Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 271 | página 02-03

SEFAC: OS JOVENS SE ENTUSIASMAM PELOS IDEAIS DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ

Texto e fotos de Homero Barradas

Estandartes rubros com o leão dourado e enormes bandeiras brancas com a cruz da Ordem de Cristo - a cruz que marcava as velas das naus do Descobrimento - emprestam um ar de triunfo e de alegria à sede da TFP em Itaquera, nos arredores de São Paulo, onde a entidade realiza sua XVII SEFAC — Semana Especializada de Formação Anticomunista. Jovens cariocas e pernambucanos, cearenses e gaúchos, mato-grossenses, paulistas e de outras plagas do País, todos com idade entre 13 e 21 anos, cruzam-se nos pátios ou formam grupos animados à sombra das árvores da vasta propriedade, que ocupa um quarteirão do tranquilo arrabalde paulistano.

O silvo cortante de um apito reúne os rapazes numa vasta área descoberta, dominada por uma grande cruz de madeira. O dirigente, jovem como os demais, estudante de Direito, capa vermelha aos ombros, procede à escalação por turmas, de A a D. Na turma A ficam aqueles que pela primeira vez comparecem a uma SEFAC. Jovens de cabeleira longa e calças boca-de-sino alinham-se com outros, de cabelo aparado, paletó e gravata. Brancos, pretos, amarelos. Aliás, o que não falta nessa rica paisagem humana é o jovem nisei.

- Pelo Brasil!

- Tradição! Família! Propriedade! Brasil! Brasil! Brasil!

E cada turma vai para sua sala de conferências, onde os rapazes ouvirão palestras sobre assuntos sérios, profundos e de candente atualidade.

Estudos sérios e forma amena

O objetivo do certame é formar jovens que possam usar de sua influência junto aos colegas para conter, por meios lógicos e persuasivos, a expansão de ideias subversivas.

Como repórter de "Catolicismo", convidado pela comissão organizadora a ver de perto como se desenrola uma SEFAC, tive acesso às variadas atividades desenvolvidas na Semana e às diversas dependências de sua sede.

Impressionaram-me a seriedade dos assuntos estudados e a forma amena como os expositores os abordam. Os fundamentos da civilização cristã e os perigos supremos que a ameaçam em nossos dias constituem o centro dos temas tratados. Para conhecê-los bem, é necessário estudar questões filosóficas, históricas, psicológicas, tudo com profundidade. Entretanto, não notei um só participante que não estivesse com os olhos fixos no conferencista, ávido de tudo aprender e de aprender sempre mais. Com raras exceções, os próprios conferencistas são jovens de vinte e poucos ou, no máximo, trinta e poucos anos de idade.

Os processos audiovisuais são chamados a dar tudo o que podem. As palestras são acompanhadas da projeção de slides e de filmes, da audição de fitas gravadas e de discos. Nos pátios, grandes painéis com fotografias, recortes de jornais e revistas, e até caricaturas, ilustram e completam a argumentação ouvida nas conferências.

Depois das conferências, os debates. Cada um é convidado a dizer o que pensa: se não entendeu algum ponto ou se tem alguma objeção. As objeções são acolhidas com naturalidade; a cada dúvida se contrapõe um argumento.

Exercícios físicos — para não amolecer!

A SEFAC é uma semana de formação, mas não só de formação intelectual. Também a formação da vontade é importante e, para isso, a comissão organizadora usa largamente o exercício físico, naquilo em que ele pode ajudar. Um corpo rijo e ágil é um excelente suporte para uma inteligência viva e uma vontade decidida.

Pela manhã, há sempre um bom espaço de tempo dedicado ao karatê, que constitui um ótimo exercício de vivacidade, além de sua eficiência para a defesa pessoal. Há vários anos os elementos mais jovens da TFP vêm praticando o esporte oriental. Graças às lições de mestres experimentados, entre os quais alguns japoneses e coreanos, há hoje na TFP bons instrutores de karatê. Eles comparecem às SEFACs para transmitir seus conhecimentos aos semanistas.

Um giro pela sede "Jasna Góra"

A sede onde se desenvolvem as SEFACs é chamada de Jasna Góra, em homenagem ao reduto onde, no século XVII, Frades, nobres e homens do povo poloneses resistiram durante 38 dias ao cerco do exército protestante sueco, considerado um dos melhores de sua época. Eles defenderam a imagem da Padroeira da Polônia, Nossa Senhora de Czestochowa, e garantiram a liberdade à sua pátria (ver "Uma epopeia católica: o cerco do Santuário de Czestochowa", por Gustavo Antonio Solimeo, "Catolicismo", n.° 260, de agosto de 1972). A TFP destina essa sede às suas reuniões extraordinárias: semanas de formação para seus colaboradores mais novos, dias de estudo para os veteranos, SEFACs.

O catarinense Marivaldo Pereira é o responsável por aquele quarteirão de construções, pátios e jardins. Levou-me a dar um passeio pelo imóvel, durante um dos momentos de descanso.

O bulício natural dos 175 semanistas não nos impede de irmos conversando e observando suas ocupações. Num canto do pátio um dos mais antigos conta a um grupinho de calouros histórias heroicas de Carlos Magno e dos cruzados. Mais adiante, um menino nos pede um catecismo que tenha orações da manhã e da noite, pois ele não sabe rezar e quer fazer como os outros que rezam ao deitar e ao levantar.

Enquanto caminhamos, Marivaldo Pereira vai me contando que o local era ocupado por uma escola e que a TFP ainda não pôde decorá-lo como gostaria. Apenas foram instalados os serviços essenciais. A seu tempo, as construções receberão uma nova pintura. Os alojamentos, ainda com camas de campanha, serão substituídos por instalações mais apropriadas.

Falam os monitores

Alguns dos sócios e militantes mais antigos da TFP comparecem às semanas de formação para auxiliarem os dirigentes. Eles trabalham com jovens nos mais diversos pontos do País e trazem sua experiência à SEFAC. Entre eles, João Sérgio Guimarães, 24 anos, professor em Curitiba. Pergunto-lhe o que gostaria de destacar no programa da SEFAC.

- É que ela visa a convencer pela lógica e pelo raciocínio — vai dizendo sem titubear.

- E como se faz isso?

- A SEFAC pode definir-se como exposição de argumentos e apresentação de fatos. Muitos fatos. E o horário! É organizado de maneira a dar largo tempo para o semanista pensar. Nada é atropelado. Apenas três palestras por dia e círculos de estudos em forma de conversa e debate.

- E nas horas vagas?

- Cada um aproveita o tempo como quer. Muitos leem. A maioria prefere conversar. Alguns cantam — temos até um cancioneiro, para que o canto se conjugue adequadamente aos argumentos.

Seu colega Narses Félix Nunes Filho, um carioca que atualmente experimenta os rigores do clima do Sul, entra na conversa:

- Nos círculos de estudos, os semanistas expõem suas dúvidas, debatem, dão sua opinião. A opinião de cada um é muito importante para os organizadores da SEFAC.

- A atividade maior é, portanto, o estudo.

- Não há dúvida. Mas é uma atividade que não impomos aos semanistas. Estes a recebem com prazer, porque suscitamos o interesse por ela. Por isso temos presenciado o empenho de muitos pais em mandar seus filhos às SEFACs ainda que, para isso, os rapazes tenham que faltar a algumas aulas em seus colégios. Os pais descobriram que essas faltas são largamente compensadas pelo gosto que seus filhos demonstram pelo estudo e pela discussão de assuntos culturais, depois de terem participado de alguma SEFAC.

- E além do estudo?

- Especialmente nesta SEFAC, eu gostaria de destacar o batismo de cinco semanistas, de 17 a 21 anos de idade... Todos sabem que a TFP é uma sociedade cívica, mas vendo os rapazes, nas conferências da SEFAC, a beleza da civilização cristã, não é a primeira vez que acontece de algum não batizado pedir o Batismo. Neste caso, nós os encaminhamos a algum Sacerdote, para que os instrua devidamente.

"Isso dá um baque na gente"

Reinaldo Inácio Teixeira faz o curso de torneiro mecânico no SENAI e Fernando da Cruz Neto está na 7.a série do Colégio Professor Cristiano Cabral, ambos de Bauru. É a primeira Semana de que participam.

- É muito bom, é maravilhoso — vão dizendo, a respeito das conferências, dos círculos, de tudo.

- Na próxima vez venho também...

Paulo Jou nasceu na China. Viu de perto o perigo comunista. Há três anos está em São Paulo e cursa a 2.a série de um Colégio Estadual:

- Acho muito boa a SEFAC. As conferências são muito importantes para sabermos onde está o perigo progressista.

Já não é a primeira vez que os gaúchos Carlos Alberto Bermudez e João Batista Saraiva assistem a uma SEFAC. Bermudez, de Uruguaiana, pertence à turma D, a dos mais antigos. Acha as SEFACs muito melhores do que outros congressos de que tem participado. Destaca as conferências do Dr. Plínio Corrêa de Oliveira, ouvidas em gravador, e a prática, do karatê. Dá este depoimento que, na sua simplicidade, é um grande elogio para a TFP:

- A juventude quase não tem conhecimento da civilização cristã. Por isso estamos aproveitando muito. A TFP é a única organização que nos fala desses assuntos. Através da SEFAC, esta juventude se encaminha para os ideais da tradição católica.

João Batista é de Taquari e pertence à turma C. Ressalta a impressão que causam os painéis com recortes de jornais e revistas:

- Isso dá um baque na gente! Entra pelos olhos que existe mesmo a Revolução gnóstica. Pode reparar como todos vão olhar os painéis depois das conferências...

Alberto Medeiros, de Recife, está no 1.° científico. É a primeira SEFAC a que vem, mas ficou na turma B porque já tem muitos meses de contato com a TFP:

- Fiz uma viagem longa, mas estou tendo a recompensa. A SEFAC está-me surpreendendo, dando mais até do que eu esperava.

Não pude reprimir a pergunta:

- D. Helder é apoiado em Pernambuco?

- D. Helder? Pelos hippies... Todo hippy defende D. Helder.

- E a TFP?

- A TFP está crescendo. De dois em dois domingos fazemos campanha de divulgação de livros e de "Catolicismo". Já visitamos muitas cidades do Estado.

Uma fórmula: alguma improvisação e pouco dinheiro

Só às nove e meia da noite, na mesa do jantar, consegui falar com Leo Daniele, advogado, 31 anos, um dos membros da comissão organizadora das SEFACs.

Entre um prato e outro e sempre interrompido pelas mais variadas consultas e pedidos, Leo Daniele vai respondendo às minhas perguntas:

- Como se desenvolvem os trabalhos de organização de uma SEFAC?

- Como o nosso tempo é pouco para a enorme massa de atividades da TFP, é frequente não podermos começar com muita antecedência os preparativos de uma SEFAC. Daí algumas corridas de última hora e os jeitinhos, mar em que o brasileiro é perito em navegar. Mas tudo tem dado certo, com as bênçãos de Nossa Senhora, pois se acontece de deixarmos alguma coisa para a última hora não é por negligência, mas pelas circunstâncias que cercam nosso trabalho.

- E o financiamento?

- Outro problema é a falta de dinheiro. Os semanistas, quando podem, pagam uma taxa para alimentação e outras despesas. A TFP contribui com outra parte. E as pessoas generosas, de todos os quadrantes do País, que conhecem o idealismo da TFP, completam o que falta.

- Como explica essa alegria que se nota entre os semanistas?

- Essa alegria é natural, não é produzida artificialmente. É fruto da natural jovialidade dos semanistas e de sua tranquilidade de consciência. Nós nos empenhamos em fazê-los compreender que a alegria autêntica coexiste com a seriedade de espírito.

- Há problemas disciplinares?

- Habitualmente não há. Quando algum mal-intencionado tenta perturbar o ambiente, nós pedimos que volte para casa. Fora disso, tudo corre normalmente. Não há brincadeiras de mau gosto. Um profundo respeito mútuo domina o ambiente.

- Em outras Semanas havia muitos hispano-americanos. Por que desta vez só vejo brasileiros?

- Não temos mais realizado SEFACs em convênio com as TFPs de outros países. As nossas coirmãs já estão em condições de fazer suas próprias Semanas. Nestes dias, está sendo realizada uma SEFAC em Bogotá, organizada pelas TFPs da Colômbia, Venezuela e Equador.

- Qual o ponto a que a comissão organizadora dá mais importância numa SEFAC?

- À explanação lógica das doutrinas e ao esclarecimento das dúvidas. Todas as objeções são enfrentadas e resolvidas. Não deixamos o semanista com qualquer pergunta, sem lhe dar uma resposta. Não existem assuntos-tabu numa SEFAC. Por outro lado, procuramos despertar nos jovens que aqui vêm, o gosto pelo sublime e pelo heroísmo.

O encerramento é solene

A sessão solene de encerramento da XVII SEFAC realizou-se no auditório da Maison Suisse, no dia 22 de abril.

Às 21 horas o local regurgitava de jovens. Os mais novos, com suas roupas multicoloridas; os mais antigos, de terno, e capa vermelha aos ombros. Duas filas de sócios e militantes com estandartes rubro-ouro guarneciam a entrada do salão. Nas primeiras filas, as famílias convidadas; em lugar especial, os membros do Conselho Nacional, os representantes de TFPs estrangeiras e os dirigentes de Secções estaduais. No palco, junto à mesa de honra, a imagem de Nossa Senhora de Fátima.

Todos se levantam quando entra o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, Presidente do Conselho Nacional. O entusiasmo é grande. Falam os representantes dos semanistas — um para cada turma. O Coro São Pio X acentua o brilho e solenidade da reunião. Por fim, fala o Dr. Plinio.

Que diz ele aos seus ouvintes de 14, 17 ou 20 anos? Qual a linguagem que usa o escritor universalmente conhecido, para os estudantes do curso secundário? Como é recebido pelos jovens das mais novas gerações o líder católico que milita há mais de quarenta anos em defesa da Igreja, da Pátria e da civilização cristã?

O escritor consagrado fala aos jovens com linguagem acessível à juventude. Sabe despertar neles o verdadeiro entusiasmo, porque ele mesmo é o maior entusiasta da causa a que serve. Não faz vã doutrinação. Se os rapazes estão acostumados com figuras, reserva boa parte de seu tempo a mostrar-lhes slides que provam a sua tese. Nada mais simples. Nada mais profundo. Nada mais belo. E assim todos ficam conhecendo "A ação da TFP no mundo moderno". E reconhecem no orador um verdadeiro líder.

No final da sessão repete-se o brado que ficará ecoando aos ouvidos dos semanistas depois que se dispersarem por todo o País:

- Pelo Brasil!- Tradição! Família! Propriedade! — Brasil! Brasil! Brasil!

Texto e fotos de Homero Barradas


D. ISNARD FIM

Plinio Corrêa de Oliveira

“Considerando a atitude agressiva e caluniosa que a Sociedade Tradição, Família e Propriedade (TFP) assumiu publicamente nesta Diocese de Nova Friburgo em face dos Cursilhos de Cristandade, Movimento aprovado e recomendado pelo Bispo Diocesano..."

Essas palavras abrem o decreto de D. Clemente Isnard contra a TFP, o qual continuo a analisar no artigo de hoje.

Encontro reunidas na mesma frase três acusações distintas:

a) a TFP teria tido uma "atitude agressiva" contra os Cursilhos;

b) além de "agressiva", essa atitude teria sido "caluniosa";

c) sendo os Cursilhos um "movimento aprovado e recomendado" por D. Isnard, foi ainda mais especialmente censurável que a TFP assim tivesse agido em relação a eles.

Estando a TFP numa campanha nacional de divulgação da Pastoral de D. Antonio de Castro Mayer sobre os Cursilhos, qualquer leitor terá, desde logo, a impressão de que o Sr. D. Isnard visa assim a Pastoral.

Com efeito, qual foi a "atitude" da TFP na Diocese de Nova Friburgo? Não temos Subsecção, nem contamos com Núcleo, em nenhuma das cidades sujeitas à jurisdição de D. Isnard. Assim, a única atividade da TFP naquelas paragens consistiu em percorrê-las por meio de caravanas que faziam a propaganda da Pastoral do ilustre Bispo de Campos. Nisto teria, pois, consistido a atitude "agressiva" e "caluniosa" dos jovens caravanistas. Divulgaram pacífica e cortesmente um documento eclesiástico de alto conteúdo intelectual e moral, fundado, além do mais, em opulenta documentação.

Se o Sr. D. Isnard discorda da Pastoral do Sr. D. Mayer, seria nobre de sua parte que saísse a público de viseira erguida, defendendo diretamente contra elas os Cursilhos. Opusesse argumentos a argumentos. Impugnasse o valor da documentação apresentada pelo Sr. D. Mayer. Seria um direito seu. Seria até um dever. Pois ao Bispo compete, mais ainda do que aos outros, defender os que — a seu ver — sofrem injustiça.

O Sr. D. Isnard teria aberto, assim, um diálogo elevado e oportuno com seu egrégio irmão e vizinho de Campos. Todo o Brasil teria presenciado, com interesse e enlevo, a lúcida e douta contenda. E, por fim, a Igreja teria saído engrandecida do episódio.

Não. O Sr. D. Isnard eximiu-se cautamente de refutar o notável documento do grande Bispo de Campos. Achou mais cômodo atirar contra ele um ataque oblíquo, atingindo os moços abnegados e idealistas da TFP. É lamentável...

* * *

Assistindo ao brilhante Pontifical celebrado na Catedral de Campos por ocasião do jubileu do Sr. D. Mayer, ouvi a oração gratulatória pronunciada pelo Sr. Arcebispo de Niterói, D. Antônio de Almeida Moraes Junior, do qual aliás são sufragâneos tanto o Sr. D. Isnard quanto o Sr. D. Mayer.

Todos conhecem a fluidez, a clareza e o encanto da palavra do insigne orador sacro, o maior ou um dos maiores do Brasil contemporâneo. Ademais, S. Excia. tem sido, em sua Arquidiocese, um patrono dos Cursilhos. Pois bem, a certa altura de sua notável oração, o Sr. D. Moraes fez uma afirmação em que rutila sua bem conhecida inteligência, a par de sua exemplar imparcialidade. Afirmou ele que a Pastoral do Sr. D. Mayer só pode ser tida por um sábio brado de alarma que possibilita aos Cursilhos reagirem contra erros e desvios neles infiltrados. O Sr. D. Mayer prestou, assim, valioso serviço aos cursilhistas ciosos de se manterem bem unidos à Igreja.

Pena é que, antes de lançar seu decreto, o Sr. D. Isnard — o qual visivelmente não leu a Pastoral, ou pelo menos não a leu desapaixonadamente — não tivesse ouvido este pensamento objetivo e justo de seu Metropolita.

* * *

- Que Cursilhos S. Excia. defende em seu decreto? — Obviamente, os de sua Diocese.

- Ora, no que a Pastoral ataca tais Cursilhos? — Em nada.

Na pág. 11, a Pastoral afirma expressamente que há Cursilhos não infectados pelos erros por ela denunciados. Se D. Isnard está certo de que entre os Cursilhos não infiltrados pelos referidos erros estão os de sua Diocese, era só dizê-lo publicamente. E ninguém o contradiria.

Simplesmente para ressalvar o renome de seus Cursilhos, não seria necessário aquele decreto...

Cabe citar aqui um fato concreto que se presta a algumas reflexões muito apropriadas ao tema.

Possuo uma revista em que o participante de um Cursilho muito importante, realizado alhures no Brasil, relata em termos entusiasmadíssimos tudo quanto se passou nas respectivas reuniões. O melhor de seu entusiasmo se volta para o Sacerdote bastamente melenudo que orientava aqueles dias de reunião.

Para explicar o fascínio exercido pelo Padre, o cursilhista narra um episódio. O Sacerdote faz uma conferência na qual se refere, a certa altura, aos que chama de Filhos da Luta. Ele vai então ao quadro negro e escreve "Filhos da Luta". Ferve o entusiasmo. Suspense. Como prosseguirá a conferência? O Sacerdote pede então ao público excusas por uma distração. Ao escrever luta, cometera um lapso. Em lugar da letra "1", deveria ter usado outra que se lhe segue pouco depois no alfabeto. Gargalhada geral. Distensão. Cordialidade cursilhista.

Esta revista, com a ignóbil narração, é de molde a fazer incomparavelmente mais contra os Cursilhos do que tudo quanto à atuação dos propagandistas da TFP possa ter atribuído o Sr. D. Isnard.

É, ademais, bem provável que essa revista, se chegar às mãos de cursilhistas do Sr. D. Isnard, lhes faça mal à alma.

E aqui fica uma pergunta: quer o Sr. D. Isnard o nome dessa revista, para baixar um decreto condenando a desedificante e contagiante atitude do Sacerdote melenudo? Se o quer, é só mandar dizer-mo.

- Se não quer, por que dois pesos e duas medidas? Tanta falta de vontade de saber o que de mal se faz aqui e acolá, no movimento cursilhista, e tanta sofreguidão para reprimir a difusão da Pastoral de D. Mayer e punir a ação dos jovens da TFP?

* * *

Foi, pois, injusto o fogoso Prelado fluminense, ao tachar de agressiva e caluniosa, em relação aos Cursilhos de Cristandade, a campanha que a TFP vinha efetuando para difundir a recente Pastoral do grande D. Mayer.

Mas, dirá alguém, talvez o Sr. D. Isnard não tenha querido referir-se à campanha em si mesma, e sim a atitudes agressivas e caluniosas que os jovens propagandistas da TFP tenham tomado, na Diocese de Nova Friburgo, durante a campanha.

Esta objeção pode ser comodamente respondida juntamente com o último argumento de D. Isnard, que me restava comentar. Para calçar sua condenação, assevera o Prelado: "Considerando que os membros da referida Sociedade pronunciaram, em público, palavras ofensivas contra o Bispo Diocesano, rejeitam sua legítima autoridade e não se consideram em comunhão com ele..."

Consultei cuidadosamente os relatórios de campanha enviados pelas nossas caravanas. Eles se referem, por certo, a incidentes criados por cursilhistas, em Nova Friburgo, porém não contêm a menor menção de que da parte de qualquer caravanista tivesse havido algum comentário calunioso ou agressivo em relação aos Cursilhos ou a D. Isnard, qualquer contestação de sua autoridade ou da comunhão com ele.

- Ora bolas — dir-me-á alguém — o Sr. não pode basear-se apenas nas suas fontes. Ouça também a outra parte. — Semelhante objeção me daria ensejo de perguntar em que fontes se baseou o Sr. D. Isnard...

Pois é certo que o Prelado não pediu para falar aos nossos, antes de contra eles lançar seu flamejante decreto. "Audiatur et altera pars", preceitua, entretanto, o Direito Romano como princípio elementar de justiça...

Admitamos, todavia, que o ardor pró-cursilhista do Bispo nova-friburguense lhe tenha toldado a isenção de ânimo, a ponto de condenar, sem ouvi-los, jovens modelares por sua piedade e zelo.

Ainda assim restaria um grave reparo a fazer ao decreto de S. Excia. Com efeito, parece, me discrepante da benignidade episcopal que, por hipotéticos excessos a que se teriam entregue os jovens componentes de uma caravana, o Sr. D. Isnard estenda sua punição a todos os outros sócios e militantes que existem no Brasil, e que, de passagem por Nova Friburgo por qualquer razão — uma excursão por exemplo — venham a se apresentar em alguma igreja para comungar... "Odiosa sunt restringenda", é ainda o Direito Romano que nô-lo diz. Em outros termos, as medidas punitivas devem ser cuidadosamente circunscritas a quem praticou a ação censurável.

No caso dos Sacerdotes acusados de subversivos, as Autoridades eclesiásticas têm ressaltado que não se podem assacar a todo o Clero ações praticadas por alguns de seus membros.

Subjacente a essa legítima ponderação está um óbvio princípio de justiça. — Não teria esse princípio aplicação à TFP, no caso — não demonstrado — de alguns jovens caravanistas terem praticado excessos em Nova Friburgo? É uma pergunta que eu quereria fazer a D. Isnard.

* * *

No momento em que vamos encerrando nossa grande campanha nacional de difusão da Pastoral de D. Mayer, pena é que o decreto do Sr. D. Isnard reavive uma luta que já durou tempo suficiente para deixar esclarecida a Nação. Foi o decreto, já um tanto extemporâneo, do Sr. Bispo de Nova Friburgo, que nos forçou a voltar com nova ênfase ao assunto, que já é tempo de deixar de lado.

Transcrito da "Folha de São Paulo".