legião Tebana, chamado Exupério, erguendo-se no meio de seus companheiros com seu estandarte, disse: "Nosso glorioso chefe Maurício falou-nos da glória de nossos companheiros mortos. Também eu não peguei em armas para resistir a tais ataques. Lancemos por terra essas armas terrestres e não tenhamos outra arma que a virtude cristã". Após o que, com o assentimento de todos, ele mandou responder ao soberano: "Imperador, somos vossos soldados, mas escravos de Jesus Cristo. A vós devemos o serviço militar. A Ele, a inocência de nossos corações. De vós recebemos o prêmio de nosso trabalho. Dele, recebemos o prêmio de nossa vida. E nós estamos prontos a sofrer todos os tormentos do que a renegar a Fé!"

Imediatamente o imperador mandou cercar toda a Legião, de maneira que nenhum só dos legionários pudesse escapar à morte. Esses soldados de Cristo foram então rodeados pelos soldados do demônio, massacrados, pisados pelos cavalos e consagrados a Cristo por um glorioso martírio. Era o ano do Senhor de 280.


110.000 FUGITIVOS VIETNAMITAS JÁ PERECERAM NOS MARES

A TFP APELA AO PRESIDENTE CARTER

A propósito da tragédia das famílias que fogem do Vietnã, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, Presidente do Conselho Nacional da TFP, enviou, a 20 de setembro de 1977, telegrama ao Presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, e a S. S. Paulo VI, bem como ofício ao Exmo. Sr. Presidente da República, Gal. Ernesto Geisel, documentos esses que transcrevemos abaixo.

A Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade solicita respeitosamente a atenção de Vossa Excelência para o destino trágico a que estão sujeitas famílias vietnamitas que fogem da brutal perseguição comunista levada a efeito em sua pátria, aventurando-se pelos mares em embarcações ligeiras e pondo sua esperança no senso de justiça e compaixão dos navegantes que encontrem em sua odisseia.

Os portos de nações próximas, algumas delas ontem ainda aliadas dos fugitivos, na muito grande maioria dos casos se lhes fecham fria e inexoravelmente. E também navios de quase todas as nacionalidades se esquivam de recolhê-los. Assim, essas famílias sofrem riscos e tormentos inenarráveis. E muitas acabam perecendo numa desolação fácil de imaginar.

Essas informações, difundidas nos últimos tempos por noticiários jornalísticos esparsos, foram confirmadas por trágicas declarações prestadas em Tóquio pelo conhecido ex-deputado líder da oposição do Vietnã do Sul, Sr. Tran Van Son. Estima ele em 110 mil o número de expatriados vietnamitas que dessa maneira morreram. E admite que apenas 8 mil se tenham salvo. Essas declarações foram reproduzidas em primeira página pelo diário londrino "The Times", em sua edição de 13 do corrente.

A História registrará um dia com severidade e horror que tenham sido objeto de tal tratamento, em nosso século, famílias que deram prova de elevada dignidade moral e nobre intrepidez, ao preferirem expor sua vida a se sujeitarem ao aviltante jugo do comunismo.

Não há nestes dias exemplo maior de patriotismo e fidelidade a altos ideais.

Bastaria a trágica e imerecida situação em que se encontram esses verdadeiros heróis para documentar que o terror de desagradar os governos comunistas avassala aquela extensa área, e coíbe a liberdade de movimentos de nações e empresas privadas de navegação que, em condições normais, obviamente agiriam de modo oposto.

Em uma palavra, Senhor Presidente, não há no mundo atual episódio que ponha em jogo direitos humanos mais fundamentais.

Negá-lo importaria em dizer que esses heroicos vietnamitas não têm direitos. Ou que não são homens.

Assim, a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, a maior entidade civil anticomunista do Brasil, se dirige atenciosamente a Vossa Excelência, como propulsor universal da campanha em favor dos direitos humanos, rogando-lhe que abra com a maior urgência uma eficiente investigação sobre os fatos mencionados, e se dirija aos países e às empresas de navegação marítima relacionados com o assunto, a fim de lhes dar garantias para que cumpram sem temor de represálias de qualquer natureza as leis internacionais de hospitalidade. Pedimos também a Vossa Excelência que envie para o local embarcações e aviões que sejam de imediato auxílio para aqueles fugitivos.

Vossa Excelência sentirá, sem dúvida, Senhor Presidente, que a continuação do estado de desamparo em que até aqui se encontram esses nossos gloriosos e infelizes irmãos ameaça pôr em questão a própria autenticidade da campanha mundial pelos direitos humanos.

Vossa Excelência, Senhor Presidente, tem nas mãos o maior poderio político, militar e econômico do mundo de hoje. Solicitamos-lhe que o use no sentido destes pedidos. Obterá assim as bênçãos de Deus, tão indispensáveis para que toda grandeza seja durável e efetivamente grande. Neste desejo, reitero a Vossa Excelência os protestos de minha mais alta estima e distinta consideração.

A S. S. PAULO VI

A Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, apresentando a Vossa Santidade as homenagens de seu profundo respeito, solicita, com a devida vênia, sua preciosa atenção para o destino trágico a que estão sujeitas famílias vietnamitas, muitas delas católicas, que fogem da brutal perseguição comunista implantada em sua pátria, aventurando-se pelos mares em embarcações ligeiras e pondo sua esperança no senso de justiça e compaixão dos navegantes que encontrem em sua odisseia.

Os portos de nações próximas, algumas delas ontem ainda aliadas dos fugitivos, na muito grande maioria dos casos se lhes fecham fria e inexoravelmente. Também navios de quase todas as nacionalidades se esquivam de recolhê-los. Assim, essas famílias sofrem riscos e tormentos inenarráveis. E muitas acabam perecendo numa desolação fácil de imaginar.

Estas informações, difundidas nos últimos tempos por noticiários jornalísticos esparsos, foram confirmadas por trágicas declarações prestadas em Tóquio pelo conhecido ex-deputado líder da oposição no Vietnã do Sul, Sr. Tran van Son. Estima ele em 110 mil o número de expatriados vietnamitas que dessa maneira morreram. E admite que apenas 8 mil deles se tenham salvo. Essas declarações foram reproduzidas em primeira página no diário londrino "The Times" em sua edição de 13 do corrente.

Tendo isso em vista, V. S. não duvidará, por certo, de que a História registrará um dia com severidade e horror que tenham sido objeto de tal tratamento, em nosso século, famílias as quais deram prova de elevada dignidade moral e nobre intrepidez, ao preferirem expor sua vida a se sujeitarem ao aviltante jugo do comunismo.

Não há nestes dias exemplo maior de patriotismo e fidelidade a altos ideais.

Bastaria a trágica e imerecida situação em que se encontram esses verdadeiros heróis para documentar que o terror de desagradar os governos comunistas avassala aquela extensa área, e coíbe a liberdade de movimentos de nações e empresas privadas de navegação que, em condições normais, obviamente agiriam de modo oposto.

Em uma palavra, Santo Padre, a nosso ver não há no mundo atual episódio que ponha em jogo direitos humanos mais fundamentais.

Negá-lo, V. S. bem o vê, importaria em dizer que esses heroicos vietnamitas não têm direitos. Ou que não são homens.

Sendo o Augusto Trono de São Pedro o mais alto e possante foco de justiça e de caridade entre os homens, para ele se voltam neste momento os olhos aflitos e cheios de esperança das pessoas a quem, no orbe inteiro, essa tragédia confrange. Anima-as o ardente e respeitoso anelo de que V. S. apele para todos os poderes da terra ainda capazes de se condoer com essa situação, e lhes peça que tudo façam em favor daqueles desditosos filhos de V. S.

A Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, a maior entidade civil anticomunista do Brasil, dirige aqui respeitosamente a V. S. seu apelo nesse sentido, certa de estar interpretando os gerais anseios de todos aqueles para quem as palavras "direitos humanos" têm um elevado conteúdo cristão.

Parece-nos que uma pública intervenção de V. S. estimularia os governos não-comunistas a dar garantias aos países do Extremo Oriente de que nenhuma represália terão que temer no caso de concederem asilo a estas vítimas da crueldade comunista.

V. S., que tantas vezes se tem pronunciado sobre os direitos humanos, sentirá, sem dúvida, no seu coração, que a continuação do estado de desamparo em que até aqui se encontram essas gloriosas e infelizes famílias ameaça tornar questionável, aos olhos da opinião pública, a própria autenticidade e eficácia da campanha mundial pelos direitos humanos.

Tais considerações animam nos membros e cooperadores desta Sociedade a convicção de que este apelo não subirá em vão a V. S. E, nessa disposição de alma, desde já pedem que a Providência Divina favoreça e coroe de êxito as medidas que V. S. haja por bem tomar nessa matéria.

Pedindo para a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade e para mim a bênção de Vossa Santidade, subscrevo-me com veneração.

AO PRESIDENTE GEISEL

Com os meus respeitosos cumprimentos, peço vênia para enviar a Vossa Excelência, em anexo, uma cópia xerográfica das declarações feitas em Tóquio ao correspondente do jornal londrino "The Times", pelo ex-deputado e líder da oposição do Vietnã do Sul, Sr. Tran Van Son, acerca da trágica situação em que se encontram dezenas de milhares de famílias de seu país.

No nobre empenho de não se sujeitarem ao aviltante jugo comunista, aceitaram elas o risco de fugir em frágeis embarcações, singrando os mares à procura de navios que as acolhessem, ou portos que se lhes abrissem. Entretanto, na imensa maioria dos casos, os portos se têm mantido inexoravelmente fechados a elas, e os navios de quase todas as nações se têm esquivado de as receber. Estima o Sr. Tran Van Son que oito mil vietnamitas foram, até agora, socorridos e asilados em diversos países, mas que cerca de cento e dez mil deles pereceram.

Estarrecida ante as dolorosas declarações do Sr. Tran Van Son, a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade enviará ao Sr. Jimmy Carter. Presidente dos Estados Unidos da América, e a Sua Santidade Paulo VI os telex cujas cópias também junto a este.

Antes de expedir esses telex, permito-me escrever a Vossa Excelência, em nome da entidade de cujo Conselho Nacional tenho a honra de ser Presidente, a fim de atrair para o tema em foco a valiosa atenção de Vossa Excelência.

Todos sabemos o quanto é terna e compassiva a alma dos brasileiros. Estes aplaudirão por certo — e com que entusiasmo — todas as medidas que Vossa Excelência haja por bem tomar, no plano diplomático, como no do urgente envio de mantimentos e socorros, em favor daquelas desventuradas famílias.

Ademais, Senhor Presidente, proponho que Vossa Excelência declare aos Governos relacionados com o assunto estar o território nacional aberto para acolher essas infelizes vítimas. Deus nos deu uma extensão geográfica de amplitude continental, não só para o bem de nossos corpos, isto é, para dele tirarmos o nosso sustento, mas ainda para o bem de nossas almas, ou seja, para que generosamente façamos participar de nossas riquezas os nossos irmãos. E, dentre estes, os que, segundo a expressão do Evangelho, "sofrem perseguição por amor à justiça".

Compreendo bem que o afluxo de numerosos refugiados vietnamitas a nosso País possa acarretar problemas e gastos. Porém, estou certo de que a população de bom grado se disporá a ajudar os cofres públicos em tal emergência.

São esses os pedidos que, em favor dos vietnamitas vítimas do comunismo, faço a Vossa Excelência.

Em um momento, Senhor Presidente, em que, com propósito e, não raras vezes, fora de propósito tanto se fala de direitos humanos, parece-me que a alta intervenção de nosso Governo a bem desses fugitivos brutalmente feridos precisamente em todos os seus direitos humanos bem mostraria de que maneira o Brasil entende esses direitos. E contribuiria para fazer sentir aos mais altos poderes espirituais e políticos da terra, que, a serem abandonadas pelas nações livres essas infelizes e gloriosas vítimas do comunismo, a própria autenticidade da campanha universal por tais direitos se tornará discutível aos olhos da opinião internacional.

O Brasil dispõe hoje de um conceito mundial que garante peso e repercussão gerais a seu pronunciamento sobre o que ocorre em qualquer parte do orbe. Quer-me parecer, Senhor Presidente, que uma intervenção direta de Vossa Excelência no assunto será registrada pela História como um belo e glorioso lance de sua atuação à testa do País.

Agradecendo desde já a atenção que Vossa Excelência der a este ofício, apresento a Vossa Excelência as expressões de meu subido apreço e elevada consideração.

Oficio análogo foi também enviado pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, Presidente do Conselho Nacional da TFP, ao Sr. Antonio Azeredo da Silveira, Ministro do Exterior.

Para não viver no inferno comunista, milhares de vietnamitas partem em frágeis embarcações na esperança de que qualquer navio os acolha e alguma nação lhes dê abrigo. Mas, ninguém quer recebê-los.


O barco Minh Châu (foto), por exemplo, conseguiu romper as redes de ferro que os comunistas instalaram para impedir as fugas. Em liberdade, seus 120 ocupantes não podem, entretanto, deixar o barco. Há quatro semanas o Minh Châu permaneceu junto ao porto malaio de Trangganu, que se recusou a receber os fugitivos. Na aflição, estes por vezes ateiam fogo a seus barcos, ou abrem um rombo nos mesmos, a fim de ver se pelo menos assim algum país não comunista lhes dê a asilo.