Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 197 | página 04-05

SIMPLES RELATO DO QUE SE PASSOU EM FÁTIMA QUANDO NOSSA SENHORA APARECEU

ACRESCIDO DOS FATOS POSTERIORES

A. A. Borelli Machado

Nos livros que tratam dos acontecimentos de Fátima, a descrição das aparições e os colóquios de Nossa Senhora com os videntes aparecem insertos, segundo a ordem cronológica, numa sequência de fatos que englobam as repercussões locais que as aparições provocaram, os interrogatórios dos videntes e das testemunhas, as curas e conversões extraordinárias que se seguiram, os pormenores tão atraentes da ascensão espiritual das privilegiadas crianças, e numerosos episódios conexos. Nada mais lógico e compreensível, por certo.

Lidos os livros, porém, surge em muitos espíritos o desejo de dispor de um texto que lhes facilite deter-se mais especialmente sobre o conteúdo mesmo das aparições, no empenho de penetrar sempre mais o sentido da mensagem que Nossa Senhora veio comunicar aos homens, de modo a poder atender-lhe às prescrições.

No intuito de satisfazer a asse anelo tão legítimo, "Catolicismo" publica hoje um relato circunscrito ao que se passou entre a Virgem, o Anjo de Portugal, e os videntes, isto é, um relato no qual todos os outros fatos, edificantes ou pitorescos, que entremeiam a história de Fátima, foram deixados de lado com vistas a fixar a atenção sobre o essencial.

À relação das manifestações do Anjo em 1916 e de Nossa Senhora em 1917 segue-se a das revelações particulares recebidas por um ou outro dos videntes isoladamente (em especial as da Irmã Lúcia). Constituindo um complemento das aparições da Cova da Iria, não poderiam elas faltar aqui.

* * *

Para este trabalho, baseamo-nos principalmente em duas obras muito conhecidas, que recomendamos aos leitores desejosos de possuir uma história completa de Fátima. A primeira delas é a do escritor católico norte-americano William Thomas Walsh, "Our Lady of Fatima", com tradução em português editada no Brasil e intitulada "Nossa Senhora de Fátima". A segunda obra é a do Pe. João De Marchi, I. M. C., sob o título de "Era uma Senhora mais brilhante que o sol..."

O Pe. De Marchi passou três anos em Fátima interrogando as principais testemunhas dos acontecimentos e anotando cuidadosamente seus depoimentos. Entrevistou a Irmã Lúcia e pôde compulsar os manuscritos da vidente, dos quais falaremos adiante.

William Thomas Walsh também esteve em Portugal realizando inquéritos e entrevistas. Falou com a Irmã Lúcia e baseou seu livro, de modo especial, nas quatro Memórias por ela escritas.

As obras do Pe. De Marchi e de Walsh são bastante fidedignas, e concordam, fundamentalmente, entre si.

Entretanto, para maior segurança, confrontamo-las com outros autores, que esclarecem certos fatos e completam alguns colóquios. Eles vão citados nos lugares correspondentes.

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Infelizmente, não nos foi dado recorrer diretamente à fonte mais autorizada, que são, sem dúvida, os manuscritos de Lúcia. Com efeito, permanecem eles, até hoje, inéditos, salvo um ou outro fragmento reproduzido por autores que puderam examiná-los.

O primeiro relato escrito pela Irmã Lúcia, em 1936, num caderno pautado comum, é uma "Contribuição de memórias pessoais para a biografia da pequenina Jacinta". No segundo, intitulado "História da Fátima tal qual ela é", datado de 1937, Lúcia refere-se pela primeira vez, e de passagem, ao Anjo da Paz. Por obediência, e por inspiração do alto, silenciara, até então, a respeito. Os dois documentos — habitualmente designados como Memórias I e II — correspondem a mais de 80 páginas datilografadas.

Em 1941, o Bispo de Leiria ordenou à vidente que escrevesse tudo o mais que soubesse da vida dos dois outros confidentes de Nossa Senhora, bem como fizesse uma narração pormenorizada das aparições, sem calar nada de quanto se pudesse então divulgar. Os dois documentos, que costumam ser citados como Memórias III e IV, levam data de agosto e de 8 de dezembro de 1941, respectivamente, correspondendo a mais de 50 páginas datilografadas. No último manuscrito, Lúcia aponta certos erros que havia encontrado nos mais conhecidos livros até então publicados sobre as aparições.

Permitimo-nos formular aqui o voto, que é o de toda a família de almas que se reúne em torno de "Catolicismo", de que seja dado a lume o texto integral desses preciosos manuscritos, para edificação de todos os devotos de Nossa Senhora de Fátima. Nenhuma ocasião parece melhor para publicá-los do que este ano jubilar das aparições.

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No texto a seguir apresentado, procuramos reconstituir com a maior fidelidade possível, com base nos autores que referimos a cada passo, o transcorrer das aparições. Apontamos, em diversas notas, as discrepâncias verificadas entre as principais fontes bibliográficas. Algumas dúvidas, infelizmente, persistem, as quais somente um estudo crítico dos textos básicos — relatórios diversos, processos canônicos, interrogatórios, manuscritos da Irmã Lúcia, sua múltipla correspondência etc. — com eventuais esclarecimentos da própria vidente ainda viva, poderiam resolver.

Oferecendo aos leitores este trabalho de sua redação, "Catolicismo" tem por fim contribuir para que a mensagem de Nossa Senhora de Fátima seja cada vez mais conhecida, amada e acatada.

1 — APARIÇÕES DO ANJO DE PORTUGAL E DA PAZ

Antes das aparições de Nossa Senhora, Lúcia, Francisco e Jacinta — Lúcia de Jesus dos Santos, e seus primos Francisco e Jacinta Marto, todos residentes na aldeia de Aljustrel, freguesia de Fátima — tiveram três visões do Anjo de Portugal, ou da Paz.

Primeira aparição do Anjo

A primeira aparição do Anjo deu-se na primavera ou no verão de 1916, numa loca (ou gruta) do outeiro do Cabeço, perto de Aljustrel, e desenrolou-se da seguinte maneira, conforme narra Lúcia (Memórias, IV, pág. 31):

"Alguns momentos havia que jogávamos, e eis que um vento forte sacode as árvores e faz-nos levantar a vista para ver o que se passava, pois o dia estava sereno; e eis que começamos a ver, a alguma distância, sobre as árvores que se estendiam em direção ao nascente, uma luz mais branca que a neve, com a forma de um jovem transparente, mais brilhante que um cristal atravessado pelos raios do sol.

À medida que se aproximava, íamos-lhe distinguindo as feições. Estávamos surpreendidos e meio absortos e não dizíamos palavra.

Ao chegar junto de nós, disse:

— "Não temais. Sou o Anjo da Paz. Orai comigo".

E ajoelhado em terra, curvou a fronte até o chão. Levados por um movimento sobrenatural, imitamo-lo e repetimos as palavras que lhe ouvimos pronunciar:

"Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não creem, não adoram, não esperam e Vos não amam".

Depois de repetir isso três vezes, ergueu-se e disse:

"Orai assim. Os Corações de Jesus e Maria estão atentos à voz das vossas súplicas".

E desapareceu".

(Cf. De Marchi, págs. 51-52; Walsh, págs. 39-40; Ayres da Fonseca, pág. 121;. Galamba de Oliveira, págs. 52-57).

Segunda aparição do Anjo

A segunda aparição, deu-se no verão de 1916, sobre o poço da casa dos pais de Lúcia, junto ao qual as crianças brincavam. Assim narra Lúcia o que o Anjo lhes disse — a ela e aos primos — então (Memórias, IV, pág. 32):

"Que fazeis? Orai! Orai muito! Os Corações de Jesus e Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia. Oferecei constantemente ao Altíssimo orações e sacrifícios".

"Como nos havemos de sacrificar?" — perguntei.

"De tudo que puderdes, oferecei um sacrifício ao Senhor em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores. Atraí assim sobre a vossa Pátria a paz. Eu sou o Anjo da sua guarda, o Anjo de Portugal. Sobretudo aceitai e suportai com submissão o sofrimento que o Senhor vos enviar".

E desapareceu".

(Cf. De Marchi, pág. 53.; Walsh, pág. 42; Ayres da Fonseca, págs. 121-122; . Galamba de Oliveira, págs. 57-58).

Terceira aparição do Anjo

A terceira aparição ocorreu no fim do verão ou princípio do outono de 1916, novamente na Loca do Cabeço, e decorreu, da seguinte forma, sempre de acordo com a descrição de Lúcia (os autores transcrevem a narração da vidente sem consignar em qual de seus manuscritos ela se encontra) :

"Estando pois aí, apareceu-nos pela terceira vez, trazendo na mão um cálice e, sobre ele, uma Hóstia, da qual caíam dentro do cálice algumas gotas de Sangue. Deixando o cálice e a Hóstia suspensos no ar, prostrou-se em terra e repetiu três vezes a oração:

"Santíssima Trindade, Pai, Filho, Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores".

Depois, levantando-se, tomou de novo o cálice e a Hóstia, e deu-me a Hóstia a mim e o que continha o cálice deu-o a beber à Jacinta e ao Francisco, dizendo ao mesmo tempo:

"Tomai e bebei o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos. Reparai os seus crimes e consolai o vosso Deus".

De novo se prostrou em terra e repetiu conosco mais três vezes a mesma oração: "Santíssima Trindade..." E desapareceu" (1).

(Cf. De Marchi, págs. 54-55; Walsh págs. 43-44; Ayres da Fonseca; págs. 122-123; Galamba de Oliveira, págs. 58-59).

■ As aparições do Anjo, em 1916, foram precedidas por três outras visões, no verão de 1915, nas quais Lúcia e outras três pastorinhas, Maria Rosa Matias, Teresa Matias e Maria Justino, viram, também do outeiro do Cabeço, pairando a certa altura sobre o arvoredo do vale, uma espécie de "nuvem, mais branca que a neve, algo transparente, com forma humana". "Era a figura como de uma estátua de neve, que os raios do sol tinham transformado em algo muito transparente". A descrição é da própria Lúcia (cf. De Marchi, págs. 50-51; Walsh, págs. 27-28; Ayres da Fonseca, pág. 119; Galamba de Oliveira, pág. 51).

II — APARIÇÕES DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO

Quando das aparições de Nossa Senhora, Lúcia de Jesus, Francisco e Jacinta Marto tinham 10, 9 e 7 anos de idade, respectivamente, tendo nascido em 22 de março de 1907, 11 de junho de 1908 e 11 de março de 1910. As três crianças moravam, como dissemos, em Aljustrel, lugarejo da freguesia de Fátima. As aparições se deram numa pequena propriedade, dos pais de Lúcia, chamada Cova da Iria, a dois quilômetros e meio de Fátima, pela estrada de Leiria. Nossa Senhora aparecia sobre uma azinheira, ou carrasqueira, de um metro ou pouco mais de altura. Francisco apenas via Nossa Senhora, e não A ouvia. Jacinta via e ouvia. Lúcia via, ouvia, e falava com a Santíssima Virgem. As aparições ocorriam por volta do meio-dia.

1ª aparição: 13 de maio de 1917

Brincavam os três videntes na Cova da Iria, quando observaram dois clarões como de relâmpagos, após os quais viram a Mãe de Deus sobre a azinheira. "Era uma Senhora vestida de branco, mais brilhante que o sol, espargindo luz mais clara e intensa que um copo de cristal cheio de água cristalina, atravessado pelos raios mais ardentes do sol", descreve Lúcia. Sua face, indescritivelmente bela, não era "nem triste, nem alegre, mas séria", com ar de suave censura. As mãos juntas, como a rezar, apoiadas no peito e voltadas para cima. Da mão direita pendia um rosário. As vestes pareciam feitas só de luz. A túnica era branca e branco o manto, orlado de ouro, que cobria a cabeça da Virgem e Lhe descia aos pés. Não se Lhe viam os cabelos e as orelhas. Os traços da fisionomia, Lúcia nunca pôde descrevê-los, pois foi-lhe impossível fitar o rosto celestial, que ofuscava. O colóquio desenvolveu-se da seguinte maneira (2) :

NOSSA SENHORA: "Não tenhais medo, Eu não vos faço mal".

LÚCIA: "Donde é Vossemecê?"

NOSSA SENHORA: "Sou do Céu" (e Nossa Senhora ergueu a mão para apontar o Céu).

LÚCIA: "E que é que Vossemecê me quer?"

NOSSA SENHORA: "Vim para vos pedir que venhai aqui seis meses seguidos (3), no dia 13, a esta mesma hora. Depois direi quem sou e o que quero. E voltarei aqui ainda uma sétima vez".

LÚCIA: "E eu também vou para o Céu?"

NOSSA SENHORA: "Sim, vais".

LÚCIA: "E a Jacinta?"

NOSSA SENHORA: "Também".

LÚCIA: "E o Francisco?"

NOSSA SENHORA: "Também irá, mas terá de rezar muitos terços".

LÚCIA: "E a Maria da Rosário do José das Neves está no Céu?"

NOSSA SENHORA: "Sim".

LÚCIA: "E a Amélia?"

NOSSA SENHORA: "Ficará no Purgatório até o fim do mundo (4).

Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser mandar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?"

LÚCIA: "Sim, queremos!"

NOSSA SENHORA: "Ides, pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto".

"Ao pronunciar estas palavras, abriu as mãos comunicando-nos — é Lúcia quem escreve — uma luz muito intensa, como um reflexo que delas expedia, penetrando-nos no peito e no mais íntimo da alma e fazendo-nos ver a nós mesmos em Deus, que era essa luz, mais claramente do que nos vemos num espelho. Então, por um impulso íntimo também comunicado, caímos de joelhos e repetimos intimamente: "'Ó Santíssima Trindade, eu Vos adoro. Meus Deus, meu Deus, eu Vos amo no Santíssimo Sacramento".

Ficaram assim alguns instantes, quando Nossa Senhora prosseguiu:

— "Rezai o terço todos os dias para alcançar a paz para o mundo e o fim da guerra".

"Começou então — descreve Lúcia — a elevar-Se serenamente, subindo em direção ao nascente, até desaparecer na imensidade do espaço, circundada de uma vívida luz que ia como que abrindo caminho no cerrado dos astros".

(Cf. De Marchi, págs. 58-60; Walsh, págs. 52-53; Ayres da Fonseca, págs. 23-26; Galamba de Oliveira, págs. 63-64).

Segunda aparição: 13 de junho

A segunda aparição foi precedida também por um relâmpago. Alguns dos espectadores, que em número de aproximadamente cinquenta tinham acorrido ao local, notaram que a luz do sol se obscureceu durante os minutos que se seguiram ao início do colóquio. Outros disseram que o topo da azinheira, coberto de brotos, pareceu curvar-se como sob um peso, um momento antes de Lúcia falar. Durante o colóquio de Nossa Senhora com os videntes, alguns ouviram um sussurro como se fosse o zumbido de uma abelha.

LÚCIA: "Vossemecê que me quer?"

NOSSA SENHORA: "Quero que venhais aqui no dia 13 do mês que vem, e que rezeis o terço todos os dias (5). Quero que aprendas a ler, e depois direi mais o que quero".

Lúcia pediu a cura de uma pessoa doente.

NOSSA SENHORA: "Se se converter, curar-se-á durante o ano".

LÚCIA: "Queria pedir-Lhe para nos levar para o Céu".

NOSSA SENHORA: "Sim, à Jacinta e ao Francisco levo-os em breve. Mas tu ficas cá mais algum tempo. Jesus quer servir-se de ti para Me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. A quem a abraçar, prometo a salvação; estas almas serão prediletas de Deus, como flores por Mim colocadas no seu trono" (6).

LÚCIA: "Fico cá sozinha?"

NOSSA SENHORA: "Não, filha. E tu sofres muito com isso? Eu nunca te deixarei. O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus".

"Foi no momento que disse estas últimas palavras — conta a Irmã Lúcia — que a Virgem abriu as mãos e nos comunicou pela segunda vez o reflexo da luz imensa que A envolvia. Nela nos vimos como que submergidos em Deus. A Jacinta e o Francisco pareciam estar na parte que se elevava para o Céu e eu na que se espargia sobre a terra. Á frente da palma da mão direita de Nossa Senhora estava um Coração cercado de espinhos que nele se cravavam. Compreendemos que era o Coração Imaculado de Maria, ultrajado pelos pecados da humanidade, que queria reparação" (7).

Quando se desvaneceu esta visão, a Senhora, envolta ainda na luz que dEla irradiava, elevou-Se da arvorezinha sem esforço, suavemente, na direção do leste, até desaparecer de todo. Algumas pessoas mais próximas notaram que os brotos do topo da azinheira estavam tombados na mesma direção, como se as vestes da Senhora os tivessem arrastado. Só algumas horas mais tarde retomaram a posição natural.

(Cf. De Marchi, págs. 76-78; Walsh, págs. 65-66; Ayres da Fonseca, págs. 34-36; Galamba de Oliveira, pág. 70).

Terceira aparição: 13 de julho

Ao dar-se a terceira aparição, uma nuvenzinha acinzentada pairou sobre a azinheira, o sol se ofuscou, uma aragem fresca soprou sobre a serra, apesar de se estar no pino do verão. O Sr. Marta, pai de Jacinta e Francisco, que assim o refere, diz que ouviu também um sussurro como o de moscas num cântaro vazio.

LÚCIA: "Vossemecê que me quer?"

NOSSA SENHORA: "Quero que voltem aqui no dia 13 do mês que vem, que continuem a rezar o terço todos os dias em honra de Nossa Senhora do Rosário (8) para obter a paz do mundo e o fim da guerra, porque só Ela lhes poderá valer".

LÚCIA: "Queria pedir-Lhe para nos dizer quem é, e para fazer um milagre para que todos acreditem que Vossemecê nos aparece".

NOSSA SENHORA: "Continuem a vir aqui todos os meses. Em outubro direi quem sou e o que quero. E farei um milagre que todos hão de ver para acreditarem" (9).

Lúcia apresenta então uma série de pedidos a Nossa Senhora, um dos quais foi a da cura do filho paralítico de Maria Carreira. Nossa Senhora respondeu que não o curaria nem o tiraria de sua pobreza, mas que rezasse todos os dias o terço em família (10) e dar-lhe-ia os meios de ganhar a vida.

Outro enfermo pedia para ir em breve para o Céu.

NOSSA SENHORA: "Que não tenha pressa: Eu bem sei quando o hei de ir buscar".

Para outros, que pediam conversões, curas e outras graças, Nossa Senhora recomendava sempre a prática do terço, que assim alcançariam as graças durante o ano.

Depois prosseguiu: "Sacrificai-vos pelos pecadores e dizei muitas vezes e em especial sempre que fizerdes algum sacrifício: Ó Jesus, é por vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria".

• O SEGREDO: A VISÃO DO INFERNO

"Ao dizer estas palavras — narra Lúcia — abriu de novo as mãos como nos dois meses anteriores. O reflexo que elas expediam pareceu penetrar a terra e vimos como que um mar de fogo e mergulhados nesse fogo os demônios e as almas como se fossem brasas transparentes e negras ou bronzeadas, com forma humana, que flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que delas mesmas saíam juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados — assim como o cair das fagulhas nos grandes incêndios — sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizavam e faziam estremecer de pavor. Os demônios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes como negros carvões em brasa" (Memórias, IV).

• OUTRA PARTE DO SEGREDO

LÚCIA: "Ai, Nossa Senhora!"

NOSSA SENHORA: "Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores. Para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração.

Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz.

A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior (11). Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre (12).

Para a impedir, virei pedir a Consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a Comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas; por fim, o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz..

Em Portugal conservar-se-á sempre o dogma da Fé.

Isto não o digais a ninguém. Ao Francisco, sim, podeis dizê-lo" (13),

Passados instantes:

"Quando rezais o terço, dizei depois de cada mistério: Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o Céu, principalmente ás que Mais precisarem" (14).

LÚCIA: "Vossemecê não me quer mais nada?"

NOSSA SENHORA: "Não, hoje não te quero mais nada".

Ouviu-se então uma espécie de trovão indicando que a aparição cessara (15).

(Cf. De Marchi, págs. 90-93; Walsh, págs. 75-77; Ayres da Fonseca, págs. 41-46; Galamba de Oliveira, págs. 72-78 e 146-147).

Quarta aparição: 15 de agosto

No dia 13 de agosto, em que deveria dar-se a quarta aparição, os videntes não puderam comparecer à Cova da Iria, pois foram raptados pelo Administrador de Ourem, que à força quis arrancar-lhes o segredo. As crianças permaneceram firmes.

Na hora costumeira, na Cova da Iria, ouviu-se um trovão, ao qual se seguiu o relâmpago, tendo os espectadores notado uma pequena nuvem branca que pairou alguns minutos sobre a azinheira. Observaram-se também fenômenos de coloração, de diversas cores, do rosto das pessoas, das roupas, das árvores, do chão. Nossa Senhora certamente tinha vindo, mas não encontrara os videntes.

No dia 15 de agosto (16), Lúcia estava com Francisco e mais um primo no local chamado Valinhos, uma propriedade de um de seus tios, quando, pelas 4 horas da tarde, começaram a se produzir as alterações atmosféricas que precediam as aparições de Nossa Senhora na Cova da Iria: um súbito refrescar da temperatura, um desmaiar do sol e o característico relâmpago. Lúcia mandou chamar às pressas Jacinta, que chegou em tempo para ver Nossa Senhora que aparecera sobre uma azinheira, ou carrasqueira, um pouco maior que a da Cova da Iria.

LÚCIA: "Que é que Vossemecê me quer?"

NOSSA SENHORA: "Quero que continueis a ir à Cova da Iria no dia 13 e que continueis a rezar o terço todos os dias".

De nôvo Lúcia pede a Nossa Senhora que faça um milagre para que todos acreditem.

NOSSA SENHORA: "Sim. No último mês, em outubro, farei um milagre para que todos creiam nas minhas aparições. Se não vos tivessem levado à aldeia (17), o milagre seria mais grandioso. Virá São José com o Menino Jesus para dar a paz ao mundo. Virá também Nosso Senhor para abençoar o povo. Virá ainda Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora das Dores" (18).

LÚCIA: "Que é que Vossemecê quer que se faça do dinheiro e das outras ofertas que o povo deixa na Cova da Iria?"

NOSSA SENHORA: "Façam-se dois andores; um leva-o tu com a Jacinta e outras duas meninas vestidas de branco, o outro leve-o o Francisco com mais três meninos também vestidos de opas brancas. O dinheiro dos andores é para a festa de Nossa Senhora do Rosário (19). O que sobrar é para ajudar a construir uma capela" (20).

LÚCIA: "Queria pedir-Lhe a cura de alguns doentes".

NOSSA SENHORA: "Sim, alguns curarei durante o ano". E assumindo um aspecto muito triste: "Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, pois vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas".

Em seguida afastou-Se em direção do leste e desapareceu (Memórias, IV, pág. 40).

Os videntes cortaram ramos da árvore sobre a qual Nossa Senhora lhes tinha aparecido, e levaram-nos para as respectivas casas. Os ramos exalavam um perfume singularmente suave.

(Cf. De Marchi, págs. 127-129; Walsh, págs. 109-110; Ayres da Fonseca, págs. 61-62; Galamba de Oliveira, pág. 89) .

Quinta aparição: 13 de setembro

Como das outras vezes, uma série de fenômenos atmosféricos foram observados pelos circunstantes, cujo número foi calculado entre 15 e 20 mil pessoas, ou talvez mais: o súbito refrescar da atmosfera, o empalidecer do sol até ao ponto de se verem as estrelas, uma espécie de chuva como que de pétalas irisadas ou flocos de neve, que desapareciam antes de pousarem na terra. Em particular foi notado, desta vez, um globo luminoso que se movia lenta e majestosamente pelo céu, do nascente para o poente, e, no final da aparição, em sentido contrário.

LÚCIA: "Que é que Vossemecê me quer?"

NOSSA SENHORA: "Continuem a rezar o terço a Nossa Senhora do Rosário, todos os dias, para alcançarem o fim da guerra. Em outubro Nosso Senhor virá também, e Nossa Senhora das Dores e Nossa Senhora do Carmo e São José com o Menino Jesus, para abençoarem o mundo. Deus está contente com os vossos sacrifícios, mas não quer que durmais com a corda, trazei-a só durante o dia" (21).

LÚCIA: "Têm-me pedido para Lhe pedir muitas coisas. Esta pequena é surda-muda. Não a quer curar?"

NOSSA SENHORA: "Durante o ano experimentará algumas melhoras".

Lúcia apresenta outros pedidos de conversões e de curas.

NOSSA SENHORA: "Alguns curarei, outros não, porque Nosso Senhor não Se fia neles".

LÚCIA: "Há muitos que dizem que eu sou uma intrujona, que merecia ser enforcada ou queimada. Faça um milagre para que todos creiam".

NOSSA SENHORA: "Sim, em outubro farei um milagre para que todos acreditem".

LÚCIA: "Umas pessoas deram-me duas cartas para Vossemecê e um frasco de água de colônia".

NOSSA SENHORA: "Isso de nada serve para o Céu (22)!"

E dito isto, elevou-Se, desaparecendo em direção ao nascente.

(Cf. De Marchi, págs. 138-139; Walsh, págs. 115-116; Ayres da Fonseca, págs. 70-71; Galamba de Oliveira, pág. 93).

Última aparição: 13 de outubro

Como das outras vezes, a aparição foi precedida pelo clarão de um relâmpago.

LÚCIA: "Que é que Vossemecê me quer?"

NOSSA SENHORA: "Quero dizer-te que façam aqui uma capela em minha honra, que sou a Senhora do Rosário (23), que continuem a rezar o terço todos os dias. A guerra vai acabar e os militares, voltarão em breve para suas casas".

LÚCIA: "Eu tenho muitas coisas para Lhe pedir. Se curava uns doentes e se convertia os pecadores..."

NOSSA SENHORA: "Alguns sim, outros não. É preciso que se emendem, que peçam perdão dos seus pecados". E assumindo um ar mais grave: "Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor que já está muito ofendido".

LÚCIA: "Não quer mais nada de mim?"

NOSSA SENHORA: "Não quero mais nada".

LÚCIA: "E eu também não quero mais nada" (`24).

Em seguida, abrindo as mãos, Nossa Senhora fê-las refletir no sol, e enquanto Se elevava, continuava o reflexo da sua própria luz a projetar-se no sol.

Lúcia, nesse momento, exclamou: "Olhem para o sol!"

Desenrolaram-se, então, aos olhos dos videntes, três quadros, sucessivamente, simbolizando primeiro os mistérios gozosos do rosário, depois os dolorosos e por fim os gloriosos (apenas Lúcia viu os três quadros; Francisco e Jacinta viram apenas o primeiro):

Apareceram, ao lado do sol, São José com o Menino Jesus, e Nossa Senhora do Rosário. Era a Sagrada Família. A Virgem estava vestida de branco, com um manto azul. São José também se vestia de branco e o Menino Jesus de vermelho claro. São José abençoou a multidão, traçando três vezes o sinal da Cruz. O Menino Jesus fez o mesmo.

Seguiu-se a visão de Nossa Senhora das Dores e de Nosso Senhor acabrunhado de dor no caminho do Calvário. Nosso Senhor traçou um sinal da Cruz para abençoar o povo. Nossa Senhora não tinha a espada no peito. Lúcia via apenas a parte superior do Corpo de Nosso Senhor.

Finalmente apareceu, numa visão gloriosa, Nossa Senhora do Carmo, coroada Rainha do Céu e da terra, com o Menino Jesus ao colo.

Enquanto estas cenas se desenrolavam aos olhos dos videntes, a grande multidão de 50 a 70 mil espectadores assistia ao milagre do sol.

Chovera durante toda a aparição. Ao encerrar-se o colóquio de Lúcia com Nossa Senhora, no momento em que a Santíssima Virgem Se elevava e que Lúcia gritava "Olhem para o sol!", as nuvens se entreabriram, deixando ver o sol como um imenso disco de prata. Brilhava com intensidade jamais vista, mas não cegava. Isto durou apenas um instante. A imensa bola começou a “bailar”. Qual gigantesca roda de fogo, o sol girava rapidamente. Parou por certo tempo, para recomeçar, em seguida, a girar sobre si mesmo, vertiginosamente. Depois seus bordos tornaram-se escarlates e deslizou no céu, como um redemoinho, espargindo chamas vermelhas de fogo. Essa luz refletia-se no solo, nas árvores, nos arbustos, nas próprias faces das pessoas e nas roupas, tomando tonalidades brilhantes e diferentes cores. Animado três vezes de um movimento louco, o globo de fogo pareceu tremer, sacudir-se e precipitar-se em ziguezague sobre a multidão aterrorizada.

Durou tudo uns dez minutos. Finalmente o sol voltou em ziguezague para o ponto de onde se tinha precipitado, ficando novamente tranquilo e brilhante, com o mesmo fulgor de todos os dias.

O ciclo das aparições havia terminado.

Muitas pessoas notaram que suas roupas, ensopadas pela chuva, tinham secado subitamente.

O milagre do sol foi observado também por numerosas testemunhas situadas fora do local das aparições, até a 40 quilômetros de distância.

(Cf. De Marchi, págs. 165-166; Walsh, págs. 129-131; Ayres da Fonseca, págs. 91-93; Galamba de Oliveira, págs. 95-97).

III — ALGUMAS VISÕES PARTICULARES DE JACINTA

No pouco tempo que passaram na terra depois das aparições, e mesmo no período abrangido por estas, Francisco e Jacinta, mas sobretudo esta última, tiveram isoladamente diversas visões. Relataremos aqui as principais, que são de Jacinta.

"Eu vi o Santo Padre..."

Numa tarde de agosto de 1917, estando os videntes sentados nos rochedos do outeiro do Cabeço, Jacinta pôs-se subitamente a rezar a oração que o Anjo lhes ensinara, e depois de um profundo silêncio disse:

— "Ô Lúcia, não vês tanta estrada, tantos caminhos e campos cheios de gente a chorar com fome e não têm nada para comer? E o Santo Padre numa igreja diante do imaculado Coração de Maria a rezar? E tanta gente a rezar com ele?" (cf. De Marchi, pág. 99; Walsh, pág. 84; Ayres da Fonseca, pág. 137) .

Noutra ocasião, aproximadamente ao meio-dia, junto ao poço da casa dos pais de Lúcia, Jacinta perguntou à Lúcia:

— "Não viste o Santo Padre?"

— "Não".

— "Não sei como foi, eu vi o Santo Padre numa casa muito grande, de joelhos diante de uma mesa, com as mãos no rosto a chorar; fora da porta da casa estava muita gente e atiravam-lhe pedras, outros rogavam-lhe pragas e diziam-lhe muitas palavras feias. Coitadinho do Santo Padre, temos de pedir muito por ele!" (cf. De Marchi, págs. 98-99; Walsh, pág. 85; Ayres da Fonseca, pág. 136).

Um dia, em casa de Jacinta, Lúcia encontrou-a muito pensativa e interrogou-a:

— "Em que estás pensando, Jacinta?"

— “Penso na guerra que há de vir. Há de morrer tanta gente e vai tanta para o inferno (25)! Hão de ser arrasadas muitas casas e mortos muitos Padres! Olha, eu vou para o Céu, e quando vires de noite essa luz que a Senhora disse que vem antes, foge

(continua)