Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 192 | página 02-03

EM DEFESA DA FAMÍLIA BRASILEIRA CONTRA AS INVESTIDAS DE UM SACERDOTE

A propósito de um livro do Revmo. Pe. Paul-Eugène Charbonneau, C.S.C.

Antonio Rodrigues Ferreira

No exercício quotidiano da profissão de médico, mormente na especialidade de endocrinologista, à qual nos dedicamos, temos sido procurado frequentemente para solucionar problemas conjugais diversos. Ora é um casal estéril que anseia por ter filhos, ora um casal que deseja limitar a sua prole.

Cônscio de nosso dever de orientar os esposos do ponto de vista da moral católica, fomos levado a inteirar-nos do ensinamento da Igreja nessa matéria — a respeito do qual, hoje em dia, circulam opiniões das mais confusas.

Especialmente no que toca à limitação dos nascimentos, foi redobrada a nossa preocupação em conhecer pormenorizadamente o pensamento da Igreja. E constatamos que as normas fixadas a esse propósito pelos Sumos Pontífices são de extraordinária sabedoria. Elas atendem ao respeito mútuo que os cônjuges se devem, e às tendências legítimas que Deus pôs na natureza humana; harmonizam os direitos dos filhos com os dos pais; aliam, enfim, tudo aquilo que interessa à salvação eterna, com tudo o que promove a verdadeira felicidade temporal dos indivíduos, das famílias e dos povos. Muitas vezes, sem dúvida, a Igreja exige de seus filhos sacrifícios, até mesmo heroicos. Mas o faz com amor sobrenatural de mãe, não com frieza de carrasco. E, amparando-os com a graça, que torna possível vencer todas as dificuldades desta vida, mostra quão leve é o jugo de Jesus Cristo.

As descobertas dos cientistas no campo da endocrinologia feminina, e o seu empenho em sintetizar os hormônios, entre eles os sexuais, trouxeram para os moralistas católicos a árdua tarefa de cotejar as aplicações que podem ter aqueles hormônios, com as posições da Igreja no campo da moral conjugal. Eles se dedicaram a este importante trabalho, e daí surgiram as orientações de Pio XII sobre o assunto, contidas, principalmente, no Discurso aos participantes do VII Congresso da Sociedade Internacional de Hematologia, pronunciado a 12 de setembro de 1958 (AAS, vol. L, pp. 732 ss.).

Foi ao procurar novas fontes em que pudéssemos ampliar nossos conhecimentos sobre o assunto, que tivemos oportunidade de ler e avaliar, recentemente, um pequeno volume, adquirido em livraria católica, escrito por um Sacerdote e por um médico.

O livro "LIMITAÇÃO DOS NASCIMENTOS" (Livraria Duas Cidades, São Paulo, 1965) está dividido em duas partes. A primeira, intitulada "Carta aberta aos teólogos sobre um problema do mundo moderno" (trad. de Maria Lucia de Freitas Moreira) trata dos aspectos morais da questão, e é de autoria do Revmo. Pe. Paul-Eugène Charbonneau, C.S.C. A segunda, escrita pelo distinto colega paulista José Roberto de Freitas Azevedo, tem seu tema definido pelo título a que ela se subordina: "O uso dos anticoncepcionais hormonais sob o ponto de vista médico". Dedicaremos especial atenção à primeira parte, que se reveste de maior importância. À segunda reservaremos o tópico final deste artigo.

Analisada sob o ângulo de visão que a Igreja sempre admitiu e aprimorou ao longo dos séculos — o da moral conjugal clássica — a Parte I não passa de um suceder de incongruências, onde sobressaem, com uma evidência meridiana, o relativismo e o subjetivismo moral, que, nem seria necessário dizê-lo, se opõem a todos os ensinamentos da sã doutrina.

É interessante assinalar que, já desde o início, o Revmo. Padre tem a preocupação de, antes de atacar, empunhar o escudo para se defender. E usa a tática, tão comum entre as crianças, de atirar a pedra e esconder a mão. O prefácio, realmente, manifesta esta intenção, pois adverte o leitor de que "um certo vigor de estilo e uma desapiedada franqueza não devem ser confundidos com a vontade de destruir ou, de ferir [...] Elas [as páginas] se referem a uma "certa teologia" e a uma "certa pastoral" que merecem bastante ser um pouco sacudidas" (p. 13). Assim escudado, o primeiro capítulo intenta demolir exatamente a "certa teologia" e a "certa pastoral", que nada mais são do que as que a Igreja até hoje adotou como suas.

Protesta ainda o Autor que, "em nenhum momento, no entanto, ele tem a intenção de zombar dos teólogos [...] nem dos moralistas" (p. 1 3); mas o que faz é, precisamente, vergastar duramente os moralistas e teólogos que não comem à sua mesa. Trata-se de uma evidente tática de intimidação, destinada a afastar da luta todos aqueles que receiem passar por reacionários ou retrógrados.

Por fim, afirma o prefácio que, quanto à Moral, o Pe. Charbonneau "não quer que ela se afaste dos princípios" (p. 14). Se "critica a moral do abstrato e chama a um encontro com a realidade, não é de forma alguma com vistas a chegar a uma "moral situacional", o que seria visivelmente inaceitável, porque seria a própria negação da Moral" (p. 14). A verdade, no entanto, é que o Autor nada mais faz no seu trabalho do que propugnar uma tal adaptação das normas morais aos tempos e às situações, que redunda em última análise na "moral situacional". É o que veremos mais adiante.

É de se notar também que a obra desloca o eixo em torno do qual deveria girar toda a discussão sobre o grave problema da moral conjugal. Em lugar de contribuir para a solução racional e sobrenatural deste último, ela cria um clima de exacerbação emocional e de acirramento de ânimos, dentro do qual não há lugar para uma posição ponderada e sapiencial como a Igreja sempre soube manter nesta matéria.

Mais uma observação se faz necessária. O Pe. Charbonneau dedica a página 7 à seguinte "advertência": "ÊSTE LIVRO DESTINA-SE AOS MORALISTAS. As teses deste estudo representam o pensamento pessoal do Autor e não envolvem posição oficial da Igreja nem da Ordem à qual ele pertence". Perguntamos então: se o trabalho se destina aos moralistas, por que foi largamente divulgado fora dos círculos destes, deixando o público católico (como tenho tido oportunidade de verificar quotidianamente) indeciso e duvidoso sobre tão grave questão? Mais de uma vez ouvimos a pergunta: — Devo seguir as normas da Igreja até hoje vigentes, ou é o Pe. Charbonneau que tem razão? Seriam verdadeiras as palavras de Paulo VI quando declarou, recentemente, que continuam válidos os ensinamentos de Pio XII sobre o assunto?

As inadmissíveis posições adotadas pelo Pe. Paul-Eugène Charbonneau e por toda uma bem organizada corrente de pensamento, em matéria de moral conjugal, não mereceriam maior atenção se não viessem originando tamanha confusão no espírito dos fiéis. E se nos dedicamos aqui à tarefa de comentá-las, é tão somente com vistas a relembrar as sábias normas votadas ao esquecimento por essa mesma corrente de pensamento.

Os documentos pontifícios que citaremos são conhecidos. Não há porque argumentar que um Sacerdote, especialmente tendo tomado a si escrever sobre o assunto, não tivesse notícia deles. Na maior parte dos casos, deixaremos que os textos falem por si; e eles falarão com eloquência.

A obra do Pe. Charbonneau contém numerosos termos e juízos crus e chocantes, que normalmente não devem sair da pena de um escritor católico que se dirige ao público. Lamentamos ter que reproduzir tais expressões, mas é isso indispensável para que o leitor possa aquilatar devidamente qual o pensamento e qual a mentalidade expressos no livro.

Invectivas (em lugar de argumentos) para desimpedir o caminho

Já aludimos a que, antes mesmo de expor qualquer argumento em defesa do controle amplo da natalidade, o Revmo. Pe. Paul-Eugène Charbonneau se aplica a afastar do caminho alguns adversários indesejáveis. Dedica todo um capítulo a vergastar, com uma dureza e uma irreverência pouco recomendáveis, os clérigos e moralistas culpados do que ele chama de "clericalismo, farisaísmo e moralismo" (pp. 21 ss.), bem como a Moral tradicional, que reputa "submersa no abstrato" (p. 43), fixada num "formalismo vazio" (p. 44), "lógica do comportamento divorciada da vida" (p. 45), etc.

Segundo o Autor, o clericalismo "se manifesta em grande número de padres, pela "mania, sobretudo de ministrar lições, sem sequer começarem por ouvir e procurar compreender seu interlocutor" [...] (p. 22), sem ter o pé na realidade (cf. p. 24). Esses Sacerdotes pretendem resolver todas as questões com "fórmulas estereotipadas" (p. 24), mesmo porque pensam que "sua função não é a de resolver os problemas dos outros mas explicar a moral" (p. 24). Passam então "do clericalismo, que já é um grande mal, ao farisaísmo, que é um mal ainda maior" (p. 24). Os fariseus tinham "resposta para tudo, e nenhum problema os deixava perplexos. Eles não indagavam mais, êles rabinizavam [...]. A Lei de Deus, por seus bons cuidados, transformou-se em preceitos mesquinhos que oprimiam os fiéis e sufocavam neles todo amor" (p. 25). "Se há uma parte da moral cristã que sofre deste mal é certamente a que trata da moral conjugal" (p. 25).

E as invectivas contra os moralistas tradicionais prosseguem ao longo de toda a exposição, onde eles são agredidos por trechos como estes: "homens muito sérios ou que pelo menos, pretendem sê-lo" (p. 25); "uma moral casuística não é evangélica; ela é farisaica" (p. 26); "é assim que tantos de nossos clérigos moralistas, que tantos de nossos confessores intransigentes, celibatários felizes (ou frustrados) [...] se obstinam na incompreensão e persistem em ignorar as dificuldades sofridas pelos casais" (pp. 27-28); "a estes juízes severos, revestidos de sua minúscula autoridade, e que se mostram tão implacáveis na sua condenação quanto incompreensivos no seu julgamento, poder-se-ia dar o título de neofariseus" (p. 30) ; "uma tal moral não é senão uma deformação daquela que deveria ser; por isso a chamo de moralismo" (p. 31); "exigências caprichosas de moralistas celibatários" (p. 41); "se os moralistas não forem capazes de abrir um diálogo, preocupado, honesto e realista — um diálogo em que ouvirão mais do que falarão, porque têm muito o que aprender e que não está escrito nos tratados — [...] por causa deles, o inferno prevalecerá sobre a Redenção" (pp. 42-43) ; se eles erraram ao condenar o método da pílula de progesterona, foi por uma "ignorantia elenchi [...] uma das inúmeras maneiras de pecar por sofisma" (p. 80). E o Revmo. Padre encerra seu trabalho com uma referência ácida a "moralistas pretendendo infalibilidade" (p. 97).

Depois de uma tal variedade de descortesias, irreverências, censuras injustas e impropérios, espera talvez o Autor que nenhum moralista se atreva a terçar armas com ele, baixando ao mesmo nível, e nem sequer a manifestar pensamento diverso do seu, para não ser apontado à execração pública como fariseu, etc., etc.

É lamentável que um membro do Clero se refira de modo tão desrespeitoso e injusto a seus colegas de sacerdócio. E ainda mais quando consideramos que as acusações assim atiradas ao conhecimento público atingem, exatamente, os Sacerdotes que cumprem o seu dever, transmitindo aos fiéis os ensinamentos colhidos junto àquele que é a coluna e fundamento da Verdade, aquele a quem Nosso Senhor disse: "Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra Ela" (Mat. 16, 18). Aliás, em todo o amontoado de teses e absurdos contidos em seu trabalho, o Pe. Charbonneau parece ignorar o quanto os Papas têm falado sobre o assunto. Não menciona senão três vezes, e de modo superficial, algum documento pontifício (cf. pp. 51, 54 e 55). Não se peja de trocar os sábios e seguros ensinamentos da Moral católica, emanados da suprema autoridade do Vigário de Cristo ao longo dos vinte séculos da Igreja, por citações de Camus, Alain, Jacques Leclerq, Henri Fesquet, etc.

Um adepto (não confesso) da "moral nova"

Disseminadas ao longo de todo o livro, mas formando um corpo de doutrina coeso e harmônico, encontramos afirmações que identificam no Pe. Charbonneau um adepto da chamada "moral nova". Ele não aceita certos princípios gerais da Moral, que considera abstratos e inaplicáveis ao mundo moderno; e transfere para a consciência de cada um julgamentos que se deveriam fazer segundo regras de valor universal. Adota, portanto, a moral subjetiva (1).

Examinando-se com atenção os textos de S. Revma. que a seguir transcreveremos, ficarão patentes em todos eles, como em tantos outros que poderíamos ter escolhido, o relativismo e o subjetivismo moral, o desprezo pela Moral tradicional e a dissociação entre a teoria e a prática. A comparação dessas passagens com os documentos de Pio XII que denunciam e condenam os erros da "MORAL NOVA" tornará ainda mais clara a origem dos princípios que elas contêm. Os textos pontifícios revelam não só a filiação doutrinária do Pe. Charbonneau, mas também, em flagrante contraste, o apreço que o Papa tinha aos Sacerdotes e moralistas fiéis à Moral tradicional, os quais ele defendia contra as arbitrárias acusações dos seguidores da "moral nova".

Aí estão os textos. O cotejo entre eles dispensa comentários:

• PE. CHARBONNEAU:

"A condição geral da Igreja e dos cristãos não é mais medieval; dever-se-ia considerar esse fato na elaboração de nossa teologia moral e na pastoral" (p. 34).

* PIO XII:

"Na doutrina moral católica, como no dogma, quer-se fazer de qualquer modo uma radical revisão para daí deduzir uma nova ordem de valores" (Radiomensagem de 23 de março de 1952, para a "Jornada da Família": "A consciência cristã como objeto da educação" — "Discorsi e Radiomessaggi", vol. XIV, p. 21).

• PE. CHARBONNEAU:

"A moral conjugal, para permanecer intrinsecamente a mesma não tem necessidade de se fixar em fórmulas que foram elaboradas em perspectivas completamente alheias ao homem do século XX" (p. 93).

* Pio XII:

"O sinal distintivo desta moral [a moral nova] está precisamente em não se basear nas leis morais universais, como por exemplo os Dez Mandamentos, mas nas condições ou circunstâncias reais e concretas, em que se deve agir, e segundo as quais a consciência individual tem de julgar e escolher" (Alocução de 18 de abril de 1952, aos participantes do Congresso da Federação Mundial das Juventudes Femininas Católicas — "Discorsi e Radiom.", vol. XIV, p. 72).

• PE. CHARBONNEAU:

"A lei de Deus, por seus bons cuidados [dos fariseus], transformou-se em preceitos mesquinhos que oprimiam os fiéis e sufocavam neles todo amor.

Se há uma parte da moral cristã que sofre deste mal é certamente a que trata da moral conjugal" (p. 25).

"É preciso estar preocupado em saber o que o Cristo espera dos esposos, porque isto não corresponde rigorosamente às exigências caprichosas de moralistas celibatários [...]" (p. 41).

"Por terem cultivado a abstração a ponto de se arrancarem completamente da vida, os moralistas fixaram a moral conjugal num formalismo cuja vacuidade constatamos todos os dias" (p. 44).

"Nós nos escondemos nas palavras sonoras, terminamos as discussões a golpes de tese, lançamos mão de argumentos de autoridade, mas ignoramos cuidadosamente os dados verdadeiros do problema, esses que são tirados da vida real de dois esposos" (p. 20).

* Pio XII:

"A "nova moral" afirma que a Igreja, em lugar de suscitar a lei da liberdade humana e do amor, e de insistir sobre ela como justo estímulo da vida moral, se apoia, ao contrário, por assim dizer exclusivamente e com uma rigidez excessiva, sobre a firmeza e a intransigência das leis morais cristãs, recorrendo frequentemente a estes "vós sois obrigados", "não é permitido", que têm por demais o tom de um pedantismo aviltante" (Radiomens. de 23-3-1952, para a "Jorn. da Fam." "Discorsi e Radiom.", vol. XIV, p. 22).

• PE. CHARBONNEAU:

"A estes juízes severos, revestidos de sua minúscula autoridade e que se mostram tão implacáveis na sua condenação quanto incompreensivos no seu julgamento, poder-se-ia dar o título de neofariseus" (p. 30).

"Se esta regra [praticamente o dever moral é fazer o bem na medida em que se tem conhecimento e se é capaz] fosse lembrada, a concepção da moral e da pastoral conjugais seria totalmente oposta à que existe atualmente. Deixar-se-ia o formalismo e a rigidez, para retomar o caminho da compreensão e da realidade" (p. 47).

"[...] segundo Alain "[...] Mesmo Deus quando ameaça, somente pode fazer um poltrão. É preciso esclarecer esta teologia de polícia, que só pode criar uma virtude de prisioneiro" [...]" (p. 47).

* .Plo XII:

"Tomando pois como estrita norma as palavras de Cristo e do Apóstolo, não se poderia talvez dizer que a Igreja de hoje em dia tem sido mais vezes levada à condescendência que à severidade? De tal modo que a acusação de opressiva dureza, levantada contra a Igreja pela "moral nova", vai em primeiro lugar atingir a adorável Pessoa do próprio Cristo" (Radiomens. de 23-3-1952, para a "Jorn. da Fam." — "Discorsi e Radiom.", vol. XIV, p. 24).

• PE. CHARBONNEAU:

"Quando se é celibatário, é fácil dizer aos outros que eles devem ter filhos, sempre mais filhos; mas, se estivéssemos em seu lugar? Quando não se está preso a um orçamento, nem se tem credores a pagar ou escolas a manter, nem despesas com médicos, é fácil dizer aos outros que a Providência proverá as necessidades de suas crianças! Quando não se tem que suportar o peso do amor humano e da presença feminina junto a si, é fácil falar em continência!

E é assim que tantos de nossos clérigos moralistas, que tantos de nossos confessores intransigentes, celibatários felizes (ou frustrados), independentes, protegidos, abrigados, se obstinam na incompreensão e persistem em ignorar as dificuldades sofridas pelos casais" (pp. 27-28).

Como diz Alain "o fariseu é um homem que crê em Deus, e que acredita que Deus está contente com ele" [...]. Assim são todos estes moralistas e confessores que dispõem do poder das chaves a seu gosto para fechar a porta àqueles que tanto necessitam da graça de Deus e que chamam a Cristo em seu socorro" (p. 29).

* Pio XII:

"E pode dar-se que as condições atuais induzam a tentar a transplantação desta "moral nova" para o terreno católico, sob pretexto de tornar mais suportáveis aos fiéis as dificuldades da vida cristã. Efetivamente, exige-se hoje de milhões deles, em grau extraordinário, firmeza, paciência, constância e espírito de sacrifício, para permanecerem íntegros na fé, tanto no tempo da desgraça, como num meio que lhes proporcione tudo quanto o coração apaixonado aspira e deseja. Mas semelhante tentativa nunca poderá vingar" (Aloc. de 18-4-1952, aos partic. do Congr. da Fed. Mund. das JFC - "Discorsi e Radiom", vol. XIV, p. 75).

"[...] a Igreja não pode deixar de advertir os fiéis de que estas riquezas [da fé e da graça] não podem ser adquiridas e conservadas senão pelo preço de obrigações morais precisas. Uma conduta diversa terminaria por fazer esquecer um princípio dominante, sobre o qual sempre insistiu Jesus, seu Senhor e Mestre. Com efeito, Ele ensinou que para entrar no Reino dos Céus não é suficiente dizer: "Senhor, Senhor", mas é preciso que a vontade do Pai Celeste seja cumprida (cf. Mat. 7, 21). Ele falou da "porta estreita" e do "caminho estreito" que conduz à vida (cf. Mat. 7, 13-14), e acrescentou: "Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque, Eu vo-lo declaro, existem muitos que procurarão aí entrar, sem o conseguirem" (Luc. 13, 24)" (Radiomens. de 23-3-1952, para a "Jorn. da Fam." — "Discorsi e Radiom.", vol. XIV, p. 23).

• PE. CHARBONNEAU:

"A moral, particularmente no plano conjugal, está submersa no abstrato a ponto de não oferecer mais nenhum ponto de contato com a vida. Ela quer definir o que deve ser o comportamento dos homens, mas ignora-os, para falar apenas do homem (em si), da vida (em si), do sexo (em si). Ela tece um conjunto de considerações que se mostram inúteis, porque não atingem estes homens, e estas mulheres, estes casais que vivem sua vida concreta e singular, mergulhados nas circunstâncias que o cercam, de todos os lados" (p. 43).

* Pio XII:

"Perguntar-se-á como é que a lei moral, universal, pode bastar e até constranger num caso particular, que em sua situação concreta é sempre único e "de uma vez". Pode e fá-lo precisamente porque, em virtude da sua universalidade, a lei moral compreende necessária e "intencionalmente" todos os casos particulares, em que se verificam os seus conceitos. E em muitíssimas circunstâncias fá-lo com lógica tão concludente, que até a consciência do simples fiel vê imediatamente e com plena certeza a decisão a tomar" (Aloc. de 18-4-1952, aos partic. do Congr. da Fed. Mund. das JFC "Discorsi e Radiom.", vol. XIV, p. 75).

• PE. CHARBONNEAU:

"Que não se veja aí [na limitação dos nascimentos] um privilégio de exceção, concedido com reticências pelos moralistas parcimoniosos, mas um autêntico dever do casal, que é o único apto a julgar o momento em que ela se impõe, porque só ele conhece as circunstâncias concretas de sua vida matrimonial. Compete aos esposos julgar, honestamente e perante Deus, suas possibilidades e suas impossibilidades, para estabelecer qual será o ritmo de procriação que adotarão" (p. 55).

* Pio XII:

"[...] pretendeu-se com insistência, em matéria de direitos conjugais, que era mister, em caso de conflito, deixar à consciência séria e reta dos esposos, conforme as exigências das situações concretas, a faculdade de impossibilitar diretamente a realização dos valores biológicos, em proveito dos valores pessoais" (Aloc. de 18-4-1952, aos partic. do Congr. da Fed. Mund. Das JFC — "Discorsi e Radiom.", vol. XIV, p. 73).

• PE. CHARBONNEAU:

"Este problema [da limitação de nascimentos] não é clerical; é conjugal" (p. 55).

"Desclericalizar a questão da moral conjugal me parece uma necessidade imperativa" (p. 23).

* Pio XII:

"O primeiro passo, ou para dizer melhor, o primeiro golpe dado sobre o edifício das regras morais cristãs, deveria ser — como o pretendem — desvencilhá-la da vigilância estreita e opressiva da autoridade da Igreja; [...].

O Divino Redentor entregou sua Revelação, da qual as obrigações morais são parte essencial, não aos homens isoladamente, mas à sua Igreja, à qual Ele deu a missão de os guiar e de guardar fielmente êste depósito sagrado. Do mesmo modo, a assistência divina destinada a preservar a Revelação de erros e deformações foi prometida à Igreja e não aos indivíduos.

Como é, então, possível conciliar a previdente disposição do Salvador, que confiou à Igreja a proteção do patrimônio moral cristão, com uma espécie de autonomia individualista da consciência?” (Radiomens. de 23-3-1952, para a "Jorn. da Fam." — "Discorsi e Radiom.", vol. XIV, p. 22).

Aliás, o Papa Pio XII já dissera, sempre a respeito da "MORAL NOVA": "Sem acentuar a manifesta inexperiência e imaturidade de julgamento dos que sustentam semelhantes opiniões, é conveniente colocar em evidência o vício capital desta "nova moral". Submetendo todo critério ético à consciência individual, ciosamente fechada em si mesma e arvorada como juiz absoluto de suas determinações, esta teoria, bem longe de lhe aplanar o caminho, a afasta da verdadeira via que é Cristo" (Radiomens. de 23-3-1952, para a "Jorn. da Fam." — "Discorsi e Radiom.", vel. XIV, p. 22). E em outra ocasião: "Exatamente sob esta forma, a nova ética está tão fora da fé e dos princípios católicos, que até uma criança, se conhecer o seu catecismo, se dará conta disso e o experimentará" (Aloc.. de 18-4-1952, aos partic. do Congr. da Fed. Mund. das JFC — "Discorsi e Radiom.", vol. XIV, p. 75).

Este simples cotejo de textos deixa claro, antes de passarmos ao comentário da posição do Pe. Paul-Eugène Charbonneau sobre o controle da natalidade, que S. Revma. a plasmou — em que pese as suas declarações em contrário — nos princípios da "moral nova". E fica claro também, desde já, que a "moral nova" se acha sob o peso de grave e categórica condenação.

Depois disso, ninguém se admirará, por certo, das aberrações defendidas por aquele Sacerdote a propósito do controle de nascimentos.

As etapas do caminho paro o absurdo

Escoimada da vibração emocional com que foi concebida, a argumentação do Pe. Charbonneau sobre a limitação da natalidade pode ser resumida da seguinte maneira:

• A procriação humana se realiza na liberdade, e gera pessoas, com direito a uma vida bela e digna de seu destino eterno. Esquecer isso é confundi-la com a procriação animal.

• Isso posto, ocorrem no mundo moderno diversas circunstâncias que exigem da maioria dos casais a limitação da natalidade. Citam-se entre elas os motivos econômicos e sociais, os casos de indicação médica, a necessidade da educação da prole, etc.

• A continência absoluta só é possível para alguns casais heróicos ou anormais.

• O método da continência periódica (aceito como lícito pela Igreja) é impraticável e ineficaz, em nossos dias, devido à hipersexualidade ambiente, à freqüente irregularidade cíclica da mulher, etc.

• Ademais, a continência absoluta e a periódica não atendem, ou atendem mal,

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