Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 145 | página 08

FIGURAS REPRESENTATIVAS DO EPISCOPADO MUNDIAL ENTREVISTADAS POR “CATOLICISMO”

Dos enviados:

João Sampaio Neto, Luís Nazareno de Assumpção Filho e Murillo M. Galliez

ROMA - Por ocasião do Concilio, entrevistamos alguns Bispos eminentes. Visávamos oferecer aos leitores, em forma concisa, declarações autorizadas sobre fatos de relevo para a Igreja, em diversas partes do mundo

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Mons. Michael Gonzi, Arcebispo Metropolitano de Malta, respondeu a três perguntas nossas. Nascido em 1885, na cidade maltesa de Vitoriosa, e ordenado em 1908, S. Excia. Revma. foi eleito em 1924 Bispo de Gozo (que é a outra circunscrição eclesiástica da Ilha) e promovido a Arcebispo Metropolitano em 1944, quando da criação da Arquidiocese e da Provinda de Malta. É Assistente ao Sólio Pontifício.

Qual a situação do Catolicismo na Ilha de Malta?

Malta é tradicionalmente católica. Numa proporção de noventa e nove por cento, sua população é constituída por bons católicos. Entretanto, algumas ideias socialistas estão contaminando uma pequena parte da juventude de Malta, que forma entre os adeptos políticos do Sr. Mintoff, lider do Partido Socialista maltês.

Que espécie de atividade exerce o Sr. Mintoff, e qual sua influência sobre o povo maltês?

Mintoff pertence a uma família católica da Ilha. Estudou na Universidade de Malta, onde se diplomou como engenheiro civil. Enquanto estudante, nunca tomou parte em nenhuma atividade religiosa e era apelidado de «Stalin» pelos seus colegas, por causa de suas tendências esquerdistas.

Depois disso, obteve uma bolsa de estudos na Universidade de Oxford, onde esteve durante alguns anos e onde, por uma série de circunstancias, as suas tendências anticatólicas e esquerdistas se acentuaram. De regresso a Malta, encontrou ali um Partido Trabalhista formado por bons católicos e liderado por um intelectual católico. Conseguindo tornar-se secretario desse Partido, passou a propagar as ideias socialistas dentro de suas fileiras, influenciando alguns dos seus membros mais jovens e conquistando um considerável número de adeptos; depois, promoveu uma cisão, transformando-se em chefe de uma facção do Partido. Por fim, logrou derrubar o líder deste, tomando para si a liderança dos trabalhistas malteses.

O Sr. Mintoff sempre se proclamou católico, apesar de sua aversão pessoal a tudo quanto é católico; isto porque sabia muito bem que, se porventura se declarasse abertamente anticatólico, perderia muitos dos seus adeptos. Bom orador e autentico demagogo, tem o poder de iludir os seus ouvintes, persuadindo-os de que é sincero.

O fato de pertencer a uma excelente família católica ajudou-o imensamente, e nas eleições de 1955 obteve a maioria no Parlamento, tornando-se Primeiro-Ministro de Malta.

No seu governo, apoiou a política do «Colonial Office» inglês, que insistia na integração de Malta na Grã-Bretanha. Para tornar efetivo tal apoio recebeu milhões de libras do governo britânico. Com esse dinheiro, construiu escolas, incrementou a assistência social aos velhos e, assim, passou a ser considerado, por muitos eleitores, um grande administrador. Depois, descontente com as condições impostas pelo «Colonial Office» nas negociações para a integração, Mintoff, até então paladino da política integracionista, deslizou para a tese da independência de Malta fora da «Commonwealth».

Durante os seus três anos como Primeiro-Ministro, começou, gradualmente, a criar dificuldades para a Igreja e, por fim — especialmente depois da sua renúncia ao governo, em 1958 — mostrou-se claramente anticatólico e anticlerical. Declarou abertamente que seu Partido era socialista. Tomou medidas contrarias a muitas tradições católicas de Malta. O seu objetivo é separar o Estado da Igreja; é secularizar Malta e introduzir o socialismo na Ilha, destruindo a influência da Igreja sobre o povo. Chegou ao ponto de introduzir em sua plataforma eleitoral a afirmação de que se deve processar criminalmente quem quer que fale ou escreva contra qualquer lei aprovada pela maioria no Parlamento. Isto significa iniludivelmente que, por exemplo, se um dia o Parlamento viesse a aprovar uma lei a favor do divórcio e os Bispos condenassem essa lei, seriam considerados criminosos.

O que foi dado a V. Excia. fazer para evitar a vitória do Sr. Mintoff nas últimas eleições?

Nós, Bispos — eu mesmo, como Arcebispo de Malta, e o Bispo de Gozo — tínhamos o dever, como Pastores, de esclarecer o povo a respeito da situação.

Assim, denunciamos as tendências esquerdistas de Mr. Mintoff e o fato de ser anticatólico e anticlerical. Todas as associações católicas se uniram e formaram uma só frente contra o Partido Socialista. A reação da maioria do eleitorado foi vigorosa; e o ex-Primeiro-Ministro foi derrotado nas eleições realizadas em fevereiro último. Das 50 cadeiras do Parlamento, o seu Partido obteve apenas 16. Todas as demais foram conquistadas pelos Partidos leais à Igreja. Ainda assim, a votação dada aos candidatos de Mintoff não significa que esses eleitores sejam anticatólicos. Na sua grande maioria eles foram enganados e julgaram que Mintoff não fosse hostil à Igreja.

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Mons. Andrei Katkoff, dos Clérigos Regulares Marianos, nasceu na Sibéria Oriental, Rússia, em 1916. Ordenado em 1944, desde 1958 é Bispo titular de Nauplia, exercendo as funções de Bispo ordenante para o rito católico bizantino. Reside em Roma. Nosso segundo entrevistado respondeu a 5 perguntas.

Quantos Bispos russos há de rito bizantino?

Há apenas um, que sou eu mesmo. Tenho cerca de 3 000 fiéis russos do rito bizantino espalhados por todo o mundo. No Brasil, nas cidades de São Paulo e Santos, mantemos as escolas de São Vladimir e de Santa Olga para crianças russas (sob a direção de Padres Jesuítas e de Irmãs Ursulinas). Posso acrescentar que nosso rito conta com grande número de adeptos na Ucrânia e na Bielo-Rússia. Mas lá não existe Hierarquia católica bizantina.

E qual é a impressão de V. Excia. sobre a igreja ortodoxa russa?

Hoje em dia acha-se ela completamente dividida por problemas decorrentes de divergências de pontos de vista de seus membros. Alguns deles admitem a infalibilidade da Igreja, mas não aceitam o princípio monárquico, e proclamam a igualdade de todos os sucessores dos Apóstolos. Uma circunstância que explica bastante bem tal situação ou estado de espírito é o fato de seus bispos não se terem reunido de novo em Concílio desde o século VIII.

Os bispos dessa igreja admitem o divórcio?

A respeito deste assunto, a posição que tomam não é sempre a mesma. Alguns bispos, de fato, admitem o divórcio, enquanto que outros o repelem.

Tem V. Excia. alguma coisa a dizer a respeito do Concilio Ecumênico que ora se reúne?

É com grande entusiasmo que tomo parte neste Concílio, porque penso que ele é uma maravilhosa prova da unidade da Igreja. Sou muito grato aos Papas Bento XV, Pio XI, Pio XII e João XXIII por tudo o que fizeram em favor dos ritos orientais, e também pelo esforço que empreenderam para tornar clara a todos os católicos a igual dignidade dos ritos dentro da Igreja.

Poderia V. Excia. dar-nos alguma informação sobre o Colégio Russo de Roma?

O «Russicum», ou Pontifício Colégio Russo de Santa Teresinha do Menino Jesus, é um seminário para Sacerdotes do rito russo-bizantino.

Foi fundado em 1929 por Pio XI, que compreendera muito bem a necessidade de Padres deste rito para o futuro. O Colégio é dirigido por Jesuítas, e admite candidatos de todas as nacionalidades que se mostrem dispostos a trabalhar no rito bizantino, entre os russos. Estou em vias de sagrar um Bispo para esse e para todos os outros Colégios de rito bizantino de Roma: grego, ucraniano, romeno, melquita.

Antes de encerrar esta entrevista, tenho grande prazer em enviar através de «Catolicismo» uma saudação toda especial ao povo brasileiro, que se mostra tão acolhedor para com meus irmãos russos, muitos dos quais foram recentemente para o Brasil procedentes da China. Esta saudação se estende a todo o vosso grande País, no qual o meu rito parece ter um futuro muito promissor.

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Mons. Stanislas Lokuang, do Clero secular chinês, nasceu na China continental, em 1911. Ordenado em 1936, foi eleito Bispo de Tainan em 1961, ao ser instaurada a Hierarquia Eclesiástica de Formosa. Sua Diocese, de 2307 quilômetros quadrados e 1.170.000 habitantes (15.500 católicos), é sufragânea de Taipe. Fizemos-lhe nove perguntas.

O que pode V. Excia. nos dizer sobre a política externa de Formosa?

O governo de Formosa tem grande interesse em obter os votos dos novos países afro-asiáticos na ONU, a fim de que o atual «statu quo» seja mantido. Este «statu quo» significa o reconhecimento de Formosa como sede do governo legítimo da China e país membro da Organização das Nações Unidas, implicando também na não admissão da China continental comunista na ONU.

Qual a sua opinião sobre a atitude do povo chinês face ao comunismo?

O povo chinês está cheio de indignação contra o comunismo, havendo no país um clima propicio a uma revolta popular. O governo de Pequim, a título de propaganda do regime, tem enviado a diversos países arroz, trigo e outros cereais, como contribuição da China comunista. Em virtude desta política, há carência desses cereais para o consumo interno, chegando a população chinesa a passar fome.

A China comunista procura propagar as suas ideias revolucionárias?

Certamente, e com notável eficiência. Assim, tem enviado grande número de agitadores a todas as nações da África e da Ásia.

O que pensa V. Excia. a respeito da possibilidade de uma invasão da China continental pelas tropas de Formosa?

Tal invasão não é permitida pela política dos governos democráticos da Inglaterra, Estados Unidos e França, que temem que daí resulte uma guerra mundial. Esta invasão somente seria permitida nas seguintes situações: a) no caso de uma terceira guerra mundial; b) na hipótese de uma guerra parcial na Ásia; c) no caso de uma agressão comunista contra. Formosa.

E sobre a propalada ruptura entre a China e a Rússia, qual é a sua opinião?

Não penso que tal ruptura tenha qualquer possibilidade de ocorrer, porquanto a China depende da Rússia no setor técnico e industrial.

Qual a situação da propriedade privada na China comunista?

No campo, foram formadas verdadeiras comunidades onde todos os camponeses vivem em habitações coletivas, umas para homens e outras para mulheres. Não existe mais, portanto, a classe dos proprietários rurais. Nestas comunidades não prevalece a mais tênue liberdade. Basta dizer que se procede ao registro de todas as atividades pessoais dos que ali trabalham, inclusive aquelas que dizem respeito à mais intima vida de família. Nas cidades ainda se observa uma certa normalidade na vida familiar.

Subsiste ainda na China o costume de venerar os antepassados?

Na China continental o culto dos antepassados está praticamente abolido. Os sacerdotes budistas perderam seus antigos privilégios, bem como a consideração de que gozavam, e não mais exercem as atividades que lhes eram próprias. Foram transformados em trabalhadores comuns.

O que há de verdadeiro com relação a algumas sagrações de bispos que teriam sido feitas pelos comunistas chineses?

Tais sagrações realmente se verificaram. Como certas Dioceses da China são muito extensas, por vezes com área superior à da Itália, têm necessidade absoluta de um Bispo. Assim, para atender a essa necessidade, os Padres católicos, forçados pelos comunistas, se reúnem e escolhem um dentre eles para exercer as funções de Bispo. Se o, escolhido se recusa a receber a sagração, é submetido pelos comunistas a uma lavagem de cérebro para aceitar a sua nova condição. Entretanto, esses bispos, sagrados sob coação, não se apresentam como tais perante o povo chinês, e muitos deles aparecem em público chorando e tristíssimos. A Santa Sé, não tendo um relatório exato sobre esta questão, abstém-se de julgar.

Quantos Bispos da China continental se encontram participando do Concilio?

No Concilio há quarenta Bispos. Diocesanos da China continental, mas todos exilados de suas respectivas Dioceses.