O CUSTO DO COMUNISMO NA CHINA E NA RÚSSIA
C. A.
Por iniciativa do falecido Senador Thomas J. Dodd, a Subcomissão de Segurança Interna do Senado norte-americano incumbiu o Prof. Richard L. Walker, especialista em assuntos chineses, de preparar um estudo sobre o "Custo humano do comunismo na China".
Publicando o relatório do Prof. Walker (1), o Senador James O. Eastland, do Mississipi, Presidente daquela Subcomissão, fê-lo acompanhar de uma introdução, da qual desejamos transcrever alguns tópicos de relevante importância, mesmo porque esse texto chega a nosso conhecimento em momento particularmente oportuno. Como efeito, a visita do Presidente Nixon à China vem dando ensejo a uma verdadeira atroada publicitária, através da qual se procura, via de regra, apresentar um retrato favorável e, portanto, deformado do comunismo chinês. — Os subtítulos são desta Redação.
Desprezando a evidência maciça
Por alguma estranha razão — escreve o Senador Eastland — muitos dos jornalistas que têm viajado pela China para a imprensa norte-americana, a partir do convite feito por Pequim à equipe norte-americana de ping-pong, se sentiram chamados a pintar a China comunista com matizes os mais positivos e a desprezar a maciça evidência de desumanidade e de agressão que tem caracterizado o domínio comunista naquele país.
É um pouco como se os repórteres norte-americanos na Alemanha de Hitler, na década de 30, se tivessem limitado a noticiar que as ruas se achavam limpas, que havia um ar de prosperidade geral, que os trens corriam de acordo com o horário, que o desemprego havia sido eliminado, e que o povo parecia bem alimentado e contente. Todas essas coisas eram verdadeiras com referência à Alemanha de Hitler. Mas qualquer repórter que focalizasse exclusivamente esses aspectos do domínio nazista e desprezasse todos os aspectos negativos, inclusive a maciça preparação militar, teria sido justamente apontado como um propagandista do regime. Desnecessário é dizer que houve tais propagandistas; e, na medida em que foram bem sucedidos, conseguiram, tanto na Inglaterra como na América, tornar certos setores do público cegos à ameaça que a Alemanha nazista impunha à própria segurança deles. [...].
69 a 109 milhões de vítimas na Rússia e na China
Em um estudo análogo a este, intitulado "O custo humano do comunismo soviético", Robert Conquest, o famoso sovietólogo britânico, calculou que pelo menos 21 e meio milhões de seres humanos haviam sido executados, ou mortos por outros meios, pelas autoridades comunistas soviéticas. Isto, frisava ele, era uma estimativa mínima e os números reais poderiam muito bem ser cinqüenta por cento maiores. Ademais, avaliava que a revolução comunista, bem como a guerra civil e a fome que a acompanharam, custaram outros 14 milhões de vidas humanas. O custo humano total do comunismo soviético, por conseguinte, oscila entre aproximadamente 35 e 45 milhões de almas.
No caso da União Soviética, as estimativas foram baseadas em maciça documentação acumulada com o passar dos anos — inclusive o relato de Kruchev a respeito dos crimes da era staliniana. Quanto à China vermelha, a documentação disponível, embora não tão extensa, é ainda substancialmente suficiente para permitir avaliações dentro de largas margens. O Prof. Walker, depois de estudar todas as provas, estimou que o comunismo na China, desde a primeira guerra civil (1927-1936) até hoje, custou um mínimo de 34 milhões de vidas e que o total pode subir até cerca de 64 milhões.
Embora isto seja o caso do roto que ri do esfarrapado, é curioso notar que Moscou denunciou que "no decorrer de dez anos, mais de 25 milhões de pessoas foram exterminadas na China. [...] Só em 1960, o governo de Mao Tsé-tung exterminou mais chineses do que os mortos durante toda a guerra contra o Japão". [...].
Erros que entregaram a Europa Central aos comunistas
Na segunda guerra mundial, o fato de nos acharmos unidos na luta contra inimigos comuns nos fez entrar com a União Soviética em uma aliança de conveniência. Porque em largos setores se entendeu que não devíamos falar mal de nossos aliados, a imprensa norte-americana e a britânica se submeteram a uma espécie de autocensura quanto a toda crítica ao regime soviético. Depois ficou provado que havia apenas um curto passo para ir dessa autocensura à crença eufórica de que, se continuássemos a não ver e a não falar nada de mal a respeito de nossos aliados soviéticos, conquistaríamos a confiança e a boa vontade do governo russo e aplainaríamos o caminho para a cooperação pacífica no período de pós-guerra.
E assim fechamos os olhos aos registros da História; e fechamos os olhos ao massacre da floresta de Katyn, em que os soviéticos assassinaram, a sangue frio, 10 mil oficiais poloneses; e fechamos os olhos à traição russa no levante de Varsóvia. Receoso de uma profunda penetração soviética na Europa, e convencido de que o exército vermelho não se limitaria a simplesmente libertar os países em que entrasse e a depois se retirar, Churchill concitou fortemente os aliados a invadirem a Europa através dos Bálcãs em vez de o fazerem através da França, de modo que o encontro com os russos fosse o mais recuado possível para leste. Mas resistimos aos apelos de Churchill, em parte porque desejávamos evitar qualquer coisa que pudesse despertar as suspeitas dos soviéticos, em parte porque nossos líderes militares pensavam em termos puramente militares e não em termos de ulteriores conseqüências políticas. Na fase final da guerra na Europa estava ao nosso alcance tomar tanto Praga quanto Berlim, — mas nos abstivemos de fazê-lo porque houve o temor de que isso causasse ressentimento nos russos. Foram essas falhas militares, somadas às nossas falhas diplomáticas em Yalta e Potsdam, que entregaram toda a Europa Central ao domínio comunista. [...].
Este o alto preço que tivemos que pagar na Europa por termos deixado de nos lembrar de certas coisas essenciais sobre o comunismo soviético, durante a euforia que caracterizou nossa aliança militar na segunda guerra mundial.
O que custou a ocupação da Mandchúria pelos soviéticos
No Extremo Oriente, tivemos que pagar um preço igualmente alto por fecharmos os olhos à verdade sobre o regime soviético e sobre as intenções soviéticas. Porque olhamos a Rússia comunista apenas como uma aliada e não como uma antagonista potencial, fizemos concessões à custa de nossos aliados chineses para pôr Stalin na guerra contra o Japão nos derradeiros dias desta — para sermos exatos, a 8 de agosto de 1945. Em visão retrospectiva, é claro que devíamos ter feito tudo o que estava em nossas mãos para deixar Moscou ciente de que considerávamos sua ajuda desnecessária naquela área e para dissuadi-la de se mover contra os japoneses no Extremo Oriente. O resultado imediato de nossa inocência foi que os soviéticos, praticamente sem combater, receberam a rendição de um milhão de homens do exército japonês de Kwantung, com todas as suas armas e munições. A História consignará que a ocupação soviética da Mandchúria e as quantidades maciças de armas e munições entregues aos comunistas chineses peles soviéticos, desempenharam um papel decisivo na ascensão dos comunistas ao poder na China continental. E é indubitavelmente claro que, se os soviéticos não houvessem ocupado a Coréia do Norte e imposto ali um regime títere, não teríamos tido a, guerra da Coréia. Finalmente, é mais do que provável que não teria havido a guerra do Vietnã.
A validade destas asserções é confirmada até a evidência por um artigo notavelmente franco que apareceu em número recente da "World Marxist Review", órgão teórico internacional dos partidos comunistas e operários. Eis o que tal artigo tem a dizer sobre o papel decisivo que a ocupação soviética da Mandchúria desempenhou na revolução comunista chinesa:
"A vitória soviética na Mandchúria teve um efeito direto sobre o progresso da revolução chinesa. As armas do exército de Kwang-tung e os recursos militares-industriais da Mandchúria foram entregues às forças revolucionárias chinesas. Não menos importante para a vitória do movimento de libertação nacional na China foi o fato de as ações políticas e diplomáticas soviéticas frustrarem as intenções do imperialismo norte-americano e do Cuomintang de esmagar a revolução.
"No outono de 1945 o Comando soviético na Mandchúria negou ao Cuomintang facilidades para o desembarque de tropas em Dairen (Porto Dalny). Tampouco foi permitido ao Cuomintang violar o Ponto 4 do acordo sobre Porto Artur, segundo o qual a defesa daquela fortaleza naval fora confiada à URSS. Isto barrou os desígnios dos Estados Unidos e do Cuomintang de usar a Península de Liao-tung para golpear pelas costas as forças revolucionárias na Mandchúria. Dairen e Porto Artur, controlados pelo Comande soviético, foram bases de apoio para as forças revolucionárias chinesas. Tanto assim que o Almirante norte-americano Sherman disse em agosto de 1945 que, se os dois portos tivessem sido abertos às tropas dos Estados Unidos e de Chiang Cai-chek, o desenvolvimento do pós-guerra na China teria tomado um rumo inteiramente diverso.
"As regiões da Mandchúria e do Norte da China constituíram a área estratégica a partir da qual as tropas regulares do Exército Popular de Libertação lançaram sua veloz ofensiva para o sul, libertando o país, forçando o regime do Cuomintang a fugir, e compelindo seus patrões imperialistas a se retirarem. E ninguém a não ser um exército regular poderia ter esmagado as tropas do Cuomintang, porque a milícia não era mais que auxiliar nesse esforço, uma tropa de reserva que garantiu a retaguarda do Exército de Libertação Nacional.
"A aliança das forças revolucionárias chinesas com a União Soviética e com o movimento comunista mundial contribuiu decisivamente para a vitória da revolução chinesa" (World Marxist Review", outubro de 1970, p. 86).
O artigo foi igualmente franco ao tratar do papel dos soviéticos na implantação do regime comunista na Coréia do Norte. [...] Finalmente, deixou ele claro [...] que a invasão soviética da Mandchúria representou a cunha inicial de uma ofensiva continental coordenada que chegou até o Vietnã do Sul e facilitou o êxito da revolução de Ho Chi Mihn. [...].
Se nossos líderes houvessem compreendido melhor a natureza do comunismo soviético, teriam mais claramente previsto todas as consequências catastróficas que haviam de decorrer da entrada dos soviéticos na guerra contra o Japão, à última hora. E se tivessem previsto essas consequências, poderiam ter sido levados a evitá-las desencorajando a ocupação soviética da Mandchúria e da Coréia ou, se necessário fosse, antecipando-se a ela" (pp. de "The Human Cost of Comwunism in China").
* * *
Se somarmos a tudo isso os sucessivos desastres que têm caracterizado a atuação dos líderes "yankees" no Sudeste Asiático, como ainda recentemente víamos nestas mesmas colunas ("General norte-americano denuncia política de Kennedy no Vietnã", por Cunha Alvarenga — "Catolicismo", n.° 253, de janeiro de 1972), tão concatenada série de erros, que só acontecem no campo dos adversários do comunismo, nos fazem lembrar o que dizia o bem informado Marechal Smuts, então Primeiro-Ministro da África do Sul, segundo o qual o último conflito armado que ensanguentou o mundo inteiro não teria sido propriamente uma guerra, mas uma revolução. Tal revolução se vem desenvolvendo por mercê de uma atitude suicida dos líderes do Ocidente, sempre para proveito do imperialismo soviético.
Como não pensar nas profecias de Fátima, diante de um quadro tão sombrio?
1) "The Human Cost of Communism in China", Subcommittee to Investigate the Administration of the Internal Security Act and other Internal Security Laws, of the Committee on the Judiciary, United States Senate, U. S. Government Printing Office, Washington, 1971.
Fósforos acesos, canivetes em chuva, e um grande Bispo
Plinio Corrêa de Oliveira
Que vem a ser precisamente o progressismo? Uma corrente socioeconômica, ou filosófico-teológica?
- Em outros termos, seu objetivo último é a edificação, em escala mundial, de uma sociedade igualitária, a supressão das fronteiras e dos exércitos, e a consequente implantação de uma república universal? Ou nada disso está em seu programa, e ele se restringe ao campo religioso?
- Neste caso, que visa ele, então? O estabelecimento de uma só religião universal, abolidos os dogmas ou as crenças que separam hoje as diversas religiões, com a correlata introdução de uma moral permissivista, que importe na supressão de todos os preceitos? E ainda — por fim — a instauração de uma estruturação eclesiástica horizontal e simplificada, que confira ao povo a missão dirigente, até aqui a cargo da Hierarquia?
Se fizermos estas perguntas à primeira pessoa genuinamente alfabetizada que encontrarmos pela rua, provavelmente ela hesitará, emitirá respostas incompletas e contraditórias, e terminará por dizer que não sabe bem. Pois nesta confusão está — penso eu — a grande maioria de nosso público. O mais das vezes, só especialistas estão em condições de responder à pergunta com toda a clareza. Mas estes — a triste experiência o mostra — evitam quase sempre ser claros. Os antiprogressistas, por medo: sabem que uma resposta límpida e corajosa lhes atrairá sobre a cabeça uma chuva de fósforos acesos, ou de canivetes de ponta para baixo. Os progressistas, por prudência. Não lhes convém a clareza, pois a obra das trevas só nas trevas encontra condições para medrar.
E assim, a grande maioria continua desinformada, hesitante, confusa. Com vantagem, evidentemente, para o progressismo...
* * *
As perguntas com que iniciei este artigo, nem sequer se costuma apresentá-las com tanta precisão. A razão disto não é difícil de encontrar. Com efeito, basta que sejam analisadas com atenção pelos espíritos mais cultivados e penetrantes, para que a resposta surja, neles, espontânea e límpida como um jorro de luz.
Realmente, não há que decidir se o progressismo é uma corrente de um ou de outro tipo. O “ideal” temporal, que de início mencionei, e o “ideal” religioso se postulam reciprocamente. Um é o corolário necessário do outro. Quem aspira à república universal igualitária, tem a alma forçosamente propensa para a religião universal igualitária. E reciprocamente. É impossível a uma corrente de pensamento e de ação, aceitando uma dessas duas bandeiras, não empunhar ao mesmo tempo a outra. Atuando no campo político, tal corrente produzirá automaticamente reflexos no campo religioso. E vice-versa.
Assim, o progressismo não é só socioeconômico ou só teológico-filosófico. Pela própria natureza das coisas, ele é forçosamente uma coisa e outra.
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Isto posto, outro tema sobre o qual o grande público tem uma noção das mais vagas, também se esclarece. É o do misterioso processo de “autodemolição” da Igreja, de que falou certa vez Pauto VI(1) . — Como pode a Igreja imortal ser sujeita a um processo de autodemolição? No que consiste ele? Pergunta-se muita gente? — O Pontífice não o disse. Mas já agora, em função do que acabamos de ver, a resposta é iniludível. Essa demolição consiste na penetração velhaca, silenciosa, torrencial, solapadora, da influência modernista nos meios católicos. Tal influência visa substituir neles a fidelidade a uma Igreja única, hierárquica, mestra infalível da verdade e do bem, em luta incessante contra os cismas e as heresias, mantenedora de preceitos morais austeros e imutáveis, pela adesão a uma Igreja sem dogmas nem hierarquia, aberta a todos os erros como a todas as verdades, e em paz com todos os cismas e todas as heresias. A influência progressista visa também extirpar da alma dos fiéis o ideal tradicional da civilização cristã, projeção temporal do próprio conceito de Igreja Católica, substituindo-o pelo “ideal” de uma “civilização” comunista mais ou menos velada.
(1) Discurso a mestes e alunos do Seminário Lombardo de Roma, em 7 de dezembro de 1968.
E essa demolição merece ser chamada autodemolição, na medida em que é levada a cabo pelos próprios filhos da Igreja, clérigos ou leigos.
Se tudo isto fosse dito e explicado, não nos exíguos limites de um artigo de jornal, mas em um livro sério, que expusesse e refutasse as principais dentre as teses que formam o conteúdo doutrinário do progressismo — um livro documentado, completo, atraente e acessível — que imenso bem daí adviria para o Brasil!
* * *
Com uma capa nobremente episcopal — báculo dourado sobre fundo de brocado vermelho — este livro providencial acaba de sair a lume.
Não temendo nem os fósforos acesos, nem a chuva de canivetes, escreveu-o D. Antônio de Castro Mayer, Bispo de Campos: o Prelado que a imprensa diária, tratando da recente reunião de Bispos em Itaipava, qualificava, a justo título, de “o Bispo mais conservador do Brasil”.
O nome de D. Mayer é mencionado com admiração e respeito por todos quantos, nas últimas décadas, vêm acompanhando de perto o desenvolvimento da crise progressista no Brasil. O valor intelectual do personagem, a profundidade de seus pensamentos, a coragem de suas atitudes, não permitiam que tão grande vulto passasse despercebido. Entretanto, o que nem todos sabem é que as obras de D. Mayer, traduzidas em vários idiomas, lhe granjearam, fora de nosso País, uma larga reputação. A tal ponto que na Europa como nas duas Américas há hoje gente que fita a Diocese de Campos como o paraíso dos que querem conservar bem erguido o pendão glorioso da luta contra o progressismo.
Desde 1950 até nossos dias, D. Antônio de Castro Mayer vem publicando impressionantes documentos sobre os vários aspectos desta velada ofensiva da religião universal e da república universal nos meios católicos. Se sua grande voz tivesse sido ouvida como merece, o País não teria sofrido os abalos perigosos a que o cripto-comunismo católico o expôs. E nosso horizonte ideológico não estaria tão vergonhosamente poluído como nestes dias, marcados entretanto por um promissor progresso econômico.
Reunindo em um volume intitulado “Por um Cristianismo Autêntico” (Editora Vera Cruz, São Paulo, 1971), nove Cartas Pastorais, uma Instrução Pastoral e uma Circular, D. Antônio de Castro Mayer acaba de tomar uma medida de grande alcance para remediar os males que sua voz procurou evitar.
Recomendo ao leitor que se muna desta obra, a qual não pode faltar em sua biblioteca. Aconselho-o a que vá diretamente ao opulento índice alfabético de matérias, na página 383 e seguintes. Nele verá o elenco de todas as questões que o preocupam, juntamente com as indicações de onde encontrar, no livro, a solução. Esta, enunciada sempre com clareza lapidar, farta erudição, lógica robusta e, sobretudo, ortodoxia imaculada, ajudá-lo-á a passar, com a alma ilesa, pela atmosfera fuliginosa e deteriorada do mundo contemporâneo.
Transcrito da “Folha de S. Paulo”, 20.2.1972