Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 141 | página 08

O edifício-sede da ONU

Com a recente admissão do Reino de Burundi e da República de Ruanda, e com a entrada iminente da Republica Argelina, a ONU compreenderá 55 países afro-asiáticos num total de 107 Estados-membros.

ONU:

GENTIOS E COMUNISTAS NEOPAGÃOS TÊM O DOMÍNIO DA SITUAÇÃO

Plinio Vidigal Xavier da Silveira

O acesso dos povos afro-asiáticos à autodeterminação, menina dos olhos dos dirigentes da ONU, é um dos fenômenos políticos de mais difícil análise nos dias de hoje, principalmente para quem os quer considerar do ponto de vista católico. São tantos e tão complexos os seus aspectos positivos e negativos, que o problema da prevalência de uns ou de outros toma ares de enigma da Esfinge.

ASPECTOS POSITIVOS E NEGATIVOS

Seria desnecessário relembrar aqui os aspectos positivos, por já serem bastante conhecidos. Aliás, eles têm sido admiravelmente tratados em diversos documentos dos Santos Padres Pio XII e João XXIII.

Dentre os aspectos negativos avultam a tendência fortemente neutralista, quando não comunista, que a maioria dessas novas nações tem assumido, em indiscutível detrimento dos interesses do bloco ocidental, bem como os graves prejuízos que à independência delas se seguiram para o magnífico trabalho de evangelização missionária, florescente ao tempo da colonização europeia e cristã.

Se a Igreja Católica houvesse manifestado antipatia para com esse movimento emancipacionista, certamente se explicaria — se bem que não se justificasse — uma atitude hostil dos novos governos para com Ela. Mas os Papas, sabiamente, não deram azo a isso. O que, infelizmente, não impediu que no Congo ex-Belga se consumassem os piores atentados contra as Religiosas que trabalhavam na evangelização das tribos; que em Goa — baluarte católico da Índia, onde se venera há séculos o corpo de São Francisco Xavier — já se tenha iniciado a perseguição ao ensino religioso, que foi proibido nas escolas oficiais; que em Argel se tenha invadido a Catedral, reivindicando sua transformação em mesquita, e que o monumento a Santa Joana D'Arc tenha sido destruído e profanado. Também não pôde impedir que o governo cingalês confiscasse as escolas confessionais, promovesse o fechamento de igrejas católicas e forçasse a retirada dos missionários de nacionalidade europeia (cf. "Catolicismo", n.° 126 — "Se nos curvarmos em silêncio, em silêncio nos matarão", por B. A. Santamaria). São os frutos de séculos de trabalho missionário que são aniquilados pelo ódio a Cristo e à sua Igreja.

SOBREVIVÊNCIA DA CRISTANDADE

Por ocasião da Conferencia de 29 nações livres afro-asiáticas em Bandoeng, "Catolicismo" ( ver n.° 54, de junho de 1955 — "Bandoeng e a posição internacional dos países católicos", por Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira) teve ocasião de considerar esse problema, então ainda em evolução. Chamando a atenção para o pouco zelo com que as nações católicas se tinham entregue à missão histórica de levar a palavra de Deus aos infiéis, a ponto de darem às preocupações de ordem econômica e política primazia sobre a finalidade missionária, perguntava esta folha se a onda de independência que invadia a Ásia e a África não seria o justo castigo daquela atitude. Mas, ao mesmo tempo indagava se a emancipação política concorreria para incorporar esses povos à Cristandade, ou para afastá-los dela. E manifestava todo o seu temor de que a própria sobrevivência da civilização cristã naqueles dois continentes estivesse em jogo.

No mesmo artigo, "Catolicismo" mostrava que a Cristandade contava então com mais da metade dos membros da ONU, constituindo pois os países comunistas e os infiéis, mesmo somados, minoria. Era certo, porém, e se demonstrava através de gráficos, que a emancipação de todas as colônias então existentes transformaria em majoritário o bloco das nações muçulmanas e idólatras, ficando o mundo católico comprimido entre três gigantes mais ou menos hostis, ou seja, o Ocidente protestante, o mundo comunista e o bloco afro-asiático gentílico, — perspectiva tanto mais sombria se se considerasse que essa gentilidade seria um aliado eventual da URSS.

CRISTANDADE MINORITARIA

Desde então, sete anos se passaram. E agora, com a recente admissão do Reino de Burundi e da Republica de Ruanda, e com a entrada iminente da nova República Argelina, a ONU compreenderá 55 países afro-asiáticos num total de 107 Estados-membros.

A Cristandade se tornou minoritária! E cumpre considerar ainda que entre os 52 Estados-membros restantes estão a Rússia e seus satélites, está Cuba, estão as diversas nações ocidentais de maioria protestante ou cismática. Assim, os países ocidentais e cristãos estão em minoria no organismo internacional. Ao passo que as nações católicas ainda livres, das quais tantas se encontram ademais à beira da subversão comunista, constituem nele uma parcela reduzida.

DOLOROSA INTERROGAÇÃO

Nessa ONU onde a Cristandade se tornou minoritária, como votará o bloco pagão, maioria que pode impor suas decisões ao mundo inteiro? Votará num sentido propício à civilização cristã? Ou o paganismo antigo que ela representa se deixará guiar pelo neopaganismo liderado pela Rússia?

Dolorosa interrogação... Dolorosas perspectivas...


VERDADES ESQUECIDAS

SIMPATIZAR COM O MAL PODE SER MAIS NOCIVO QUE COMBATER FRONTALMENTE A IGREJA

Cardeal Alfredo Ottaviani

De um discurso de despedida a um professor:

Nos seus alunos alimentou sempre uma confiança concreta no ensinamento do Magistério Supremo, de modo que eles puderam apresentar, no serviço da Igreja e da ciência, uma inconcussa e aguerrida firmeza de doutrina e não recearam nenhum assalto. Sente-se o Padre Connel satisfeito se, onde estão os seus alunos, aí floresce sempre a boa doutrina pela batalha santa da verdade da Igreja e pelas suas vitorias. Estamos, todavia, em tempos em que se deve resistir não só aos adversários, mas também àqueles que, na frente de batalha, olham com simpatia mais para o campo oposto do que para o seu próprio, e fazem mais mal a este do que se fossem já trânsfugas. — ("Il Baluardo", Edizioni Ares, Roma — 1961 — cap. 16, "Assim se serve à Igreja, da cátedra", p. 179).