O Santo Padre Paulo VI conhece a fundo os assuntos brasileiros
(continuação)
esquecidas”? Não é nossa missão tomar respeitosamente pela mão essas irmãs obscuras das grandes verdades ilustres de que todos se lembram, e colocá-las ao lado destas últimas, no lugar a que fazem jus, ao grande sol da notoriedade e da veneração universais?
Assim, cabe-nos simplesmente lembrar o que não foi lembrado, afirmar o que não foi afirmado, e por esta forma tornar completo o concerto de louvores que desde a moléstia de João XXIII até a gloriosa coroação de Paulo VI vai subindo ao trono de São Pedro.
O cumprimento desse dever nos é hoje particularmente grato. Pois, como se verá, teremos, ao desempenhá-lo, ótima oportunidade para manifestar nossa adesão incondicional, nosso amor sem limites, nossa obediência inteira, não só à Cátedra Apostólica, mas também às Pessoas augustas do seu Ocupante de ontem e de seu Ocupante de hoje.
É preciso reconhecer que, se a imprensa de outrora tinha certa tendência a negar as qualidades pessoais dos Papas, a imprensa hodierna não tem este vezo.
Causava alegria ver com que calor, mais ou menos em todos os países do Oeste, os jornais exaltaram os predicados que fizeram tão pranteado o Papa João XXIII: sua simplicidade tão afável e atraente, à qual uma pequena ponta de malícia ao mesmo tempo diplomática e paterna acrescentava um encanto particular; o feitio característico de sua luminosa inteligência, voltada com sutileza peculiar e inconfundível para os grandes problemas hodiernos; aquele misto inesquecível de estabilidade e arrojo, de serenidade e atividade, que marcavam todo o ritmo de suas atividades; aquela fisionomia inalteravelmente plácida e despretensiosa com que se apresentava, quer nos episódios comuns da vida cotidiana, quer no esplendor do exercício de suas excelsas funções, inaugurando e encerrando por entre pompas a primeira fase do II Concílio do Vaticano, ou recebendo de todos os quadrantes homenagens de louvor pela “Mater et Magistra” ou pela “Pacem in Terris”.
Eram igualmente de chamar a atenção os encômios com que, ao ensejo da morte de João XXIII, os grandes órgãos da imprensa lembravam a figura ainda tão recente de seu Antecessor.
O tônus aristocrático de Pio XII, a vastidão enciclopédica dos conhecimentos que deixava transparecer, o prestígio que tinha sobre as multidões, sua excepcional atuação durante a guerra, tudo enfim quanto caracterizava o Augusto Pontífice foi rememorado com veneração e saudade.
Eleito para a Sé Apostólica o Cardeal Montini, a acolhida universal não poderia ser mais entusiástica. E desde logo se pôs em evidencia que o Conclave escolhera um Pontífice de uma personalidade inteiramente excepcional. À uma se celebraram sua inteligência penetrante, seu descortino diplomático que lhe assegura posição de relevo entre os grandes estadistas contemporâneos, sua personalidade definida, intimorata e dinâmica. A cooperação intima que teve com Pio XII como Pró-Secretário de Estado, e com João XXIII como conselheiro querido e influente.
Como é natural, a imprensa se empenhou em acentuar as legítimas diversidades existentes entre personalidades tão ricas em aspectos típicos. Ao Papa aristocrata e profundamente interessado em questões doutrinárias comparou o Papa de honrada e humilde extração popular, todo voltado para a ação pastoral prática, e por fim o Papa diplomata, homem de governo, culto e clarividente, que empunhará com particular firmeza o timão da Nave no mar cada vez mais revolto do século XX.
Da análise dessas diversidades, certos órgãos passaram insensivelmente para a afirmação de uma tal ou qual contradição entre os três Papas. Um teria sido tão doutrinário, que teria sacrificado algum tanto a realização prática. O segundo teria sido tão prático, que não teria dado verdadeira importância à doutrina. O último corrigiria os dois anteriores, mais ou menos como a síntese corrige a tese e a antítese. É o que ficava insinuado em mais de uma notícia ou comentário.
O gosto pela exploração das diversidades ou das pretensas contradições entre os três Pontífices chegou por vezes até o infantil: não faltou quem acentuasse que a um Papa esbelto sucedera outro, muito corpulento, ao qual por sua vez vinha suceder um esbelto...
Isto, quando outra contraposição, que não é isenta de algumas gotas de veneno do espírito de luta de classes, não contrapunha o Papa nobre e suposto portanto reacionário, a um Papa filho do povo e, ipso facto, considerado como de matiz progressista!
Estas observações eram indispensáveis para que se compreendesse a nobreza, a importância transcendental, a fulgurante beleza da verdade esquecida - ou melhor, semiesquecida - que queremos pôr em foco.
“É coisa verdadeiramente digna e justa, razoável e salutar”, salientar os predicados pessoais dos diversos Pontífices a que acabamos de nos referir. É legítimo acentuar entre eles a harmoniosa e rica diversidade. Mas esta diversidade não deve ser exagerada até imaginar uma contradição que não existiu. Doutrinador ao qual a Igreja deve documentos de uma importância inexcedível, Pio XII foi entretanto, e inegavelmente, um Papa de ação profunda e universal. Papa de ação, João XXIII esteve muito longe de desprezar os temas doutrinários. Pois não tratam amplamente de doutrina as duas célebres e tão festejadas Encíclicas que escreveu?
Sem dúvida, Pio XII nasceu de uma família ilustre, e João XXIII era filho de camponeses. Mas como é ridículo ver no primeiro um Sila e no segundo um Mário, sucessivamente colocados à testa da Igreja!
E, sobretudo, estes aspectos pessoais postos em relevo a propósito do grande acontecimento que acaba de se dar na suprema direção da Igreja de Cristo, por mais legítimos e dignos que sejam, não são senão aspectos secundários.
A grande realidade primordial que não se focalizou suficientemente, a grande e suprema realidade, gloriosa e indestrutível, que há subjacente em toda mudança de Papas, não é que o Papa mudou, mas precisamente que o Papa não muda nunca. Pode morrer Pio XI e suceder-Lhe Pio XII; pode morrer Pio XII e ser substituído por João XXIII; pode João XXIII deixar de pertencer ao número dos vivos, e ascender depois d’Ele ao trono de São Pedro, Paulo VI, - em qualquer caso, os homens passam mas o Papa fica. É São Pedro que fica, sempre o mesmo, sempre fiel a Jesus Cristo, desde os primórdios da Igreja até hoje, e de hoje até a consumação dos séculos: “Tu és Pedro, e sobre essa pedra está edificada a Igreja, e as portas do inferno contra Ela não prevalecerão”, eis o que Jesus Cristo diz a cada Papa que O tem representado, ao que O representa, aos que O representarão até a consumação dos séculos.
E, quando um novo Papa ascende ao sólio de São Pedro, nossa alegria pelos dotes novos do Papa novo nunca pode igualar nosso júbilo intenso e, por assim dizer, supereminente a todo outro júbilo, que tem como razão profunda, não o que muda, mas precisamente o que não muda. A indefectível fidelidade do Papa a Jesus Cristo, O qual ao longo dos séculos não muda - “Christus heri et hodie, ipse et in saecula” (Heb. 13, 8) - eis a razão principal de nossa intensa, de nossa profunda, de nossa radiosa alegria.
Assim formulada a grande verdade semiesquecida que convinha pôr em todo seu esplendido realce, ser-me-á lícito descer a uma ordem de ideias mais modesta e mais íntima, que comunica em relação a Sua Santidade o Papa Paulo VI, a nota do sentimento pessoal aos motivos de veneração, de obediência e de amor que decorrem do princípio básico que acabo de recordar?
Quis “Catolicismo” consagrar todo um número ao vigésimo aniversário de meu livro “Em Defesa da Ação Católica” (“Catolicismo”, nº 150, de junho de 1963). E nesse número mencionou com natural realce a carta de louvor que se dignou enviar-me a propósito daquela obra o Santo Padre Pio XII. Os paternais sentimentos do Augusto Pontífice me foram expressos por intermédio do Substituto da Secretaria de Estado de Sua Santidade, que era então Monsenhor João Batista Montini. Monsenhor Montini é hoje o Papa Paulo VI.
Estando em Roma em 1950, tive oportunidade de comprovar com quanta atenção e quanto interesse o já insigne Prelado acompanhava os assuntos atinentes ao Brasil. É evidentemente com essas disposições que Ele sobe agora ao mais alto dos tronos.
Encontrava-se também na Cidade Eterna, na mesma ocasião em que eu lá estava, o grande Bispo de Campos. Como era natural, competia-lhe fazer urna visita ao Substituto da Secretaria de Estado. Havendo sido objeto da então recente carta deste Prelado, a polidez me obrigava a idêntica visita. O Exmo. Revmo. Sr. D. Antônio de Castro Mayer e eu nos dirigimos pois ao Vaticano.
Tendo entregue nossos cartões ao secretário de Monsenhor Montini, ele nos reapareceu depois de pequena espera, dizendo que S. Excia. nos receberia dentro de pouco, e que, dada a amizade que nos unia, ao Sr. Bispo e a mim, nos receberia juntos! Tal o conhecimento dos assuntos do Brasil no espírito daquele Prelado, em cuja mente estavam presentes problemas numerosos e complexos do mundo inteiro!
Introduzidos no gabinete de Monsenhor Montini, fomos alvos de acolhida encantadora. Depois de cumprimentar o Sr. bispo, voltou-se para mim: “Professor, quero que saiba que a carta que lhe escrevi não foi mero documento de civilidade. Cada um de seus termos foi pesado atentamente. Tenho prazer de o declarar aqui, em presença do Sr. Dom Mayer”. A conversa se entabulou, em seguida, viva e animada. O tema foi o Brasil, e sobre instituições e coisas de nosso País o egrégio Prelado discorreu com um calor e uma afeto que nos encheram a alma. O relógio deu 13 horas. É o momento em que se encerra o trabalho no Vaticano. Quisemos retirar-nos, mas Monsenhor Montini nos reteve por algum tempo. Por fim, cessada a audiência, deu-nos medalhas comemorativas do jubileu episcopal de Pio XII. No dia seguinte – especial atenção de s. Excia. Revma. – recebia eu convite para ir com um amigo, o Eng. Adolpho Lindenberg, à tribuna diplomática da Basílica de São Pedro, assistir à canonização de São Vicente Maria Strambi.
Pequenas recordações de interesse principalmente individual, mas que me enchem o coração, e que consigno aqui como pequena flor, ao pé da grande verdade semiesquecida que, com amor entusiástico e veneração profunda para com o Vigário de Cristo, julguei dever pôr em foco neste artigo.
A VIDA RURAL À LUZ DA TRADIÇÃO DO OCIDENTE E DA DOUTRINA DA IGREJA
Jorge Pereda
BUENOS AIRES (para "Catolicismo") - O "Osservatore Romano" de outubro do ano passado estampa a Declaração dada a público pelo Congresso Internacional Católico sobre a Vida Rural, celebrado em Roma entre 3 e 9 de setembro. Durante seis dias, reuniram-se em Roma mais de 300 delegados de 52 nações e de 120 organizações católicas, dando a conhecer, como resultado de suas deliberações, um importante documento cujo texto revela progressos muito apreciáveis em relação a declarações anteriores de Congressos similares realizados em Castel Gandolfo e em diversas cidades da América Latina, ou emitidas diretamente pela respectiva entidade organizadora, a "National Catholic Rural Life Conference", com sede em Des Moines, Iowa.
Começa o documento por ressaltar a preocupação do Santo Padre João XXIII pelas dificuldades em que se encontra o mundo agrícola e rural, postas em evidência em sua recente Encíclica Social, na qual reivindica o direito a condições de vida mais dignas para o trabalhador rural e sua família, e se ocupa dos meios eficazes para restaurar o reinado da justiça onde ela não existe ou foi subvertida.
Falta de paridade nas trocas
No primeiro capítulo, que trata do desequilíbrio entre a agricultura e os demais setores da economia, a Declaração põe em relevo o problema que o Congresso de Associações Rurais de Buenos Aires e La Pampa, realizado em La Plata, em 1942, havia enunciado, de uma maneira idêntica, em termos de "justiça econômica para o produtor rural". Trata-se de um problema de justiça que atinge a todos os produtores rurais, tanto na acepção jurídica como humana desta expressão, e que se traduz pelos índices, que prevalecera quase no mundo inteiro, de menor retribuição para o trabalhador rural, de menor capitalização para o chefe ou empresário, como para o próprio meio rural, e na falta de paridade entre os preços de venda no mercado dos produtos rurais e os preços de compra no balcão das mercadorias que o agricultor adquire, por sua vez, do comerciante e do industrial.
Refere-se, em seguida, o documento, ao êxodo da juventude, que deve considerar-se como uma das consequências desse problema, sem deixar de assinalar em tal êxodo os seus aspectos positivos, quando não corresponde a uma verdadeira deserção (suscetível de agravar outros problemas de desemprego urbano), e faz ver a necessidade de corrigir esse desequilíbrio, não somente por razões de justiça, como também porque a ruína do meio rural compromete o futuro da indústria, que precisa desse mercado, e a subsistência da própria família humana, que depende dele para o seu sustento. Deve destacar-se como um dos maiores acertos desta Declaração o remédio que propõe, de criar atividades não agrícolas em zonas rurais, próximas ao lugar de residência da mão de obra disponível, com o fim de evitar o seu deslocamento.
O capítulo seguinte se ocupa da "fome no mundo" e mostra, em singular paradoxo, de que modo as próprias populações rurais de muitos países e de continentes inteiros se incluem na considerável parcela da população mundial que não consegue aplacar de modo suficiente a sua fome; isto significa que os vícios e defeitos da estrutura econômica presente se evidenciam na desnutrição de um grande número de núcleos rurais que, pelo contrário, deveriam tender, uma vez satisfeitas as suas próprias necessidades, ao sustento das populações urbanas.
Vemo-nos aqui face a um conjunto de fatos e de ideias que convida a um maior desenvolvimento desses mesmos temas, com o objetivo de acentuar as tonalidades deste claro-escuro e ajudar o seu melhor conhecimento. Vamos nos deter nesta primeira parte da Declaração, deixando para uma próxima oportunidade o desenvolvimento de outros importantes assuntos que nela são tratados.
Podemos falar de um "mundo rural"?
A primeira vista, oferece dificuldades aparentemente insuperáveis o intento de reduzir a uma síntese o chamado "mundo rural", que abarca os cinco continentes e compreende coletividades de países asiáticos ou africanos em que o subdesenvolvimento, caracterizado principalmente por bases culturais de profundo arraigamento ancestral, se viu por vezes temperado ou, também, precipitado pela incidência da cultura européia, tão variada em suas manifestações, recebida através de núcleos humanos de espiritualidade muito diversa: algumas vezes integrados, outras não; algumas vezes formados por contribuições coloniais, propriamente ditas, de verdadeiras famílias de agricultores investidas de elementos insubstituíveis de tradição, com formação profissional, e por vezes dotadas ainda da base econômica necessária, que chegaram com vontade de incorporar-se ao lugar de adoção e deitar raízes; formados outras vezes pela simples superposição ao meio — cujo estado primitivo permanece em grande parte inalterado — dos quadros de uma superestrutura comercial ou financeira que só se ocupa com o desenvolvimento de uma produção, geralmente de monocultura, cuja exportação constitui o objeto das operações desta outra classe muito diferente de colonialismo. Países há, como o nosso, em que ambos os sistemas foram aplicados, mesmo quando, em regra geral, procede cada uma destas correntes de fontes distintas.
Países há em que o mundo rural se acha formado por populações em grande parte indígenas, que mal ascendem hoje aos primeiros graus de uma formação cultural incipiente e que, no entanto, conheceram antes níveis sociais, culturais e econômicos mais elevados, mas que entraram em regressão ou foram deslocadas ao imporem-se no mundo os valores da política e da economia liberal.
Povos há, também, que vêm desenvolvendo um trabalho admirável em territórios que ocupam desde há mil anos atrás; outros que conseguiram em pouco tempo lançar os fundamentos de uma vida rural sadia e próspera, fazendo-o tão depressa em territórios antes despovoados como em outros de que tinham sido previamente deslocados os habitantes anteriores.
Fácil é, pois, apreciar as dificuldades consideráveis que oferece o empenho de apresentar como uma unidade aquilo que na estrutura social da humanidade é de fato muito diverso. Longe estamos de negar bases comuns a todo o corpo social, estabelecidas sobre o Decálogo e o Direito Natural; porém não podemos deixar de assinalar esta profunda diversidade funcional, que tem seu fundamento na diversidade das terras e regiões e que vai muito além da que se manifesta de modo tão notável nos centros urbanos e industriais.
Alguns meios requerem ajuda; outros podem prestá-la
Pode não ser o caso, então, de falar de um mundo rural ou uma vida rural quando existem tantos mundos distintos desde que os que reclamam atenção e ajuda até outros que, além de serem modelos atuais de convivência humana, são capazes de prestar essa ajuda que em outros lugares se requer. Assim, quando na primeira parte da Declaração se fala de "levar em conta a necessidade constante de reduzir o excesso de população destinado exclusivamente ao trabalho agrícola", não se percebe claramente se se trata dos excedentes que em determinados lugares emigram do meio rural por razões perfeitamente normais e sadias; ou dos resultados do desenvolvimento técnico que mediante uma boa capitalização fazem subir em outros lugares os índices de produtividade do pessoal ocupado em trabalhos agrícolas e reduzem proporcionalmente a demanda de mão de obra; ou, ainda, do retardamento que, sob outras condições (falta de absorção dos meios urbanos ou falta de energia nos excedentes de população rural), se vem a manifestar nessa emigração, com o que podem chegar a sobrecarregar-se perigosamente os índices demográficos de certos distritos nos quais o desenvolvimento econômico não acompanha o da população. A verdade é que todas estas situações se apresentam contemporaneamente em diferentes lugares, de maneira que em quase todas as situações intermediarias, isto é, nem muito prósperas nem muito atrasadas, costuma ver-se uma outra: a sucção constante que exerce o meio urbano atraindo para o seu seio os elementos mais capacitados, de qualquer idade e condição — pois não são somente os, jovens e operários que emigram — devendo notar-se que esta sucção é apenas índice do desnível local, pois a ela não escapam nem as mais prósperas comunidades rurais, quando se encontram na zona de influência de um meio urbano mais próspero ainda.
Eis, portanto, dois casos dos quatro descritos, que merecem atenção: de um lado, a situação, mais penosa do ponto de vista social e mais digna de atenção e ajuda, que corresponde a coletividades dotadas de alta natalidade e muito baixa média de vida, cujos incrementos demográficos não encontram no local aplicação para a sua atividade, por deficiências fundamentais no nível de capitalização, nem alhures, por deficiências nos níveis materiais (nutrição) e morais (educação e formação) de sua personalidade, que não lhes permitem acumular a carga necessária de energias (materiais e morais) para sair dali. De outro lado, a situação, até certo ponto inversa, de comunidades que foram prósperas e normalmente capitalizadas, mas que por revezes de produção ou de mercado, começam a ver-se em situação de não poder reter nem os empresários nem os operários mais capazes, que são sempre os mais solicitados pelos centros urbanos.
O liberalismo, causa do êxodo das riquezas
E tocamos aqui um dos pontos mais delicados da questão. A drenagem ou sucção dos centros urbanos sobre o meio rural se acha quase sempre presente, porém pode manifestar-se de duas maneiras diferentes: sobre os bens (especialmente as rendas) e os patrões, distribuidores de ocupações e portanto dispensadores de segurança, que, tão logo se empobrecem, descapitalizam suas atividades ou emigram, deixando (muitas vezes involuntariamente) a coletividade na contingência de enfrentar o desamparo e a insegurança; ou sobre o pessoal capacitado que se afasta, geralmente à procura de melhores condições de vida ou remuneração, e deixa os empregadores em situação comprometida, ao verem despovoar-se os quadros sob sua direção.
Já abordamos este problema em ocasiões anteriores. Qual é a sua fonte? O estado de fluidez dos bens, que, de um modo natural, somente se manifesta com respeito às riquezas, mas que a economia liberal, através da extraordinária difusão que deu aos chamados valores mobiliários, conseguiu estender a bens de qualquer natureza, promovendo, mesmo artificialmente, pela lei e pelo imposto, a constituição de sociedades destinadas a provocar essa transformação.
Generalizada esta situação e eliminados os instrumentos de retenção capazes de conter o fluxo das riquezas (pelas condições de liberdade de circulação de riquezas e pessoas, que foram e ainda são princípio e fundamento do liberalismo), elas convergem, obedecendo a uma lei de gravitação econômica muito parecida à que governa o movimento das águas, para os grandes tanques de sedimentação econômica formados pelos centros de atividade, mais financeira que econômica, de cada país e do mundo. Isto se torna ainda mais pronunciado em países como a Argentina, nos quais não existem barreiras contra essa drenagem e ela, pelo contrário, se vê favorecida pela falta de controle do lucro e pela concentração monopolística do crédito e do comercio que, pior ainda, não termina no país mesmo.
O mal que nos ocupa, cuja incidência em certos meios rurais é tão evidente, não se encontra, pois, dentro deles, não sendo possível corrigi-lo mediante modificações na estrutura interna desses meios, que não afetem suas relações com o mundo exterior. A causa do mal se encontra principalmente nessa concentração e monopolização das finanças através da direção cada vez mais unitária da política e da economia dos países e do mundo, que se manifesta no controle exercido pelos superEstados e pelos grandes interesses monopolísticos privados. Como há de surpreender-nos que tudo ande mal para os que lavram os campos ou vivem de suas rendas (quantas vezes também ganhas com suores da inteligência), se vivemos num mundo que por haver fundado as relações econômicas na renda do dinheiro, não somente não se comove com ver discutir a legitimidade da renda do solo, senão que abertamente estimula essa discussão? Num mundo que faz questão da função social da propriedade quanto ao uso da terra, mas não quanto ao uso do dinheiro, e que quer reduzir praticamente todos os bens ao denominador comum de seu valor representativo em dinheiro?
A raiz do mal é política
Por outro lado, a raiz deste mal não é econômica, mas política. Seu ponto de partida num país determinado, mas que marcou o rumo para o resto do mundo, deu-se quando grande parte da nobreza da França deixou de residir em seus domínios para trasladar-se à corte, atendendo às solicitações de Luís XIV, manifestadas, de resto, de maneira inequívoca, segundo era seu costume. Este êxodo de nobres, ratificado e ampliado logo por fatos posteriores, significou a liquidação do primeiro grande instrumento de retenção de riquezas nas propriedades rurais. Quando, logo depois, veio a Revolução de 1789, a luta sem quartel que travou não foi contra os que haviam abandonado suas terras para se fazerem cortesãos, mas contra outras regiões, como a Vendéia, cujos senhores, contando com o apoio de toda a população, combateram-na com a mesma energia que haviam demonstrado ao resistir ao soberano absolutista, caindo, porém, vencidos por ela.
O êxodo das riquezas, causa de erosão econômica
Compreendamos, pois, que se êxodo há que seja socialmente lesivo à vida rural, é sobretudo o êxodo de riquezas, e que se não se lhe põe freio, será inútil tratar de conter o êxodo das pessoas, as quais, enquanto não se encontrarem em condições de prostração física e moral que lho impeçam (situação que em outra ocasião definimos como de arraigamento pela miséria), não deixarão de ser arrastadas por aquelas, do mesmo modo que o limo e o humus são arrastados pela água que corre pelas encostas em direção aos rios e ao mar.
Compreendamos, também, que não se soluciona o problema com recursos creditícios, os quais terminam por subordinar ainda mais o meio rural à hegemonia que sobre ele exerce o mundo financeiro.
A VIDA RURAL
Compreendamos, finalmente, que o que ocorre em muitíssimos casos é que, subtraídas ao meio rural aquelas famílias que, por sua relação política e jurídica, eram naturalmente responsáveis pelos condados e marquesados que durante séculos serviram de base e apoio para o mundo rural, não se estipulou, nos países de estrutura política liberal como o nosso, recurso algum, nem jurídico, nem político, pelo qual outras famílias pudessem assumir essa função e responsabilidade, e fossem em seguida respeitadas no exercício delas.
Cumpre, além disso, distinguir a situação em que se encontram países como a Argentina (e me atrevo a dizer, os de toda a América Latina), que mais sofreram esta subversão institucional e política que gradualmente apagou de sua constituição positiva todo rastro de autonomia nas famílias, nos patrimônios e nos municípios, da situação de outros como a França, onde o forte acervo tradicional freou, nos fatos, o impulso revolucionário das leis, e onde o regime municipal conservou grande parte de sua autonomia, ou como os Estados Unidos, que, apesar de sua forma republicana de governo — falsamente apresentada como base da adotada nos restantes países da América — souberam conservar em ampla medida os fundamentos tradicionais de uma estrutura baseada na lei comum e no Direito consuetudinário, que o espírito da Revolução Francesa arrancou da maior parte dos reinos da Europa continental e especialmente dos povos que viriam a formar as futuras repúblicas da América Latina. Lá, em que pesem as aparências, contra a usurpação unitária, centralista e totalitária que foi moeda corrente em nossos Estados liberais e socialistas, prevalece a ordem federal europeia tradicional, que foi o grande progresso sociológico que o Cristianismo trouxe à humanidade, — ordem que não é patrimônio exclusivo dos povos saxões, como se pretende, pois a conheceu toda a Europa cristã, até que na chamada Idade Moderna veio a declinar diante do absolutismo real, e que consiste em fundar a constituição social dos povos na autonomia das famílias, e sua constituição política na autonomia dos municípios, dentro dos limites da lei moral.
Falta um sucedâneo para a nobreza
As deficiências que em muitos lugares apresenta hoje o mundo rural se devem principalmente à falta de um sucedâneo para a nobreza, que residia em seus domínios, e sentia, com relação aos bens e pessoas, a responsabilidade que brota de uma comunidade de interesses caracterizada por uma unidade de destino. A fórmula a estabelecer não é nova nem difícil de encontrar. Falta apenas a vontade de reconhecê-la onde ela se encontra e restabelecê-la onde ela falta. Funda-se nos dois elementos já citados: a autonomia familiar, caracterizada pela autoridade paterna sobre os bens e as pessoas, isto é, liberdade do chefe de família para dispor dos bens patrimoniais, mesmo em testamento, e liberdade de ordenar a educação de seus filhos; autonomia municipal, caracterizada pela autoridade do governo local, no que concerne à gestão do bem comum, e pelo principio de subsidiariedade.
A paz social se encontra na correta conjugação dos elementos que concorrem para formar o binômio autoridade-liberdade: a sede da autoridade deve ser lícita, para que dela possa fluir a liberdade. No âmbito da família não é necessário andar à procura dessa autoridade: a lei natural a aponta na única autoridade que se acha explicitamente consignada no Decálogo, ou seja, a dos pais. No âmbito do município ela deve ser suscitada por dentro, seja em forma hereditária, seja em forma eletiva, ou mista: o que importa é que essa autoridade municipal esteja a salvo dos fatores de poder avassalantes, sejam eles sociais, políticos ou econômicos, exteriores a ela.
A Força principal dos Estados Unidos e do Canadá
A força principal de dois países deste continente, os Estados Unidos e o Canadá, cuja prosperidade e cujo poderio tanto nos chama a atenção, é uma consequência de terem sabido defender e conservar a autonomia de seus municípios, que nos distritos rurais ainda levam o nome de condados, e constituem verdadeiras comunidades, porque sua estrutura interior se vê fortalecida por vínculos políticos, sociais e também econômicos, capazes de promover neles a convivência social, e porque não permitem que a prosperidade de uns seja feita à custa do empobrecimento de outros.
Este sentido de comunidade que resulta de que, num dado lugar, todos, ricos e pobres, veem como de fato juntamente prosperam e se deprimem juntos, e agem em consequência — é o que mais se faz mister desenvolver para encontrar a solução das dificuldades presentes de que padece, em muitos lugares, o meio rural. Para isso, é antes necessário suscitar, promover e favorecer a presença e o arraigamento dos ricos no lugar, do que procurar desalojar dali, através de desapropriações, os poucos que ainda restam. Nenhuma reforma agrária dará os frutos prometidos, se não começar por restaurar a família e o município em seu caráter autêntico de primeiros elos na cadeia dos corpos intermediários — sociais, políticos e econômicos — capazes de dar aos povos a estrutura natural que para eles pediram todos os Papas, desde Leão XIII.