Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 166 | página 06-07

PORQUE HÁ VERDADES ESQUECIDAS?

(continuação)

sacrifical da Nova Lei. Nela Cristo ora ao Pai em nome de todos os pecadores, pedindo misericórdia, e ao mesmo tempo invoca a cólera do mesmo Pai para aqueles que O desprezam até o fim.

O Salmo 68 começa com uma candente súplica do Homem-Deus em que se explicita o mistério de que fala Is. 53: Jesus Cristo assumiu em seu Coração o peso das iniquidades dos séculos, para que, caindo sobre Ele o braço da justiça do Pai, pudessem os homens ser remidos. O perdão dos pecados está no ato sacrifical do Verbo Encarnado, que limpa a alma humana de seus pecados, que tira a alma da morte do pecado, do não-ser, por meio da morte do Redentor. Ele Se fez como que pecador em seu holocausto, para que o pecador recebesse a graça do renascimento para a participação da vida divina. Pela sua morte conquistou a vida para a humanidade decaída. Eis palavras do Salmo 68: "Salvai-me, ó Deus, pois as águas subiram até minha alma. Afundo-me na lama do abismo. Cheguei até a profundidade do oceano e a tempestade me submergiu. Esgoto-me em clamores, minha garganta queima: meus olhos se consomem, enquanto espero em meu, Deus" (versículos 2-4).

A incomparável eloquência do Espírito Santo nos descreve o estado de alma de Jesus Cristo, vendo-Se como pecador, tendo consciência aguda da tragédia que é o estar a alma humana na iniquidade. O Homem-Deus vê o horror e a miséria do pecado, e ergue ao Pai uma súplica, uma súplica que vem do fundo de suas entranhas de misericórdia. O versículo 6 mostra bem que Nosso Senhor Se colocou na posição de pecador, pois está escrito assim: "ó Deus, Vós conheceis minha insensatez, e as minhas ofensas não estão escondidas para Vós". Mas, ao mesmo tempo, os versículos 1-4 imploram a proteção divina contra os demônios e os ímpios que visam o aniquilamento das almas. Jesus Cristo Se viu como a criatura posta diante do perigo de perdição eterna em virtude da maquinação dos ímpios. Ele testemunha diante do Pai, por aqueles que são atacados em sua inocência, perseguidos por sua fidelidade, sujeitos a constante perigo pelo seu amor a Deus: "Eles se multiplicaram em número superior ao dos cabelos de minha cabeça, eles que me odeiam sem motivo. Meus inimigos se tornaram poderosos, aqueles que me perseguem injustamente" (versículo 5). Ele clama em nome daqueles que o Pai chamou a um zelo devorador por sua casa e que, por tal razão, são perseguidos sem tréguas: "Tornei-me um estranho para meus irmãos, e um desconhecido para os filhos de minha mãe. Pois o zelo de vossa casa me devorou, e as ofensas dos que vos ofendem caiu sobre mim" (versículos 9-10). Todos aqueles que através dos tempos Deus chama à missão da defesa da Verdade, da defesa da Igreja, como é o caso em especial dos Doutores e dos Mártires, são sustentados em sua vocação pela oração sacerdotal de Jesus Cristo, o Cordeiro imolado, o Sacerdote por essência. Ele, o Verbo Humanado, a Verdade eterna que assumiu o tempo, invoca a Verdade e o Amor da essência divina, para que seus servidores, chamados desde toda a eternidade, sejam realizadores da palavra de Deus e não se deixem seduzir pelo não-ser da mentira: "Na multidão de vossas misericórdias, na verdade de vossa salvação, ouvi-me" (versículo 14).

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Os versículos que citamos falam eloquentemente do mistério da súplica do Cordeiro de Deus, para a redenção dos homens, a conversão dos pecadores, o perdão dos pecados, e a conservação dos justos nas vias da verdade e da justiça. Os outros versículos que a seguir queremos considerar dizem respeito à invocação da cólera divina.

Muitos pagãos, infiéis, judeus e pecadores têm correspondido ao chamamento da graça. Neles a súplica de Nosso Senhor realizou o renascimento para a vida sobrenatural e a salvação eterna. Neles a semente da palavra de Deus cresceu, deu frutos de verdade e justiça. Mas, há aqueles que recusam a graça, recusam contra toda a evidência a palavra de Jesus Cristo, recusam-na com vontade aferrada ao não-ser de sua própria soberba, mistério de iniquidade, trevas do pecado contra a verdade. Sobre eles diz Nosso Senhor: "Se Eu não tivesse vindo e não lhes tivesse falado, não teriam culpa; mas agora, não têm nenhuma excusa para seu pecado. Aquele que Me odeia, odeia a meu Pai também" (Jo. 15, 22-23). E Nosso Senhor cita a seguir este versículo do Salmo que comentamos: "Eles Me odiaram sem motivo" (Jo. 15, 25; Sl. 68, 5).

Quais são, do alto da Cruz, diante de seu Pai, as palavras do Cordeiro quando Se refere aos ímpios que vimos de considerar, os fabricantes do não-ser da mentira, os heresiarcas autores do arianismo, do monofisismo, do nestorianismo, do jansenismo, do modernismo, etc., os que fabricaram o liberalismo, o comunismo, o nazismo, etc., os poderosos prepotentes, os traidores da Igreja e corruptores dos povos? Sobre todos esses Ele faz cair sua maldição. Da Cruz, o Sumo Sacerdote da nova Aliança realiza um ato de juízo contra os que desprezam sua Paixão. Eis o outro lado da oração sacerdotal do Cordeiro imolado: "E deram-me fel para comida, e na minha sede deram-me vinagre para beber. Seja sua mesa uma cilada diante deles, e uma retribuição e uma pedra de tropeço. Obscureçam-se os seus olhos para que não vejam; e seu dorso se dobre para sempre. Derramai a vossa indignação sobre eles; que o furor de vossa cólera se apodere deles. Deserta fique sua morada, e não haja ninguém para habitar seus tabernáculos. Porque eles perseguiram aquele a quem Vós golpeastes, e acresceram as dores de meus ferimentos. Acrescentai iniquidades sobre suas iniquidades, e que não chegue até eles vossa justiça. Seus nomes sejam apagados do livro dos vivos, e não sejam inscritos com os justos" (versículos 22-29).

Tremendas palavras que os insensatos e os néscios de coração não podem entender e nem querem ouvir. "Acrescentai iniquidades sobre suas iniquidades": o pecado é castigado com o próprio pecado. O não-ser só pode gerar o não-ser. Quem maquina contra Jesus Cristo, quem sistematicamente desdenha seus mandamentos, atrai sobre si a iniquidade do pecado contra a verdade: "Obscureçam-se seus olhos para que não vejam". Quando se esquece de que é o povo de Deus, Israel traz a desolação para o Templo com esse pecado contra a verdade: "E não haja ninguém para habitar seus tabernáculos". Por que a Igreja perseguida e os templos vazios em tantos lugares? A infidelidade do povo católico atrai sobre ele a desolação da tirania e da perseguição por parte dos servidores das trevas. Em Cuba, muitos dos seus filhos, desprezando a Fé dos antepassados, procuravam transformá-la numa vasta casa de jogo e de perdição. Hoje reina na ilha infeliz a tirania daqueles que construíram um "antidecálogo atrevido e insolente", os que "maquinam diabolicamente contra a verdade", e os templos se encontram vazios.

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Deus é um só. Ele é o Ser infinito, portanto nEle nenhuma limitação de ser, nem entitativa nem moral. Ele é pois o bem em si. Sua misericórdia é o olhar do Bem em si sobre aqueles que O temem e O amam. Sua cólera é o mesmo olhar do Bem em si sobre aqueles que O detestam. A misericórdia e a justiça, o amor e o ódio, são manifestações da mesma bondade divina sobre os homens, que, estes, podem ser bons ou maus. Deus é sempre bom. As criaturas é que podem ser boas ou más. Essa é uma grande verdade intencionalmente esquecida pela civilização moderna, que despreza a Paixão de Cristo e que não quer ouvir sua Mãe aparecida em Fátima. Pesa pois sobre os homens esta ameaça do Senhor dos Senhores: "Eis que Eu venho logo, e a minha recompensa está coMigo para retribuir a cada um de acordo com suas obras. Eu sou o Alfa e o Omega, o Primeiro e o Último, o Principio e o Fim. Bem-aventurados os que lavam suas vestes no sangue do Cordeiro, para que tenham direito à arvore da vida e entrem pelas portas até a cidade (a Nova Jerusalém). Fora os cães, e os feiticeiros, e os impuros, e os assassinos, e os servidores dos ídolos, e todo aquele que ama e pratica a mentira" (Apoc. 22, 12).


"REGALISMO" REPUBLICANO NA ARGENTINA DO SÉCULO XIX

F. F. A.

A desordem provocada pela Revolução Francesa favoreceu a eclosão de tendências subversivas na América do Sul, que se misturaram aos movimentos de independência das colônias luso-espanholas. Esses povos jovens, ainda não completamente constituídos, não tinham para opor à aventura em que poderiam cair, a tradição que só os séculos consolidam. Disso se aproveitaram os fautores da impiedade para difundir nesta parte do mundo os mais perniciosos erros, na esperança de formar certo número de nações profundamente revolucionarias.

Várias circunstancias no campo católico propiciavam a política que os revolucionários desejavam implantar aqui. A Hierarquia Eclesiástica fora desorganizada com o rompimento dos laços que uniam os novos países às respectivas metrópoles, e era necessário restaurá-la. As ideias revolucionarias tinham penetrado nas fileiras católicas e eram numerosos os leigos, Padres e mesmo Bispos que se tinham contaminado, enfraquecendo a resistência que a Igreja poderia opor a essa aceleração do processo revolucionário. Além disso, o padroado, privilégio dos Reis de Portugal e da Espanha, asseguraria aos novos governos um domínio completo sobre a Igreja, se lhes fosse conservado. Naturalmente, era preciso obter isso da Santa Sé, mas, não só ela também fora vítima da perseguição, que a debilitara no plano internacional, como se achava diante de outros graves problemas que exigiam o melhor de sua atenção e a impediam de resolver este isoladamente.

Todas essas circunstancias permitiram aos fautores da impiedade fingir ignorar as leis eclesiásticas e legislar como se fossem os senhores da Igreja, tentando subordiná-La ao poder civil.

Na Argentina, o campeão dessa política foi Bernardino Rivadavia, que fez aprovar a 22 de dezembro de 1822 a chamada Lei de Reforma do Clero, com todos os vícios característicos dessa orientação.

À medida que passa o tempo e progridem as pesquisas históricas, vai-se tendo uma ideia mais precisa da iniquidade desse processo revolucionário maçônico e dos meios que usava para impor os seus erros, velando-os sob a capa sedutora dos falsos ideais libertários. Estudos bem documentados revelam toda a trama sectária, permitindo avaliar o arrojo com que se conduziam os seus fautores e como souberam se aproveitar de erros nefastos que haviam atacado a Igreja nos séculos anteriores, para impor a Revolução contra a vontade do povo.

O Sr. Guillermo Gallardo, eminente católico argentino e historiador brilhante, estudou as causas remotas e próximas da Lei de Reforma do Clero e deu a público os resultados de suas pesquisas num livro excelente — "La Política Religiosa de Rivadavia"(1), cuja leitura é indispensável a todos os que desejam ter ideias claras sobre a marcha da Revolução em nosso continente.

Homem culto e lúcido, sabe o Sr. Guillermo Gallardo que o objetivo da Revolução, em todos os tempos e todos os lugares, é a destruição da civilização católica, e que nada se faz contra a Igreja sem atacá-La primeiro por dentro, embaralhando os seus ensinamentos e impedindo a reta formação das almas. É por essa razão que começa o seu livro com uma exposição objetiva do jansenismo, do febronianismo e de outras heresias que, infiltrando-se nos meios católicos, tiveram na América do Sul uma influência talvez mais profunda ainda do que nos países que as viram nascer.

Essas causas intelectuais, além de prepararem o ambiente, formaram os aliados naturais de Rivadavia na sua política religiosa. Foram eles Sacerdotes desencaminhados, leigos rebelados contra a autoridade pontifícia, e intelectuais bisonhos intensamente trabalhados pela maçonaria, a qual agiu às escancaras em toda a América Latina nesse período de destruição. O Autor esboça muito bem a figura dos principais colaboradores de Rivadavia, mostrando o papel relevante que tiveram no preparo e aprovação de uma lei que até hoje embaraça a atividade da Igreja na Argentina. A formação de Rivadavia e a influência que sobre ela tiveram os erros aludidos é igualmente bem estudada, inclusive através da análise atenta e cuidadosa dos livros que constituíam a biblioteca do político argentino.

Os males que a aplicação da lei causou às Ordens Religiosas e ao movimento católico argentino em geral, seriam suficientes para condená-la. No entanto, o Sr. Guillermo Gallardo não se limita a apontá-los. Vai mais a fundo e mostra várias de suas graves consequências, entre as quais o descontentamento e a inconformidade provocadas por essa manifestação de tirania, inconformidade raras vezes bem definida (em virtude de uma generalizada ignorância religiosa que impede uma visão clara dos princípios), mas visível nos seus efeitos : ela é a causa profunda da divisão dos argentinos, que desde então tem dominado sua política.

"La Política Religiosa de Rivadavia" é um livro que deve ser lido pelos católicos. A Revolução usa em todas as suas fases os mesmos processos, e é muito útil ver como ela agiu no passado (e como na realidade é débil) para nos prevenirmos contra a sua ação nos tempos atuais.

"A GLORIA DE DEUS O QUER"

Sendo a finalidade do homem conhecer, amar e servir a Deus, é nos Santos que devemos procurar os exemplos que nos ajudem a conduzir nossa vida ao fim último para que fomos criados. Ainda mais. Na imensa variedade de aspectos com que a santidade se manifesta na terra, não há atividade humana que não tenha no Céu o seu modelo, em cuja existência terrena brilharam de maneira especial as virtudes necessárias para os que têm uma vocação semelhante.

Há, porém, na vida de todo Santo uma constante. É o abrasado amor de Deus, guia de todas as suas ações e razão de ser de sua existência. É por isso que, por mais diversa da nossa que haja sido sua missão, o conhecimento da biografia de um Santo nos é sempre util. Ela nos ensina como devemos amar a Deus, o que nos cabe fazer para progredir cada vez mais nesse amor, ordenando a nossa vida de acordo com princípios absolutos.

É claro que nem todos os que serviram a Deus com esse amor já conseguiram a gloria dos altares. Alguns nunca a terão, dado o extremo cuidado da Igreja em reconhecer os seus heróis, e outros esperam a sua decisão a respeito. Mas, mesmo nesses, sem nos anteciparmos ao juízo da Igreja, podemos admirar o trabalho da graça em sua formação e aprender muito para a nossa conduta.

Foi o que sentimos com a leitura do livro do Revmo. Pe. Federico Dell'Addolorata, C. P., intitulado "Galileo Nicolini"(2).

Galileo Nicolini é o nome de um noviço passionista falecido a 13 de maio de 1897, aos 15 anos, em odor de santidade. Sua causa de beatificação se acha aberta em Roma.

Numa curta existência toda voltada para a perfeição, praticou ele as mais excelsas virtudes. Desde muito cedo desejava seguir as pegadas de São Paulo da Cruz, ingressando na Congregação por ele fundada, mas foi obrigado a esperar por causa da oposição paterna e de sua pouca idade. Obtido afinal o consentimento de seus pais, pôde realizar o seu desejo, entrando no noviciado passionista, onde foi sempre um exemplo para todos os seus irmãos de hábito. Atingido por uma tuberculose galopante, no leito de morte teve a felicidade de poder pronunciar os votos e de ser recebido na Congregação.

Não nos seria possível seguir passo a passo a ascensão espiritual de Galileo Nicolini. Queremos apenas consignar sua entranhada devoção aos Corações de Jesus e Maria, e reproduzir um fato narrado pelo seu biógrafo, que evidencia a fé combativa do Servo de Deus.

Desde que recebera Jesus Sacramentado pela primeira vez, costumava o pequeno Galileo incentivar os seus companheiros da mesma idade a frequentarem os Sacramentos. Um dia — tinha ele 9 anos — na praça fronteira à igreja, um menino começou a caçoar daqueles que lhe seguiam os conselhos. Galileo tentou em vão convencê-lo de seu erro, até que, conta o Pe. Federico, "esgotados todos os recursos de sua paciente caridade, se acendeu em zelo e exclamou: "Compreendo: a gloria de Deus o quer", e com duas bofetadas fez calar aquela língua blasfema" (p. 26).

O Pe. Federico dell'Addolorata escreveu essa pequena biografia com todo o cuidado próprio de um historiador. É sempre baseado em declarações de testemunhas nos diversos processos ordinários e apostólicos, ou em documentos, que ele faz as suas afirmações. Trata-se, pois, de uma obra sólida e muito bem documentada, o que não a impede de conservar o calor próprio da alma ardente do biografado.

Pode-se aplicar a esse livro o comentário que o Autor faz a propósito de uma carta de Galileo a seus pais: "Na simplicidade e limpidez do estilo o postulante exprime sua felicidade e seus propósitos, e efunde a abundância de seu coração no de seus pais. Para a pretensão, para o virtuosismo e o preciosismo literário, tudo isso não passa da "costumeira pregação"; mas, para quem sente ainda o sadio vigor das palavras usuais, para quem não está viciado pelo "oficio" da literatura ou gasto pelo abuso da cultura, estas expressões conservam todo o calor e candor nativo, e revelam a maturidade do espírito passionista do jovem escritor" (p. 172).

1) Guillermo Gallardo. La Política Religiosa de Rivadavia» — Ediciones Theoria — Buenos Aires.

2) Pe. Federico, C. P. — .Gabriellino secondo — Ossia il Servo de Dio Galileo Nicolini, Novizio Passionista» — Edizioni Fonti Vive — Caravate (Varese), Itália.


AMBIENTES, COSTUMES, CIVILIZAÇÕES

Regionalismo e cosmopolitismo, povo e massa

Plinio Corrêa de Oliveira

Servindo-nos ainda da linguagem variegada, colorida e vivaz do grande Antero de Figueiredo, queremos comentar hoje mais um aspecto ( ver ACC do nº 161, de maio p.p. ) do regionalismo fecundo e cristão que caracteriza em suas realidades mais profundas a nação espanhola.

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"Ao lado do culto religioso das relíquias históricas - observa o ilustre escritor e apóstolo eficiente da Contra-Revolução - há ( entre os navarros ) o aferro às leis especiais, aos foros, aos privilégios. Este espírito os fez unir modernamente, e levantar numa praça pública de Pamplona um monumento de protesto "para simbolizar la unión de los navarros en la defensa de sus libertades, libertades aún mas dignas de amor que la propia vida", afirmando uma vez ainda suas regalias antigas, fazendo esculpir no pedestal dele o artigo das cortes de Olite, de 1645, que dizia: "la incorporación de Navarra a la corona de Castilla fue por vía de unión principal, reteniendo cada reino su naturaleza antigua, así en leyes como en territorio y gobierno". E nas faces desse simbólico monumento, em que, representadas por seus brasões, se afirma a solidariedade de todas as terras da sua província, os navarros exibem ainda a presentes e a vindouros legisladores, postas em línguas castelhana e basca, as palavras juradas dos antigos compromissos régios perante o seu povo: "Juraban nuestros reyes guardar y hacer guardar los fueros sin quebrantamiento alguno, mejorándolos siempre y nunca empeorándolos y que toda trasgresión a este juramento sería nula, de ninguna eficacia y valor".

"(...) Por tudo isto, este povo acolheu, como nenhum outro, com simpatia funda de alma nacional, o carlismo - partido conservador por excelência das antigas leis, que tinham feito grandes e felizes aquelas gentes de navas e serras, coisas dos seus privilégios, que almejavam viver quietas na paz das suas tradições nacionais, católicas e monárquicas, e nas regalias das suas leis especiais a que têm hereditário direito, o que tudo está contido no lema de Carlos VIII: "Dios, Patria, Rey y Fueros".

"O navarro - como o biscainho, o galego, o catalão - tem a noção regionalista de que a Espanha deve ser um conjunto federativo de pátrias formadas não artificialmente com frias divisões administrativas, mas, pelo contrário, com ardentes grupos naturais, de sensibilidades nativas, aliás a vibrarem, a comungarem, unidamente, a ideia de uma só nação, embora servindo-se das suas línguas próprias, dos seus próprios usos e costumes, no gozo da plena posse dos direitos que as tradições e a experiência das necessidades locais criaram, sempre a viver na admiração e no estímulo dos feitos dos seus maiores, - povos possuidores de páginas gloriosas, que só a eles pertencem, pois só eles são lídimos herdeiros de tão heroica linhagem. Não sendo isto, seus instintos dizem-lhes que tudo o mais são artificiosas combinações dos homens em oposição aos naturais arranjos da natureza ( assim, ingênuos, se lhes afigura! ), que começou por distribuir com desigualdade a península - a uns a serra, a outros a planície, a estes os interiores, àqueles as costas - para que os povos sejam pitorescamente diferentes, esteticamente diversos, de maneira que em tudo se realize uma das condições de beleza: a variedade".

"Assim a Pátria é uma harmoniosa tonalidade obtida com as cores dessemelhantes de cada região; um ritmo único que soa, numa só curva melódica, os ritmos de várias curvas diferentes. Uma Nação, em país de raças, de língua, de geografia, de tradições, de usos, de costumes, de feitios de almas desiguais: - uma Nação é a solidariedade na diversidade; a unidade na diferenciação".

"A alma política do independente navarro sintetiza-se na divisa de um estandarte que, em 36, na luz agitada de uma província em alarma, fremia, febril, nas ruas de Pamplona, à testa de um clamoroso bando de ferrenhos bairristas, que pregoavam aos ares a sua ânsia de vida local e de liberdades tradicionais, nestas duas palavras luminosas: paz y fueros!" ( "Espanha", 4ª edição, pp. 310-314 )".

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Explicitando em termos cheios de grandeza poética o sentido regionalista do patriotismo hispânico, a "Ordenanza del Requeté" - síntese dos princípios e dos deveres dos "boinas rojas" carlistas - se exprime nestas palavras candentes:

"Tu Patria, es tu Nación; tu Nación, España.

"España: Única e indivisible, en su rica variedad autárquica regional, es:

- Sublime arcano de tradiciones,

- Relicario de grandezas,

- Madre de Nuevos Mundos,

- Luz de la Historia,

- Albergue de Santidad,

- Defensora de la Iglesia Católica.

"España sin la Cruz, dejaría de ser España.

"Estúdiala, para conocerla.

"Conócela, para amarla.

"Ámala, para honrarla.

"Ten presente que el más puro de los amores, después de Dios, es el de la Patria".

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Esse regionalismo orgânico que há cerca de um milênio vem aplicando nas relações entre os vários "reinos" da península e a grande pátria hispânica o princípio de subsidiariedade ensinado por João XXIII, na Encíclica "Mater et Magistra", subsiste porque, a despeito de toda a pressão do cosmopolitismo contemporâneo, na Espanha ainda vivem povos autênticos, ao contrário de outras nações em que a paganização e o domínio do dinheiro, da máquina, da propaganda e do erotismo tudo transformaram em massa.

O navarro, ao qual mais particularmente se refere o grande Antero, recebeu da Igreja e da História uma tradição viva, que não depende dos modernos meios de propaganda para se manter. Essa tradição se conserva apesar, até, da pressão que através desses meios se faz contra ela. Ela se radica profundamente na alma de cada navarro genuíno, e constitui para ele uma convicção pessoal que, como seus maiores, ele está disposto a defender com o próprio sangue.

Nesses sobranceiros alcaides do Vale da Aezcoa, fortes, animosos e dignos com deve ser o verdadeiro cristão, nessas jovens recatadas e entretanto tão esmeradas em seus expressivo traje regional, vive algo de autêntico, de genuíno, de simultaneamente tradicional e atual, que todas as influências da Revolução não conseguiram exterminar, e que constitui uma esperança fecunda para o radioso porvir prometido por Nossa Senhora em Fátima: o reinado do Imaculado Coração de Maria, que já se prenuncia para além das borrascas, das catástrofes em que se liquidará vergonhosamente a Revolução.