Oportunas considerações sobre temas da atualidade
J. A. S.
Sob o título de "A massificação do mundo contemporâneo", em seu número 243, de março de 1971, "Catolicismo" se ocupou do excelente livro "Sociedad de Masas y Derecho", do conhecido intelectual espanhol Juan Vallet de Goytisolo.
Dando prova da fecundidade de seu labor intelectual, brinda-nos esse autor com mais uma obra de palpitante atualidade: "ALGO SOBRE TEMAS DE HOY" (Speiro S. A. — Madrid, 1972). Com notável poder de síntese, em suas 281 páginas é abordada toda esta série de assuntos cativantes: Do movimento da História à tecnocracia; Rousseau e a religião da igualdade; O povo e a massa; Liberdade, poder, direito; Colonização e descolonização; A participação; A relação homem-terra na política agrária; e finalmente: A democratização da cultura.
Muito teríamos a comentar, por exemplo, sobre o capítulo dedicado à colonização e descolonização, em que o Autor mostra os desmandos da ONU em sua política de descolonização esquerdizante e desalmada, e o realismo dos teólogos-juristas espanhóis dos séculos XVI e XVII (entre os quais o Padre Francisco de Vitoria) ao abordarem esse mesmo tema.
Em meio a um elenco de assuntos tão rico, queremos cingir nossas considerações ao que o livro diz a respeito de progressismo e ideologia.
Progressismo e ideologia
Dentro desse tema, o Sr. Juan Vallet de Goytisolo nos mostra como a ordem natural não existe para os progressistas.
"[...] não é raro que para muitas mentes profundamente progressistas até a religião assuma cores de ideologias puramente subjetivas, nem que se empreste caráter mítico à evolução, que dará nascimento ao homem novo e o conduzirá ao paraíso neste mundo. O pecado original, o prêmio ou castigo na outra vida, estorvam à medida que se sublima a nova religião antropocêntrica e se faz absoluta a fé no progresso rumo ao "mundo feliz".
Chega-se, em casos extremos, a falar em morte de Deus; ou, como o Dominicano francês Pe. Cardonnel, afirma-se que Ele morreu ao encarnar-se com Jesus Cristo na massa, a qual assim fica divinizada; ou, até, com o extravagante teólogo italiano Tonino, considera-se que Jesus Cristo é a vítima inocente que morre para redimir os crimes do Pai contra os homens" (pp. 14-15), inclusive o de expulsá-los do Paraíso.
Pretende-se adequar a realidade a nossas idéias, e não estas àquela. "Já não se trata - diz Karl Marx ao optar pela praxis - de conhecer o mundo, mas de mudá-lo. Temos aí o conceito estrito de ideologia: toda construção do mundo, ou de uma parte da realidade, intentada a partir de uma idéia" (p. 18).
Passam a Religião para o campo das ideologias
"Tampouco faltam - prossegue o Autor, depois de apontar outros conceitos de ideologia - os que ampliam o conceito das ideologias ao englobar nelas as religiões. Esta extensão seria objetivamente correta se todas as religiões fossem elaboração da mente humana. Subjetivamente só é admissível para aqueles que não aceitam a possibilidade de revelação da Divindade aos homens, pois se alguma religião se baseia nessa mensagem revelada por Deus, tal mensagem, ao transcender de nossa mente, situa-se além de qualquer construção do cérebro humano.
Para quem tem fé, a religião é uma realidade recebida de fora e além da filosofia, e quando se qualifica de errônea outra religião não é por razões ideológicas, mas por julgá-la falseada pelos homens, quer por achar-se que estes simularam a revelação, quer por entender-se que perderam, total ou parcialmente, o depósito sagrado da mesma, ou que o corromperam ou deixaram corromper.
É verdade que para o modernismo, o neomodernismo, o progressismo e demais derivados do primeiro, a religião é uma ideologia, o é certamente a que eles difundem, visto que menosprezam a revelação externa, a qual situam no âmbito, dos mitos, e só admitem, em troca, como autêntica revelação para cada um, o íntimo sentimento religioso elaborado pela própria consciência. [...] Dentro da condenação do modernismo, formulada por São Pio X em sua Encíclica "Pascendi", acham-se compreendidos tanto aqueles que querem converter a religião em uma ideologia, como aqueles que pretendem que ela é só isso" (pp. 19-20).
Porta aberta ao Estado totalitário
Observa muito bem o Sr. Vallet de Goytisolo que, se a religião entra no campo do opinativo e a ordem natural deixa de existir ou não é apreensível, nesse caso o Estado já não tem nada acima dele e pode tomar totalitariamente a direção da ordem social tecnificada que só aspira à eficiência. Tem-se assim uma sociedade massificada e manipulada por tecnocratas, passando os esquemas do desenvolvimento econômico e social a constituir dogma que é de exclusiva competência do Estado formular e dirigir.
Surge então no seio do Estado uma nova classe, a dos tecnocratas, "os que entendem" pela virtude do decreto que os nomeia, os que através dos meios de informação iluminam a outra classe, constituída pelo resto da sociedade, "os que não entendem" ou massa não politizada (p. 23).
"Nasceram desse modo uma nova ideologia tirânica e um enganoso mito — conclui o Autor. As massas se deixam arrastar por eles como certa juventude pelas drogas. E seus pontífices lançam sobre todos os que não crêem no novo mito a acusação de conservar ideologias ultrapassadas, inapelavelmente condenadas a desaparecer, deixadas para trás pelo vento da História" (p. 24).
Explosões novas de erros velhos
Estamos diante das explosões em cadeia que constituem o processo da Revolução: humanismo, protestantismo, deísmo, naturalismo, romantismo, racionalismo, iluminismo, liberalismo, idealismo, relativismo, sensualismo, socialismo, — e desse caos teológico-filosóficosociológico pós-renascentista nasce, já em nosso século, o modernismo, o qual por sua vez é o pai do progressismo.
Mais ainda. A negação do pecado original e sua substituição pelo "pecado social" não começou com os novos "catecismos" heretizantes, como o holandês e o francês. Suas origens são mais remotas que o surto progressista e do que o evolucionismo de Teilhard de Chardin. Antes mesmo de Hobbes e de Rousseau, certos obscuros teólogos protestantes já haviam retirado esse monstro do meio dos escombros deixados pelas várias seitas gnósticas surgidas na Cristandade através dos séculos, desde os tempos apostólicos.
O progressismo, herdeiro dessa heresia maniquéia, anda também nas sendas de outra vertente gnóstica, que é herdeira de Hegel e tem Marx, Marcuse e Mao Tsé-tung como seus chefes de fila. Esse nexo histórico e ideológico nos vem à memória diante das oportunas palavras do Sr. Vallet de Goytisolo: "[...] é lógica esta conseqüência: se a sociedade deprava o homem, é preciso destruir a sociedade causadora de todo o mal que o homem sofre. Assim, depois de Rousseau, o reiteraram: Marx — com seu mito, cada vez mais utópico, de que a sociedade socialista não necessitará do Estado nem do direito; Marcuse — que, se Marx quis "desalienar-nos", quer "descondicionar-nos" dessa sociedade repressiva dos instintos humanos naturalmente bons; e Mao — que com sua revolução cultural intenta apagar, inclusive da memória, todas as idéias herdadas dessa sociedade corrupta e toda sua cultura... Embora, depois de pagar o preço de tantas destruições, nunca cheguemos a ver o homem libertado, senão cada vez mais submetido ao poder do Estado que o manipula com o chamariz de um mito que é retomado, por outros, depois de cada malogro!..." (p. 40).
A que nos leva a religião do progressismo
O intento atual do progressismo demo-cristão é persuadir seus sequazes de que o homem recebeu delegação de Deus para, com seu progresso, terminar a construção da cidade terrena, e de que a isso também visou, e muito principalmente, sua Redenção: a libertá-lo de todas as escravidões (p. 43).
Livra-se, assim, o homem, do pecado original, liberando-se sua razão da submissão a toda ordem que não seja construída por essa mesma razão em constante evolução.
Fica desse modo preparado o caminho para as maiores audácias, como a expressada por Teilhard de Chardin em "O que creio": "Uma convergência geral das Religiões sobre um Cristo Universal que no fundo satisfaz a todas elas: tal me parece a única conversão possível do Mundo, e a única forma imaginável para uma Religião do porvir".
Eis, segundo o Autor, o pináculo da trama progressista. E, dizemos nós, não é outra a finalidade do falso ecumenismo progressista, que tende a destruir as fronteiras entre a verdade e o erro. A meta desse progressismo é bem aquela apontada por ‘Teilhard de Chardin: a convergência geral das religiões sobre um "Cristo Universal" que no fundo satisfaça a todas elas. Ou, em outras palavras, um "grande movimento de apostasia organizada, em todos os países, para o estabelecimento de uma Igreja universal que não terá nem dogmas, nem hierarquia, nem regra para o espírito, nem freio para as paixões, e que, sob pretexto de liberdade e de dignidade humana, restauraria no mundo, se pudesse triunfar, o reino legal da fraude e da violência, e a opressão dos fracos, daqueles que sofrem, e que trabalham" (São Pio X na Carta Apostólica "Notre Charge Apostolique", de 25 de agosto de 1910).
A abolição da hierarquia, a que alude São Pio X, e que do campo religioso desce para o social, se baseia por sua vez no dogma revolucionário da igualdade: “Essa igualdade equivocada produz, com suas ânsias e em sua realização, efeitos sociais perniciosos. Os dois principais, que parecem contrapostos, mas são complementares, se resolvem em dissolução social e totalitarismo estatal, em libertinagem e perda da liberdade", como se lê à pág. 51 de "Algo sobre Temas de Hoy".
Confirmando a lição da História, também em nossos dias o erro religioso da gnose e suas inseparáveis seqüelas, que são o panteísmo e o evolucionismo, têm o socialismo e o comunismo por sua monótona conseqüência no campo social e político, tal como se dá com o progressismo, que se acha logicamente ligado a esses dois grupos de erros.
Eis, em rápido escorço, algumas considerações a que nos leva o substancioso livro do Sr. Juan Vallet de Goytisolo, verdadeira lufada de oxigênio em meio ao empestado ambiente progressista que vai contaminando e poluindo todo o orbe.
Já estava encerrada a presente edição, quando recebemos a triste notícia do falecimento do Revmo. Frei Jeronimo van Hintem, O. Carm., ocorrido no dia 1.o de novembro em São Paulo. Em nosso próximo número prestaremos à memória daquele dileto amigo a homenagem de nosso reconhecimento e nosso afeto.
Convulsões marxistas na Igreja
L. S. S.
O público brasileiro, e sul-americano em geral, tem bem presente o doloroso problema da infiltração esquerdista em meios católicos. O abaixo-assinado promovido pela TFP brasileira e suas congêneres da Argentina, Chile e Uruguai, com dois milhões de assinaturas, pedindo a Paulo VI providências contra esse escândalo, dá disso uma prova eloqüente.
Tal problema não é, infelizmente, restrito ao nosso continente, mas tem uma amplitude verdadeiramente universal.
É justamente a esta conclusão que chega o consagrado jornalista francês André Laforge em seu documentadíssimo trabalho "CONVULSIONS MARXISTES DANS L'EGLISE", publicado como suplemento ao n.° 133 do combativo e sempre bem informado boletim "CICES", editado em Paris pelo "Cercle d'Information Civique et Sociale".
Em uma visão de conjunto do problema, o Autor ressalta a responsabilidade de importantes setores da Hierarquia na presente crise: "Vêem-se Bispos e Religiosos empregarem o vocabulário dos marxistas, na louca esperança de serem melhor compreendidos pelo povo. Suas pueris inflexões demagógicas não convencem ninguém, mas ridicularizam a Igreja e inquietam os governos" (p. 9).
Os teólogos da revolução, encontrando o campo livre, não perdem oportunidade para a sua pregação subversiva. O Pe. Girardi, por exemplo, ex-professor do Ateneu Salesiano, de Roma, afirma: "Se a luta sem amor se torna estéril e contra-revolucionária, o amor sem luta de classes é ilusório e mascara o egoísmo e a preguiça" (p. 25). "Amar os homens é, hoje em dia, fazer a revolução", proclama o Pe. Blanquart, professor de sociologia no Instituto Católico de Paris, em entrevista ao semanário comunista chileno "Punto Final". E acrescenta: "Encontram-se hoje em dia, cada vez mais, pessoas que se afirmam ao mesmo tempo marxistas e cristãs. E eu sou uma delas" (p. 33).
Descrevendo o papel da sexualidade na subversão em ambientes católicos, o Sr. Laforge menciona o livro do conhecido escritor Paul Scortesco, "Du Fond de l'Abime", o qual transcreve uma passagem da revista "Echanges", das Freiras Auxiliadoras do Purgatório: "Porque a sexualidade constitui uma questão de classe é que os grupos políticos são tão reticentes quanto à libertação sexual e sua utilização na luta revolucionária" (p. 53).
"A paz, arma de guerra do marxismo" é o título sugestivo de outro capítulo de "Convulsions Marxistes dans l'Eglise". O pacifismo, tão em voga na esquerda-católica — mostra o Autor — nunca está voltado contra o comunismo; bem ao contrário. Por outro lado, tem-se visto o ecumenismo servindo ao comunismo. O Conselho Ecumênico das Igrejas e a Federação Luterana Mundial têm enviado auxílios em espécie e em dinheiro aos guerrilheiros comunistas que lutam em Angola, em Moçambique e na Guiné Portuguesa (p. 67).
Estudando a penetração marxista no mundo católico — na Europa, nos EUA, na África, na América Latina — o Autor lembra a ação das centrais da subversão clerical: o IDOC, o CIDOC de Cuernavaca, México, e a revista "Informations Catholiques Internationales", ligada ao movimento comunista polonês de denominação católica, "Pax".
Tratando da América Latina, refere-se o Sr. André Laforge à atuação de Bispos como D. Helder Câmara e Mons. Méndez Arceo, que adotam posições socialistas, mas procuram disfarçá-las sob o véu das formulações confusas. Abordando o caso chileno, lembra a responsabilidade da Democracia-Cristã do "antigo Presidente Eduardo Frei, apelidado o "Kerensky chileno" por Fabio Vidigal Xavier da Silveira" (p. 115).
* * *
O Sr. André Laforge conclui fazendo a seguinte reflexão: "Está a Igreja a caminho de Se deixar envolver pelo marxismo, ao preço de amargas desilusões? Esforça-se Ela por Se aproximar do marxismo na esperança de o conter, ou de transigir com ele porque considera inelutável a sua vitória? Assistimos ao desdobrar de uma diplomacia subtil, mas perigosa, ou à vacilação de uma doutrina que alguns não mais ousam afirmar? — São questões que deixamos a outros o cuidado de responder" (p. 136).
Calicem Domini Biberunt.
BURLADA DE NOVO A POLÍCIA DE NAPOLEÃO
Fernando Furquim de Almeida
Graças aos congregados marianos integrantes da rede subterrânea que tantos serviços prestou à Igreja durante o cativeiro do Papa em Savona, já tinham sido divulgados todos os documentos relativos à luta entre a Santa Sé e Napoleão, e a notícia da excomunhão deste por Pio VII. Faltava, no entanto, dar igual divulgação ao próprio texto da Bula "Quum Memoranda". Enquanto ele não se tornasse conhecido, o governo francês não deixaria de explorar a opinião pública, levantando nela a suspeita de que a notícia da excomunhão era falsa. Era pois indispensável a obtenção desse texto, a fim de publicálo pelo menos em Paris.
No entanto, vigiados pela polícia imperial, os congregados precisavam trabalhar com redobrada cautela para não comprometerem a própria existência da rede subterrânea. Não lhes era fácil, assim, conseguir cópia do documento, tanto mais que só o Cardeal Pacca ou o próprio Pio VII poderiam fornecêla com as necessárias garantias de autenticidade. Ora, como vimos, era impossível aproximarse do Cardeal, dada a incomunicabilidade em que ele era mantido na fortaleza de Fenestrelle. Embora mais arriscado, parecia menos difícil tentar uma audiência com o próprio Papa, desde que ela não fosse pedida por um dos congregados de Paris, que em sua maioria ostentavam grandes nomes da nobreza e eram muito visados pela polícia de Napoleão.
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O Duque Mathieu de Montmorency foi a Lyon para estudar a questão, e lá conseguiu estabelecer contato com os congregados daquela cidade, do modo aparentemente muito inocente a que aludimos em artigo anterior. As Congregações Marianas faziam um grande apostolado junto aos pobres e doentes, e era freqüente em toda a França ver seus membros socorrendo os necessitados. Havia em Lyon uma pobre enferma, de sobrenome Martin, muito conhecida na cidade, onde todos admiravam sua resignação e sua excepcional vida interior; sua conversa era atraente e edificante, razão pela qual era muito venerada. Ela mesma pusera à disposição dos congregados de Lyon sua habitação para servir de ponto de encontro com os membros parisienses da rede. Era um local seguro, e nunca a polícia poderia ter a ideia de procurar ali os católicos que desafiavam a argúcia dos seus agentes.
Reunidos nesse local, o Duque Mathieu de Montmorency, o Conde Alexis de Noailles, que já se encontrava em Lyon, Benoit Coste, Franchet d’Esperey e outros congregados puderam combinar calmamente todo o plano da ida de um emissário a Savona para obter o texto oficial da Bula. Ficou resolvido que seria enviado Claude Berthaud du Coin. Primeiro assistente da Congregação de Lyon, ele era ainda jovem e não estava comprometido com a divulgação dos documentos anteriores. Para se desincumbir de sua missão, deveria pôrse em contato com a Amicizia de Turim, a qual já conseguira chegar até Pio VII para entregar os donativos arrecadados entre os banqueiros italianos.
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Berthaud du Coin aceitou o encargo com verdadeira alegria, e logo deu início à sua perigosa viagem. Foi primeiro a Chambéry, onde se encontrou com o Padre Rey, congregado de Lyon e um dos chefes da Aa do Seminário, o qual podia apresentálo aos católicos italianos sem o expor a grave risco, pois se o emissário fosse preso com cartas de recomendação dos chefes da rede subterrânea, seria tratado ao menos como suspeito pela polícia de Napoleão. Em Turim esteve com o Padre Lanteri, com quem se confessou. Esse encontro também não chamou a atenção, porque o Padre Lanteri era conhecido como grande confessor, sendo muito procurado por viajantes atraídos por sua fama. Seguiu depois para Mondovi, onde se encontrou com o Cavaleiro Cesare Renato Galleani d’Agliano. Fora este quem entregara a Pio VII os donativos que a Amicizia conseguira, e podia orientar Berthaud du Coin sobre o meio de se aproximar do Papa.
O encontro com o Cavaleiro d’Agliano exigia maior cautela, razão pela qual o jovem congregado se apresentou como um turista inglês, grande admirador da Itália e interessado em ter um guia que o ajudasse a conhecer melhor as maravilhas da cidade. Os dois falavam só em inglês e fizeram vários passeios juntos. Num deles, o Cavaleiro levou o viajante ao palácio do Bispo Vincenzo Maggioli, chamado de "Tio Vincenzo" na linguagem cifrada que usavam os da rede. Mons. Maggioli deu a du Coin uma carta de apresentação para o camareiro do Papa, Andrea Morelli, já conhecido da rede subterrânea pelo seu devotamento a Pio VII e pelos serviços que prestara ao Duque Mathieu de Montmorency por ocasião da viagem do Pontífice para a prisão.
Em Savona, Berthaud du Coin procurou logo Andrea Morelli, que o levou para assistir à Missa celebrada pelo Papa. Terminado o Sacrifício, Pio VII dirigiu algumas palavras aos presentes, evitando uma audiência mais demorada, para não levantar suspeitas. Mas o tempo foi suficiente para que Berthaud du Coin pudesse combinar com o camareiro o modo de fazer chegar às mãos do Papa algumas consultas dos congregados, que infelizmente não sabemos quais foram, e o pedido do texto da Bula.
O emissário de Lyon trazia tudo preparado. Escrevera nas margens de algumas páginas de um livro as consultas, e indicou ao camareiro quais eram essas páginas. Na tarde desse mesmo dia, como fora combinado, Andrea Morelli se encontrava numa ponte do centro da cidade conversando com um amigo. Berthaud du Coin aproximouse, e sem se afastarem muito da outra pessoa, pediu ao camareiro que fizesse chegar ao Santo Padre o livro que levava, como uma recordação sua, desculpandose por não revelar a sua identidade para evitar complicações. Ele se apresentava como um viajante temeroso, que queria homenagear o Papa, mas não desejava comprometerse.
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No dia seguinte, Morelli envioulhe as respostas e uma cópia da Bula. Berthaud du Coin voltou rapidamente para Lyon, e de lá outro congregado levou a Bula "Quum Memoranda" para Paris, de onde seu texto, cuidadosamente copiado, foi enviado para o Padre Jean Marie de Lamennais, na Bretanha, e para elementos da rede em Bordeaux e outras grandes cidades francesas.
Foi logo reimpressa a "Correspondence authentique", que divulgara os primeiros documentos e incluía agora o próprio texto oficial da excomunhão, em latim, e a sua tradução. Mais uma vez a polícia de Napoleão fora vencida, demonstrando que de pouco adiantara o fechamento das Congregações Marianas.
ENFERMIDADE INFANTIL DA ESQUERDA CHILENA
J. de Azeredo Santos
Segundo noticiou a imprensa diária, a Rádio Moscou, comentando os acontecimentos políticos do Chile, censurou duramente o MIR — Movimento de Esquerda Revolucionária — classificando seus dirigentes como "irresponsáveis", por motivo dos choques armados havidos entre miristas e a polícia de Allende e da "sabotagem contra as medidas adotadas pelo presidente". Esses extremistas de esquerda fariam o jogo das forças de direita "interessadas em dividir a Unidade Popular" ("O Estado de São Paulo", de 16 de agosto p. p.).
Também em Santiago o Partido Comunista criticou, o "infantilismo revolucionário da extrema esquerda", afirmando que "seu objetivo é dificultar o processo revolucionário do país" (jornal cit., de 16 de agosto).
Em declarações à imprensa, o secretário geral do PC andino, Senador Luis Corvalan, frisava na mesma ocasião: "Já dissemos e reiteramos hoje que combatemos as posições da extrema esquerda tanto no campo político como no ideológico. Contudo, não advogamos medidas repressivas contra elas" ("O Estado de São Paulo", de 16 de agosto).
Na realidade, dentro da perfídia revolucionária, trata-se de uma tática muito sagaz, embora já um tanto gasta e desmoralizada, pois a missão desses ferrabrases da extrema esquerda é de realçar junto à opinião pública, pela força do contraste, a "moderação" com que agem o camarada Allende e seus comparsas da Unidade Popular.
Dessa farsa se ocupou com mais clareza o matutino "La prensa" de Lima, ao analisar a situação chilena: "Paradoxalmente, o maior perigo para a experiência marxista feita pelo presidente Salvador Allende, não vem do centro, nem da direita, nem da Democracia-Cristã, mas sim da extrema esquerda marxista. [...] Tanto Allende quanto o grupo político que o acompanha pretendem conduzir o Chile ao marxismo total. A extrema esquerda, simbolizada pelo MIR, também deseja a mesma coisa. Mas estão divididos quanto aos métodos que devem aplicar para tal fim. Nessa divergência, indubitavelmente, Allende e o Partido Comunista agem com maior inteligência". Considerando as reações da opinião chilena e o perigo de uma intervenção do Exército, a subversão comunista tem de se desenvolver segundo um plano cheio de cautelas. "À luz desse plano, os comunistas se esforçam por respeitar a lei e a ordem, não para protegê-las, mas para poder liquidá-las melhor quando chegar o momento preciso. É por isso que afirmamos que, nessa divergência, Allende e o PC agem com maior inteligência" (apud "O Estado de São Paulo", de 13 de agosto).
Essa atuação mais inteligente se acha inteiramente conforme com as recomendações de Lenine no seu pequeno e nunca assaz citado manual, que desde 1920 guia os passos dos líderes comunistas da "linha justa". Falamos de "A enfermidade infantil do esquerdismo no comunismo".
Nessa obra, Lenine critica acerbamente a falta de maleabilidade dos revolucionários que se obstinam em usar exclusivamente métodos extremistas, numa atitude rígida e isolacionista, por não compreenderem a necessidade da transigência e das contemporizações, bem como dos compromissos com outras alas socialistas, ou mesmo com liberais e burgueses, tendo sempre presente que a meta final exige que se deixem à beira da estrada esses aliados ocasionais quando se tornam desnecessários e incômodos.
Segundo Lenine, os revolucionários atacados da doença do infantilismo se obstinam em não compreender "que cumpre retroceder, que cumpre saber retroceder, que é obrigatório aprender a atuar legalmente nos parlamentos mais reacionários, nas organizações sindicais, nas cooperativas, nas mutualidades e outras semelhantes, mesmo as mais reacionárias" (obra citada, Lautaro Buenos Aires, 1946, p. 25).
Sem esse trabalho de infiltração, sem essa tática dos recuos, dos compromissos, sem o uso das chamadas possibilidades legais, isto é, de toda uma série de medidas administrativas e legislativas obtidas através da influência comunista sobre governos e parlamentos ditos reacionários, a causa revolucionária ficaria grandemente emperrada e, mesmo, conforme o ambiente, sem possibilidade de vitória.
Como vemos, a chamada "via chilena" de Allende para a implantação do marxismo, nada mais é do que a via leninista.
Mas há outras lições importantes a serem tiradas do citado manual.
Uns dos maiores entraves à obra revolucionária acha-se na classe média, ou, como diz Lenine, "na força dos costumes, na força da pequena produção. Pois, por desgraça, permaneceu no mundo muita pequena produção, e esta engendra o capitalismo e a burguesia constantemente, cada dia, cada hora, por um processo espontâneo e em massa" (obra citada, pp. 17-18).
Em que pese a demagogia dos "sapos" e da esquerda dita católica, inclusive eclesiástica, não é o supercapitalismo o maior entrave ao comunismo ou ao socialismo. O grande obstáculo vem a ser o pequeno proprietário, o pequeno produtor, o pequeno burguês: "Suprimir as classes não consiste unicamente em expulsar os proprietários de terras e os capitalistas, — mas também em suprimir os pequenos produtores de mercadorias. Quanto a estes, entretanto, é impossível expulsá-los, é impossível esmagá-los: dever-se-á entrar em entendimento com eles, pode-se (e deve-se) transformá-los, reeducá-los mediante um trabalho de organização muito longo, lento e cauteloso. Eles cercam o proletariado, por todos os lados, de elementos pequeno-burgueses, impregnam-no destes elementos, desmoralizam-no com eles, provocam constantemente no seio do proletariado recaídas de pusilanimidade pequeno-burguesa, de atomização, de individualismo, de oscilações entre a exaltação e o abatimento" (obra citada, pp. 49-50).
E acrescenta Lenine: "É mil vezes mais fácil vencer a grande burguesia centralizada, do que vencer milhões e milhões de pequenos patrões" (loc. cit.).
Por outras palavras, a classe média desmente a teoria marxista da inexorabilidade da concentração capitalista e da consequente proletarização universal. E a ação diretamente revolucionária e comunista mostra-se impotente em face dessa montanha intransponível. A solução só pode vir através da violência, como na Rússia, na China e em Cuba, ou através da ação sub-reptícia, por meio de medidas fiscais e legislativas que promovam o gradativo empobrecimento e consequente desaparecimento dessa classe média, — de preferência, pela atuação de aliados não ostensivamente comunistas, como no Chile vem sendo a dos democratas-cristãos desde os tempos do lamentável governo de Frei, que em sua obra nefasta também contou com elementos tidos como conservadores. Sem nos esquecermos da atuação da esquerda-católica, com o beneplácito do Cardeal Silva Henríquez.